A música em mim

Era este disco que tinha lá em casa...

Se a infância acabou quando vi Maysa cantando na TV e constatei que havia um mundo que nem meus pais, irmãos, as freiras do colégio, os amigos da rua haviam me revelado, no mesmo instante abriu-se um novo caminho através da música. Não a música de fossa, o samba-canção pré-bossa nova que Maysa compunha e interpretava, mas a música como algo vital. Não tive formação musical acadêmica. Queria aprender piano, acordeão, mas isto não fazia parte da “cultura da família”, ou melhor, do orçamento curto. Papai tinha uma visão interessante sobre os outros assuntos que estavam fora do padrão básico de educação e saúde. Jamais falamos sobre isso, mas com o passar do tempo concluí que ele acreditava que sua responsabilidade era oferecer tudo o que podia para os 5 filhos, sem privilégios. Associou-se a um clube perto de casa onde todos podiam usufruir dos esportes. Comprou TV, vitrola, discos, livros e fez uma assinatura revista Seleções, informação para todos. Da coleção Thesouro da Juventude a obra de Monteiro Lobato, além de dicionários e livros diversos que se enfileiravam na estante do corredor. Lia-se com constância, por hábito, não por obrigação. Musicalmente o gosto era eclético. Nos domingos e feriados antes do almoço colocava para rodar na vitrola LPs e discos de 98 rotações que variavam de Noel Rosa com Aracy de Almeida à ópera Carmen de Bizet. Não sei o que regia a seleção musical que ainda podia ter Inezita Barroso, Glen Miller, Tonico e Tinoco, Waldir Calmon feito para dançar, “Continental” (orquestrado com “standards” americanos), Agostinho dos Santos e por aí seguia…Nenhum disco da Maysa, era novo demais. E foi esta falta de preconceito que estruturou minha vida muito mais do que papai podia imaginar. Qualquer som era bem vindo, só havia o bom ou o ruim, sem julgamento, apenas sentimento… Foi por isso que aos 16 anos quando fui à casa de Angela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, colega do curso Clássico (o Segundo Grau de antigamente) e vi uma roda de samba e uma porção de jovens cantando e compondo em plena ditadura, a música virou a minha vida pela segunda vez…

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3 Respostas para “A música em mim

  1. É tão bom ler as suas histórias…

  2. jorge roberto martins

    “plagio” marília – é bom “cantar” suas histórias.
    beijos sustenidos.

  3. Que bom encontrar os amigos em sua “sala”, Lea.
    Jorge, apareça:
    mariliabarbosacantriz@gmail.com
    Beijos, Léa, obrigada.

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