Reflexão

“Gente eu vou falar no grupo pois eu não tenho como dar essa notícia tão dolorida, meu Samuelzinho acabou de falecer…”

A mensagem em áudio com voz embargada era de uma mulher num grupo de whatsaap com mais de 500 integrantes.  Olhei o nome, a foto e não reconheci. Em instantes chegaram mensagens de pêsames, a foto do menino com uns 3 ou 4 anos, e em breve a tragédia estava revelada: um acidente na piscina na casa da avó. O relato desesperado era da própria avó.

Quem escreveria roteiro tão cruel ?

Maior do que a dor, me tocou a forma como essa mulher comunicou o ocorrido: um aplicativo.

Falando para muitos que talvez não a conhecessem e nunca tivessem visto Samuelzinho, fiquei com o sentimento de que não tinha alguém para segurar a mão, abraçar, chorar, até ficar exausta e sem voz. Ou lhe bastaria saber que tantos estariam se solidarizando com o seu sofrimento, mesmo que nunca a tivessem visto, o que era o meu caso.

O tamanho dessa solidão me levou a refletir quando as pessoas deixaram de ter amigos fora das telas do celular.

Na sequencia das mensagens de dor e pêsames que corriam na tela, se intercalavam os assuntos corriqueiros do grupo, conserto de fogão, venda de pão, horário da balsa, telefone de alguém… E para muitos a vida segue, como uma mensagem a mais no whatsaap, páginas viradas e qualquer assunto é só para passar o tempo.

Samuelzinho descanse em paz.

Yayá chegou num dia 5 de maio

Estava na travessia de balsa do rio João de Tiba, distraída, quando uma foto me encontrou: uma cachorrinha magrinha, encolhida na calçada do restaurante Berimbau. O alerta veio pelo grupo de WhatsApp dos “cachorreiros” da Vila de Santo André — gente que tem o coração atento aos cães perdidos ou abandonados. A imagem me tocou. Enviei para a Alexandra, dona do restaurante. Ela, generosa como sempre, logo conseguiu atraí-la com um pouco de ração e água.

Na saída da balsa, passei por lá para conhecer a pequena.

Eu vinha de um luto silencioso, dobrado. Em janeiro, perdi Akira. Em março, Chiquinho. Dois companheiros que deixaram um vazio enorme. Tinha decidido dar um tempo, respirar sem patas pela casa, sem pelos nas roupas. Mas bastou aquele olhar desconfiado e o corpo frágil perto de mim para que algo mudasse. Foi encantamento. Foi flecha certeira.

Ela não se deixava pegar. Arisca, como quem já apanhou demais na vida. Tentamos colocá-la no carro, mas ela fugiu. Escapou de laços, pulou muros, correu para uma casa onde o morador estava ausente. Alexandra pulou a cerca atrás dela, mas a pequena fugiu de novo, dessa vez para o condomínio ao lado. E nós atrás. Quanto mais nos aproximávamos, mais ela se escondia no mato. Desistimos, por ora. Era preciso respeitar seu tempo.

Espalhei fotos pelos grupos. Pedi ajuda. Torci. Até que veio a boa notícia: ela estava bem, acolhida em uma casa do condomínio. Mas a alegria durou pouco — a família já tinha outros cães e não poderia ficar com ela. Ainda assim, era um sinal: talvez ela fosse mesmo minha.

Na sexta-feira, a confirmação. Fui com Alexandra buscá-la. Ela veio ainda assustada, mas quando chegou em casa, se aconchegou como se já conhecesse cada canto. E ali mesmo ganhou nome: Yayá, homenagem à minha mãe, dona Yayá, que faria aniversário naquele 5 de maio. O dia em que encontrei a cachorrinha — ou melhor, o dia em que ela me encontrou.

Porque talvez seja sempre assim: achamos que estamos salvando alguém, mas no fundo, somos nós que estamos sendo salvos.

TV Globo 60 anos

Em 1984, voltei ao Rio depois de três anos morando em Nova York.
Trazia três malas, alguns dólares e um certo desconforto no peito. Eu tinha visto de trabalho e caminhava para um green card, mas o Brasil que me recebia estava mergulhado na campanha das Diretas Já. Que país eu iria encontrar ?

