Arquivo da categoria: Vila de Santo André

Meu olhar em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, Bahia

Historias de pescador

Adriano e “seu”Laurindo voltando da roça

Adriano trabalha na construção civil, é também pescador e presidente da associação de pescadores do Guaiú. Sempre frente aos movimentos da comunidade, como abrir o acesso do mar para o rio a fim de salvar as espécies, buscar caminhos para os pescadores chegarem com seus carros para retirar a produção do dia, Adriano sonha estudar engenharia e a primeira vez que o vi foi vestindo beca e usando capelo na formatura em administração de empresas. Dias depois nos encontramos no Fórum num grupo que ia ao encontro do promotor para discutir o alto preço das passagens para travessia da balsa, e foi na sala de espera que ouvi um pouco de sua história. Tem uma garra e um brilho nos olhos que atraem quem gosta de ouvir historias, como eu.

Passei a fazer parte dos seus grupos de whatsaap, a seguir suas redes sociais e quando o Nordeste começou a ser banhado com o óleo sua atuação passou a ser constante. Com a matéria cada vez mais descendo para o sul da Bahia, Adriano passou a alertar em vídeos sobre o grande mal desconhecido. Munido de um celular, diariamente, envia um relatório mostrando a praia ainda limpa, a chegada das pequenas partículas na areia, o mutirão com voluntários unindo folhas de coqueiros, redes e sombrites para impedir o óleo de entrar no rio e destruir os mangues e pequenos crustáceos…. Ele é o meu “Bom Dia Brasil” noticiando o que está acontecendo no Guaiú posso prever como estará em Vila de Santo André.

Adriano hoje enviou um áudio contando sobre o avô por quem foi criado, sua maior referência, grande inspiração. Laurindo Francisco de Souza, tem 100 anos, nasceu na região de Santa Maria Eterna, na vizinha Belmonte, e mora no Guaiú desde 1940.  Com tanta conversa sobre o derramamento de petróleo, ele contou que por volta dos anos 60 também apareceu muito óleo na praia, bem parecido com o que está acontecendo. Sem redes sociais e difícil comunicação, nem havia energia elétrica, apenas umas 3 casas no Guaiú, o mesmo número em Santo Antônio e Santo André, os moradores tomaram providencias. “Seu” Laurindo conta que há algum tempo guardava tonéis que tinha encontrado na praia e os aproveitou para armazenar o piche que chegava. Aos poucos a praia ficou limpa e durante anos guardou esta matéria que utilizava para calafetar os barcos que usava para pescar e trazer alimento à família….

Vendo os “novos invasores” que o neto vai recolhendo, “seu” Laurindo compara ao que retirou nos anos 60. Segundo ele, primeiro chegaram bolas pequenas, depois um volume maior e acredita que por ser inverno os blocos eram mais duros, não tão pastosos como tem visto. Na sabedoria e lucidez dos seus 100 anos, na experiência de quem viveu sempre à beira mar, ele sabe muito bem o quanto aumentou a temperatura no planeta. Não precisa de qualquer aparelho para medir o efeito estufa, acredita que isso poderá influenciar no movimento e a expansão deste derramamento. Reflexões, análises de um simples pescador que teme pelas praias, mangues, peixes, crustáceos, restinga, tudo que o cerca e onde plantou sua vida, sua família. Mas tem esperança de que em mais alguns anos tudo isso seja apenas uma história para o seu neto contar.

São João, acende a fogueira do meu coração

No final da rua da Margaridas, do lado esquerdo, antes de chegar no riacho, ficava a casa dos italianos Orabona. Nós morávamos no Brooklin, naquele tempo era um bairro distante do centro de São Paulo, onde ainda haviam chácaras, um rio aonde as crianças tomavam banho escondido dos pais, ruas sem calçamento, alguns sobradinhos, um colégio de freiras e outro dos padres, uma igreja a ser construída em mutirão, um pequeno comércio. Os italianos eram festeiros, assim como os espanhóis Alarcon que tinham o empório na esquina das Margaridas com Acácias.   

