…nem lembrava destes escritos…

Num movimento de mudanças e desapego, retirei todos os livros das estantes e armários, fiz uma seleção dos quais quero manter, e no meio encontrei algumas folhas arrancadas de um caderno com o texto que segue…É um curto diário escrito em novembro 2001, quando trouxe o meu irmão do Rio para Santo André depois de ter passado por um processo de radioterapia … Incrível ver quase 20 anos depois o que aconteceu com este lugar e a minha vida…

27 de novembro de 2001 – Sto Andre (BA)

Quando voltar ao Rio vou ver no meu mapa astral o que este dia representa, qual a quadratura do planeta, influências…. Talvez não tenha nada especial e, por não haver nenhuma expectativa, representou muito. No meio do voo para Porto Seguro, a não sei quantos pés de altura, entendi a vida. Nada a explicar muito teoricamente, mas de sentir profundamente. Só agora entendi onde estou e porque estou aqui cumprindo mais uma trilha. Estou perfeitamente integrada no universo e o que tenho que fazer me vai sendo mostrado passo a passo.

Quase 6 da tarde, o sol ainda morno, saio a caminhar na praia. Só eu e a natureza. Fiz uma prece linda, falei alto com o mar, as ondinas, as nuvens, os céus, os peixes, os pássaros, as árvores. Agradeci por estas descobertas. Antes tarde do que nunca. Agradeço pela graça dos meus 52 anos, ainda me é dada a chance de aprender tanto. Este 2001 tem sido revelador e transmutador. Quantas revelações profundas e íntimas.

Agradeci pela família em que estou e os desafios que me foram dados, aos que passaram e passam por meu caminho em todos os momentos e, se não consegui antes, que possa dar-lhes o meu amor.

Mergulhei no mar em oração num encontro pleno de energização, limpando cada célula do meu corpo e lavando a alma.

“Senhor, seja feita a sua vontade e não a minha”, repeti diversas vezes…

Enquanto escrevo uma sinfonia de pássaros executa a trilha sonora. Penso em meu irmão e penso em mim, em todo esse novo processo que apesar da dor me faz melhor, mais inteira e integrada. Sinto que estes dias serão plenos de descobertas.

….

Ontem quando o avião parou em São Paulo, deixei o Victor na sala de embarque e saí para chorar. Dói vê-lo tão debilitado em uma cadeira de rodas. Imagino o que ele pensa, sente…. Percebo seus sentimentos, medos e duvidas. Porto Seguro é próximo ao seu porto seguro sto andre. Choro quieta no saguão, dezenas de pessoas passam e as lágrimas correm velozes no meu rosto.  Engulo seco, olho para o teto, tento todas as técnicas para cessar o choro e nada funciona. Mordo a língua, respiro fundo e levo um tempo para segurar. Fico lembrando de quantos conhecidos estavam no mesmo voo: Kassu, Emilio Santiago, Lula Vieira, Rodolfo Medina. Pessoas que estão constantemente em minha vida. Vão e voltam. E estavam ali de expectadoras deste momento tão delicado. Emilio foi generoso, veio até nós, conversou com Victor como se nada estivesse acontecendo. Não fez cara de piedade.

Saio pelo aeroporto, entro na livraria e não escolho, sou escolhida por um livro do Brian Weiss. Acabo de ler na pag 85 algo genial referente ao desapego do medo abrindo a mente.
Você mantem um relacionamento tanto consigo quanto com outras pessoas. E você já viveu em muitos corpos e em muitos momentos. Por isso pergunte a si mesmo por que tem tanto medo? Por que tem medo de assumir riscos razoáveis? Teme por sua reputação, pelo o que os outros possam vir a pensar? Esses medos foram condicionados na sua infância, ou mesmo antes disso. Faça a si mesmo estas perguntas: o que posso perder? O que pode acontecer de pior? Sinto-me contente com a possibilidade de viver o resto da minha vida desse modo? Se a morte é uma realidade inevitável, isso será “tão arriscado”?

Apago a tv, a luz do abajur e são tantas as lembranças que voltam à minha mente que volto a escrever.  A emoção do Victor ao ver o mar enquanto o taxi fazia o percurso até Cabrália será inesquecível. Não sei se proposital ou ao acaso ele se sentou na janela que dava visão plena do mar. Fungou, passou as mãos nos olhos, mas não mostrou as lágrimas. O dia quente e lindo. Meia hora em Cabrália esperando a balsa. Aqui temos todo o tempo para esperar, estamos voltando para casa, estou cumprindo o que prometi.  