Henfil, no dia em que nos reencontramos, resumiu com sabedoria:
“Você precisa mergulhar nas águas do Rio São Francisco para voltar ao Brasil.”

De certa forma, eu era quase uma americana: calçava sandálias com meias, sonhava em inglês e usava cinto de segurança para dirigir.

Foi então que os amigos se aproximaram, trazendo propostas de trabalho que ajudaram a me reconectar com o meu país. Primeiro, Cidinha Campos me convidou para integrar a equipe do programa “Cidinha Livre”, na Rádio Tupi, como redatora ao lado de Heloneida Studart. Conviver com duas mulheres tão brilhantes e engajadas nas mudanças do país foi um privilégio — e o primeiro banho no Rio São Francisco.

Quase ao mesmo tempo, Régis Cardoso, ex-marido e amigo, me chamou para ser pesquisadora de arte no programa “Caso Verdade”, na TV Globo.
Recebiam dezenas de cartas reais e era preciso sensibilidade para descobrir boas histórias. Fui fundo nas leituras…

Em pouco tempo, Régis seguiu para outro projeto e “Caso Verdade” ficou sob a direção de Reynaldo Boury, um mestre da narrativa sensível. Em uma conversa sobre novas pautas, comentei com Boury que a atriz Darlene Glória, Melhor Atriz no Festival de Berlim por Toda nudez será castigada, havia se tornado pastora e estava pregando num teatro em Copacabana.
Ele pediu que eu investigasse. Voltei com uma história tão forte que tive a oportunidade de estrear como autora em “Todo Pecado Será Perdoado”, ao lado de Ivan Yazbeck.

Outros “Casos Verdade” vieram, até que precisei fazer uma escolha.
Eu já estava dividida em três frentes: TV Globo, Rádio Tupi e o convite para voltar ao jornal O Globo. Na sequência já aparecia o Rock in Rio, o Canecão e a assessoria de imprensa com tantos movimentos culturais inesquecíveis.

Não foi fácil decidir. Naquele momento, a TV Globo começava também a formar oficinas para jovens autores, e fui convidada.
Mas sou muito feliz pelo caminho que escolhi — e imensamente grata à TV Globo, que me ensinou tanto, me enraizou de volta no Brasil e me abriu as portas para ouvir, sentir e contar histórias.

Porque mergulhar de volta ao Brasil é, também, reaprender a viver com o coração.

Santa Cruz Cabrália no Mapa da Criatividade Mundial

Em quase 21 anos como testemunha do desenvolvimento de Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, o momento de maior projeção internacional que presenciei foi em 2014, quando a Vila de Santo André foi escolhida como base da seleção alemã de futebol durante a Copa do Mundo. Foram dezenas de jornalistas do mundo todo voltados para o pequeno povoado.

Por isso, quando Gregorio Marin trouxe o convite para a cidade participar do Dia Mundial da Criatividade e Inovação, vi ali um passo gigante para um município com pouco mais de 30 mil habitantes e que, nos últimos anos, não havia desenvolvido uma linguagem própria — vivendo à sombra da vizinha Porto Seguro.

O Dia Mundial da Criatividade e Inovação é celebrado em diversos países com o objetivo de estimular o pensamento criativo e propor soluções inovadoras para os desafios globais. Criado em 2001 no Canadá por Marci Segal, a data — 21 de abril — foi escolhida para anteceder propositalmente o Dia da Terra (22 de abril), simbolizando a importância de novas ideias para um futuro sustentável. Em 2017, a ONU reconheceu oficialmente a data, e agora, em 2025, Santa Cruz Cabrália se insere nesse movimento global, entre mais de 100 mil participantes em todo o mundo.

Embora o número exato de países e cidades participantes deste ano ainda não tenha sido divulgado, edições anteriores contaram com cidades de mais de 15 países, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Itália, Portugal, Emirados Árabes Unidos, Japão, Índia, República Dominicana e Sérvia.

