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A pasta verde

 

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Com dois meses de antecedência a agenda foi marcada para 5 de junho às 15hs. Cheguei meia hora antes. Missa se espera na igreja. Na sala, com ar condicionado congelando, procurei um local menos frio e me acomodei com a pasta verde na mão.  Os pensamentos acompanharam os minutos passando no relógio digital, pulando de mantras à orações e lembranças. Na hora certa ouvi meu nome e sobrenome como na chamada de presença escolar. Sentei à frente do guichê 3, abri a pasta verde e depositei com cuidado as preciosidades: duas carteiras de trabalho e comprovantes. A minha vida profissional estava ali para análise da aposentadoria. Silenciosamente, durante 1h30, a profissional em frente ao computador foi conferindo os dados. O olhar corria das informações na carteira à tela do monitor. Ia e voltava nas páginas, conferindo cada detalhe. Gostaria de saber o que dizia a tela. Com certeza não importava o que fiz, aprendi e vivi em cada empresa, só valia o tempo.

Não se importou com a primeira assinatura : MPM Propaganda. Nem quanto representou na minha trajetória ter aprendido a datilografar enquanto era recepcionista, acomodada num pequeno cubículo, olhando por uma janelinha voltada para o corredor do elevador, apertando o botão da porta automática para cada visitante. Foi vendo entrar e sair a fina flor da publicidade carioca dos anos 60 que me apaixonei por publicidade e marketing. Conheci grandes profissionais. Curiosa, às vezes fugia do meu posto e ia ver como criavam comerciais e anúncios. Reencontrei nas redes sociais alguns amigos daquele tempo, como Sargentelli, Franco Paulino, Genaro Mendes de Moraes, Capinam (sim, o poeta e compositor!!) que me trazem o frescor do tempo em que saía da Tijuca para descobrir o mundo. E por falar em mundo por onde andará Luiz Duboc que me deu o livro “Cadernos de João”, de Aníbal Machado, guardado há anos!

Lendo de cabeça prá baixo vi que a moça virou a página e surgiu a Editora Abril. Ficava do outro lado da Av.Presidente Vargas, quase em frente da MPM. Foi lá que, contratada por Jairo Carneiro, gerente de publicidade das revistas técnicas, aprendi a ser secretária. Tinha até uma datilógrafa !! Organizar reuniões, arquivos, preparar malote, atender anunciantes. Tudo lá. Mas a vida foi correndo… Auto Modelo revendedora de automóveis, mas não era a minha praia… Depois a TV Continental com Eli Halfoun já “namorando” o jornalismo e xeretando os programas de TV auxiliando creio que o primeiro talk show apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa. Foi quando Moyses Fuks me convidou para ser repórter na Bloch Editores. E eu lá sou repórter? E a faculdade de psicologia? E os estudos de publicidade na ABP? Mas fiz a escolha que não me arrependo. Misturei tudo e deu no que deu. Da Bloch para o programa Flávio Cavalcanti foi um pulo… A TV Studio Produções realizava o programa de maior audiência aos domingos na tv brasileira. Foi lá que conheci o que é ser líder, formador de opinião, celebridade e ter um alto salário… Entendi sobre ônus e bônus, e a simplicidade com que Flávio convivia com tudo isso…  Licença maternidade, mais palco da TV Tupi, e depois novamente a Bloch para dirigir uma revista, ou melhor, duas… E de lá para Editora Abril – obrigada Edgard Catoira -; depois o jornal O Globo por 5 anos, viva Henrique Caban e Evandro Carlos de Andrade! Escrever todo dia era um grande desafio. Um prazer enorme entrevistar e no dia seguinte ter as palavrinhas publicadas. Muitas vezes com “chamada” de capa. Uma alegria desmistificar o jornalismo de TV e entretenimento, inserindo uma nova linha de temas perante uma equipe de intelectuais do Segundo Caderno do jornal. Ninguém assistia novelas nem programas de auditório e passaram a curtir as reportagens que eu trazia.

Durante um período no jornal, simultaneamente apresentei um quadro sobre artes no telejornal da TV Studio, primeira TV do Silvio Santos. Gravava uma vez por semana, achava que ninguém assistia. A TV Studio tinha que cumprir uma lei que determinava um número de horas com programação nacional, não apenas exibição de enlatados. E lá estava eu frente à câmera a convite de Moyses Weltman. De 15 minutos a meia hora para falar o quisesse, valia fazer entrevistas no estúdio…. Às vezes encontrava com amigos que diziam “dormi com você. Mudando os canais depois da meia noite vi o jornal na TV do Silvio…” Que vergonha… Mas eu fazia direitinho, com capricho e carinho…

Idas e vindas, muito mais alegrias do que decepções… Só fui demitida uma vez, num pedido que fiz ao jornal O Globo para liberar meu FGTS quando fui pra Nova York…. No retorno free lancer para O Globo e carteira assinada com crachá da TV Globo como pesquisadora de Caso Verdade. Quanta confiança do Régis Cardoso e depois do Reynaldo Boury! Em pouco tempo passei de pesquisadora à autora da novela de 5 capítulos exibida no final da tarde que contava uma história real… Mas o Canecão foi uma tentação ainda maior, saí da TV Globo e a carteira azul se fechou. Abri o escritório de assessoria de imprensa e as carteiras foram para o fundo da gaveta. Há pouco mais de 7 anos foram resgatadas pela DC Set Sports – obrigada Dody Sirena, Cicão Chies e Duflair Pires- e ganharam novas marcas por dois anos.

