Jovem

Hoje acordei me sentindo muito jovem aos 76 anos….

Creio que é efeito retroativo do Altas Horas de sábado que teve um desfile de talentos com mais de 80.

Escuto e cantarolo Caetano, Gil e Ney desde sempre… Sou dessa geração…

Ouvi no rádio, em LPs, fitaK7, cd, ao vivo, em todos os formatos possíveis.

É um privilégio ser testemunha dessa história…

Na abertura com a introdução de “Alegria Alegria”, rejuvenesci… Me senti nos tempos dos festivais…

As músicas não envelhecem, nem nós…

Por isso estreio foto nova… Sem filtro ou photoshop…

Fotos @igorpaixaofotografia

Turismo é negocio sério.

Sempre gosto de lembrar: minha essência não nasceu do turismo. Mas ao escolher viver em uma região cuja principal possibilidade de desenvolvimento está no turismo, precisei me reinventar. Foi assim que agreguei minha trajetória em comunicação e eventos à criação do http://www.santoandre-bahia.com, que em 2026 completa 20 anos, e ao Festival da Lagosta, que chega à sua 8ª edição este ano. Com o tempo, passei também a integrar o Conselho de Turismo de Santa Cruz Cabrália, me disponibilizando a ouvir quem realmente entende do assunto.

Não é todo dia que, no extremo sul da Bahia, temos a oportunidade de dialogar com quem conhece os caminhos do turismo. Por isso aceitei com alegria o convite para um encontro com Divaldo Gonçalves, uma conversa simpática e rica sobre o plano Avança Turismo. Divaldo sabe o que fala. E muito bem. É diretor de Regulação e Certificação de Serviços Turísticos da Setur-BA e interlocutor estadual do Programa de Regionalização do Turismo do Ministério do Turismo.  

A Bahia conta com 13 zonas turísticas que derivam 16 câmaras técnicas, pois uma zona se subdivide em mais de uma câmara, e entre elas a da Costa do Descobrimento, que abrange: Belmonte, Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro e Guaratinga. Em processo de adesão – Itabela e Eunápolis. É através dessas câmaras que o Ministério do Turismo certifica atividades e qualifica serviços, orientando ações como capacitação profissional, incentivo à regularização de empreendimentos, melhoria de infraestrutura e promoção do desenvolvimento sustentável.

Tudo isso reforça uma verdade simples: turismo é assunto sério. O turismo não é um conceito estanque, preso a fórmulas prontas. Ele se move, se transforma e se reinventa junto com os anseios de cada sociedade. À medida que os desejos das pessoas mudam — seja por mais sustentabilidade, por experiências autênticas ou por vivências coletivas — o turismo também se adapta, criando novos caminhos. O turismo é coletividade, não é projeto solo. O que antes era experiência, hoje a proposta é para vivências.  O que podia ser visto apenas como lazer ou consumo, hoje ganha dimensões de pertencimento, identidade e preservação cultural. É essa natureza dinâmica que torna o turismo um desafio constante, mas também uma oportunidade única de alinhar desenvolvimento econômico com os sonhos e valores de cada comunidade.

Conhecer o Avança Turismo Bahia foi, acima de tudo, entender que ainda temos muito a aprender e a conquistar para o futuro de nossa cidade. Os objetivos são fortalecer o setor turístico, apostando em ações estruturantes como capacitação de profissionais, apoio à regularização de empreendimentos, elaboração de diagnósticos de infraestrutura e incentivo ao turismo sustentável. Com isso, busca-se ampliar a qualidade da oferta turística, gerar emprego e renda e valorizar as identidades locais, sempre em diálogo com municípios, empresários e comunidades.

 Esses encontros aproximam gestores públicos, guias, trabalhadores do setor e representantes da sociedade civil, estimulando a cooperação regional e a construção de estratégias conjuntas. A ideia central é que cada destino possa se reconhecer dentro de uma rede mais ampla, consolidando a Bahia como referência em planejamento territorial e turismo de experiência no Brasil. Eu acredito. Adorei o encontro Divaldo, que outros se repitam… E conte comigo na plateia.

Entre cupins, colmeias e canções…

“As aparências enganam”, música de Sérgio Natureza e Tunai, não sai da minha cabeça desde que precisei cortar uma árvore.
O tronco largo crescia inclinado sobre um chalé e, no topo, havia uma casa de cupim. Um amigo que entende do assunto recomendou retirar, pois poderia cair no telhado.