Gregorio Marin, apaixonado por inovação e criatividade, chegou a Cabrália há pouco mais de dois anos. Com os amigos Grasi e Loredano Aleixo Junior, Elaine Camacho, Viko Tangoda e Marcos Teixeira, plantou uma semente ao adquirir uma casa centenária em ruínas na Praça Pedro Álvares Cabral. Ali nasceu o “Seu Beira Mar”, restaurante cujo cardápio é assinado pelo chef Viko Tangoda, que logo se tornou referência em alta gastronomia e bom gosto. Aos poucos, foi transformando o movimento da praça com eventos culturais pontuais.

Hoje, o “Seu Beira Mar” é mais que um restaurante: é um agente cultural e o mantenedor do Dia Mundial da Criatividade e Inovação em Cabrália. Com a colaboração de Izabel Tieri e em parceria com a prefeitura e apoio da secretaria de cultura, o projeto saiu do papel, ganhou site, presença nas redes sociais e atraiu convidados ilustres.

A programação destacou a diversidade cultural, reunindo acadêmicos, escritores premiados, educadores, mulheres que trabalham com piaçava, grupos indígenas Pataxó, apresentações de capoeira, maculelê, folia de reis, estética afro, animação com celular e tantas outras manifestações.

Um dos pontos altos foi a roda de conversa sobre Tecnologias Ancestrais, no auditório da Casa de Cultura Seu Jique. Três horas de troca intensa entre convidados e agentes locais, com depoimentos, experiências e propostas para o futuro e a promessa de nos reencontrarmos no ano que vem para acompanhar os avanços.

Tive a honra de ser mestre de cerimônias dessa conversa inspiradora, que contou com as sabedorias de :

Sérgio Bicudo – Consultor e mentor em economia criativa, inovação e transmídia. Mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Maurício Negro – Artista gráfico, ilustrador, escritor e gestor cultural, premiado internacionalmente.

Bruno Moraes – Educador, mestre em Educação Ambiental e coordenador da Escola da Floresta (RS).

Edson Kayapó – Historiador, escritor e professor indígena do IFBA e UFSB.

Jaime Maciel Bertolino – Psicólogo e diretor terapêutico com foco em saúde mental e desenvolvimento humano.

Álamo Pimentel – Pedagogo, doutor em Educação, professor da UFSB e Secretário de Educação de Cabrália.

Indara Mel – Advogada, professora universitária e Secretária de Meio Ambiente.

Andreza Anjos – Secretária de Cultura, multiartista, conselheira de Igualdade Racial e ativista.

Thayamehy Pataxó – Educadora e Secretária para Assuntos Indígenas.

Nitynawã Pataxó – Liderança da Aldeia da Jaqueira e autora do livro As Guerreiras na História Pataxó.

Aptxiena Pataxó – Jovem liderança e guardião da memória de seu povo.

Com essa mobilização, Santa Cruz Cabrália se tornou a única representante do sul da Bahia entre as mais de 100 cidades brasileiras participantes do World Creativity Day 2025 — ao lado de Salvador, Feira de Santana, Lauro de Freitas, Camaçari e Mata de São João.

A programação dos dias 20, 21 e 22 de abril incluiu:

  • Grupo Cultural Tapurumã ui ikhã do Colégio Estadual Indígena de Coroa Vermelha
  • Encontro de Capoeira com Prof Pinguim e Mestres Barriga e Pé de Chumbo, e Oficina de Maculelê com Professor Pinguim
  • Boneco Budião Azul (Bloco Manga Rosa) com Marquinhos e Vinícius
  • Oficina de Estética Afro – Turbantes, com Moara Sachi
  • Desafio Criativo das Piaçaveiras do Ponto Central
  • Exposição do Coletivo Ybryda, com os artistas Tamykwã Pataxó, Evelyn Emi, êmydyô Tupinambá, Karolaine Pataxó e Jaqueline Pataxó i
  • Oficina de Animação com Celular, com Filip Couto
  • Fábrica de Aplicativo, com Luca Ranna e Evandro Ariqui
  • Moda e Estética dos Cortes de Cabelo da Periferia, com João Pedro S. Fernandes
  • Encontro de Percussão, com Timbaleiros e Grupo Maré da Lua do Centro de Convivência e Cultura de Sto André
  • Bloco Mestre Dezinha e as Nagôs de Belmonte
  • Folia de Santos Reis com Mestre Pedro Piroca e Samba de Roda Pataxó com Mestre Matigoti Pataxó

 Para 2026, uma nova edição já começa a se desenhar em uma cidade que gosta de criar, inovar e, cada vez mais, afirmar sua identidade.

