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Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

“Mesmo tendo deixado o Canecão, eu ainda estava como muito trabalho. Isso não era de todo ruim, pois significava um bom faturamento, mas trazia muita responsabilidade. Na verdade, eu não sabia o quanto eu queria crescer, não imaginava realmente o que era ter um grande escritório, com dezenas de clientes e funcionários, PIS, PASEP, FGTS e outras coisas mais. O que eu gostava mesmo era cuidar de cada projeto como sendo o único, pensar nos detalhes, construir junto com a equipe e o cliente uma comunicação sob medida. Diante destas divagações, uma noite trocando ideias com a querida amiga Ana Maria Ramalho, ela me deu uma sugestão: “Fecha o escritório e dá um tempo. Vai conversar com o Valdir e o Lula, eles estão precisando de um gerente de comunicação para a agência.” Antes de ser jornalista, eu desejei ser publicitária. Foi em uma agência de publicidade em que eu tive o meu primeiro emprego com carteira assinada. Era uma das maiores agências do país, e eu cheguei lá através de um anúncio do jornal procurando por uma recepcionista. Eu tinha 18 anos e fazia um curso na ABP (Associação Brasileira de Propaganda), ao mesmo tempo em que me preparava para o vestibular de psicologia. Meu pai fez parte da primeira turma de Publicidade formada em São Paulo nos anos 1950 e com um enorme prazer, ele me contava sobre as maravilhas do mundo do marketing: uma palavrinha tão especial que nem recebeu tradução, e que acabou sendo incorporada em sua forma original à Língua Portuguesa. Ele foi uma influência importante para mim. Assim, segui a sugestão da Ramalho e fui ao encontro do Valdir (Siqueira)7 e do Lula (Vieira)8 na simpática casa numa rua tranquila do Humaitá.
Com o Aias Lopes e Carlos Alberto Carmo (Carlão), eles formavam a cúpula da V&S Propaganda, uma agência premiada, com clientes importantes. Era um clima muito gostoso, que me cativou desde a primeira conversa. Parecia com o meu escritório, funcionava em uma casinha numa vila entre Laranjeiras e o Flamengo. Fui para casa com a cabeça a mil. Passei o fim de semana divagando sobre a proposta deles e voltei a um ponto que sempre me norteia nos momentos de alguma grande decisão: a certeza de que meu maior tesouro é meu caderno de telefones. É uma forma figurativa de dizer que os amigos – as pessoas que encontrei ao logo da vida e as relações construídas com eles – são importantes e me acompanham em qualquer caminho. Diante disso, tomei a decisão que achava mais coerente para aquele momento: iria ampliar o meu conhecimento em comunicação, vivendo no mundo corporativo. A partir daí, foi tranquilo para fechar o meu escritório: encaminhei a equipe para outros trabalhos, conversei com os clientes (alguns continuaria atendendo), desfiz o contrato da casa e sem qualquer apego doei alguns móveis, levei outros, assim como todo o arquivo de memórias. E comecei um novo tempo. Estava fascinada com a possibilidade de trabalhar de segunda a sexta, com horário fixo para chegar e para sair, sem contar que teria um bom salário no final do mês. Era exatamente esse o tempo do qual eu precisava, e me entusiasmava saber que estaria mais uma vez à frente de um desafio. Como a função de Gerente de Comunicação não existia na agência, estava livre para criar uma estrutura voltada exclusivamente para o mundo corporativo, trazendo o know-how adquirido com o meu escritório de eventos. Fui incorporada à nova área da agência, a Central de Informações, um departamento que funcionava em uma sala que era um grande arquivo de referências de imagens que poderiam ser usadas na montagem de provas de anúncios, para serem apresentadas aos clientes. Fiquei fascinada com aquela quantidade enorme de revistas, livros e pastas. Em tempos sem computador, todos os recortes eram arquivados em pastas. O que temos hoje em pastas do Windows (e outros sistemas operacionais), fazíamos em pastas de papelão,
