A visita

Entrou pela janela, tomou conta da sala e não importa quantos anos ainda vou viver, jamais esquecerei o cheiro do fumo do cachimbo. Veio como uma baforada da memória, era Half & Half o tabaco favorito do meu pai. Fui ao jardim ver se alguém na rua fumava, mas só havia o cheiro da dama da noite que vem da casa ao lado e nas noites de lua cheia parece que perfumam ainda mais. Só pode ter vindo nos pensamentos que volta e meia tomam conta de algumas horas do meu dia quando tenho dúvidas, quando tenho alegrias, quando saboreio algo muito bom, me lembro nele.

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Meu pai era uma grande figura, um homem que valia a pena conhecer. Mesmo quando adolescente, no tempo que se tem vergonha dos pais, eu gostava de mostrá-lo às minhas amigas pois sabia da sua história, tinha orgulho da forma como conduzia a família e se importava especialmente comigo e esquecia que tinha quatro irmãos, pois quando falava comigo, falava apenas comigo, era inteiro. Dizem que as pessoas trazem consigo a alma de outras vidas. Só assim consigo entender como o garoto que cresceu à beira da estrada de ferro vendo o pai sinalizar a passagem dos trens se tornou um homem refinado. Família simples, contava que conheceu creme dental aos 10 anos, mas se sofisticou: jogava tênis, bebia whisky, saboreava pratos da gastronomia internacional (aprendi com ele a comer goulash, filet au poivre, eisbein…) e estudou marketing em uma das primeiras turmas da ESPM. Lembro ele dizendo “marketing nunca terá tradução para o português, aprenda esta palavrinha”.

Com seu modo tranquilo de falar, sem elevar o tom de voz, dizia que fumar cachimbo, entre uma baforada e outra, dava tempo para pensar o que responder em uma conversa. E quase todas as nossas conversas tinham um pouco de fumaça. Quando aos 15 anos eu não quis ser normalista, me tornar professora como toda garota da Tijuca e prestei prova para estudar Máquinas e Motores na Escola Técnica, mesmo sabendo que eu podia não aguentar a barra, ele deu a maior força. Fiz apenas o primeiro ano e seu comentário foi que eu tinha tido um importante ganho: experiência. Aos 17 me apaixonei pelo professor de português que era comunista e o tom da pele beirava o mulato. Ele fez minha irmã se calar com comentários racistas e apesar de apoiar os militares que estavam no governo, recebia o revolucionário com sorriso sem falar em política.

A sua posição mais tocante aconteceu quando me separei. Pouco mais de 20 anos, um filho com 9 meses, voltei para casa dos pais e fui recebida com carinho. Depois de um mês, bem instalada, trabalhando e voltando à vida social, uma noite ele me chamou e perguntou o que eu pensava do futuro. Eu nem sabia o que pensar, mas achava ótimo estar com eles, protegida, amparada… Foi aí que ouvi a pior frase que com o tempo se transformou no melhor ensinamento. Em tom baixo, suave, apesar da força das palavras, ele disse: “quem pariu Mateus que o embale… Você casou, teve um filho, está na hora de recomeçar… Posso ser o fiador no aluguel de um apartamento e sempre estaremos aqui para apoiar”. Agradeço esta chacoalhada, se não fosse isso teria seguido a vidinha familiar e não teria feito o meu caminho.

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Ele nunca impôs aos filhos uma religião. Era kardecista, assim como seus pais, mas ajudou os padres a conseguir recursos para construir uma igreja no bairro onde morávamos em São Paulo e cobrava a nossa presença na missa. Dizia que quando adultos podíamos escolher uma crença, enquanto isso ir à igreja era bom…. Aos 84 anos ele estava num processo de esclerose senil, com momentos de lucidez, outros viajando nos pensamentos, e uma noite me telefonou dizendo que queria reunir os filhos e pedia para convidar um certo amigo espírita. Aquele era meu pai, determinado e lúcido. No encontro fez uma oração agradecendo pela vida e em particular pediu ao amigo que cuidasse espiritualmente da família. Sabia que não ia demorar para a grande partida. E estava certo…Por esta relação tão próxima e a sutileza na forma como hoje percebo a espiritualidade, quando senti o que para uns pode ser um cheiro estranho de tabaco e para mim é como um perfume, percebo ele por perto… Ao menos no meu coração… Obrigada pela visita, meu pai!

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Uma resposta para “A visita

  1. Também fui abençoada com um pai com essas qualidades. Acho que a identidade que tenho com você, vem daí.
    Lindo depoimento! Beijo!

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