Eu esperava o ano todo pelas festas dos Orabona. Era tão bom quanto as férias no Rio. Nas semanas que antecediam a casa deles se transformava em atelier para construção de balões. Às vezes papai me levava prá ver aquele monte de papel de seda colorida que com recortes exatos e colagens magnificas com cola de farinha, se transformavam em peças únicas de uma beleza incrível. Tinham expertise em fazer a bucha e colocar de forma que subissem sem “lamber” (queimar), colorindo e iluminando o céu até se perderem no infinito. Na noite da festa me importava mais ficar olhando os balões no céu do que qualquer comilança… E a mesa era farta, mas eu só admirava sem preocupação com o meio ambiente ou o que a queda poderia provocar. Apenas sonhava em voar junto.   

Esta era a memória de São João até mudar para o Rio na adolescência e conhecer as enormes festas que aconteciam nas ruas da Tijuca. Cada dia uma rua enfeitada com bandeirinhas e bambu, quadrilha, barraquinhas, comilança com quentão, vestido estampado com enfeite de renda, chapéu de palha com flor. Uma agenda disputadíssima e eu nem olhava mais para o céu procurando balões, mas sim para os lados interessada nos rapazes…

São João sumiu e voltou quando eu tinha menos de 30 anos e passou a ser festejado em casa, aniversário do marido que também tinha o nome do padroeiro. Toda festa tinha um clima caipira, mesmo que discreto. Uma vez ousamos ao extremo e transformamos o quintal da casa dos meus pais em arraial com cenografia impecável, música ao vivo com um trio de zabumba, sanfona e triangulo, quentão, amendoim torrado, cachorro quente, milho, canjica, bolos… Festança para ninguém botar defeito. Da diretoria do Salgueiro aos atores do elenco da novela que ele dirigia !!

Acabou o casamento e São João também. Reencontrei o santo há 15 anos quando vim morar no Nordeste onde a festa é tão grande, como o fim de ano no Sul quando as famílias se reúnem, ou um thanksgiving na América. São muitos dias de celebração. Em Santa Cruz Cabrália é praticamente o mês inteiro. Tem festas no centro da cidade, nos bairros, nos distritos. Tem até um bairro com um Santo Antônio com mais de 14m de altura onde acontecem 13 dias de festas, com missas, bingos, shows, para a alegria do padre e do povo. Consta que em Vila de Santo André, antigamente a festa durava 3 noites e 3 dias de musica, brincadeiras e comilança. Este ano se repetem 3 noites com apresentação de quadrilhas, barraquinhas com quentão de jenipapo, amendoim cozido, curau, caldo de pinto, pipoca, bolo de milho. Forró tocando alto, criança correndo, a temperatura mais fria, mas não tem fogueira nem balão no céu… O que sobrou da Mata Atlântica agradece.

O ano que passou

IMG_20190101_132730462

Foram mais de 300 dias num dilema que parecia sem fim…. Não havia critério de tempo, espaço ou lógica para a tortura surgir…. Às vezes ao acordar, outras no meio da noite, entre as refeições, lendo o jornal, na prece, na melhor cena da novela, no Pilates, quando menos esperava surgia o pensamento aterrorizante. A primeira manifestação foi exatamente há um ano ao assoprar as velas do bolo de aniversário e constatar que no próximo seriam 70. Foi difícil assimilar. E me perguntava: como assim? 70 anos !!!

Sei que Roberto tem 77, Chico 74, Caetano 76, Jagger 75, Fernanda 89, Bibi 96 e por aí vai, mas desconheço o processo pelo qual passaram, se rolou alguma neura ou se correu tranquilo. Cada um é um, e minha alma tem menos de 40 anos. Como tudo em minha vida aconteceu sem qualquer planejamento, fui seguindo e me deparei na porta dos 70. Nas primeiras semanas após a constatação pensei em mudar a alimentação, chegar aos 70 quilos para celebrar 70 anos, mas percebi que ficaria com cara de doente. Depois de uma certa idade emagrecer é temerário, pode cair tudo… Pensei em N projetos para superar o medo, estava quase me atirando de volta à um divã de analista. Optei por insistir na vida alimentar e mental saudável, caminhando na praia, retirando da mesa o pão, bolos, chocolates, mas isso não eliminava a navalha na cabeça, uma tortura silenciosa, vergonhoso até em compartilhar com os amigos.

