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A CoronaVac, o Butantan e eu

Album de família

Cada vez que ouço falar na CoronaVac e no Butantan meu coração bate mais forte. Não apenas por sentir que lá está sendo produzida a vacina que promete em breve  imunizar os brasileiros do vírus Covid 19, mas pela memória afetiva que o Instituto Butantan me traz. Tenho enorme orgulho em estar ligada à família Vital Brazil, cujo patriarca fundou o Instituto Butantan e ali desenvolveu muitas pesquisas cientificas, plantando a semente que mais de 1 século depois se mantém viva. A árvore genealógica da minha família por parte de mãe é bem interessante e gosto de contar assim:  por volta de 1916, duas jovens muito bem nascidas e criadas em Curitiba, Déa Meneses e Dinah Carneiro Vianna, se tornaram amigas. Déa morava com o pai, a mãe e os irmãos, era sobrinha do escritor Emilio de Meneses; enquanto Dinah vivia com o pai, Paulo Guajará Vianna e 8 irmãos, a mãe havia falecido há alguns anos. Déa se apaixonou pelo pai da amiga. Amor correspondido. Contava-se na família que Dinah dizia:

“Déa, como vai se casar com alguém com a idade do seu pai e ainda por cima com filhos para acabar de criar?”

Mas Déa foi firme, casou com Paulo e, algum tempo depois, Dinah, casou com um homem quase da idade do seu avô. O marido de Dinah era o cientista Vital Brazil, também viúvo, com 9 filhos, e com ela teve mais 9. Déa e Dinah foram mães quase ao mesmo tempo.  Não me lembro quem enviuvou primeiro, mas as amigas se consolaram nas perdas, comemoraram as conquistas, nascimento de netos e bisnetos. Dinah, generosa, deu uma casa para Déa no mesmo bairro onde foi construído o Instituto Vital Brazil em Niterói. Esta relação de carinho – amizade se perpetuou pelas gerações…

Eu sou neta de Déa, tinha 1 ano quando o vovô Vital morreu e cresci ouvindo falar sobre ele que foi padrinho do meu irmão Victor. Uma lenda que ia muito além da foto no álbum que herdei onde aparece elegantemente vestido e sentado ao lado de vovó Dinah. As minhas melhores lembranças de férias na infância estão ligadas diretamente a esta família, a casa tão grande, praticamente um sitio em Niterói aonde íamos buscar o leite no curral. Com a venda do Instituto para o Estado, as minhas memórias de férias foram transferidas para a casa em Laranjeiras, onde vovó Dinah vivia com meus padrinhos Eliah (Vital Brazil) e Álvaro (Protásio). Eu passava o dia cercada de primos e, apesar do barulho da garotada, tinha um silencio no ar. Talvez o jeito calmo e manso dos meus padrinhos em conduzir 11 filhos

Mas tinha algo ainda mais mágico nesta casa cercada por árvores. Havia muitas salas, como a de música com quase todos os instrumentos, da harpa ao piano, a de TV uma sensação com o equipamento recentemente lançado  onde assisti pela primeira vez os Espetáculos Tonelux, a sala de jogos, de costura e pintura, de refeições, de estar, varandas e tinha uma muito especial: um pequeno museu. Ali estavam expostos objetos e documentos do vovô Vital. Ainda menina eu percorria com os olhos atentos e as mãos ficavam seguras atrás da cintura para evitar a tentação de tocar no intocável. Me lembro de uma escrivaninha, uma espécie de armário de vidro com peças pequenas, como relógio, óculos, caneta, um tinteiro… Ainda tinham quadros, alguns moveis de época, e como eu gostava de admirar aquelas relíquias.  E é com esse mesmo olhar de menina encantada que ouço sobre a vacina que vai sair do Butantan, diretamente de onde saíram boas memorias da família e se encontrar comigo na Bahia.. Vai dar certo.

A casa dos meus avós…

… era uma parte em madeira e outra em alvenaria, um formato de construção muito usado no sul… Foi assim que comecei a lembrar deles esta manhã, dia que se comemora  São Joaquim e Santa Ana, Dia dos Avós.

Vovô era aposentado da rede ferroviária do Paraná, tinha pouco mais de 60 anos mas era considerado idoso, andava arrastando os chinelos.  Ele me contou que muito antes, quando meu pai era menino, moravam à beira da estrada de ferro e seu trabalho era sinalizar a passagem dos trens. No jardim da casa tinha uma pequena árvore de erva doce, foi aonde conheci de onde vinham as sementinhas que minha avó fazia chá….

