Coisa do passado

Foto : Paulo Martins, fev 1970

Eles estavam em crise. Ele parara de fumar, ela não. Mas isto fora apenas o estopim, pois na verdade ele chegara a casa com a camisa manchada de batom. Ela ja estava dormindo no escritório há alguns dias, aproveitaram o feriado para mandar o filho com os avós para a casa de campo, dispensar a empregada e ficar sozinhos para discutir a relação. Combinaram jantar num restaurante desconhecido para não correr o risco de encontrar amigos. Na hora marcada cada um saiu do seu closet perfumado e bem vestido e se encontraram na sala  vestindo-se com a mesma cor.

No jantar perceberam que ainda havia um clima. Nem tudo estava perdido. Voltaram para casa antes da meia noite. Ele a deixou na portaria justificando o encontro marcado anteriormente com um amigo num bar, mas não demoraria. Pediu que o esperasse no quarto deles.  Ela chegou ao apartamento saltitante. Era apaixonada. Retirou com cuidado a maquiagem usando os produtos que ele trouxera da uma última viagem a trabalho em Paris. Colocou uma camisola nova, foi fumar na cobertura do apartamento para que a casa não cheirasse a nicotina. Escovou os dentes, gargarejou diversas vezes para retirar qualquer vestígio do cigarro. Tirou a colcha da cama, deitou no espaço que até então era o “seu lado”, começou a ler e adormeceu. Acordou com o sol forte de verão carioca entrando pela janela e queimando seu pé. Eram 5h30 da manhã e ele não chegara. Levantou e começou a andar pela casa em desespero. Pensava na insegurança da cidade, no perigo de andar com carro conversível e até na corrente de ouro com a medalha do signo que ela lhe dera como presente e nunca mais tirara do pescoço.

Por pouco, muito pouco, tiram a vida de alguém, pensou ao se lembrar da corrente que mais parecia joia de bicheiro. Telefonou para o bar que ele indicara, disseram que já havia saído há algumas horas. Foi prá cozinha, passou café e ficou andando no terraço fumando e procurando coordenar as ideias. O que podia ter acontecido?  Esperou às 6 horas da manhã para telefonar para uma amiga que trabalhava em uma rádio. Contou a historia e a amiga pauteira acionou os repórteres para uma varredura nos hospitais e delegacias da região. Nenhuma notícia sobre ele. A esta altura, 8 horas da manhã, ela estava certa de que ele estava no motel com alguma vadia. Retirou a mala grande do deposito, colocou todas as roupas dele e deixou na porta. Pediu ao porteiro que avisasse quando de sua chegada. A cabeça viajava. Agora nada mais segura este casamento, repetia. Ele me enganou mais uma vez, canalha…

Andava pela casa separando mentalmente o que era dela e o que era dele. Passava das 9hs quando o porteiro interfonou. Ela pegou a grande mala e colocou do lado de fora da porta. Ele insistiu na campainha. Ela não abriu. Ele foi para a entrada de serviço e conseguiu abrir a porta, só estava presa por uma pequena corrente. Meteu os pés e entrou. Foi direto para o quarto. Cara lavada de sono, cabelo molhado. Fechou a janela do quarto, tirou a roupa e deitou. Ela abriu a janela e começou a falar feito uma matraca. Ele levantou e fechou a janela. Ela agora não so falava como tocava uma flautinha do filho em seu ouvido para não deixar dormir. Volta prá dormir aonde estava, repetia ela. E o abre e fecha da janela e a gritaria chegaram a um ponto em que ele olhou prá ela com tanto ódio que ela percebeu que não ia terminar bem esta historia. Saiu do quarto aos prantos, telefonou para o contador, o advogado, a empresa de mudança e quando ele acordou no meio da tarde o casamento tinha acabado. Ela naquele dia entendeu por que mulheres matam os maridos. Lembrou-se de uma conhecida que dera um tiro no marido por ter sido chamada de velha, humilhada. Existe um ponto tênue e  vital que quando tocado faz qualquer pessoa se transformar em monstro. Ela não quis alimentar este monstro, fechou a porta e nunca mais voltou. Ele passou o resto dos dias dizendo que ela era o amor de sua vida. Ela guardou ele como coisa do passado.

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2 Respostas para “Coisa do passado

  1. Sempre existe escolha, o “lobo” que mais alimentamos é o que prevalece! Este texto, além de muito bem escrito, como sempre, é providencial! Beijos

  2. Existe em cada um de nós uma chama, por vezes apenas uma fagulha, capaz de transformar-se num incêndio se a ocasião se apresentar.

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