40 ANOS DE AXÉ

Da esquerda para a direita Diana Aragão (O Globo), eu, Christine Ajuz (O Dia), Angela Tostes (assessoria de imprensa) e, segurando minhas mãos, Luiz Caldas.

Este texto faz parte do livro “A VERDADE É A MELHOR NOTICIA” que lancei em 2015 contendo “cases” de assessoria de imprensa…. O Axé e Luiz Caldas fazem parte, e compartilho uma das sementes que plantou o movimento levando a musica baiana ao seu maior patamar…

“A Polygram era uma das 5 maiores gravadoras do país e tinha em seu elenco artistas do prestígio de Maria Bethânia e Caetano Veloso. Eu tinha uma relação amigável com seus diretores, alguns conhecia há muito tempo, como era o caso de Armando Pittigliani, que um dia em 1986 me telefonou convidando para um café na gravadora na Barra da Tijuca. Estava de olho em um grande lançamento. A novidade era um rapaz da Bahia que estava fazendo o maior sucesso com um ritmo novo e uma música chamada “Fricote”, estourada nas rádios de Salvador e no interior do estado. A gravadora planejava fazer um show fechado do cantor no Canecão, apenas para convidados, reunindo o melhor da mídia nacional, trazendo jornalistas e radialistas de diversos estados, apostando todas as fichas neste movimento musical que vinha com uma dança contagiante. Armando apertou o botão do gravador e o espaço se encheu com o som de uma música original, um ritmo diferente, bem mexido, cuja letra, nos dias de hoje seria considerada politicamente incorreta pois dizia:

Nega do cabelo duro / Que não gosta de pentear / Quando passa na baixa do tubo / O negão começa a gritar / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De violeta / Na boca e na bochecha / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De cor azul / Na boca e na porta do céu /

A letra fácil ficou cantando na cabeça. Para quem tem faro fino na descoberta de valores musicais, a gravadora estava no caminho certo. Pittigliani falou maravilhas do rapaz no trio elétrico, a multidão que o seguia no carnaval, uma verdadeira coqueluche. E ainda mostrou umas fotos do cantor bem magro, um cabelo longo no estilo de Michael Jackson no videoclipe “Thriller”, pés descalços e uma roupa largada. Ainda se falava que tinha uma dança acompanhando a música que era chamada de “deboche”. 

Com este volume de informação carregado de cheiro e frescor da Bahia, eu não conseguia ver o cantor no palco do Canecão. Se tinha mesmo este sucesso todo por que não levar os convidados para um show em Salvador? Iam sentir na pele a energia e estariam compactuando com a chegada de um novo artista. É o que nos dias atuais chamam em marketing de “brand experience”. Lembrei que quando morei em Nova York trabalhei em uma agencia de viagens e uma das agentes tinha na sua carteira de clientes uma pequena gravadora que quando queria apresentar algum artista novo no mercado convidava os radialistas para um fim de semana em uma das 3000 ilhas das Bahamas. Na piscina, aproveitando o sol, os radialistas viviam imersão sobre os novos artistas e jantavam assistindo os pocket shows. Ali mesmo a gravadora sabia se o produto iria para frente ou não, se mereceria um investimento maior.

A gravadora contestou minha sugestão preocupados com o orçamento, mas eu só pensava no impacto que faria o artista em sua própria cidade, com uma plateia já conhecendo a sua música e isto seria um ponto muito forte neste lançamento. Voltei para o escritório, fiz o levantamento do custo de 50 passagens saindo do Rio e de São Paulo para levar alguns jornalistas, radialista e produtores de TV, e dias depois voltei a me reunir na gravadora mostrando que não seria tão mais caro e poderiam aproveitar estes dias para reforçar a relação com os jornalistas.  Os 50 convidados se transformaram em quase 100. Vieram diretores da matriz na Holanda e o então Hotel Mediterranée em Salvador viveu dias de festa.

