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…um beijo da Bahia

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Ontem pela manhã ao ler a crônica do Artur Xexéo as lágrimas salgaram o meu café com leite. Fui engolindo o choro e o pão, numa tristeza profunda com o meu Rio de Janeiro. Hoje a cena se repetiu ao ler sobre a morte do Franco Paulino.  Choro com saudades de um Rio e de pessoas que não verei mais. Choro com saudades de mim, do tempo em que descobri o mundo ao sair da Tijuca para encontrar em um anuncio de jornal um emprego de recepcionista na MPM na Av. Presidente Vargas. Foi ali que a vida se revelou. Na imensidão de informações com a qual eu era bombardeada todos os dias. Eu querida saber tudo, ver tudo, entender tudo, mesmo que o começo fosse em uma pequena mesa de recepção. Foi lá que conheci Franco Paulino que me apresentou a Capinam, o poeta compositor que também era redator de publicidade. Foi através dele que fiquei próxima de Genaro Mendes de Moraes, Luiz Duboc, Oswaldo Sargentelli Filho, os seus meninos da criação da MPM… Foi neste tempo que o Leblon ficou mais perto com os fins de semana passados na casa da Marisa e do Claudio Kuck; foi quando aprendi a admirar as fotos do Zeca Araujo; a dançar de me acabar nas noites na Estudantina e na Banda Portugal; de conhecer Anibal Machado e devorar apaixonadamente “Cadernos de João”; de assistir ao musical “Hair” e ver todo mundo nu em cena. Tudo isso era mais que uma montanha russa cheia de loopings na cabeça de uma garota de 19 anos que queria ser psicóloga e no meio do caminho descobriu a publicidade. Foi uma dose muito forte de liberdade. Choro por sentir que nada mais do que possa acontecer em minha vida chegará próximo daquele sentimento de deslumbramento frente a um mundo novo. Fui feliz e sabia… Saudades Franco, saudades Rio de Janeiro… Mando um beijo da Bahia…

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A pasta verde

 

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Com dois meses de antecedência a agenda foi marcada para 5 de junho às 15hs. Cheguei meia hora antes. Missa se espera na igreja. Na sala, com ar condicionado congelando, procurei um local menos frio e me acomodei com a pasta verde na mão.  Os pensamentos acompanharam os minutos passando no relógio digital, pulando de mantras à orações e lembranças. Na hora certa ouvi meu nome e sobrenome como na chamada de presença escolar. Sentei à frente do guichê 3, abri a pasta verde e depositei com cuidado as preciosidades: duas carteiras de trabalho e comprovantes. A minha vida profissional estava ali para análise da aposentadoria. Silenciosamente, durante 1h30, a profissional em frente ao computador foi conferindo os dados. O olhar corria das informações na carteira à tela do monitor. Ia e voltava nas páginas, conferindo cada detalhe. Gostaria de saber o que dizia a tela. Com certeza não importava o que fiz, aprendi e vivi em cada empresa, só valia o tempo.

Não se importou com a primeira assinatura : MPM Propaganda. Nem quanto representou na minha trajetória ter aprendido a datilografar enquanto era recepcionista, acomodada num pequeno cubículo, olhando por uma janelinha voltada para o corredor do elevador, apertando o botão da porta automática para cada visitante. Foi vendo entrar e sair a fina flor da publicidade carioca dos anos 60 que me apaixonei por publicidade e marketing. Conheci grandes profissionais. Curiosa, às vezes fugia do meu posto e ia ver como criavam comerciais e anúncios. Reencontrei nas redes sociais alguns amigos daquele tempo, como Sargentelli, Franco Paulino, Genaro Mendes de Moraes, Capinam (sim, o poeta e compositor!!) que me trazem o frescor do tempo em que saía da Tijuca para descobrir o mundo. E por falar em mundo por onde andará Luiz Duboc que me deu o livro “Cadernos de João”, de Aníbal Machado, guardado há anos!

