Vovó Mercedes

 

Foto de família em dia de Natal : no contato em preto e branco Bernardo, vovó, eu, Paulo e no último fotograma Da. Flora Nobre, mãe do Paulo, avó do Bernardo.

Saí cedo andando pela praia de Copacabana e lembrei de Da. Mercedes Martins, bisavó do meu filho que acabou se tornando também minha avó. Um personagem, Vovó Mercedes morava num apartamento no 12º andar da Av. Atlântica com a deslumbrante vista para a praia. No início da década de 70 foi feita uma enorme obra na praia para aumentar da faixa de areia e o alargamento das pistas com objetivo de passar uma tubulação (interceptor oceânico) para transportar todo o esgoto da Zona Sul até o emissário de Ipanema e evitar que as ressacas chegassem à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e às garagens dos prédios da própria Avenida Atlântica. Com essa obra foi criado o calçadão em frente dos edifícios num belo projeto paisagístico de Burle Max.

Vovó assistia a tudo do alto, esperando a obra chegar à frente do edifício onde morava entre as ruas Santa Clara e Constante Ramos. Já haviam feito o calçamento com as pedras portuguesas fazendo lindos desenhos, mas faltava o paisagismo. Um dia ao acordar olhou prá baixo e viu que caminhões descarregavam árvores. Tomou banho, salpicou talco no pescoço, soltou os papelotes que prendiam os seus cabelos louros, rouge e baton no rosto, vestiu um elegante tubinho de seda estampada e calçando sapatinhos sob medida (tamanho 32!!) desceu  no elevador para ver o que estavam fazendo em “seu jardim”. Vovó viu que um rapaz separava as árvores por canteiros e ao perceber que na frente de seu edifício seriam amendoeiras protestou.

“Em frente da minha casa não se planta árvore vagabunda!”

O rapaz explicou que o projeto era de Burle Max, que os quarteirões seriam mesclados entre palmeiras e amendoeiras, e naquele espaço estavam determinadas aquelas espécies. Depois de muito reclamar e ver que ninguém atendia seu pedido decidiu ir ao Departamento de Parques e Jardins. Pegou sua bolsinha, chamou o taxista que sempre a atendia e foi para a Praça da República, em frente da Central do Brasil, onde ficava o tal departamento. Na recepção apresentou-se como jornalista – de fato ela era – e pediu para falar com o diretor. Deve ter causado certo impacto a presença daquela senhorinha com mais de 80 anos e não demorou a ser levada à sala do diretor Gildo Borges. Contou que imaginava ter palmeiras em frente de seu edifício e não amendoeiras que sujam as calçadas com frutos e folhas. Impressionado com a determinação da “jornalista”, o diretor comentou que as pessoas não estavam preocupadas se plantavam ou não árvores, quanto mais qual a espécie e, sem consultar Burle Max, mudou o desenho do projeto…

Quem passar pela Av. Atlântica em frente ao número 2736 pode ver que apenas ali, em todo quarteirão, foram plantadas palmeiras…E viva Da. Mercedes, onde estiver !!!

 

3 Respostas para “Vovó Mercedes

  1. Bernardo Penteado de Sousa Martins

    Parabéns pelo belo texto, mãe!

    Até hoje me lembro com alegria de minha querida bisavó Mercedes.

    E como a sra. mesmo disse: ‘E viva Da. Mercedes, onde estiver!’

  2. Quisera eu ter essa memória formidável para escrever com tanta maestria as histórias que vivi…
    Obrigada por mais este belo texto.
    Bjs

    E viva Da. Mercedes, onde estiver!!!!

  3. Ela fez a diferença…

    Bela narrativa,consegui visualizar a Da. Mercedes.

    Um ótimo 2011.

    Áurea.

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