Chamei o rapaz da serra elétrica. Ele prendeu cordas em outras árvores para reduzir o impacto das quedas e, quando chegou ao alto, descobriu que a casa dos cupins estava vazia. Em compensação, ao ligar a serra percebeu que a árvore estava oca. Mas não abandonada.

Dentro dela havia uma enorme colmeia. Abelhas pequenas, sem ferrão, produziam um mel levemente cítrico. O trabalho era engenhoso: favos com estruturas hexagonais de cera, feitos pelas abelhas operárias. Como pequenas gavetas, servem para armazenar mel, pólen e também para que a rainha deposite os ovos, que se transformarão na nova geração.

Consultei Jean e Carlos, da Fazenda Arimugue, que têm grande experiência em meliponário (colmeias de abelhas sem ferrão) e apiário (colmeias de abelhas Apis). Eles recomendaram deixar os troncos próximos de onde estava a árvore. Assim, quem sabe, as abelhas continuam por lá até dezembro, quando eles voltam de viagem e poderão transferi-las para uma casinha.

Todo dia a gente aprende alguma coisa. E, mudando a trilha sonora, lembro outra canção: “Vivendo e aprendendo a jogar”, de Guilherme Arantes, eternizada na voz de Elis Regina.

“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”

Sobre a Pousada Victor Hugo

Esse cenário me remete a uma história…

Na segunda metade dos anos 80, os amigos Victor e Ugo deixaram o Rio de Janeiro rumo a Porto Seguro. Um dia, decidiram explorar o litoral norte e, dirigindo um buggy até o fim da estrada, chegaram a um rio. Não havia balsa para cruzá-lo — apenas um barquinho. Conduzidos por um barqueiro, seguiram por uma trilha que margeava o mangue até a praia… e se encantaram. Era um vilarejo com pouco mais de 200 moradores. Decidiram comprar um terreno e construíram uma casa. Depois, veio a ideia de uma pousada. Adquiriram uma área à beira-mar.

Nascia ali uma sociedade perfeita. O nome unia os dos empreendedores e homenageava o escritor francês Victor Hugo, que ambos admiravam. Ugo, que morava em Milão, trazia o bom gosto e a arquitetura na alma. Victor, em Ipanema, vinha do mercado financeiro — era administrador e ótimo de conversa. Assim, em dezembro de 1994, foi inaugurada a Pousada Victor Hugo.   

No início, havia apenas o salão, o bar, a varanda, a cozinha, dois chalés e as espreguiçadeiras na praia. O jardim ainda era árido, a restinga rasa. Criaram, então, um jeito diferente de receber — sentido nos lençóis e toalhas sempre brancos, no clima elegante e descontraído que fazia os hóspedes se sentirem em casa. Tudo muito exclusivo, único, com glamour num clima de acolhimento com axé e estilo. No bar variedade de destilados, fermentados e o espumante sempre gelado; o cardápio era enxuto, com destaque para o inesquecível peixe ao molho de vinho.

Assim, na base dos bons relacionamentos e de “boca a boca”, passaram a ser descobertos por hóspedes notáveis. Tempos em que, no salão, na varanda ou na praia, corriam conversas inteligentes entre atores, escritores, terapeutas, acadêmicos, cantores, jornalistas, doutores e investidores — gente que buscava privacidade até para um topless livre à beira-mar. Nos pés a tradicional sandália havaiana e, em noites mais frescas, jogado nos ombros um cashmere autêntico. Trilha sonora do jazz aos clássicos da mpb. Atrás do balcão do bar, o bom humor (às vezes ácido) dos proprietários também ajudava a fortalecer a marca.

Victor conduziu a pousada até sua morte, em dezembro de 2001. Ugo a vendeu em março de 2014. A Pousada Victor Hugo tornou-se referência e símbolo de pioneirismo no turismo da orla norte de Santa Cruz Cabrália, deixando boas memórias para todos que por lá passaram — ou ouviram suas histórias.

No salão, entre peças contemporâneas trazidas da Itália e arte local, havia sempre uma obra do escritor Victor Hugo. Em francês, é claro. E dele extraio uma frase que parece escrita para essa história: “Não há nada como o sonho para criar o futuro.”