E no meio deste drama há algumas semanas acordei muito estranha às 5 da manhã. Estava inebriada num profundo sentimento de que a vida é muito boa. Eram tantos passarinhos cantando, tamanha mistura de notas musicais, que até o estridente aracuã me fez feliz. Um sol escandalosamente carregado de brilho e o mar ao longe com jeito de maré alta. Esse cenário acordou em mim o sentimento de que se não tivesse chegado aos 70 não teria vivido esta e tantas outras maravilhas…

Como perder o prazer de ser testemunha da mudança na comunicação, a profissão que escolhi, ver sair do mimeógrafo às impressoras 3D, do orelhão aos smartphones, dos jornais nas bancas à leitura digital no tablet, do telex à internet. Imagine encarnar e perder a transformação da TV preto e branco para cores, às transmissões internacionais via satélite, não testemunhar a revolução que um homem chamado Flavio Cavalcanti fez na TV brasileira. O prazer em ter trabalhado em 4 Rock’n Rios e contribuído para a construção desta marca reconhecida mundialmente… Imagine que tédio ter a chance e não entrar no sonho do Roberto Medina tal qual um Sancho Pança seguindo Don Quixote atrás dos moinhos de vento? Que graça teria não acompanhar o crescimento de tantos profissionais que continuam meus amigos e, assim como eu, o tempo também está contando no velocímetro deles… Por favor, Dody Sirena!! Como passar nesta vida sem ver a sua trajetória despontando do sul do país, enfrentando os mais malucos desafios e  produzir um show em Jerusalém… Jesus ! E eu estava lá… Experiência única.

E todos os amores, paixões, encantamentos, prazeres, borboletas no estomago, taquicardia ao ouvir uma canção, suores, cheiros, sabores e também decepções, perdas, lutos, traições, mentiras, enganos, despedidas, puxadas de tapete, separações, tudo vivido muito intensamente como as cenas mais densas no final de um capítulo da novela aos sábados. Como esquecer !!! E como não lembrar quão felizes foram os namoros, casamentos, encontros furtivos, paqueras, amizades coloridas… Muito mais encontros do que desencontros…

Ah! Nova York e Lisboa que me acolheram como uma de suas filhas. Na América com meias de nylon e sandália no verão, três invernos com neve, ser commuter entre Larchmont e Manhattan, almoçar sanduiche na escada da Saint Patricks, assistir à queima de fogos nos 100 anos da Brooklyn Bridge, a marcha pelo desarmamento nuclear nas ruas de Manhattan, tão organizada como o desfile de uma escola de samba…Tantas histórias e vidas… Portugal meu avozinho, como escreveu David Nasser, a descoberta das raízes, o encontro do idioma, das tradições e a beleza de tanta modernidade. A sardinha frita nas festas de Santo Antônio, as cerejas aos montes vendidas nas barracas na rua, os fados, os rocks e os pops que ainda tocam na minha playlist. Coimbra, Aveiro, Setúbal, Porto, Braga, Cezimbra, Azeitão, Serra da Arrabida, de norte e sul percorri suas estradas, ruas e vielas, deixando meu coração pleno de amor e simpatia. E por fim me tornar baiana de Vila da Santa Andre, Santa Cruz Cabralia, onde o Brasil começou !