Lendo de cabeça prá baixo vi que a moça virou a página e surgiu a Editora Abril. Ficava do outro lado da Av.Presidente Vargas, quase em frente da MPM. Foi lá que, contratada por Jairo Carneiro, gerente de publicidade das revistas técnicas, aprendi a ser secretária. Tinha até uma datilógrafa !! Organizar reuniões, arquivos, preparar malote, atender anunciantes. Tudo lá. Mas a vida foi correndo… Auto Modelo revendedora de automóveis, mas não era a minha praia… Depois a TV Continental com Eli Halfoun já “namorando” o jornalismo e xeretando os programas de TV auxiliando creio que o primeiro talk show apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa. Foi quando Moyses Fuks me convidou para ser repórter na Bloch Editores. E eu lá sou repórter? E a faculdade de psicologia? E os estudos de publicidade na ABP? Mas fiz a escolha que não me arrependo. Misturei tudo e deu no que deu. Da Bloch para o programa Flávio Cavalcanti foi um pulo… A TV Studio Produções realizava o programa de maior audiência aos domingos na tv brasileira. Foi lá que conheci o que é ser líder, formador de opinião, celebridade e ter um alto salário… Entendi sobre ônus e bônus, e a simplicidade com que Flávio convivia com tudo isso…  Licença maternidade, mais palco da TV Tupi, e depois novamente a Bloch para dirigir uma revista, ou melhor, duas… E de lá para Editora Abril – obrigada Edgard Catoira -; depois o jornal O Globo por 5 anos, viva Henrique Caban e Evandro Carlos de Andrade! Escrever todo dia era um grande desafio. Um prazer enorme entrevistar e no dia seguinte ter as palavrinhas publicadas. Muitas vezes com “chamada” de capa. Uma alegria desmistificar o jornalismo de TV e entretenimento, inserindo uma nova linha de temas perante uma equipe de intelectuais do Segundo Caderno do jornal. Ninguém assistia novelas nem programas de auditório e passaram a curtir as reportagens que eu trazia.

Durante um período no jornal, simultaneamente apresentei um quadro sobre artes no telejornal da TV Studio, primeira TV do Silvio Santos. Gravava uma vez por semana, achava que ninguém assistia. A TV Studio tinha que cumprir uma lei que determinava um número de horas com programação nacional, não apenas exibição de enlatados. E lá estava eu frente à câmera a convite de Moyses Weltman. De 15 minutos a meia hora para falar o quisesse, valia fazer entrevistas no estúdio…. Às vezes encontrava com amigos que diziam “dormi com você. Mudando os canais depois da meia noite vi o jornal na TV do Silvio…” Que vergonha… Mas eu fazia direitinho, com capricho e carinho…

Idas e vindas, muito mais alegrias do que decepções… Só fui demitida uma vez, num pedido que fiz ao jornal O Globo para liberar meu FGTS quando fui pra Nova York…. No retorno free lancer para O Globo e carteira assinada com crachá da TV Globo como pesquisadora de Caso Verdade. Quanta confiança do Régis Cardoso e depois do Reynaldo Boury! Em pouco tempo passei de pesquisadora à autora da novela de 5 capítulos exibida no final da tarde que contava uma história real… Mas o Canecão foi uma tentação ainda maior, saí da TV Globo e a carteira azul se fechou. Abri o escritório de assessoria de imprensa e as carteiras foram para o fundo da gaveta. Há pouco mais de 7 anos foram resgatadas pela DC Set Sports – obrigada Dody Sirena, Cicão Chies e Duflair Pires- e ganharam novas marcas por dois anos.

Casas, mudanças, casamentos, namoros, separações, filho crescendo, amigos, descobertas, conquistas, ganhos, perdas, tudo isso veio em cada página virada. Uma análise sem sofá nem psicanalista… Eu e meus botões frente a uma desconhecida.  No meio da viagem voltei à real quando a moça perguntou se queria acrescentar a conta do banco para receber a aposentadoria. Uau ! Vou ser aposentada! Demorei a tomar esta iniciativa, podia ter me aposentado há muito mais tempo, mas no fundo acho que temia fechar a vida profissional que amo tanto… Mas isso em nada muda… A profissional sou eu com ou sem carteira… Continuo com mais garra e paixão, estou mais animada e criativa do que nunca… Aprendendo novas linguagens e na ativa. Me aguardem…