Num palco montado na Praça Castro Alves, com mais de 100 mil pessoas na plateia em total delírio, Luiz Caldas foi apresentado com todo seu tempero para a mídia nacional. Uma noite que ficou na história do rapaz e dos jornalistas, radialistas e produtores de TV que viram ali nascer o que veio depois ser o movimento do axé. Em poucas semanas o “Fricote” era sucesso absoluto e o cantor com seu jeito diferenciado de se apresentar descalço virou figurinha fácil em todos os programas de TV, páginas de revistas e jornais. No ano seguinte, aos 24 anos, ele se tornou rei absoluto do mais esfuziante carnaval de rua do país, Salvador bombava com o seu som do “deboche”. A música que trazia o batuque do negro da Bahia, o ritmo balançado da salsa e do merengue mais outras influências do caribé e as guitarras do rock, ele era a estrela máxima. Em 04 de março 1987 Luiz Caldas com seu melhor sorriso ganhou as bancas de revista de todo o país como capa da revista Veja. A gravadora teve um retorno financeiro e promocional muito maior do que o esperado com o lançamento no Canecão, impulsionando uma nova vertente musical.”

Parabéns @luizcaldas … este é um pedaço da sua historia…

Uma peregrina em Santo André

Nos conhecemos em um cenário bem diferente do que Vila de Santo André. Era janeiro de 1985 quando me recebeu em sua casa na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) para uma entrevista com seu marido Roberto Medina, contando com a presença dos filhos Jomar Jr, Rodolfo e Roberta. A reportagem foi capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, edição de domingo, estávamos em pleno Rock in Rio!

Maria Alice Couto Fernandes, ou Maria Alice Medina, mais de 1m70 de altura, o máximo de elegância em bem receber em todos os cenários que nos reencontramos desde então.  E não foram poucos. Do estilo roqueira chic à dona de casa, ela não deixava de ser notada. Eu a via num grupo de meditação ao nascer do dia no período em que o marido esteve sequestrado, como também estudando para o vestibular na faculdade de fisioterapia, acompanhando o marido em viagens ao exterior para contratação de artistas para outras edições do Rock in Rio, se preparando para fazer o caminho de Santiago, e em várias áreas VIPs do festival ao longo de todos esses anos. Uma amizade que não precisa ter presença constante, mas a certeza de que do outro lado tem alguém que lhe quer bem e conhece sua história.

Em 2002 me acompanhou até Santo André numa visita à casa do meu irmão que falecera meses antes. Foram poucos e intensos dias. Há 7 anos morando em Lisboa, vindo ao Brasil algumas vezes para visitar a família e amigos.  Desta vez me deu o privilégio de passar uns dias em minha casa. Chegou um dia antes da Festa de Iemanjá, trazendo como recomendação terapêutica tomar sol, banho de mar e pé na areia. Foi o que encontrou, além de boas conversas e atendimento com ótimos profissionais de bem-estar que lhe cobriram de cuidados. Dias encantados…

Tive tempo de saber dos seus passos em Portugal, sua realização como autora do livro “Do Rock a Compostela” lançado em 2019, onde conta a sua trajetória como mulher e mãe até se tornar peregrina na primeira passagem pelo Caminho de Santiago em 1999. Já fez o trajeto 14 vezes, sendo três saindo da França e as outras de Portugal. E não bastando ainda foi estudar na Universidade de Santiago da Compostela. O livro tem um texto primoroso, pessoal, interessantíssimo, profundo e com fotos belíssimas de sua autoria. Uma peça de edição sofisticada, um livro de mesa, cujo conteúdo bem que mereceria uma edição básica para atingir um público ainda maior.

Falamos também sobre seu envolvimento com projetos sociais em Portugal como Embaixadora da Plataforma do Agora, criada por uma portuguesa residente na Islândia que dá voz aos trabalhos sociais em mais de 60 países via rádio e outros meios de comunicação; diretora e fundadora de Zencancer e diretora de acontecimentos do Instituto Rope, instituição que realiza ações com portadores de doenças terminais. Na área literária, marca presença como membro da Academia Peregrina de Letras, cadeira 21, em São Paulo; participante da Academia Europeia de Escritores da Língua Portuguesa, Embaixadora do Instituto IMLUS, instituição do mundo da língua lusófona e Sócia Fundadora do MIMA – Museu Internacional da Mulher da Língua Lusófona.