Se não tivesse vivido tanto nem teria percebido que nasci em uma família que às vezes me faz pensar que nos reunimos apenas para esta experiência coletiva. Do meu irmão que se foi tenho a certeza que já estivemos juntos em outros momentos. Dos demais são relações em fases constantes de construção… Dos meus pais ficaram os ensinamentos sobre honestidade, respeito, tolerância. Dignidade, amizade, acolhimento. Em casa todos eram bem-vindos. Sempre havia um lugar na mesa e uma cama extra. Não se discutia politica, religião nem futebol, todos respeitavam as escolhas. E pude fazer as minhas, divergir do meu pai nas mudanças politicas; buscar um caminho na espiritualidade e torcer por um time que não era da familia… Foi essa estrutura que me permitiu entrar por tantas portas com pé no chão, sem deslumbramento, pedindo licença, aceitando desafios, encarando tudo com muito prazer e me levou a viver em tantos lugares como se estivesse sempre em casa. Mudavam os cenários, ora sofisticados, algumas vezes mais simples, mas a essência da família permanecia intocável.

O melhor de tudo, um prazer até egóico, a perpetuação da espécie, é a alegria de ver que o filho gerado se tornou um homem integro, profissional da mais alta qualidade, amigo sincero, sensível, amoroso e construiu uma família por quem tenho o maior amor… Gratidão Paulo Martins por esta parceria de vida. Bernardo é sem duvida o melhor de mim.

Se tivesse ficado no meio do caminho, não teria conhecido a paz e a grandeza que cresce internamente quando o externo começa a se deteriorar. Reconheço como grande mistério da vida a capacidade de exercer a quietude, a compaixão, a complacência diante dos que ainda produzem acirradas disputadas do ego. Já vi esse filme e o final nem sempre é feliz. A vida pode ser muito mais leve e simples. Continuo aprendendo, estudando e acreditando na sabedoria que vem com a maturidade. Faço planos sem parar. Me recrio, me reinvento, e ainda tenho muito chão pela frente. Aguardem.

Para Danuza Leão

IMG-20181118-WA0007

Sempre gostei de ler os jornais de domingo. Quando criança eu ganhava o suplemento infantil e assim nasceu o hábito.  Passei anos repetindo a rotina de colocar em uma cadeira na mesa do café da manhã os jornais e as revistas semanais. Tomar café era um ritual que se prolongava por horas, depois se estendia para a poltrona da sala onde as publicações eram colocadas em um banquinho. A esquerda ficavam as a ler, a direita as lidas…So saía de casa depois da última letra devorada. Este formato ficou no passado. No sul da Bahia as publicações chegam em forma digital e repito o ritual na mesa da varanda com o Ipad, e depois a leitura continua em uma rede no jardim, ou a beira da praia. E a praia foi a minha inspiração ao ler a crônica da Danuza Leão na revista Ela de O Globo.

A praia que ela descreve é muito igual à que a conheci no início dos anos 90 e aonde escolhi viver em 2004. Havia energia elétrica nas casas simples, não nas ruas…. As noites estreladas eram escandalosamente belas, e em uma barraca de piaçava à beira mar comia-se peixe frito com farinha e uma cachacinha prá descer mais fácil…. Não havia rúcula nem endivers nem brócolis, a salada era de repolho e tomate quase sempre verde.  A tv ficava do outro lado do rio, na praça da cidade, dentro de uma caixa que era aberta para alguns programas, e a balsa fazia travessia das 6 da manhã às 6 da tarde…. Os terrenos não tinham muros, cercas simples de pau de árvore amarradas por um arame farpado, mas qualquer um podia entrar e pegar fruta nos cajueiros, mangueiras, jaqueiras … Carros eram raros, não havia transporte público…

Esta praia não existe mais. Menos de 30 anos ganhou outros ares… Além dos “chegantes” que como eu escolheram por ser um bom lugar para viver, vieram as casas de veraneio, as pousadas, restaurantes e, mais recentemente, 2 resorts que estão buscando se inserir no segmento de “destinos para casamentos”.  Mudou muito sim. Antes um simples mercadinho hoje são 4, tem até 2 cabelereiros, uma loja de material de construção, 3 ONGs, wifi, tv a cabo, aluguel de bicicletas, loja de roupas, balsa até de madrugada, transporte público, uma estrada asfaltada que passa por fora, às vezes um som batidão numa esquina tirando o sono de quem mora perto…

