Fora da Caixa

No pequeno e belo trajeto de balsa na travessia do rio João Tiba não se gasta no percurso nem 15 minutos, mas se ganha muito na conversa. Outro dia éramos seis, diversas faixas etárias, vindo de vários pontos do país, havia um colombiano, e falávamos sobre mudanças, grandes passos que se dá na vida. Alta filosofia para um curto tempo. Formas e movimentos peculiares, mas um fato era unânime: todos tinham se arriscado sempre. Há de se pensar que optar por morar num local distante e com um mínimo de infraestrutura já é um risco. Mas o assunto caminhava também através dos medos, o sentimento de estar se jogando no espaço sem rede, acreditando que é possível até nascerem asas para voar.

Foto: Cláudia Schembri

A balsa chegou ao seu destino, nos despedimos no cais de Cabrália, cada um seguiu seu rumo, e passei o dia pensando nos medos que não tenho. Na verdade não tenho tempo para eles. Lembro de um período quando tinha pouco mais de 24 anos, filho pequeno, fiquei sem trabalho e isso nem me fez cosquinhas. Rápido fui fazendo contatos, abrindo caminho e no final daquele mês tinha o dinheiro para as contas, nos meses seguintes também e nunca esse processo parou. Até hoje caminho nesta corda bamba vestida de bailarina, segurando uma sombrinha numa das mãos, braços esticados, buscando equilíbrio. Sempre penso que Deus tem um lugar cativo na minha carteira de dinheiro onde tenho a presença garantida de um santinho que a Mariangela Sedrez enviou por correio. Mas o meu bom pensar me faz crer que Ele está ali contando as notinhas, vendo o extrato bancário e quando o dinheiro fica curto acontece um milagre.

Os tempos não tem sido fáceis. A conta de luz subiu à altura do sol do meio dia. Está a pino queimando todos nós. Qualquer compra no mercado chega aos 3 dígitos. O tomate quase R$7,00 o quilo me deu um susto e comecei a reativar a horta. Abóbora, abobrinha, berinjela, tomate, couve, rúcula, alface, salsa, cebolinha em se plantando tudo dá, já ouvi alguém falar isso nestas terras. O plantar mais do que o resultado do alimento vem como um jeito de mudar o passo da dança, fazer diferente. Vou trocar os 16 pontos de luz no jardim, investindo em lâmpadas mais caras, com vida mais longa e menor consumo. Apertar o cinto de forma ecologicamente correta.

Mas as dificuldades não estão só no vil metal. Cruel a imagem multiplicada nas redes sociais do cardiologista assassinado num dos pontos mais lindos do Rio. Mexe com o meu coração as cenas dos milhares de imigrantes africanos navegando em busca de terra firme, jogados de um país para outro, sem rumo…. Podia ser eu…. Que mundo mau onde adolescentes atacam com facadas, que bate a porta na cara de quem precisa, que se digladia em nome de suas religiões e verdades absolutas. Vivemos uma crise de confiança em todos os pontos vista. Em quem acreditar, confiar, pedir ajuda. Assisto a tudo isso indignada. Não mundo o canal da tv, nem enfio a cara no chão como avestruz. Lamento estar vivendo nestes tempos e procuro fazer mais simples meus dias. Para uma capricorniana com ascendente leão, deixar de ser a dona da razão é um árduo exercício. Ainda atropelo com as palavras, disparo frases rápidas, não escondo uma grande vibração quando desenvolvo algum pensamento e fico feliz como criança frente ao brinquedo novo quando me deparo com uma nova ideia. Mas já tenho a consciência de que preciso respirar entre as frases, abaixar o tom e desacelerar.

Foto: Cláudia Schembri

É preciso força, coragem e fé para passar por este turbilhão que nos tira do prumo. Além do mais, quaisquer sequências de dias com chuva, em qualquer época do ano, aqui na Bahia chamam de inverno. A minha casa com tantas árvores ao redor fica úmida. Como disse certa vez um pedreiro “Dona Léa, quando chove a sua casa fica uma humildade enorme…”. Pode ser assim.  Baixa uma certa humildade, um ar reflexivo e como muito bem ensina Lucia Ehlers “não tem como fazer download para a iluminação divina”. É um dia de cada vez, suportar as más notícias, as intempéries e procurar algo de bom, nem que seja numa lasquinha de chocolate. Retomar o exercício da meditação, das preces ao acordar e ao dormir, ativar o Timo, os bons pensamentos, encarar a vida sem temor. Viver simplesmente o agora. A situação está difícil? Mas é o que temos para hoje, vamos pensar fora da caixa, fazer diferente, quem sabe amanhã vai ser melhor

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Uma resposta para “Fora da Caixa

  1. Esse seu texto reflete exatamente o meu sentimento nesse momento!
    Parabéns pela lucidez, cada vez melhor!

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