Saberes

Na balsa, no meio da travessia do rio João de Tiba, meu filho que me visita por uma semana pergunta se tenho mesmo certeza em não querer voltar a morar no Rio ou em São Paulo. Aponto a paisagem a nossa volta. De um lado a pequena Santa Cruz Cabrália, a igreja matriz de 300 anos encarapitada no alto do morro; embaixo os barquinhos pesqueiros no rio que uma parte desagua no mar, outra sobe para as áreas rurais. Um céu azul de brigadeiro, o sol morno de inverno. Tudo isso fala mais alto do que qualquer negativa. Sei que não é simples entender que optei por uma outra vida, cultura, valores e o quanto agradeço a oportunidade de estar conhecendo tudo isso nesta “encadernação”.

cabralia

Atenta, cada dia uma novidade aparece, um saber que se revela. No momento estou fazendo uma pequena obra no meu jardim, transformando um simpático chalé em uma casinha com cozinha e varanda. Além da excitação em definir sobre a construção de alguma coisa concreta, o que não é fácil para quem atua no campo do imaterial, estou fascinada com a habilidade do pedreiro. Um trabalho cuidadoso, criativo, olhar estético. Sugestões e comentários assertivos de quem deve mal ter concluído o ensino fundamental mas sabe do seu ofício. A vida foi ensinando, a prática foi apurando o conhecimento e o resultado terei pronto na próxima semana com um acabamento primoroso.

Estes saberes conquistados fora dos padrões acadêmicos, fez parte de uma boa conversa que tive há poucos dias com um antropólogo e uma bailarina que pela primeira vez visitaram a região. Embaixo da grande tenda no jardim, depois do café da manhã, encantados eles comentavam sobre quantas artes e ofícios criativos perceberam andando ao redor. Sem a necessidade de seguir um padrão rígido, utilizando o que se tem numa relação direta com a natureza, apreciaram construções mais orgânicas e harmônicas. Se apaixonaram pela habilidade como “tecem” telhados de piaçava, transformam troncos em canoas, fazem grandes colheres e conchas de coco.

shala

Vejo isso por todos os cantos não como obvio. Admiro quem faz. Do simples artesão que transforma galhos em luminárias, até a amiga doutora, com vasta experiência profissional, que se dedica a pintar lindas gamelas e fotografar para o Instagram o que de belo surge à sua frente. Recentemente uma amiga construiu um grande espaço para dar aulas de yoga, uma shala em madeira com telhado de piaçava. Ela desenhou o marceneiro local construiu, e quem vê não se contêm em perguntar quem foi o arquiteto. Dá até vontade de colocar a mão na massa, e por falar nisso, sonho em ir mais longe que os mosaicos que produzo com caquinhos de azulejos coloridos vindos de São Paulo. Quero colocar a mão na argila, trabalhar no barro, nem que seja para desenferrujar os dedos, afugentar a artrite.

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Uma resposta para “Saberes

  1. O céu se abre para todos, mas por pouca sorte, nem todos conseguem voar.
    Nenhum lugar é melhor do que qualquer outro, o bom é fazermos o que bem quisermos, sermos donos dos nossos “Quereres”.
    Um beijo, amiga, aproveite bem (exatamente como tem feito) a sua felicidade,
    Marilia. 03.08.2015

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