Para mulheres

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

Foi numa fração de segundos, entre o tirar a blusa e pegar a toalha, num movimento rápido, simultâneo, que olhei no espelho e gostei do que vi. Nem sempre é assim. Estes três dias à base de sopa fizeram uma diferença (ou foi meu olhar que teve complacência com esta mulher?). Ainda não conversei abertamente com as amigas como se percebem fisicamente depois dos 60. Quando o assunto surge geralmente se reclama de alguma dor, não se fala em prazer, apreço à matéria que temos e carregamos… Tenho a impressão que no fundo ficamos torcendo para mudar o tema e entrar na zona de conforto das lembranças de como as pernas eram bonitas, os seios rígidos, bumbum no lugar, zero de barriga desfilando em minúsculos biquínis no píer de Ipanema, como se viver fosse folhear um velho álbum de fotos… É mais fácil olhar o passado, é nosso conhecido, mas se pensarmos bem vamos concluir que a boa forma que fomos e cultuamos, o sucesso de público e crítica, não durou mais do que 20 anos!

E o que fazer com tantos os outros anos que estão passando? Rejeitar, fingir que não existiram? Nada chegou da noite para o dia, fomos produzindo este nosso atual resultado.  É desagradável a constatação das varizes desenhando a perna, a gordura localizada no abdômen, a celulite, a flacidez nos braços, os pés de galinha, as rugas de tantos sorrisos e estes horrorosos pelos que desapareceram do corpo e surgiram no rosto.

O assunto é forte, mas nada disso me assustou quando, naquela fração de segundos, percebi a mulher se despindo para o banho. Talvez o corpete preto de alcinhas, usado sobre o sutiã para compor com a blusa um pouco transparente, tenha favorecido.  Ou a maquiagem que ainda estava nos olhos, talvez um pouco da lua que refletia no espelho, mas a verdade é que a imagem estava agradável. Os cabelos estão grisalhos, a expressão divertida. Tenho um bom tempo pela frente e se não tratar bem esta mulher, o caminho será árduo. Conviver com o inimigo deve ser horrível!  Todo dia tenho que me permitir ser feliz. Da forma e do jeito que for, não posso dar mole às churumelas.

Uma das mais importantes lições de vida aprendi por volta dos 30 anos, morando em Nova York. Um renomado jornalista brasileiro durante uma conversa em torno de alguns copos de whisky on the rocks me confidenciou que passara por uma grande depressão. Procurou um médico – ou psicanalista, psicólogo, não lembro o que – e no primeiro encontro, depois de ouvir suas lamúrias, o profissional pediu que ele fosse para casa e retornasse dias depois trazendo uma lista com o que considerava mais importante em sua vida. Meu amigo passou dias pensando, voltou à consulta com uma longa lista e começou a relacionar o que considerava vital:  o apoio à mãe no Brasil, a realização profissional como chefe de um grande escritório, o apartamento que comprara num bairro chic em Manhattan, as viagens à Europa nas férias, e foi desfiando o que considerava ser a mola mestra para a sua felicidade. No final o médico simplesmente disse que tudo aquilo só existia por causa dele. No momento em que ele não mais existisse, não haveria a sua mãe, nem seu emprego, seu apartamento, suas viagens…

“O mais importante em sua vida é você”.  Não sei se foi assim que o profissional falou ou meu amigo me contou, mas foi a frase que ficou em mim e já escrevi em cadernos, paredes, páginas na agenda, rabisquei em anotações durante infindáveis reuniões, relembrei na hora de tomar decisões e repito quando me vejo sem pressa frente a um espelho…. É um gesto de sobreviver com dignidade. Li em algum lugar que se não me sentir bem quando sozinha é por que estou muito mal acompanhada…. Por isso preciso ter carinho, até um pouco de piedade, atenção com esta mulher mesmo com as mazelas que o tempo fez com a matéria. Com o privilégio em ter uma natureza esplendorosa ao meu redor, aprendo ao ver a mudança nas folhas das árvores, na flor do hibisco que só dura um dia, no rio que tem sua margem alterada com vai e vem da balsa raspando no fundo, empurrando a areia, derrubando coqueiros, trazendo novo cenário…. Sigo o mesmo movimento, caindo como folha, renascendo na flor, raspando areia, mudando o rumo, em busca do meu novo cenário…

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Uma resposta para “Para mulheres

  1. Que bom que encontrei seu blog.
    Isso é lindo Léa, muito lindo!
    Me ajudou muito hoje.
    Estou aprendendo com vc,escreva mais,bjos

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