Casas, mudanças, casamentos, namoros, separações, filho crescendo, amigos, descobertas, conquistas, ganhos, perdas, tudo isso veio em cada página virada. Uma análise sem sofá nem psicanalista… Eu e meus botões frente a uma desconhecida.  No meio da viagem voltei à real quando a moça perguntou se queria acrescentar a conta do banco para receber a aposentadoria. Uau ! Vou ser aposentada! Demorei a tomar esta iniciativa, podia ter me aposentado há muito mais tempo, mas no fundo acho que temia fechar a vida profissional que amo tanto… Mas isso em nada muda… A profissional sou eu com ou sem carteira… Continuo com mais garra e paixão, estou mais animada e criativa do que nunca… Aprendendo novas linguagens e na ativa. Me aguardem…

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2012

Em Cascais (Portugal), da esquerda para a direita, Fernanda, Paulinho, eu e Gilda

Em Cascais (Portugal), da esquerda para a direita, Fernanda, Paulinho, eu e Gilda

Fazendo um balanço de 2012, concluo que tive um ano bipolar.  Enormes alegrias, profundas tristezas. algumas decepções. Com a parceria de amigos, mesmo sem um tostão, consegui fazer um lindo festival de inverno em Vila de Santo André. Meu coração precisava produzir alguma coisa e foi bom prá muita gente… Terminei uma colcha de crochê projeto que vinha se arrastando há 10 anos, comecei a escrever um novo livro e um texto para teatro. Vi uma historia que escrevi na tela grande do cinema e me emocionei. Torci pela vitoria eleitoral de uma amiga, mas não chegou lá. Meu corpo não deu defeito, em compensação a casa pediu socorro, consertos estruturais. Mudança da fiação elétrica, retirada de uma enorme colmeia, refazer a horta suspensa, colocar novas telhas, matar cupins, tudo o que se espera de uma vida rural…

E de todos os novos amigos que surgiram e os que reencontrei, um em especial. Há alguns meses resolvi buscar uma amiga, achei sua filha no Facebook e consegui o telefone. Numa tarde de sábado fiz a ligação. Ela me atendeu com enorme surpresa. O tom de voz não mudou, era o mesmo desde que a conheci há mais de 40 anos. Ela foi fundamental em minha vida quando comecei a me posicionar profissionalmente. Ninguém era mais elegante do que Gilda Muller. Tinha estilo, educação, simplicidade, humor e generosidade. Diretora da TV Studio Produção, empresa que produzia os programas na TV do Flavio Cavalcanti, de quem também era grande amiga e comadre, fora casada com Maneco Muller, pioneiro no colunismo social assinando com o pseudônimo de Jacinto de Thormes desde a década de 50. Gilda e Maneco mantinham a mais equilibrada relação de ex-casal que já vi. Trabalhavam na mesma equipe, passavam férias juntos com os 3 filhos e não imaginam o quanto me serviram de referencia para todos os meus casamentos. Casamentos se acabam, amizades não.

Gilda conhecia e frequentava a fina flor da sociedade brasileira. Tratava da mesma forma todos os chics que constavam do livro “Sociedade Brasileira”, onde estava seu nome, como também o açougueiro da esquina, o rapaz da quitanda… Foi a primeira pessoa que vi vestir um tailleur (ou era um blazer ?) com estamparia azul marinho e verde bandeira! Quando eu, uma garota da Tijuca, ia pensar em tamanha ousadia?

Durante um bom tempo trabalhamos na mesma sala e fiz com Gilda minha pós-graduação em etiqueta e bons modos. Foi melhor do que qualquer intensivo no Colégio Sacre Couer… Em 72 com o sucesso de audiência do Programa Flávio Cavalcanti e o bom faturamento, ganhamos do patrão uma viagem à Europa. E lá fomos, eu gravidíssima, Paulinho (meu marido) e Gilda,  de 1ª. classe pela Tap para Lisboa, Roma, Londres e até Paris quando nos separamos. Gilda tinha uma irmã que morava por lá, mas ainda estivemos juntas almoçando na Tour Eiffel…

Um dia seguimos caminhos diferentes e creio que a ultima vez que a vi foi em 93 na noite de autógrafos do livro “Um Instante, Maestro”. Bom, todo esse relato prá contar como foi bom ter convivido com Gilda, sua importancia em minha formação e como foi deliciosa a conversa ao telefone naquele sábado. O tempo não existiu. 20 anos não se passaram. Com entusiasmo falou dos filhos, dos netos, sempre alegre, alto astral, boas gargalhadas. Prometi ir visita-la – e irei!! – da próxima vez que for ao Rio e antes de desligar o telefone ela disse uma frase de enorme significado para este ano bipolar:
– Léa, o seu telefonema foi a melhor coisa que me aconteceu este ano!