As férias em Curitiba com as famílias dos meus pais, eram aguardadas ao longo do ano. Ficava um pouco na casa de cada tio, mas os tempos com meus avós eram especiais. Eu devia ter menos de 10 anos quando descobri a sua coleção de revistas O Cruzeiro*. Empilhadas no canto de um quarto, organizadas por ordem de publicação, era um enorme prazer desvendar as fotos e os textos. Era a minha Disney… Passava horas folheando as revistas e mal sabia que no futuro seria  “escrevinhadora”… Não importa se repórter, redatora, jornalista, roteirista, autora, a minha vida ficou definitivamente relacionada com a comunicação, palavras e imagens, estáticas ou em movimento…

As vezes penso o que levou meu avô a fazer esta coleção. A família era simples, a instrução foi a básica e naqueles tempos as revistas eram um luxo, “importadas” do Rio de Janeiro…  Não sei o fim que levou esta coleção, mas sou grata aos meus avós por terem aberto esta porta…

*O Cruzeiro foi uma revista semanal ilustrada brasileira, lançada no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1928, editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Ultima publicação em julho de 1975. Fonte : Wikipedia

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Vovó Luiza, vovô Izaltino, com minha irmã Déa.

Visita

A casa dos meus pais tinha muitos braços abertos, bem mais do que o número de quartos. Papai e mamãe nasceram no Paraná e foram os primeiros de suas famílias a “ganhar o mundo”, entenda-se Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, por isso desde muito pequena lembro que tínhamos hóspedes. Eram parentes e amigos que chegavam para temporadas, como a tia avó que foi conhecer o mar e passava os dias sentada na poltrona favorita do papai recortando e emendando tecidos criando infindáveis tapetinhos; a prima da mamãe que se refugiou com o neto enquanto o filho, recém separado, mexia os pauzinhos para ter a guarda do menino. Teve também o padre de São Paulo que ia embarcar para Roma e como o avião saía do Galeão passou dias conhecendo a cidade tendo papai como guia turístico. Detalhe: papai não era católico, mas o ajudara a levantar fundos para construir uma igreja. A garota americana veio com um coral e a pedido da minha madrinha ficou conosco 15 dias. Ela não falava português, nós gaguejávamos inglês e fomos felizes. Uma prima que foi fazer extensão na Escola de Belas Artes e ficou quase um ano, e outra que fez também um longo curso de Biologia. Mas o melhor de tudo foi quando meu irmão Victor levou para casa um jovem peruano mochileiro que, através de amigos, conheceu na rua. Juan viajara de carona até o Rio carregando na mochila mais livros do que roupas. Apresentava-se como periodista (jornalista) isto em pleno ano da graça de 1966, no meio da “revolução”. Morou três meses em nossa casa e mamãe, penalizada com a penúria do rapaz, todo dia lhe dava um trocado para o ônibus e o cigarro. Saía de manhã, voltava a noitinha, e dizia que frequentava as universidades. Quis conhecer Brasília, papai conseguiu uma carona em um caminhão que transportava medicamentos e, para repatria-lo conseguiu um lugarzinho num voo do Correio Aéreo Nacional. Depois que ele partiu concluímos que deveria ser um agitador comunista. E papai era de direita!

Lembrei desses fatos enquanto lia o e-mail de uma amiga pedindo hospedagem para um casal que fotografa passarinhos e viaja de carro pelo país registrando as espécies mais incríveis. Impossível negar acolhida. Foi assim que conheci Gabi e Re (Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro), idealizadores do tradicional pôster ilustrado com aves brasileiras e que desde 2005 viajam para documentar aves. Em 2009 foi publicado o pôster com uma coleção de aves da Mata Atlântica, seguido de aves do Pantanal (2010), Amazônia (2013), Pampa (2014) e Cerrado (2015). Agora chegou a vez da Caatinga. Felizes, queridos, bem-humorados, comprometidos com a natureza, eles batalharam para recuperar e manter uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), a Reserva Rio das Furnas, com 53 alqueires, distante 80km de Florianópolis, onde cercados por 7 cachoeiras convivem com pumas e outras tantas espécies em extinção.

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Falamos muito sobre vida na contramão. O quanto é bom se trabalhar com paixão e comprometimento. Por onde passam, em uma escola ou ONG, dedicam algumas horas com o projeto Roda de Passarinho, onde levam às crianças a refletir sobre a importância da liberdade e preservação da natureza. O carro em que viajam é uma Toyota, e também funciona como casa, sem ser um trailer. Foi adaptada, pode ser usada como confortável cama de casal com 2ms de comprimento, tem armários horizontais como gavetas, um pequeno depósito cozinha, bandeirinhas enfeitando a janela para dar um toque doméstico. Vivem com o mínimo, num máximo de qualidade. Sonham com que as RPPNs se multipliquem e, enquanto viaja fotografando passarinhos, Renato também encontra tempo para fazer lindos trabalhos editoriais. Deixou-me dois maravilhosos livros sobre Santa Catarina, design seu, o registro de alguns passarinhos no meu “quintal alado” e a certeza de uma nova amizade… Qualquer dia eles voltam, e eu espero pois adoro conhecer gente nova… Aprendi com meus pais.

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