Devaneio

Ela acordou tomada por uma gripe horrorosa. Foi à farmácia pediu uma injeção, comprou os últimos lançamentos em antigripais, pastilhas para a garganta e se guardou.  Passaram os dias e a gripe foi se incorporando como um ser com vida própria que saía das entranhas banhada de uma tristeza profunda. Tossia forte, doía o corpo. Suava cansaço. Um vizinho veio visitar e trouxe folhas tenras de pitanga, dizia que a infusão com limão e gengibre fazia um chá milagroso. A empregada fez uma beberagem com folhas de qui ioiô canela, pitanga, transagem, manga, laranja cravo, manjericão, maria preta e colônia, e a casa perfumou-se como um defumador.  Uma amiga fez escalda pé com óleos delicados, mas nada diminuía a tosse e o mal estar. Às vezes tossia seco, outras molhado, mas era um ronco de desapontamento no peito.

Tal qual a dama das camélias, os dias foram passando e, entre um chá, um banho e um sol nas costas, foi seu corpo se amoldando ao conforto da poltrona. Não falava mais, só tossia. Esqueceu as palavras mesmo ficando horas a frente da TV assistindo dezenas de vezes cada detalhe da tempestade Sandy destruindo Nova York. Tremia de frio, como se as águas do Atlântico que banharam Manhattan saíssem pela tela da Tv e chegassem aos pés da poltrona… E com tanta umidade, o pulmão enfraquecia… Era tristeza, era saudade do que foi, era a constatação de que pouco valia o que estava lá fora. Até mesmo a sua Nova York estava sendo destruída, sinal dos tempos, como a velha premonição que lera em algum lugar de que o mar cobriria a cidade.  Tentou se animar com a vitoria de Obama, mas veio a nevasca e o frio interno aumentou. Pela TV via o mundo e não se via.

Foi cada vez tossindo mais e respirando menos. De tempos em tempos alguém chegava trazendo alguma fórmula mágica. Trouxeram medicamentos do exterior, espécies raras de cascas de árvores que diziam curar todos os males, mas ela foi se deixando levar pela tristeza. Um dia amanheceu e viu que tinha sol. Fechou a janela e pediu um milagre: voar prá bem longe. Um vendaval tomou conta do seu quarto, as telhas abriram para o céu e algo a impulsionou pra fora… Entrou num redemoinho, viu do alto a casa, as árvores, as montanhas, as pessoas acenando desesperadamente para ela que não tossia, não respirava e não suava mais… Apenas voava, transcendia e ria de tudo o que ficara…

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