E, quando não se tem mais sonhadores, fica assim, abandonada, coberta de folhas secas. Apenas memórias…

Fotos 2006 Alexandre Campbell @xandecampbell

Eu, a mídia e a lagosta…

Em 1985, deixei a redação do jornal O Globo. Montei um pequeno escritório na área de serviço de casa e comecei uma nova fase: fui ser assessora de imprensa. Naquela época, os profissionais que promoviam artistas e eventos na mídia ainda eram chamados de divulgadores.
Comecei com dois grandes nomes: Renata Sorrah, que estreava como produtora e atriz na peça Grande e Pequeno, e Ivan Lins, em temporada no Canecão.
Eu conhecia bem os críticos de teatro e música do Rio de Janeiro. Mas queria ir além, ampliar a visibilidade dos meus clientes. Fui a uma banca de jornais na Av. Rio Branco, daquelas bem sortidas, e comprei um exemplar de cada jornal e revista. Liguei para todos os veículos, anotei nomes e endereços dos profissionais que atuavam nas editorias de variedades, turismo, negócios, música e teatro — e assim nasceu meu primeiro mailing.
Ele foi datilografado, encadernado e, anos depois, virou um programa no meu primeiro computador. Bastava digitar o segmento e a cidade, e surgia uma lista completa, pronta para imprimir etiquetas. Era tão inovador que virou matéria na recém-lançada página de informática do jornal O Globo.
De lá pra cá, muita coisa mudou. Segui na comunicação estratégica, gestão de crise, criação de projetos e, pontualmente, mantendo contato com colegas da imprensa. Mas este ano resolvi, mais uma vez, colocar a mão na massa.
Buscando me atualizar, testei plataformas que oferecem mailings segmentados. A tecnologia é ótima, mas o resultado foi pífio. Não me interessa disparar e-mails genéricos rumo à caixa de spam. Quero falar com quem realmente se interessa pelo conteúdo.
Desta vez, promovo um evento que criei e muito me inspira: o Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, que chega à sua 8ª edição. Vamos trabalhar fortemente as redes sociais e investir num marketing criativo e eficiente. Mas… ainda sinto falta de um bom mailing nacional.
Como já não temos mais bancas repletas de jornais e revistas, compartilho essa história pois quem sabe você conhece veículos ou profissionais que tenham interesse em receber pautas incríveis — e com gosto de lagosta fresca — sobre um festival que acontece de 10 a 19 de outubro, entre em contato comigo.
Vai ser um prazer reconectar!

A árvore da felicidade

O cajueiro que voltou a cruzar o caminho do mar….

Do que me lembro, lá pelos fins dos anos 60, era comum encontrar nas salas de estar ou nos jardins das casas uma árvore da felicidade. Frondosa ou em versão bonsai, diziam que bastava ter um casal — macho e fêmea — para atrair alegria duradoura.

Tive várias ao longo da vida, até chegar à Bahia… E encontrar, não uma árvore, mas um jardim com alma de floresta.

Hoje completo 21 anos em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, Bahia. E não tenho árvore da felicidade no quintal. Nem preciso.
Aprendi a ser feliz entre árvores com nomes que soam como cantigas: aderno, araçá, angelim, almescla, araticum, aroeira… E mais: bananeira, cajueiro, coqueiros, dendezeiro, embaúba, flamboyant, jambolão, limoeiro.
Algumas são heranças do meu irmão Victor, que ergueu esta casa. Outras, dádivas dos pássaros.
Plantei apenas o jambolão, que hoje é um gigante. Seus frutos roxos tingem o chão como se o tempo ali se materializasse em cor.

Algumas árvores têm histórias. Como o cajueiro cuja galha atravessava a cerca e sombreava o caminho para a praia. Estava esplêndido, até que o vizinho pediu para cortar.
Queria a passagem livre para um caminhão.
Disse “não” de pronto — busque outra solução, respondi.
Mas ao voltar pra casa, a dúvida me agarrou: o que pesa mais — a galha do cajueiro ou a boa convivência com o vizinho?
Cortei a galha.
O cajueiro, generoso, não se ofendeu. Voltou a crescer. E sua nova galha, agora mais alta, já se estende, atrevida, pelo mesmo caminho…

Com honra, sou Cidadã Cabraliense. O diploma está na parede — mas o reconhecimento vem daquilo que construí aqui.
Tive o privilégio de servir duas vezes à cidade onde o Brasil começou. Fui Secretária de Cultura e Secretária de Comunicação.
E vi a Vila de Santo André, que me acolheu com 350 moradores, crescer para mais de mil almas.

Um vilarejo resume uma grande cidade: os problemas são os mesmos, mas as alegrias e os conflitos nos tocam mais de perto, como se fossem parte da própria pele.