A brisa na balsa, janela aberta e Sto André vai se aproximando. A chegada na pousada, o reencontro com a casa. Victor está exausto. Branca e Fio vem ajudar com as malas. Victor fala pouco e vai deitar. Sobe devagar a escada e quando desaparece pego a Branca enxugando os olhos. Ugo vem, mas não chega a alcança-lo, já está deitado. Choramos juntos. Muito difícil. Não há como não se tocar com o estado que ele se encontra. Frágil, magro, sem músculos, nem parece o homem forte que deixou Sto. André há 6 meses. Chega de chorar. Apago a luz e vou dormir.

28 novembro 2001 quarta-feira

O banho de mar, o pedido para a limpeza do meu corpo, libertando de todas as energias negativas, atuou durante a madrugada limpando o intestino. Acordei aliviada…

8 da manhã café com Victor que veio de noite mal dormida com problemas no estomago. Dor e enjoo e o remédio está na mala que vem no carro com o Alceu. Victor está de poucas palavras, volta para a cama e saio para caminhar.

Sol gostoso, vou pela areia até a ponta da praia onde a maré está baixa. Sento num banco de areia e faço o exercício de respiração, me entrego neste reencontro com o universo.  Agora uma oração, peço aos santos e guias, leio a meditação do Serapis Bey e me sinto plena com a luz. Volto caminhando e o mar deixou na areia uma boneca pequena de plástico, parece uma guerreira. A vida e seus simbolismos e a minha cabeça viaja.

….

O sol está fugindo de mim. Quando quero ele desaparece, quando mal posso tê-lo chega forte. Um sol incrível me acompanha em Cabrália durante as compras, mas no retorno, na travessia da balsa, o céu fica nublado.  Ameaça uma chuvinha, vou para a rede e sinto o vento, os passarinhos, adormeço e acordo com o sol já no fim do dia. Victor dorme na cama que foi colocada na sala. Poucas palavras. Está com um ferimento no cotovelo e tenho trocado o curativo. Vou caminhar num fim de tarde magnifico. Sinto o calor na minha pele que está tão branca e não penso mais nada a não ser viver este momento. Ouvir o mar, sentir o sol.

“Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.

Estou sozinha neste universo em total contemplação. Silencio em mim. Escuto os sons da natureza e do meu corpo. Deito na areia e meu corpo vai sentindo os grãos tocando suavemente. Abro as pernas e os braços, tenho a sensação de que posso flutuar. Sozinha, percebo a natureza em um momento único e mágico, exclusivo para mim. Fico em silencio, mente vazia e desperto para mergulhar num encontro de vigor e vida resplandecente. Grito graças à vida. Obrigada Senhor…. Em um outro canto, ali bem perto, meu irmão está morrendo.

….

A Edoarda fez uma massa maravilhosa, com um molho mais incrível ainda. Mãos de mestra italiana. Trouxe suas panelas para jantarmos. Ugo veio também. Saboreamos o manjar dos deuses, tomamos vinho, demos boas risadas e Victor em silencio. Comeu pouco e foi deitar. Continuamos no papo e às 10horas fechei a casa. Não gosto de deixa-lo dormindo sozinho, mas ele não quer companhia. Estou muito bem instalada no chalé, mas queria estar mais perto. Aviso que meu celular vai ficar ligado durante a noite por conta das ligações do Bê as vezes na madrugada. Inventei esta historia e me recolho preocupada. O ferimento não cicatriza, talvez seja necessário um outro procedimento.

Senhor dai-lhe forças para mais esta noite…

Complementando o pequeno diário :

No fim de semana, 1 e 2 de dezembro, Victor foi internado em Belmonte, para tomar soro e tratar do ferimento no braço. Retornamos dia 3, segunda-feira

O meu irmão Alceu trouxe o carro, sinto que não vai dar para ficar. Converso com a médica sem o Victor saber. Ela recomenda o retorno para o Rio.

Dia 8, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cabrália, rezo e peço que nos mostre o melhor caminho.

Dia 9 Victor acorda e me diz que devemos voltar.

Dia 10 de dezembro descemos no aeroporto de Congonhas e fomos direto para o hospital.

Dia 21 de dezembro Victor morreu.

Dia 23 de dezembro, atendendo seu pedido, deixei seu corpo no pequeno cemitério à beira da estrada em Mogiquiçaba, na divisa entre Cabrália e Belmonte.  

Uma resposta para “…nem lembrava destes escritos…

  1. Léa, sem palavras. Tanta emoção e sobressaltos.

    Fortíssimo abraço em minha tão querida e talentosa Amiga.

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