Caixa Postal 68

Na fila aguardando para receber uma encomenda no correio, fiquei observando a moça do outro lado do balcão. Tinha uma pilha de correspondências na mão e com exímia habilidade, as colocava em alguma ordem. Atenta, absorta em sua função, nem olhava as pessoas na fila que esperavam o atendimento. Magra, cabelos um pouco ondulados com fios dourados, ainda não chegou aos 40 anos e conduz o seu trabalho com dedicação extrema. Como se sabe de tudo em uma cidade pequena, jamais ouvi falar se era casada ou tinha filhos. A cena parecia como a de um filme que só era exibido na minha cabeça. As demais pessoas na agencia, preocupadas em despachar ou receber cartas, nem percebiam. Fiquei pensando sobre os ofícios como aquele, que para alguns poderiam parecer monótonos, tediosos, mas para ela tinha um sabor de prazer. De segunda a sexta-feira, das 8 às 17hs, entre o balcão e um depósito, lá está a moça com voz delicada e um sorriso discreto.  Talvez quem leia esta crônica não vá ao correio há muitos anos e só receba a correspondência que o porteiro joga embaixo da porta ou nas caixinhas na entrada do prédio. Onde eu moro o carteiro não passa, tenho caixa postal na única agencia de correio da cidade e algumas vezes por semana passo para ver o que me espera.

cartas

Receber cartas é fascinante. Recentemente fui surpreendida por uma, manuscrita, enviada por um pediatra gaúcho, meu hospede por alguns dias.  Nos anos 80, quando morei em Nova York, escrever e receber cartas durante um período foi uma compulsão.  A escolha de sair do país foi minha, mas alguma coisa insistia em manter os vínculos. Eu escrevia muitas cartas, alguns amigos respondiam, outros desapareceram. As que enviei não sei se ainda existem, as que recebi tenho todas guardadas… Lindas cartas datilografadas de Edna Savaget, algumas em papel rosa, uma em delicado papel de seda. Cartas tão afetuosas que me faziam sentir como se ela estivesse ao meu lado conversando, como fizemos tantas vezes. “Amiga, íssima, ississíssima…” ou “Leoca querida do meu coração”, e lá vinham confidências, reflexões sobre o país como “Resolveram (os home do governo) acabar com os últimos redutos culturais da nossa terra: fecharam as duas revistas (maravilhosas por sinal) editadas pelo MEC….” , a alta do custo do vida – “o café passou a mil e 700 o kilo e a gasolina vai à 400” –  sua atividade profissional “estou há um ano e meio fora de circulação, sem frente de trabalho, sem trincheira, entretanto, os colegas não deixam que me esqueçam! Não há uma semana que passe que eu não seja convidada a participar de um programa…”  e a família com boas notícias do Leopoldo, da Andrea e do casamento da Luciana…

Carta manuscrita e cartões postais de Edney Silvestre contando que estava sentindo que o ano de 82 seria muito bom profissionalmente; as divertidas correspondências do Flávio Cavalcanti que vinham em envelopes geralmente grandes e me davam a impressão que colocava tudo o que estava na sua mesa: cartões, recortes de jornais, fotos… Sempre otimista, posso ouvir ele afirmando “as amargas não”, repetindo a frase título do livro de memórias de Alvaro Moreyra que ele tanto admirava. Certa vez Flavio enviou um pacote com camisetas onde mandou estampar o meu nome! Uma ode ao ego.

Uma linda carta da Janete Clair onde num trecho confessava que jamais escreveria outra novela sozinha. Tinha acabado de colocar o ponto final em “Sétimo Sentido”, não podia viajar “ …pois Dias ainda está escrevendo O Bem Amado até dezembro”… E Janete contou que “ …de tudo o que aconteceu esse ano, durante esse trabalho, tirei minhas conclusões. Jamais farei outra novela, sozinha, me matando numa máquina durante tanto tempo. Já dei muito de mim para o trabalho. (….) Só farei outra novela dando ideias e uma equipe escrevendo”

Cartas dos amigos do jornal, a letrinha bem desenhada da Sonia Biondo, outras datilografas em laudas. Cartas com desenhos feitos pelo filho que me faziam debulhar em lágrimas, conselhos do papai e um foi fundamental: “minha filha, não fique como Fernão Dias acreditando que encontrou esmeraldas e depois perceber que são simples turmalinas…”. Todas faziam meu coração bater acelerado, um alimento que manteria as minhas baterias carregadas na loucura que fizera em deixar a vida profissional bem estabelecida, um filho na casa dos pais e aos 30 anos começar do zero, sendo apenas um número a mais no Social Security.

Assim como Piaf, “je ne regrette rien”, nada a me arrepender… Nem consigo pensar quem eu seria hoje sem aqueles três anos na América… Além de todos os aprendizados, a oportunidade de experimentar uma outra cultura, o “american way of life”, criei um vínculo afetivo com as correspondências, me apaixonei por selos e postais. E nos dias atuais, mesmo sabendo muito dos amigos através do telefone, e-mails, whatSaap, Skype, redes sociais, cada vez que coloco a chave para abrir a caixa postal, por alguns segundos penso que alguém pode ter me enviado uma carta. Como aquelas que recebi e ainda guardo em envelopes com listinhas verdes e amarelas para que eu sempre lembre como é bom ter amigos!

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3 Respostas para “Caixa Postal 68

  1. dona miriam é casada,tem filho pequeno.marido legal,assim ela acha. muito dedicada ao ofício nos correios de cabralia. já pensei em escrever para os Correios a elogiando e deixei para lá.não escrevo mais cartas…

    >

  2. olá, adoro estes ganchos que iniciam seu texto sempre despertam minha mente curiosa…abraços .

  3. Querida, Léa

    Caixa Postal, 62
    Centro 37701-970
    Poços de Caldas/MG

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