O inquilino

Bom dia Léa!

Bom dia João!

Durante quatro meses, todas as manhãs, repetia este diálogo.  Ele chegava de mansinho e me pegava no computador. Amigo de amigos de Belo Horizonte, João, poeta e advogado, veio passar uns dias na minha pequena Pousada Banana da Terra. Chegou em meados de junho, encontrou os primeiros dias chuvosos, mas na sequencia veio muito sol para curtir a praia. Foi à festa de São João na beira do rio, se encantou com os cenários que gratuitamente a natureza oferece, e a simplicidade da vila tranquila na baixa temporada fez João desejar por aqui viver quatro meses sabáticos. Voltou para BH só para organizar a vida, avisar aos filhos e amigos. Preparei um chalé para recebê-lo, construí uma pequena cozinha, uma nova varanda para a longa temporada. O quarto ganhou um gaveteiro para guardar mais roupas, na sala uma mesa para o poeta colocar seu computador e derramar a poesia.

JP_chegando

João chegou dia 11 de agosto com uma mala grande e o olhar curioso. Muitos livros na bagagem. Bermudas, camisetas, sungas para a praia, sandálias havaianas, um belo desafio pela frente, mas rapidamente se adaptou ao mundo semi rural. Conheceu os arredores, passeou de barco nos manguezais de Belmonte, navegou no Jequitinhonha, conheceu Canavieiras e em Porto Seguro foi apenas uma vez para comprar uma bicicleta e um par de tênis para as caminhadas na estrada de terra. Acordava por volta das 5 horas, andava na praia, pedalava 2kms até a balsa, fez aulas de yoga e de cerâmica, participou da cerimônia de meditação da lua cheia. Foi a festas, fez amigos, almoçou em todos os restaurantes e no final da tarde pegava uma cadeirinha e ia para a beira da praia ver a lua chegar.

Dr. João Paulo, de sobrenome tradicional mineiro, se transformou apenas em JP, mais um morador da vila. Não leu os livros, nem escreveu poesias… A escrita ficou restrita aos e-mails para a família e amigos dando notícias que estava bem. Talvez não acreditassem que fosse suportar tanto tempo longe da civilização. Sentiu-se solto e livre como um dos tantos passarinhos que iam comer mamão na frente do seu chalé. Todas as manhãs ele esperava um esquilo descer pelo velho cajueiro em busca de algum fruto do dendezeiro e mimava Xico e Akira dando biscoitos. Regou a grama do jardim próximo ao seu chalé, cuidou da planta que dei como presente no aniversário e teve festa surpresa com bolo. A saúde ficou ótima, com a  pressão estável e nem mesmo o tempero baiano fez qualquer mal.

Mas como o tempo era marcado no calendário, sexta-feira passada, cumpridos 4 meses, João voltou para BH… Foi organizar a vida, decidir o que fazer com o apartamento, os móveis, os objetos guardados em seus poucos mais de 70 anos, Quer voltar pois como cantarolava “tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem…”. Descobriu que pode viver com muito pouco, pois o que tem na natureza preenche o coração. Quando nos despedimos seus olhos ficaram cheios de água. Poetas são sensíveis. Disse que volta depois do carnaval, enquanto isso o esquilo, o Xico e a Akira, a grama e o vaso com planta, a lua e as estrelas, a Lelê, a Fatinha e o Emanoel, a bicicleta, o caminho da praia, as ondas do mar, a estrada até a balsa e todos os seus amigos ficarão com saudades…

Bom dia João !

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