O canto na noite

Foto : Cláudia SchembriComecei a fechar as 9 janelas e portas da parte debaixo da casa numa cerimônia que se repete a cada noite antes de ir domir, quando ouvi o canto de uma cigarra. Continuei a fazer o movimento e com alguma criatividade procuro uma forma que não se torne automático. Cada vez quero deixar a vida rolando sem repetir os mesmos gestos. Às vezes escolho primeiro as portas que dão para o jardim e a varanda, deixando por ultimo as janelas do escritório; outras inicio nas pequenas janelas do banheiro e do corredor e depois venho fechando as demais. Não importa qual a ordem, vou fazendo um revezamento descontrolado, enquanto faço uma pequena prece de agradecimento pelo dia que está terminando. Sei que pode parecer maluquice, mas as janelas e portas de minha casa, assim como as da minha alma, passam o dia abertas para um jardim lindo, cercado de tantas árvores que algumas pessoas já disseram que do portão nem conseguem ver a casa… A minha alma também é assim. Faço tanto estardalhaço, falo mais que a boca e muitas vezes não revelo a minha essência.
No ritual silencioso de fechar portas e janelas agradeço a delicia de viver junto à natureza, mas esta noite, especialmente, a concentração estava dificil. A todo instante era interrompida pela cigarra que a princípio pensei estar em algum lugar do jardim próximo a casa, mas com tudo fechado constatei que estava dentro de casa. Tentei encontrar, mas desisti. Fui dormir deixando a cigarra provavelmente na sala, no vão da escada…
Gritou, ou como alguns preferem dizer de forma poética, cantou a noite toda… Fechei a porta, coloquei o travesseiro na cabeça para abafar o som e só consegui dormir ao lembrar que o seu cantar significava sol no dia seguinte e há alguns dias chovia. Acordei afastando os móveis até me deparar com a cigarra morta. Explodiu com seu canto. É o que acontece com esses insetos…
Vendo aquela cena não resisti a criar um paralelo com a vida das cantoras líricas e imaginei Maria Callas no final de uma récita implodindo no palco do Scala de Milão… Primeiro a garganta se dilataria e estourariam os fios que uniam as sofisticadas pérolas japonesas de um colar parecido com o que Marilyn Monroe ganhou de seu marido Joe di Maggio. Uma a uma as legítimas pérolas cultivadas saiam rolando pelo chão, caindo palco abaixo como um pequeno filete de água, ganhando o tapete fino da platéia e caindo no fosso dos músicos, para incredulidade do maestro… Depois, o pulmão cada vez mais inchado, fazia explodir o sutiã, começando aí a desestruturação do vestido de seda grená. O tecido ia esgarçando até rasgar, ao mesmo tempo que rompia a carne entre os seios de onde pulava o coração exausto de cantar… A platéia de pé aplaudia a cena inusitada e pedia um bis impossível…Uma cena tragicômica, mas era o que passava em minha cabeça enquanto olhava a cigarra morta embaixo do sofá…
Gritar até morrer, tem muita gente que faz isso. Acho que tentei algumas vezes, sem resultado. Chorei tanto, gritei tanto, mas só fiquei muito rouca e no desespero como num estalo fez-se a lucidez. Acabei preferindo o silencio, a reflexão, e na serenidade sou levada à viagens inesquecíveis dentro de mim. Viajo mesmo, mais longe do que qualquer psicotropico ou ácido sonham chegar. Já me senti voando, o corpo expandindo, braços e pernas crescendo como se fosse aquele personagem João Pé de Feijão que numa corrida atravessa as nuvens e chega ao céu… Eu também subo montanhas, atravesso rios, cruzo mares e do alto vejo tudo tão pequeno e peço : Senhor, livre me de qualquer sentimento de medo e abra as janelas de minha alma e do meu coração para que eu possa sentir a verdade da vida nos minúsculos seres, como as pequena cigarras. (Foto : Cláudia Schembri)

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3 Respostas para “O canto na noite

  1. BRAVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Beijo carinhoso querida Léa.

  2. é bonito, é bonito, é bonito……………..

  3. Pingback: Corrente de blogueiros… | Léa Penteado

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