Não é incrível ter alguém que não me vê há 2 décadas e me quer tão bem ?

Gilda, por você também valeu 2012 !!!

Grávida

Aos 6 meses de gravidez nos jardins de Versailles, França – Foto: Paulo Martins

Acordei grávida, como há 40 anos, neste mesmo dia, em que não conseguia nem virar na cama. No dia anterior fechei as pernas. Pedi a Deus que meu filho não nascesse no dia que lembramos dos que partiram. Choveu e passamos o tempo, eu e Paulinho, jogando buraco e ouvindo musica. Antes de dormir fiz o ritual que se repetiu todas as noites do ultimo mês: tomei banho, escovei as unhas, conferi a depilação, lavei o cabelo e estava pronta para ir à maternidade a qualquer momento com a mala me esperando ao lado do berço.

Acordei grávida há 40 anos e continuava a chover. Comecei a sentir cólicas. Telefonei para o medico,  Dr. Carlos Montenegro, que pediu para marcar o tempo entre as contrações. Ainda eram esparsas. Conferi se nada faltava na mala. Olhei na agenda e li a anotação feita quando fui à primeira consulta: o bebê está pra chegar. Avisei a família e continuamos a jogar buraco e ouvir música. Almoçamos arroz salada bife e aipim… À tarde as contrações aumentaram e no início da noite o ginecologista pediu para irmos à Maternidade Escola em Laranjeiras. Lá estava o único aparelho de ultrassom do Rio de Janeiro. Avisei a família. Chovia, já estávamos saindo de casa quando Paulinho resolveu voltar para colocar um lenço de seda no pescoço.  Relembrando o fato não sei se ele queria estar bonito para receber o filho ou proteger a garganta do frio. Saímos da Urca com Paulinho dirigindo o seu fusquinha verde militar, limpador de para-brisa sem dar vazão à chuva e na maternidade o medico diagnostica: não tem dilatação. O friozinho do gel no mouse passando pela minha enorme barriga, vejo meu filho na tela e com carinho Montenegro sugere “se fosse minha mulher faria uma cesariana”. E fomos debaixo de chuva para Clinica São Marcelo no Leblon onde mamãe, papai e Victor já nos esperavam. Comigo seguia algo mais importante que o enxoval:  numa caixinha de isopor que fora conservada na geladeira a vacina caso meu filho nascesse com sangue RH positivo, já que o meu é negativo. E Bernardo nasceu quase no final do dia 3 também RH negativo. Nada vi, anestesiada completamente. Papai e Mamãe foram dormir felizes com mais um neto, Paulinho e Victor celebraram durante a madrugada no Alvaro´s do Leblon.

Acordei grávida e 40 anos se passaram.  Coincidentemente chove. Fiquei na cama virando de um lado para o outro lembrando este momento único na vida de uma mulher. Continuo mais grávida do que nunca, aguardando o que está pra vir. Outro dia meu filho ficou perplexo ao saber que não crio expectativas . Estou aberta para o que aparecer, vou com o pé no chão, quero ver, ouvir e fazer… Mas nada espero do outro, prefiro que me surpreenda do que me decepcione… Por outro lado, hoje gostaria muito de ir à algum lugar mágico onde tivesse um aparelho ultrassom para passar dentro de mim e diagnosticar que estou em tempo de uma cesariana e colocar pra fora novos rumos…  Sei que estou a caminho de gerar algo muito bom, mas jamais tão grande e precioso quanto meu filho há 40 anos.

Agradecimentos especiais a esta gravidez 40 anos passados :

Paulo Martins, parceiro na criação e amigo de sempre; Flávio Cavalcanti, o melhor patrão do mundo; papai com sua sabedoria, mamãe que tricotou os mais lindos lindos casaquinhos e sapatinhos,; tio Feliciano Alves, historiador que me ajudou na escolha do nome; Dr. Carlos Montenegro, obstetra e ginecologista; Victor, irmão companheiro ate nesta hora; Dr. Antonio M. de A. Barata, meu psicanalista neste período; Déa e Humberto Machado, irmã e cunhado que conseguiu a vacina super hiper caríssima e especial que doei à Maternidade escola; bisa Mercedes Martins e vovó Flora Nobre pela torcida na chegada de um Sousa Martins; Moreira e Maria Dulce, padrinhos; Selma, a empregada de casa com as refeições rápidas, aos amigos da TV Estúdio (Flavio Cavalcanti Jr, Gilda Muller, Ghiaroni, Mandarino, Antonio Bello, Solange Boecke, Liana Rocha, Eduardo Sidney…) pelo suporte em toda a gestação  e a todo o país que aplaudiu quando Flávio Cavalcanti entrou fumando charuto em seu programa na TV Tupi dois dias depois dando a noticia da chegada do Bernardo.