Também não sou a mesma…. Com as tantas experiências e informações trazidas dos grandes centros por onde passei não me enquadraria no perfil de um amor e uma  cabana… Danuza querida, na nossa idade, um mínimo de conforto faz bem. Na minha quase deserta praia ainda tem muita estrela no céu, alguns quilômetros para andar a beira mar sem encontrar uma viva alma, a lua cheia nasce escandalosamente na hora certa em que o aplicativo do meu smartphone anuncia… Em contraponto sabiás, pardais, maritacas, beija flor, e outras tantas aves lindas e não raras, cantam no meu jardim.  E ainda tenho uma rede, deliciosa para ler você aos domingos… Quando quiser, apareça ! Vai ser um enorme prazer …

O cajueiro

IMG_20181009_075718748 (1)

Há 14 anos descobri os cajueiros ao aprender a conviver com os dois plantados no jardim de casa… Troncos com formas sinuosas, ora buscando o sol, ora se enterrando na areia e depois retomando seu caminho que ameaçavam os telhados. Deram poucos frutos, muitas flores, mas gosto de admirar a sua força, a determinação em crescer, mesmo sem receber muita água. Bastava a da chuva e às vezes alguma que do gramado escorria para seus pés…

Porém, com o tempo seus troncos saíram do meu jardim, atravessaram a servidão* e quase se derramaram no caminho, inibindo a entrada de veículos mais altos. Para evitar que derrubassem a frágil cerca de madeira da minha casa como também a cerca de eucalipto de outro vizinho, há algum tempo coloquei uma estaca aparando um pesado galho, tudo paliativo… Sabia que um dia teria que ser podado. Na verdade, o que me seduz são seus galhos, muitos secos, fazendo como um “túnel de acesso” ao meu paraíso… O portal da minha alegria…

Ontem o vizinho de servidão, proprietário da Pousada Victor Hugo, construída nos anos 90 por meu irmão Victor e seu sócio Hugo, veio pedir socorro. Precisa de forma urgente da entrada de um caminhão por uma questão estrutural do seu empreendimento e com os galhos é impossível…

Ouvi o pedido, prometi refletir e fiquei divagando sobre a necessidade relevante do vizinho e a estética poética dos galhos, às vezes misturados com bouganvilles, dando boas-vindas à quem chega. O vizinho é meu bem e meu mal. Se for feliz e próspero, serei também. Doeu profundo o tempo de vazio, o abandono, a pousada sem saber que rumo tomar, muitas vezes fechada por longo tempo. Só sobreviviam os jardins, por total dedicação do Beto, jardineiro da época do meu irmão. Havia amor e cuidado por aquele espaço que vi ser construído, estava na inauguração, acompanhei a expansão, e se tornou ponto de referência no povoado, recebeu elogios nos cadernos de turismo, estrelas referendando os bons serviços, e vi também a partida do meu irmão. Foram anos difíceis de um inventário empacado na morosa justiça no sul da Bahia, a desavença entre o sócio e a minha família e, por fim, a venda há 4 anos. Período de altos e baixos, e a bela Victor Hugo perdendo a identidade…. Até que há seis meses chegou um empresário paulista cheio de sonhos para ser pousadeiro à beira mar… Um respiro para o meu coração…

Nestas divagações, me coloquei no lugar do vizinho…. Conclui a importância da poda …. Clareou a servidão, tenho esperança que vai renascer com vigor, assim como a pousada.

*Servidão – um acesso público para o mar, muitas são tão estreitas que veículos não entram. Esta servidão é mais larga, com acesso a veículos exclusivamente para minha casa e para Pousada Victor Hugo.  

