Vida rural

Foto Claudia Perroni

Quando eu ainda era apenas turista em Vila de Santo André hospedada na casa do meu irmão, ficava impressionada com a quantidade de insetos que surgiam nas noites de verão. Era difícil entender como meu irmão, um homem urbano, nascido e criado em grandes cidades, convivia com tanta rusticidade. Lagartixas apareciam ao escurecer correndo pelas paredes em busca de alimento. Aonde ficavam durante o dia, escondidas nos dutos de eletricidade? Ah! se morasse aqui iria fechar todos os buraquinhos, pensava na santa ignorância de que um dia a vida me pregaria uma peça e este seria o meu cenário.

Viver neste mundo é reaprender e nada mais me assusta. Se as lagartixas aparecem de noite, os calangos correm na grama e na areia durante o dia se escondendo entre as folhas.  Voam insetos de todos os tipos e cores que ficam fora do meu quarto com as janelas protegidas por telas…. As vezes tenho que apagar todas as luzes da casa para os cupins voadores ficarem de fora. Aprendi o nome de muitos passarinhos que comem a casca do meu mamão. A falta de experiência logo que aqui cheguei me fez acreditar que deveria comprar semente para os pássaros… Fiquei frustrada ao perceber que um determinado tipo alpiste só atraía pássaros pretos. Os sanhaços azuis e verdes, o sangue de boi, os sabiás da praia preferiam as frutas, assim tirei do meu orçamento este gasto.

As vezes surgem pequenos micos que saíram da mata pois lá não encontram o que comer. A vida está difícil até para eles…Tenho receio que invadam a minha casa pois são bem abusados e evito dar banana na mão como alguns vizinhos fazem. Outro dia surgiu um pequeno esquilo e as vezes boto para correr um saruê (espécie de gambá) ou um jupati (marsupial) que por aqui ousam chegar por descuido dos cães… A semana passada, sol a pino, adentrou a sala, pela primeira vez, um guaiamum. Patinava no piso de cimento queimado e foi caçado por Lelê minha fiel escudeira, nascida e criada na Bahia, que muito me ensina. Devolvemos ao quintal o guaiamum que também chamam de Maria Farinha para que encontrasse seu caminho de volta à praia.

Há alguns anos uma casa de cupim que cresceu em uma árvore no jardim foi tomada por maritacas. Acompanhei o trabalho dos pássaros de plumagem verde transformando em moradia. Um ficava como zelador na porta, o outro entrava e limpava. Não sei se quem trabalhava era o macho ou a fêmea, mas isso pouco importava. Fiquei feliz com os novos moradores do meu latifúndio, mas a alegria durou pouco. Abelhas vieram, tomaram a residência e transformaram em uma enorme colmeia que anos depois para retirar me deu muito trabalho.

esperança

As esperanças me surpreendem. Acredito que trazem sorte, boas novas, abundancia, saúde, prosperidade… Mas de todas estas experiências uma me fez viajar. Certa noite comecei a fechar as 9 janelas e portas do térreo da minha casa numa cerimônia de agradecimento ao dia quando ouvi o canto de uma cigarra. Não conseguia me concentrar nas preces tanto que gritava.  Pensei estar em algum lugar do jardim próximo a casa, mas com tudo fechado constatei que estava do lado de dentro. Afastei o sofá, a poltrona e nada. Fui dormir deixando a cigarra recolhida. Gritou, ou como alguns preferem dizer de forma poética, cantou, a noite toda… Fechei a porta do quarto, coloquei o travesseiro na cabeça para abafar o som e só consegui dormir ao lembrar que o seu cantar significava sol no dia seguinte e há alguns dias chovia. Ao acordar me deparei com a dita cuja morta no meio da sala. Explodiu com seu canto. É o que acontece com esse tipo de inseto.

Vendo aquela cena não resisti em criar um paralelo com a vida das cantoras líricas. Imaginei Maria Callas no final de uma récita implodindo no palco do Scala de Milão… Primeiro a garganta se dilataria estourando os fios de pérolas japonesas de um colar parecido com o que Marilyn Monroe ganhou de Joe di Maggio. Uma a uma as legítimas pérolas cultivadas saiam rolando pelo chão, caindo palco abaixo como um pequeno filete de água, ganhando o tapete elegante da plateia e depois o fosso dos músicos para incredulidade do maestro… Com o pulmão cada vez mais inchado, seria a vez de explodir o sutiã, começando a desestruturação do vestido de seda grená. O tecido ia esgarçando até rasgar, ao mesmo tempo que rompia a carne entre os seios de onde pulava o coração exausto de cantar… A plateia aplaudiria de pé diante da cena inusitada gritando por um bis impossível…Um espetáculo tragicômico, mas era o que passava em minha cabeça enquanto recolhia os restos mortais da cigarra…

Gritar até morrer, acho que tentei algumas vezes sem resultado. Chorei tanto, gritei tanto, mas só fiquei muito rouca e no desespero como num estalo fez-se a lucidez. Acabei preferindo o silencio, a reflexão, e na serenidade sou levada à viagens inesquecíveis dentro de mim. Viajo mesmo, mais longe do que qualquer psicotrópico ou ácido sonham chegar. Já me senti voando, o corpo expandindo, braços e pernas crescendo como se fosse aquele personagem João Pé de Feijão que numa corrida atravessa as nuvens e chega ao céu… Eu também subo montanhas, atravesso rios, cruzo mares e do alto vejo tudo tão pequeno e peço: Senhor, livre me de qualquer sentimento de medo e abra as janelas de minha alma e do meu coração para que eu possa sentir a verdade da vida nos minúsculos seres, como as pequenas cigarras.

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3 Respostas para “Vida rural

  1. Lindo.. como sempre!!! bjs querida

  2. Lindo!!!!!

  3. adorei e me identifiquei! Também perdi os medos,aliás em vários planos…

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