A última sessão de cinema

Alguns amigos de Olímpia e Claudio na festa de despedida...

Eles chegaram de mansinho, se instalaram em uma casinha em frente ao rio, aos poucos abriram seu acervo de filmes e começaram a fazer sessões de cinema embaixo do cajueiro. Nasceu assim o Cine Cajueiro, da Olímpia e do Claudio Calmon, que vinham de Brasília para viver um novo tempo de aposentadoria à beira mar. Gostaram tanto da vila que compraram um terreno e construíram uma linda casa… Casa dos sonhos, arquitetura caprichada, cada detalhe pensado… O Cine Cajueiro, atração das crianças e jovens da vila, saiu da beira do rio e foi para o jardim da casa. Uma vez por semana a grande tela pendurada na árvore cercada por cadeiras e banquinhos. Os filmes tinham que ser dublados, pois são poucos os que conseguem ler as letrinhas corridas. Com enorme delicadeza Olímpia fazia a curadoria apresentando o que crianças/jovens queriam ver com o que ela achava que eles deveriam ver. Ao mesmo tempo, uma versão sofisticada do Cine Cajueiro ganhou espaço no Casapraia.  Uma vez por semana filmes recém lançados, temporadas “cults”, às vezes mini platéias, não mais que meia dúzia de moradores em noites frias, outras, ao ar livre, sentindo a brisa do mar, repleta de turistas encantados em ir ao cinema com luar e estrelas… Mais de 500 filmes exibidos…Cinco anos bastaram para jovens sem opção de diversão se apaixonarem pela magia da tela grande.

Claudio, além da casa, construiu um barco, o Bacana, e saía para pescar… Olímpia caminhava pelas ruas de terra, andava de bicicleta, chapeuzinho na cabeça, um dedo de prosa com um, trocava livros, conversava sobre literatura e problemas da comunidade, criou um blog http:// redefurada.blogspot.com que se transformou em referencia para a vila e visitantes … O casal era participativo nas reuniões em que a comunidade discutia os caminhos da escola, água, luz e eleições da associação local…

Mas de repente, a noticia bombástica, um final inesperado para um belo filme de amor e amizade : Olímpia e Claudio vão embora. Quando comentei com a Helenita, assessora de casa, a pergunta veio na bucha: “eles não gostam mais da gente?”…

Acho que este foi o sentimento de muitos nativos… Mas eles decidiram buscar outros caminhos, levar suas boas conversas e filmes para outras comunidades, estar mais perto da civilização. E para que a ausência fique ainda maior, hoje começa o período da baixa estação. Na intimidade, “a baixa”, falada pelos cantos como se fosse uma praga. Todo ano é assim. Os turistas partem, aqueles que têm casa de temporada também estão voltando às suas bases, e as ruas ficam vazias. As pousadas e o comércio se entristecem com este período de quase nenhum movimento onde a vila fica realmente como ela é: pequena, onde nada acontece… “A baixa” é cruel para uma vila que só tem como sobrevivência o turismo. Eu gosto deste tempo, menos agito externo, mais movimento interior… Mas confesso que hoje me sinto mais pobre com a saída de Olímpia e Claudio. Eles me davam a certeza de ter uma conversa boa bem perto… Mas a vida é feita de escolha e é bom ver amigos atrás de novos assuntos, paisagens, conhecimentos…

Ontem foi a última sessão de cinema na casa de Olímpia e Claudio em Vila de Santo André. Assistimos no jardim o filme argentino “Medianeira” uma historia que tem final feliz  e espero que a mesma alegria eles tenham na nova vida…  Que Paraty os receba com muito carinho…

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4 Respostas para “A última sessão de cinema

  1. Quem sabe transmitir em escrita o que está no ar é você, Léa. Que bonito poder sair deste povoado deixando só amigos que querem o bem do próximo com desprendimento e muito humor e carinho. Falou, Léa. Abraço Fridão.

  2. Ah, que pena!
    Enfim… boa sorte para Olímoia & Claudio!

  3. Querida Léa,
    Você nem imagina como ficamos sensibilizados com seu relato de Santo André e de seus moradores. E de comos fomos bem acolhidos nesta terra baiana.
    A coisa mais linda da festa foi o sentimento de camaradagem espalhado entre as pessoas que lá estavam. Pairava uma benção alegre…
    Que noite, Léa! A apresentação…. aiiiiiiiiiii Che bella
    Não temos palavras suficientes para agradecer a todos.
    Muitos beijos e abraços
    de nós, Claudio e Olimpia

  4. Na minha memória ficarão os registros contados pela minha amiga Cristina Muraro e, assim, despertando-me quase que uma paixão pelo desconhecido e fazendo com que eu sonhasse com Santo André como se há muito conhecesse o pedacinho do Paraíso que é.
    Amei conhecê-lo e interagir com as maravilhosas pessoas que aí encontrei. E, gravado fica no meu coração, a oportunidade e presente que Deus me deu de estar com vocês na Última Sessão de Cinema que, também, significou para mim a primeira.
    Claudio e Olimpia, muito pouco tive contato com eles, porém, é como se fossem meus amigos desda a infância.
    Muito obrigada, amigos de Santo André, pelos momentos que eternamente ficarão guardados no meu coração!!!
    Muito obrigada a todos pela acolhida tão simpática que, certamente, me levará mais vezes ao encontro de vocês.
    Abração!!!

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