Maria Alice não para. Com esse volume de conhecimento se tornou palestrante para peregrinos, mulheres 50+ e também no mundo corporativo onde fala sobre a capacidade de se reinventar. Ainda encontra tempo para ser mãe de três, avó de oito e cultivadora de amigos. Como consta no subtítulo do livro, “às vezes se ganhas às vezes se aprende”, e neste verão creio que percebeu que por aqui sempre sairá ganhando e aprendendo..

Esperamos um breve retorno!

As fotos da festa de Iemanjá são de Maria Alice…. as demais são dos amigos

Uma trajetória no showbusiness

Desde 1986 quando conheci a história de Dody Sirena, quis contar em um livro. As primeiras anotações foram em 1994 e, de lá pra cá, acompanhando sua trajetória, fazendo parte da equipe em diversos projetos, tentei algumas vezes convencê-lo o quanto poderia servir de inspiração para tantos outros sonhadores… Foram algumas negativas, sempre gentis. De tempos em tempos eu voltava ao assunto, até que em dezembro de 2021 acendeu uma esperança…Ele já havia trilhado um longo e bem-sucedido caminho no showbusiness, havia enfrentado a pandemia e, ao contrário de muitos empresários, não se retraiu, mas expandiu os negócios. Foi numa conversa por telefone que propus escrever o livro. Partiria do que vi, dos relatos de muitos profissionais com quem trabalhou, familiares, amigos, além de uma grande pesquisa. Se aprovasse publicaríamos.

Em novembro de 2023 entreguei os originais para análise. Ele ia embarcar alguns dias depois para fechar um grande negócio em Nova York, ficaria alguns dias com uma agenda mais tranquila e poderia ler. Dias depois enviou a mensagem que estava gostando bastante e quando voltasse queria conversar a respeito de algumas passagens. Foram duas longas conversas online quando trouxe comentários relevantes que engrandeceram o meu relato.

E assim, em maio de 2024 “DODY SIRENA, OS BASTIDORES DO SHOWBUSINESS”, lançado pela Matrix Editora, foi lançado com noites de autógrafos no Rio e em São Paulo, e a programada para Porto Alegre foi adiada para novembro devido as enchentes na cidade.  Ótimas críticas, muitas entrevistas e a surpresa para muitos do quanto esse homem construiu em mais de quatro décadas.

Quem quiser conhecer essa história, pode adquirir o livro no link abaixo…

https://matrixeditora.com.br/produtos/dody-sirena-os-bastidores-do-show-business/

Saindo do armário

Estou no clima de “Mudanças”, igual a música da Vanusa e do Sérgio Sá onde sou parceira com o texto falado. Trocando de quarto, fazendo limpeza nos armários constato mais uma vez que a função do guarda-roupa duplex é ser depositário de tudo o que não faz a menor falta no dia a dia, mas acreditamos que um dia vamos precisar… E assim passam anos com “fantasmas” presos em malas e caixas… Esta arrumação era inevitável, procrastinada diversas vezes quase que falou por si pedindo socorro. Me liberte, parece que diziam as caixas de CD e DVD. Estou em tempo de reduzir as memórias físicas, afinal está tudo na nuvem. Já tinha doado uma parte, não tenho nem equipamento e agora resolvi guardar somente registros muito especiais onde o meu trabalho aparece creditado no encarte ou com enorme memória afetiva que poderiam até se transformar em quadros.

Foi assim ao rever “Alma Mater”. Se tivesse que escolher apenas uma trilha sonora dos meus tempos morando em Lisboa seria esta. Descobri por acaso ao ouvir no rádio de um taxi e me encantei com a sonoridade do Rodrigo Leão, ex integrante do grupo Madredeus, que fui direto ao El Corte Inglês, uma enorme loja de departamentos, encontrar este que seria meu grande companheiro em terras lusas.  Além desta “alma” guardada estavam outras memórias que fui folheando e me levando aos momentos em que um dia foram importantes.  Folhear o passado é bom, mas o melhor é começar um álbum novo de figurinhas….