algumas vezes até em caixas, com requintes, como por exemplo, a pasta de recortes sobre copos ter sub pastas, com taças, copos de plástico, todos os tipos possíveis e imaginários. O trabalho mais básico que era desenvolvido pela Central de Informações era o clipping, que ganhou uma cara nova. Geralmente, eu contratava uma empresa de clipping para atender aos projetos dos clientes, mas, neste caso, percebi que era uma ação muito mais subjetiva. Não precisávamos apenas saber tudo o que saísse de um determinado cliente, mas apenas o que poderia interessar às diversas áreas de agência, analisar tendências e oportunidades. Para fugir do padrão de recortes colados em folhas brancas, acrescentávamos desenhos, figuras e antigos anúncios retirados da minha coleção da revista Fonfon, o que dava um charme especial ao clipping. Eles deixavam de ser aquelas folhas grampeadas que passavam dias jogadas em cima de uma mesa. Mais uma vez, seguindo as mesmas exigências de qualidade de não ter recorte torto, nem mancha de cola. Tinha que ser objeto de desejo. Além das relações com a imprensa do segmento de propaganda e marketing, comecei a buscar assuntos para entrar em outras áreas. A V&S tinha entre seus clientes o Ministério da Saúde e estava lançando uma campanha promovendo consultórios odontológicos em comunidades. Mussum fazia muito sucesso no programa Os Trapalhões, tinha um sorriso bonito e foi contratado para ser o “garoto propaganda” da campanha. Como eu o entrevistara algumas vezes, sabia que ele tinha sido um menino pobre, e o convenci de que esta era uma boa oportunidade para dar um testemunho sobre a importância do comercial gravado. A entrevista saiu em uma coluna de televisão, e para além do comercial, o assunto ganhou vida em um depoimento verdadeiro, agregando um enorme valor ao trabalho da agência. Trabalhando com Cristina Ramalho e Júlio Marques, em uma equipe enxuta e afinada, conseguíamos fazer mil atividades simultaneamente. Desde preparar a lista de convidados para festas de premiação de publicidade, até embalar centenas de incensos artesanais em pequenas caixinhas como brinde de fim de ano. Organizávamos as festas mensais temáticas reunindo os funcionários, e criamos uma rádio para estas comemorações, onde qualquer um poderia oferecer uma música com uma mensagem. A rádio acabou fechando quando um funcionário dedicou a música “Comida” dos Titãs para o Diretor Financeiro, e aumentou o volume bem no trecho “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Em outra oportunidade, distribuímos algumas dúzias de vasos de violetas que foram encomendados para uma ação promocional cancelada um dia antes. Para não perder as flores, antecipamos o dia da secretária e fomos extremamente criativos, como uma boa agência. A V&S era uma empresa com profissionais da melhor qualidade, e era tão antenada com sua equipe, que havia reuniões semanais com uma psicóloga que atendia, separadamente, o Grupo da Diretoria e o Grupo de Gerentes. Enfim, era uma agência que pagava até o analista! Fomos felizes por pouco mais de um ano, até que uma proposta sedutora tirou o meu sossego e resolvi partir para novas experiências, mas com a certeza que este tempo corporativo tinha acrescentado muito na minha forma de encarar a assessoria de imprensa. A partir disso, eu podia tudo.
notas
7. Valdir Siqueira, paulista e publicitário, começou na agência Selo Azul, e de lá foi para a JMM Publicidade, depois, mudou para a SSC&B Lintas Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1976, foi para a multinacional J.Walter Thompson, onde conheceu Lula Vieira. Em 1982, fundou com ele a VS Escala, que depois passou a ser simplesmente V&S Propaganda. Foi duas vezes escolhido como Melhor Executivo do Ano pela ABP, e depois como Publicitário do Ano. De 1995 a 1998 presidiu a Federação Nacional das Agência de Propaganda (Fenapro). Foi presidente da APAR Rio, e depois da ABAP Nacional. Também foi ele o fundador e vice-presidente do CEMP. Formado em Publicidade na primeira turma
da ESPM-Rio, Valdir participou de diversas entidades de classe, tendo sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Marketing, e presidente da Associação Brasileira de Propaganda. Lecionou publicidade e propaganda na PUC Rio, na ESPM e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, faz parte do Conselho Fundador e da diretoria do Conselho do Desenvolvimento Sustentável da Baia da Ilha Grande.”

Trecho do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”

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