Nestes 21 anos, tive quatro cães.
Escrevi três livros. Criei um site que vai completar 20 anos, um blog e redes sociais.
Aprendi a costurar bonecas de pano, colchas de retalho. A fazer pilates 3 vezes por semana. A dormir com a janela aberta para ver a lua passeando no céu.

Sou anfitriã de pessoas adoráveis que passam por minha casa o ano todo. Um prazer receber. E fiz novos amigos.
Com as flores do hibisco, aprendi sobre a finitude e o mais essencial: a vida é breve.
Mesmo em toda sua beleza, o hibisco dura apenas 24 horas.

A cada ano, uma nova pergunta me visita: até quando?
E hoje, respondo com o que aprendi entre raízes e galhos:

Enquanto eu for feliz.

O Globo e eu

Na edição de hoje memórias dos que por lá passaram

Assistindo à série 100 Anos do Jornal O Globo, entendi por que fui contratada como repórter do Segundo Caderno em novembro de 1976. Evandro Carlos de Andrade havia assumido, cinco anos antes, o cargo de diretor de Redação com o objetivo de reformular o jornal, tanto graficamente quanto editorialmente. As mudanças incluíram a criação da edição de domingo, o uso de cores, novos suplementos e a conquista de leitores e anunciantes nos subúrbios. E por indicação do Edgard Catoira, meu editor na revista TV Guia da Editora Abril, que lá cheguei.

Meu primeiro dia na redação foi inesquecível. O espaço era enorme, sem ar-condicionado, com móveis antigos. A equipe era formada por intelectuais de diversas áreas da cultura. Exceto Joana Angélica Gusmão, que eu já conhecia da época da Bloch Editores, não conseguia imaginar nenhum dos meus novos colegas fazendo entrevistas cotidianas com artistas da televisão. Essa era a minha especialidade.

Em oito anos de jornalismo, eu havia construído ótimas relações com atores, cantores, gravadoras e radialistas — do popular ao erudito —, embora ainda houvesse quem visse esse universo como um subproduto cultural. A TV Globo completava 10 anos, consolidava uma programação de alto nível e esperava que o jornal do mesmo grupo refletisse esse prestígio editorial.

Minha estreia foi com uma matéria sobre comportamento, mostrando que havia muitas formas de abordar a televisão. O programa Planeta dos Homens, exibido às segundas-feiras, trazia um quadro em que Taborda (Jô Soares) perguntava ao Fonseca (Paulo Silvino): “Será que aguenta?”, ao que ele respondia com um sonoro “Guenta!”. O bordão foi adotado por milhões de brasileiros — a população do país na época era de cerca de 42 milhões — e passou a ser repetido em todas as situações. A matéria abordava o nascimento dos bordões, a trajetória do comediante e o sucesso do programa.

A segunda matéria, com o título Os fãs escrevem a seus ídolos (e falam de seu amor, de sua paixão, de seu desejo etc. etc.), era aparentemente óbvia. Afinal, com o sucesso das novelas, esperava-se que os artistas recebessem muitas cartas — mas ninguém havia feito uma reportagem sobre isso. Pedi autorização à diretora de elenco Maria Augusta Mattos, a Guta, e também a alguns artistas, para analisar o conteúdo de centenas de cartas que chegavam diariamente à emissora, entregues em grandes sacolas de lona pelos Correios. Os destinatários mudavam de acordo com o sucesso do personagem na novela. Havia declarações de amor eterno, promessas de TVs, casas, viagens… De todo o elenco, a única que mantinha um volume constante de correspondência, estivesse ou não no ar, era Regina Duarte.

Em menos de seis meses, tive a honra de cobrir as férias do colunista Artur da Távola. Para quem não conheceu, Artur da Távola era o pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, advogado, senador cassado durante o regime militar, exilado na Bolívia e no Chile, e crítico de televisão. Seu texto era profundo, poético, doce e encantador. Conquistou milhares de fãs. No lançamento de seu primeiro livro, Mevitevendo, em 1977, encontrei  a maior reunião de artistas fora da tradicional gravação de fim de ano da emissora. O convite para substituí-lo foi um enorme prestígio — ainda mais por ter sido uma escolha dele próprio. Um verdadeiro aval ao meu trabalho perante uma redação repleta de notáveis.

Mostrando o outro lado da telinha — e também cobrindo estreias e temas de interesse da empresa —, meu texto começou a ganhar espaço. Passei a ser chamada por outras editorias para cobrir matérias como o réveillon em Copacabana e a premiação Operário Padrão, eventos organizados pelo Departamento de Promoções, onde conheci a querida Sheila Roza.

