A música em mim, parte 2.

Aos 17 anos...

Conheci Ângela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, ou simplesmente Ângela, ou Jóca, no 1º ano do curso Clássico no Instituto Coração de Jesus, uma escola que à noite chamava-se Colégio Veiga de Almeida e ficava em frente ao Colégio Militar na Tijuca. No primeiro dia de aula descobrimos que nascêramos no mesmo dia e mês, com um ano de diferença, e isto bastava para selar uma amizade para sempre. Alguns dias depois fui à sua casa e conheci um contexto de família liberal, com o pai psiquiatra, Aloísio Porto Carrero e a mãe, dona de casa e costureira maravilhosa. Em 1965 na efervescência da ditadura o sobradinho na rua Jaceguai 27 na Tijuca onde moravam, era refugio de talentosos contestadores que nos fins de semana se reuniam para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aloísio e Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e sobretudo falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo de Sinval Silva (compositor de preciosidades gravadas por Carmem Miranda) a Nelson Cavaquinho. Ali eu vi Jacó tocar o seu Bandolim, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhei os novos que surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Rolando Farias, Paulo Emilio, mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Deste grupo surgiu o MAU – Movimento Artístico Universitário que ganhou o país com todos eles transformados em estrelas do programa Som Livre Exportação na Rede Globo .

Saímos da adolescência e entramos juntas na juventude. Ainda posso ouvir o violão do Aloísio e nossas vozes em pleno pulmão entoando Pixinguinha num “Carinhoso” suplicante “vem vem vem vem… vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos seus….” Descobrimos juntas amores, dores de cotovelo e trocamos confidências… Lembro Ângela contando que havia se apaixonado por Gonzanguinha e com um jeito muito divertido dizia o quanto ele era magro, feinho e genial … Rimos muito, sempre, dessas e outras revelações íntimas que só na juventude se faz para as melhores amigas… Selamos uma amizade até 1991 quando Ângela aos 41 anos se cansou de respirar… Jamais esquecera seu grande amor, Gonzaguinha, e 6 meses depois de sua partida ela foi atrás … Em algum lugar no infinito deve estar rindo das nossas historias, quem sabe cantando com sua voz pequena e suave, como naqueles sábados na Tijuca…

No final dos anos 80 com Paulo Gracindo...

 

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2 Respostas para “A música em mim, parte 2.

  1. Léa. Saudades mesmo! Que beleza de recordações, quantas histórias! Nunca fui tão chegada a eles como você, mas, através do Roberto convivi um bom tempo com essa família tão querida, um pouco na Jaceguai e, principalmente, em Ipanema quando Aloísio já não estava mais por aqui e Daniel andava para cima e para baixo com uma máquina de escrever portátil que não sei quem deu. Ele batia nas teclas o tempo todo. Você recorda de um jeito todo seu e especial esses momentos tão importantes na sua vida e na vida de muitos que tiveram o carinho dessa família tão querida.

  2. Não sei pq me apeguei a ela,estranho…nunca vi,nem sabia que existia,apenas li em um livro,uma biografia poucas linhas sobre sua história e depois coincidentemente aqui no seu blog que acompanho por gostar das suas aventuras e jeito “gostoso” de contar a vida.Nunca imaginei que poderiam ter se conhecido.Eu gosto de Gonzaguinha desde sempre por causa de uma música que ele cantava,mas só sabia que ele era casado com uma ex frenética.Lembro de me emocionar as lágrimas qdo ele se foi,mas eu era mto jovem e perdi meu pai no mesmo ano,então não acompanhei a despedida…Lembro de um especial da TV Globo em que Simone cantava com o filho dele,que tem uma voz tão parecida com a do pai,chorei muito,me emocionei demais,nem imaginei ,nem pensei na mãe do rapaz…Aí Vi o filme,ganhei o livro,conheci ela um pouquinho pelo que disseram lá e toda vez que vejo a imagem de Ângela,sinto vontade de enviar carinho e luz e desejar que ela esteja descansando em paz.É,é estranho…mas acho bonito.Paz pra vc e pra nós tbm.

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