Em tempo : Rodrigo Leão e “Alma Mater” facilmente encontrado no Spotfy e outras plataformas. Trilha nova na casa !

Ipanema Adeus

Está rolando nas redes sociais no sul da Bahia um trecho do filme “Ipanema Adeus” com imagens do centro e cais de Santa Cruz Cabrália datado de 1974. O filme tem roteiro, direção e produção do Paulo Martins, primeiro marido, pai do meu filho, e começou a ser desenvolvido quando estávamos nos separando. Na sinopse Carlos, um executivo carioca de meia idade com um emprego estável e uma grande família, diante uma crise existencial abandona tudo e se muda para a Bahia para iniciar uma nova vida. O tema muito parecido com o que Paulo estava vivendo e, acompanhado dos protagonistas Hugo Carvana e Monique Lafond, viajou num fusca para filmar na região que, por total ironia do destino, eu vim viver há 20 anos. Razões totalmente diferentes me trouxeram, mas me levam a refletir sobre as “coincidências” da vida.

Há algumas semanas fui procurada por Diego Hamilton Reis, um professor de Porto Seguro que, junto com outros interessados na preservação da memória da cidade, está debruçado sobre as cenas dos anos 70. Considera um registro raro em formato audiovisual que mostra o casario, o cotidiano, personagens locais. Ele estava querendo localizar Paulo Martins, mas chegou tarde.

Paulo me visitou diversas vezes e ficaria imensamente feliz ao saber do legado de sua obra. Hoje quando completa cinco anos de sua partida, faço essa homenagem e convido aos interessados a assistir “Ipanema Adeus” disponível no Youtube…
Salve Paulinho !!

…e lá se foram 20 anos

Foi morando em Portugal, trabalhando no Rock in Rio-Lisboa, que um dia acordei decidida a parar de trabalhar por 6 meses. Os anos anteriores foram de glórias profissionais, perdas e dúvidas pessoais. Voltei ao Brasil, fechei o apartamento no Rio e vim para Vila de Santo André, Sta Cruz Cabrália, Bahia, que eu conhecia bem. Vim para a casa que era do meu irmão e que após sua partida minha mãe herdara. Cheguei com algumas malas, muitas interrogações, o desafio de vender a casa e buscar meu prumo.

Hoje fazem exatamente 20 anos que cheguei.  Me atirei como num trapézio sem rede para a experiência de viver num povoado à beira mar, na época com menos de 400 habitantes. Foi como ouvir de novo “eu caçador de mim” que me inspirou nos anos 80 a deixar tudo e ir morar em Nova York. Se lá deu certo, por que não tentar?

O destino fez sua parte e trouxe o recurso para comprar a casa. Fui de pedaço em pedaço, assim como os mosaicos, as colchas de retalhos e de crochê que faço montando um quebra-cabeça mental. Descobri que podia trabalhar em home office com internet discada. Primeiro seriam 6 meses que se tornaram dois anos e no dia em que decidi ir embora, fui convidada para ser Secretária de Cultura. Irresistível!

Ganhei muito em qualidade de vida. Tudo mais simples, apesar das dificuldades para uma urbanoide em estar numa área semi rural. Escrevi três livros, textos em blogs, criei o site da região em 2006, fui secretária de Comunicação em outra gestão e, seguindo um amigo craque em turismo, abri a minha casa para receber viajantes. Cidadã Cabraliense, título na parede e no coração, me tornei conhecida numa cidade onde não tinha raízes e adoro quando andando pela rua alguém diz: “oi dona Léa”.  

Fui mais longe do que podia sonhar. Agradecimentos são muitos, tantos amigos e histórias que preencheriam um livro.  Quem sabe um dia. Acompanhei a transformação do povoado, muros onde haviam cercas, uma comunidade amigável de nativos e chegantes. Estou cercada pela exuberância da natureza com pássaros, marés, luas, sons e movimentos que me falam sobre a impermanência dos tempos. Tudo é fluído.  E a vida é boa.

Para celebrar a data foto da Cláudia Schembri