Em 1980, na onda dos novos suplementos, surgiu o Caderno de TV, uma revista que circulava aos domingos totalmente dedicada ao tema. Moyses Fuks, que me levara ao jornalismo na Bloch Editores e profundo conhecedor de televisão, foi convidado para dirigir. Fechou o contrato, mas não pôde assumir no lançamento. Assim, produzi as duas primeiras edições junto com Flávia Villa-Boas, então editora de moda e comportamento.

Eu já intercalava reportagens de TV com shows e discos, e fui, aos poucos, mudando o foco. Popularizei o caderno com matérias deliciosas, como Sidney Magal em um clube do subúrbio, em meio ao delírio das fãs; ou Gretchen, que fazia três shows por noite, trocando de roupa no carro e cantando em um palco improvisado com quatro mesas, Wando recebendo uma “chuva” de calcinhas em pleno show… Ao mesmo tempo, entrevistava nomes como Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento… e por aí vai.

Minha história com O Globo daria um livro. Foram cinco anos iniciais, depois de quase três anos fora, morando nos Estados Unidos, ao retornar foram mais dois anos incríveis, iniciando minha relação com o Rock in Rio, em 1985. Até que virei a chave: deixei de ser pedra e virei vidraça. Fui ser assessora de imprensa.

Mas isso… já é outra história.

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O Cacique Cobra Coral e eu

Osmar Santos quando me visitou de surpresa na Bahia em plena pandemia.

Em setembro de 2000 li uma pequena nota na coluna Informe JB do Ancelmo Góes sobre a previsão da Fundação Cacique Cobra Coral de muita chuva para janeiro num período próximo ao Rock in Rio que retornava à Cidade do Rock num projeto aguardado por muitos anos. Eu era diretora de comunicação do festival, nunca tinha ouvido falar na Fundação, e pedi a Ju (Juliana Braga) que era da equipe para localizar o endereço e enviei um email.

Passaram alguns meses, eu já tinha esquecido o assunto quando em dezembro chegou resposta da fundação que se apresentava como uma entidade Científica Esotérica especializada em fenômenos climáticos, comandada pelo Cacique Cobra Coral, espírito que em outras encarnações teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Podia parecer uma doideira, mas levei o assunto a sério. Por telefone conversei longamente com Osmar Santos, representante da Fundação, que confirmou ser possível evitar chuvas ou transferi-las para outras regiões com a força do vento através do trabalho espiritual do Cacique Cobra Coral.

Estávamos em dezembro e chovia no Rio. Em um projeto do tamanho do Rock in Rio a chuva era uma grande ameaça. Como Roberto Medina me conhecia há muito tempo, sabia que tinha espaço para falar qualquer coisa, mesmo um assunto insólito como esse.  Entrei nas sua sala certa da privacidade e descarreguei estas informações. Quem sabe contratar o Cacique Cobra Coral para não chover?

Ele pode não ter acreditado, mas como sempre elegante e aberto para ouvir as opiniões da equipe, respeitou a minha preocupação e ficou de pensar no assunto.

O século 20 terminou na Cidade Maravilhosa debaixo de muita chuva. Na segunda-feira 8 de janeiro todos os serviços de meteorologia anunciavam tempo ruim para a semana, incluindo dia 12, sexta-feira, abertura do festival esperado há 10 anos. E foi neste dia 8 que choveu muito, um grande teste para a capacidade de água na Cidade do Rock. Os técnicos e engenheiros justificaram como ótimo para se precaverem, mas na minha cabeça era o prenúncio de mais um festival na lama. Foi quando Roberto me chamou em sua sala dando carta branca para contratar a Fundação Cacique Cobra Coral. Pediu sigilo, tanto na mídia quanto na equipe.

A proposta oferecida pelo Cacique era que a força do vento levasse a chuva para regiões de seca. Se chegou em algum lugar de seca, não sei, mas a partir daí só quem tem fé pode acreditar no que aconteceu. Na sexta-feira e sábado choveu em vários pontos do Rio de Janeiro, inclusive nas proximidades da Cidade do Rock, mas lá dentro nenhuma gota. Na abertura do festival, no momento dos 3 minutos de silêncio pela paz no mundo, até apareceu um tímido sol em meio nuvens cinzentas, fato registrado em diversas fotos. O assunto não foi divulgado, podia virar a piada e em nada acrescentaria ao sucesso do evento… Mas alguns meses depois com o sucesso do festival, o assunto transpirou e muitos produtores passaram a contratar a Fundação Cacique Cobra Coral para garantir um bom tempo em seus eventos ao ar livre.

