Grávida

Aos 6 meses de gravidez nos jardins de Versailles, França – Foto: Paulo Martins

Acordei grávida, como há 40 anos, neste mesmo dia, em que não conseguia nem virar na cama. No dia anterior fechei as pernas. Pedi a Deus que meu filho não nascesse no dia que lembramos dos que partiram. Choveu e passamos o tempo, eu e Paulinho, jogando buraco e ouvindo musica. Antes de dormir fiz o ritual que se repetiu todas as noites do ultimo mês: tomei banho, escovei as unhas, conferi a depilação, lavei o cabelo e estava pronta para ir à maternidade a qualquer momento com a mala me esperando ao lado do berço.

Acordei grávida há 40 anos e continuava a chover. Comecei a sentir cólicas. Telefonei para o medico,  Dr. Carlos Montenegro, que pediu para marcar o tempo entre as contrações. Ainda eram esparsas. Conferi se nada faltava na mala. Olhei na agenda e li a anotação feita quando fui à primeira consulta: o bebê está pra chegar. Avisei a família e continuamos a jogar buraco e ouvir música. Almoçamos arroz salada bife e aipim… À tarde as contrações aumentaram e no início da noite o ginecologista pediu para irmos à Maternidade Escola em Laranjeiras. Lá estava o único aparelho de ultrassom do Rio de Janeiro. Avisei a família. Chovia, já estávamos saindo de casa quando Paulinho resolveu voltar para colocar um lenço de seda no pescoço.  Relembrando o fato não sei se ele queria estar bonito para receber o filho ou proteger a garganta do frio. Saímos da Urca com Paulinho dirigindo o seu fusquinha verde militar, limpador de para-brisa sem dar vazão à chuva e na maternidade o medico diagnostica: não tem dilatação. O friozinho do gel no mouse passando pela minha enorme barriga, vejo meu filho na tela e com carinho Montenegro sugere “se fosse minha mulher faria uma cesariana”. E fomos debaixo de chuva para Clinica São Marcelo no Leblon onde mamãe, papai e Victor já nos esperavam. Comigo seguia algo mais importante que o enxoval:  numa caixinha de isopor que fora conservada na geladeira a vacina caso meu filho nascesse com sangue RH positivo, já que o meu é negativo. E Bernardo nasceu quase no final do dia 3 também RH negativo. Nada vi, anestesiada completamente. Papai e Mamãe foram dormir felizes com mais um neto, Paulinho e Victor celebraram durante a madrugada no Alvaro´s do Leblon.

Acordei grávida e 40 anos se passaram.  Coincidentemente chove. Fiquei na cama virando de um lado para o outro lembrando este momento único na vida de uma mulher. Continuo mais grávida do que nunca, aguardando o que está pra vir. Outro dia meu filho ficou perplexo ao saber que não crio expectativas . Estou aberta para o que aparecer, vou com o pé no chão, quero ver, ouvir e fazer… Mas nada espero do outro, prefiro que me surpreenda do que me decepcione… Por outro lado, hoje gostaria muito de ir à algum lugar mágico onde tivesse um aparelho ultrassom para passar dentro de mim e diagnosticar que estou em tempo de uma cesariana e colocar pra fora novos rumos…  Sei que estou a caminho de gerar algo muito bom, mas jamais tão grande e precioso quanto meu filho há 40 anos.

Agradecimentos especiais a esta gravidez 40 anos passados :

Paulo Martins, parceiro na criação e amigo de sempre; Flávio Cavalcanti, o melhor patrão do mundo; papai com sua sabedoria, mamãe que tricotou os mais lindos lindos casaquinhos e sapatinhos,; tio Feliciano Alves, historiador que me ajudou na escolha do nome; Dr. Carlos Montenegro, obstetra e ginecologista; Victor, irmão companheiro ate nesta hora; Dr. Antonio M. de A. Barata, meu psicanalista neste período; Déa e Humberto Machado, irmã e cunhado que conseguiu a vacina super hiper caríssima e especial que doei à Maternidade escola; bisa Mercedes Martins e vovó Flora Nobre pela torcida na chegada de um Sousa Martins; Moreira e Maria Dulce, padrinhos; Selma, a empregada de casa com as refeições rápidas, aos amigos da TV Estúdio (Flavio Cavalcanti Jr, Gilda Muller, Ghiaroni, Mandarino, Antonio Bello, Solange Boecke, Liana Rocha, Eduardo Sidney…) pelo suporte em toda a gestação  e a todo o país que aplaudiu quando Flávio Cavalcanti entrou fumando charuto em seu programa na TV Tupi dois dias depois dando a noticia da chegada do Bernardo.

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3 Respostas para “Grávida

  1. Não sei nem o que dizer. Estou maravilhado com o texto. Adorei!!! Baci cara.

  2. Belas reflexões! Preciso dizer que gostei?

  3. Querida!
    havia perdido o link do seu blog com essas bobagens de formatar o computador… Foi tão bom tê-lo reencontrado hoje!
    Delicioso ler um pouco de você, tão sereno, tão leve, tão único. Tão grávido e cheio de novidade!

    Agradeço, mais uma vez, o prazer que esses minutinhos aqui me concedem. Quase tão eficaz que um banho de descarrego!

    Grande abraço e até sempre!

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