São João, acende a fogueira do meu coração

No final da rua da Margaridas, do lado esquerdo, antes de chegar no riacho, ficava a casa dos italianos Orabona. Nós morávamos no Brooklin, naquele tempo era um bairro distante do centro de São Paulo, onde ainda haviam chácaras, um rio aonde as crianças tomavam banho escondido dos pais, ruas sem calçamento, alguns sobradinhos, um colégio de freiras e outro dos padres, uma igreja a ser construída em mutirão, um pequeno comércio. Os italianos eram festeiros, assim como os espanhóis Alarcon que tinham o empório na esquina das Margaridas com Acácias.   

Eu esperava o ano todo pelas festas dos Orabona. Era tão bom quanto as férias no Rio. Nas semanas que antecediam a casa deles se transformava em atelier para construção de balões. Às vezes papai me levava prá ver aquele monte de papel de seda colorida que com recortes exatos e colagens magnificas com cola de farinha, se transformavam em peças únicas de uma beleza incrível. Tinham expertise em fazer a bucha e colocar de forma que subissem sem “lamber” (queimar), colorindo e iluminando o céu até se perderem no infinito. Na noite da festa me importava mais ficar olhando os balões no céu do que qualquer comilança… E a mesa era farta, mas eu só admirava sem preocupação com o meio ambiente ou o que a queda poderia provocar. Apenas sonhava em voar junto.   

Esta era a memória de São João até mudar para o Rio na adolescência e conhecer as enormes festas que aconteciam nas ruas da Tijuca. Cada dia uma rua enfeitada com bandeirinhas e bambu, quadrilha, barraquinhas, comilança com quentão, vestido estampado com enfeite de renda, chapéu de palha com flor. Uma agenda disputadíssima e eu nem olhava mais para o céu procurando balões, mas sim para os lados interessada nos rapazes…

São João sumiu e voltou quando eu tinha menos de 30 anos e passou a ser festejado em casa, aniversário do marido que também tinha o nome do padroeiro. Toda festa tinha um clima caipira, mesmo que discreto. Uma vez ousamos ao extremo e transformamos o quintal da casa dos meus pais em arraial com cenografia impecável, música ao vivo com um trio de zabumba, sanfona e triangulo, quentão, amendoim torrado, cachorro quente, milho, canjica, bolos… Festança para ninguém botar defeito. Da diretoria do Salgueiro aos atores do elenco da novela que ele dirigia !!

Acabou o casamento e São João também. Reencontrei o santo há 15 anos quando vim morar no Nordeste onde a festa é tão grande, como o fim de ano no Sul quando as famílias se reúnem, ou um thanksgiving na América. São muitos dias de celebração. Em Santa Cruz Cabrália é praticamente o mês inteiro. Tem festas no centro da cidade, nos bairros, nos distritos. Tem até um bairro com um Santo Antônio com mais de 14m de altura onde acontecem 13 dias de festas, com missas, bingos, shows, para a alegria do padre e do povo. Consta que em Vila de Santo André, antigamente a festa durava 3 noites e 3 dias de musica, brincadeiras e comilança. Este ano se repetem 3 noites com apresentação de quadrilhas, barraquinhas com quentão de jenipapo, amendoim cozido, curau, caldo de pinto, pipoca, bolo de milho. Forró tocando alto, criança correndo, a temperatura mais fria, mas não tem fogueira nem balão no céu… O que sobrou da Mata Atlântica agradece.

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