Mudam os tempos, mas os desejos são iguais

Entrei no túnel do tempo quando, segunda-feira, pouco antes das 7 da manhã, iniciando os alongamentos no pilates, fui interrompida com um carro parando na porta do estúdio e dele saindo a professora puxando uma malinha, ainda com o figurino da noite .

Eu ali me vi há mais de 50 anos, recém separada, com um filho pequeno, voltando à vida social nas noites do Rio de Janeiro nos anos 70. Exatamente o que acontece com a Tai, a fisioterapeura que há 9 anos me iniciou no pilates e mora ao lado do estúdio.  E quem conhece a Bahia sabe que esta é a época das grandes festas/shows e, aproveitando o novo status, voltava com uma amiga da melhor de todas no sul da Bahia, o Pedrão na cidade de Eunápolis.  

Enquanto ela trocava o vestido preto e as botas pela calça legging e a camiseta do pilates, continuei nas minhas práticas e pensamentos. De repente, me vi pegando um taxi na porta do prédio onde morava em Botafogo rumo ao Flag, o bar que o Chef Zé Hugo Celidônio abrira em Copacabana, uma das maravilhas das noites cariocas no início dos anos 70.

O Flag fora instalado em uma uma casa dos anos 30 na esquina das ruas Aires Saldanha com Xavier da Silveira.  Na parte de cima, um piano-bar onde se revezavam alguns pianistas, me lembro do Laércio Freitas e Luiz Carlos Vinhas, sempre acompanhados de crooners incríveis, como Emilio Santiago. Ao longo da noite passavam notáveis para dar uma “canja”, como Johnny Half, Simonal e Nara Leão (gravou um álbum ao vivo, “Palco, Corpo e Alma”). Na parte de baixo havia um elegante restaurante estilo parisiense, o L’Orangerie.  Zé Hugo morou em Paris na década de 50 e ganhou notoriedade por adaptar técnicas de pratos de tradições italiana e francesa com temperos brasileiros.  

Apesar de todo esse luxo e glamour, nada impedia que, por “costumes da época” ou para proteger os frequentadores elegantes de “moças da noite”, era proibida a entrada de mulheres desacompanhadas… Que tempos!!! Como jornalista, frequentadora assídua, quando chegava sozinha o porteiro para seguir as regras, chamava um dos músicos amigos para me receber e assim liberava o acesso. Tenho na memória grandes momentos…. Muitas risadas, copos de whisky com muito gelo, uma nuvem de fumaça no ar – sim, todos fumavam muito – e entre os tantos shows inesperados um momento único: Simonal cantando “Tatuagem” encostado ao piano.

Sem o clima intimista do piano-bar, Tai está vivendo seu momento de liberdade definido como “adolescente com cartão de crédito”. A desnecessária companhia de um homem para entrar em qualquer lugar, faz uma grande diferença. O cartão de crédito e a autonomia profissional também. Com as amigas foi curtir as noites do Pedrão e os shows de Ivete Sangalo, Belo, Ana Castela, Maiara Maraisa e grande elenco. E ainda fez registro para a posteridade no paredão “instagramável”. Se não sumirem do celular, essas fotos serão uma ótima lembrança quando chegar na minha idade. Lamentavelmente não tenho qualquer foto das noites no  Flag… Mas na memória passa um filme…

Lembrando Raul…

Nas celebrações dos 80 anos de Raul Seixas, volto ao passado e lembro do selo criado pela Artplan para os Correios como ação do Rock in Rio 1991…Toca Raul…

No livro “A Verdade é a Melhor Notícia”, conto detalhes como o Rock in Rio 1991 começou a ser planejado após Roberto Medina ter sido libertado pelos sequestradores e como foi fundamental para a mudança na promoção de eventos em geral… Segue parte do texto…

“No dia seguinte (ao retorno do sequestro), antes mesmo de Roberto (Medina) ter qualquer contato com a imprensa, o Presidente da Coca-Cola, Jorge Giganti, telefonou dando sinal verde para o festival que aconteceu seis meses depois, em Janeiro de 91, no Maracanã.  Era sinal de bons tempos. No final de julho organizamos uma super entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã para anunciar o evento. Trouxemos jornalistas de diversos Estados, uma mega repercussão, porém alguns dias depois surgiu na imprensa uma notícia muito estranha: o Maracanã estaria com sérios problemas na estrutura e poderia cair. Bom, ao que consta era uma jogada política. O governo estadual do PDT sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto teve com o sequestro e isso poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado.

