Opinião 1964

Em 1964 eu tinha 15 anos e uma sorte imensa. Alexandre, meu primeiro namorado, vinha de uma família que tinha por hábito ir ao teatro e, em dezembro daquele ano, me convidou para assistir “Opinião” num teatro ainda em fase de acabamento na rua Siqueira Campos em Copacabana.  Foi um soco no estômago. Eu era uma garota da Tijuca que nunca tinha ido em um teatro de verdade – não que este fosse – e ontem, ao terminar de assistir ao documentário sobre Nara Leão na Globoplay, percebi como este encontro mudou minha vida para sempre.  O pai do Alexandre era general reformado, família do Rio Grande do Norte. Eles tinham alguma referência com o João do Vale, e creio que foi isso que nos levou a assistir ao espetáculo. O impacto foi tão grande, tanto para mim quanto para o Alexandre, sua irmã Ana Lucia e o namorado Marcos, que voltamos outras vezes inclusive para assistir Suzana de Moraes na curta temporada em janeiro de 65 e depois para aplaudir Maria Bethânia.

O namoro terminou, a amizade permaneceu pra sempre, mas aquele espetáculo mudou a minha vida. Eu fiquei completamente comprometida com a música, com a cultura, com a arte e com a política do país. Vivíamos em uma ditadura e eu pouco tinha conhecimento. Foram aqueles trechos das músicas, os textos do Armando Costa, Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho, a direção musical do Dory Caymmi e a força da direção geral do Augusto Boal que viraram minha cabeça.  “Carcará pega pra matar e come”, “podem me prender podem me bater que eu não mudo de opinião”, “a peba na pimenta”, “acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções”, “tristeza não tem fim, felicidade sim” que me fizeram desistir de estudar o curso técnico de Máquinas e Motores na Escola Técnica Nacional. Fui para a área de letras fazer o 2º grau Clássico quando conheci Ângela Porto Carrero, uma outra história que me abriu ainda mais portas nos encontros na Jaceguai 27 onde até me tornei amiga do João do Vale.

E sem maratonar, saboreando em pedaços como uma deliciosa torta Banofee, fui assistindo ao documentário passando em revista minha trajetória nos 5 episódios. Trilhas sonoras, estética, comportamento, modismo. Quase 60 anos que vivi estão lá.

Porém, mais do que ser uma obra importante para a música, a política, os costumes e a cultura do país, mais do que rever trechos do Opinião revendo minha ainda adolescência já madura, revi a minha vida ao sabor de Nara e seus amigos, sendo que muitos foram e continuam sendo meus. O jargão “à frente do seu tempo” é pouco para definir Nara e suas posturas. Ela era iluminada. E este foi o sentimento que tive na única vez que a entrevistei, em junho de 1981, para o Segundo Caderno de O Globo onde contava sobre o lançamento do disco “Romance Popular”. Depois de 6 anos Nara trazia um repertorio quase inédito apresentando Fagner e Fausto Nilo, se lançava como letrista em “Cli,Clé, Clô” e me falava sobre seu trabalho e planos. Tudo muito informal, nós duas sentadas no degrau do portal da sala voltada para o jardim do apartamento térreo na Rua Visconde de Pirajá de onde podíamos apreciar os muitos pés de goiaba, romã, carambola, cana de açúcar e banana, presentes do amigo Rubem Braga, também morador do bairro. “Um disco com alto astral”, assim ela definia o trabalho que levou 9 meses para ficar pronto e sua alegria ao se ver na capa mais bonita do que se achava. Conversa de mulheres passando dos 30, lembro deste sentimento.  A calma na conversa, um jeito equilibrado, tranquilo, audacioso sem alarde… E foi isso que concluí ao assistir ao documentário: Nara nunca alardeou que faria uma revolução, simplesmente fez… Não teve marketing, estratégias, modismos, posições… Era coração, intuição e verdade…

Nunca mais esquecerei Opinião e sou eternamente grata ao Alexandre, meu primeiro namorado…

3 Respostas para “Opinião 1964

  1. Pingback: Opinião 1964 — Léa Penteado | THE DARK SIDE OF THE MOON...

  2. Querida Lea: grato mais uma vez por nos levar tão docemente para recantos tão especiais de tua vida e tuas memórias. Realmente foste muito privilegiada de estar onde estiveste e viver o que viveste. Beijo grande e muito obrigado por compartilhar conosco esses momentos!

  3. Que texto lindo! Faz jus ao documentário, de uma delicadeza ímpar. Obrigada.
    Bjs

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