Roberto, por questões estratégicas, preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio, pois cada jornalista que se aproximava vinha com a mesma pergunta: “o Maracanã vai cair ou não?”. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política mas ganhar espaço na mídia, resolvi destrinchar os “riders técnicos” e transformar em notícias. Rider técnico é uma espécie de manual de instrução que acompanha o contrato de qualquer artista e/ou banda onde consta tudo o que o contratante deve fornecer para o show acontecer da maneira que o artista quer. Lendo os riders descobri um baú de maravilhas para alimentar a imprensa.

Era isso que eu precisava para ter espaço nas publicações. Separava as notícias por veículo, dando exclusividade a fatos como que Billy Idol ia trazer seu “chef de cuisine” para preparar as refeições no camarim; que Axl Rose queria duas dúzias de rosas brancas e o mesmo número de rosas vermelhas no hotel; as exigências de George Michael vinham num livreto de 55 páginas e constavam garrafas de vinho branco francês (Chablis ou Chadornnay), vinho tinto  também francês (Gevrey, Chambertin Nuits St.George), pães de trigo e centeio, sete variedades de frios, sete variedades de frutas, seis litros de suco natural, água mineral francesa Evian ou Perrier, além de um rabino para preparar seus alimentos no tradicional estilo kosher servido num camarim  que deveria ser enfeitado com quatro palmeiras e cortinas azuis. Detalhe: sua roupa só podia ser lavada com sabão biodegradável. Distribuí com todas as medidas a receita de um bolo especial de batata com carne, típico da culinária irlandesa, pedido por Joe Cocker, além das lendárias 200 toalhas brancas que Prince exigia em cada uma de suas apresentações. O resultado de divulgação foi excelente. A partir daí, os riders técnicos passaram a fazer parte de todas as assessorias de imprensa.

Mas precisávamos de muito mais. Nos Estados Unidos e Europa estávamos cobertos com duas assessorias que trabalhavam com os maiores nomes da música internacional. Os escritórios do Lee Solters, em Los Angeles e o de Laister&Dicknson, em Londres, trabalhavam diretamente com a minha equipe. Formamos um bom time e tivemos poucos pontos de stress. Roberto Medina entende muito de comunicação, é um campeão na relação com a imprensa. Mas até definir a situação do Maracanã optou ficar de fora e estimulada, comecei a criar tudo o que pudesse gerar notícia. Ele ainda estava nos Estados Unidos contratando o cast internacional quando um dia pensei que poderíamos ter um selo com a marca Rock in Rio. Um selo mesmo, feito pela empresa de Correios, comercializado nas agências de todo o país, pois havia lido em algum lugar que a memória do mundo se fez através de selos e moedas. Enviei a sugestão por fax e ele deu carta branca. Fiz contato com a diretoria do Correio, fui a uma reunião em Brasília e aprendi muito sobre os selos. Não poderia fazer o selo de uma marca/produto, mas poderia homenagear ícones da música e ninguém melhor do que Cazuza e Raul Seixas. Conseguimos de forma muito discreta colocar um dos ícones da marca do patrocinador, a onda da Coca-Cola, unindo as duas imagens junto à logo do Rock in Rio. No dia do lançamento chorei copiosamente de emoção, parecia que eu era mãe do Cazuza ou viúva do Raul…

Ainda fizemos a Escalada Rock – um festival para escolher uma nova banda que abriria um dos dias do festival e gravaria um disco, e o Vestibular do Rock, do qual tenho enorme orgulho… O Vestibular do Rock era mesmo para ganhar espaço na mídia, pois na verdade eu precisava de 8 a 10 estagiários para a sala de imprensa e poderia muito bem recrutar nas faculdades.  Coloquei uma pequena nota em um jornal, distribuí cartazetes em algumas universidades que já estavam terminando as aulas, achei que viriam não mais do que 50 estudantes e faríamos a prova no auditório da Artplan. No dia da inscrição cheguei à agencia me deparei com uma fila que subia e descia a sem saída rua Negreiro Lobato e seguia pela Av. Borges de Medeiros na Lagoa… Mais de 1000 inscritos, inventamos um teste de inglês para uma primeira seleção de onde saíram 800 e o vestibular foi realizado dias depois nas cadeiras da Tribuna de Honra do Maracanã… Subdimensionei a demanda e passei 2 dias corrigindo provas… As provas eram múltipla escolha com fatos da 1ª. Edição do festival, informações sobre os artistas da nova edição, detalhes estruturais, e uma redação.  Para identificar os melhores, comecei corrigindo a redação e dependendo das primeiras linhas eu seguia em frente ou eliminava o candidato.  Foram selecionados 10 rapazes e 10 moças, uma equipe de qualidade.

Tínhamos uma sala de imprensa no Hotel Rio Palace, hoje Sofitel, no posto 6 em Copacabana e outra no Maracanã. A sala do hotel recebia os jornalistas que iam para as coletivas e quase todos os artistas lá estavam hospedados. Um forte esquema de segurança para evitar assedio em áreas em que as estrelas circulavam e montamos uma superestrutura para atender a imprensa de diversas partes do mundo. Antes da primeira coletiva internacional, nos reunimos para acertar sobre a dinâmica, quando uma das garotas da equipe inglesa sugeriu que eu fosse a mestre de cerimônias em português e ela em inglês. Confesso que não conhecia este detalhe de cerimonial e foi com elas aprendi a fazer o “announcement” de uma grande estrela de forma mais artística.

A sala de imprensa do Maracanã foi instalada num dos vestiários. Alugamos dezenas de máquinas de escrever, alguns raros repórteres internacionais traziam seus editores de texto, primórdios dos notebooks. A informática engatinhava, a internet começava a aparecer ainda muito restrita desde 1988 e o festival fechou parceria com a Unysis, uma empresa americana de alta tecnologia em TI e software. Com isso caiu em nossa mão o desafio de viabilizar uma ação para ser feita na sala de imprensa com o objetivo de atender aos jornalistas e promover o produto. Comentando o fato nos dias de hoje, parece que estávamos no tempo das cavernas. Fomos extremamente ousados ao criar uma redação com editora, repórteres e duas tradutoras (espanhol e inglês). A cada dia os repórteres tinham uma pauta a cumprir que incluía cobrir os shows e a área vip, recolher no final da noite os números oficiais do festival referentes a venda de produtos, público, consumo de bebidas, personagens interessantes na plateia, entre outros.  Traziam detalhes exclusivos dos bastidores além das notícias dos shows que iriam acontecer no dia seguinte, incluindo set list e nome dos músicos. Todo este material era editado/datilografado em português e simultaneamente vertido para o inglês e o espanhol. Na madrugada uma equipe da Unysis recolhia estes dados, digitava e quando no dia seguinte chegávamos à sala de imprensa todo o material estava disponível em cinco gigantes computadores que hoje se assemelhariam a terminais de banco. Os jornalistas podiam ler na tela ou imprimir as informações tanto dos shows do dia anterior como os que aconteceriam naquele dia. Era simplesmente o máximo da tecnologia…

Entre as funções da sala de imprensa havia a tarefa de acompanhar os fotógrafos à frente do palco. Cada artista determinava em contrato qual o tempo que poderiam ser clicados em um espaço que chamávamos de “curral”, mas era privilegiadíssimo, bem em frente ao palco. Alguns não se incomodavam que os fotógrafos ficassem o tempo todo do show, outros autorizavam no máximo uma música e estabelecemos no máximo três músicas. Para evitar qualquer atrito entre fotógrafos e seguranças, fato muito normal, eu seguia junto com o grupo antes de cada show. Os profissionais se posicionavam da melhor forma e ficavam esperando o momento de serem convidados a sair, com toda a delicadeza… Foi por conta disso que tive o prazer de assistir de muito perto alguns artistas como Prince. Jamais vi um adulto tão pequeno, com um salto tão alto e uma bundinha tão estreita… Apesar da Guerra do Golfo ter estourado no dia da abertura do festival, o Rock in Rio II foi um sucesso…Um dos melhores casts que já vi em um festival. Obrigada Maria Rita Stumpf, Deborah Bermann e todos os estagiários.  Nada aconteceria sem vocês.

Tempos de recuperação pós rock. Não conseguia desligar da tomada. Minhas pernas estavam irremediavelmente marcadas com uma safena esclerosada e princípio de trombose diante das tantas horas em pé. Para acalmar aprendi a meditar, reabri o escritório e segui minha vida. “

Momento em que recebi do representantes dos Correios o primeiro selo.

Com Lucinha Araújo, Jorge Gigante então presidente da Coca-Cola, Caio Valli diretor da Artplan