Paciencia

IMG_20181003_075300958

No vai e vem do corpo no reformer* durante a aula de Pilates, vou contanto até 36 enquanto a outra parte do cérebro pensa, discute e reflete assuntos diversos… Ora os pensamentos são interrompidos pelo canto de um pássaro, outras por alguém que passa assobiando alguma canção… Este cenário fica entre árvores, jardineiras de pimentas e temperos, buganvílias e tumbérgias que às vezes se soltam dos galhos e fazem um tapete na entrada.

E foi no vai e vem desta manhã que fiquei refletindo sobre a imagem que uma amiga criou para explicar as ondas energéticas do nosso cérebro:  “são como velcro para agarrar maus pensamentos, e tefal para deixar escapar as boas energias”. Creio que vivemos um tempo VELCRO…. Muito ódio no ar, brigas, discussões, tudo a ferro e fogo… Discussões homéricas nas redes sociais, os amigos se assustam ao constatar que seus amigos estão fazendo uma escolha que não a sua, como assim? De repente se transformam em inimigos, um desencanto, como se o amor e o respeito que forjaram a amizade durante tantos anos deixassem de existir por conta das eleições.

Gostei da crônica de domingo do Fernando Gabeira, um ex-exilado, que não vê o Aeroporto do Galeão como saída para os problemas do país, “porque leio o outro nome dele, Antonio Carlos Jobim, e me lembro da beleza e do talento que este país abriga”.

Eu me lembro destas belezas e talentos todos os dias. Às vezes em fatos muito simples, como dos jovens da escola municipal de Santo Antônio que pedem ajuda para criar um jornal;  das árvores que o vizinho plantou ao construir a casa e dão sombra à rua; dos “horteiros” que vêm me ajudar e com isso acordo louca para ver as mudinhas cresceram na magia da noite; do nascer do dia no mar, um escândalo, e do pôr do sol no rio, um absurdo de lindo…Não é privilégio de quem mora fora do grande centro, mas de quem vai chegando aos 70 procurando entender que a vida não pode ser só embates, disputas, poder…

Entre as muitas mensagens que vêm nas redes sociais, enquanto escrevia recebi uma sobre a física quântica e as eleições, completando perfeitamente o meu sentimento:  “Tudo está em movimento. A matéria não é densa, é apenas um monte de partículas se movimentando. Os cientistas já provaram que o observador determina se o átomo vai se comportar como partícula ou como onda, num experimento chamado “Fenda Dupla”. Trocando em miúdos, isso significa que cada pessoa cria a sua própria realidade. Realidade essa que é interpretada de forma diversa de acordo com suas experiências de vida, meio cultural onde vive e projetos de futuro. Isso tudo me autoriza a valorizar a auto responsabilidade. Ou seja, se a sua timeline está cheia de troca de ofensas e você se perturba com isso, adivinha de quem é a responsabilidade? É sua. Você focou nisso. Você criou isso prá sua vida…”

Esta mensagem é de Roberta Ramalho, não conheço, mas adoro a generosidade dos compartilhamentos, simplesmente doar uma opinião que pode influenciar a vida de alguém… Como aconteceu com a minha, ficou tudo bem mais leve… Tão leve quanto a cena cotidiana que encontro na volta do Pilates. O cão, em frente da casa, à beira da estrada, esperando seu dono… Paciência e fidelidade aos seus princípios, creio que isto é o que estamos precisando…

 

reformer* é o equipamento mais comum entre os estúdios de Pilates. Ele é composto por uma plataforma deslizante que funciona como uma espécie de carrinho, que fica sobre uma estrutura retangular feita de madeira; o carrinho se conecta à molas, polias e cordas que são ligadas a esta estrutura.

Escolhas

6637ad2e-2968-451f-80ad-410018aada7f

Esta semana, duas postagens com muitas curtidas e comentários levaram-me a refletir. Na primeira, me solidarizei com os jornalistas demitidos na Editora Abril; a segunda comemorando 14 anos morando em Vila de Santo André.  Os dois assuntos apesar de dispares, se encontram num mesmo tema: escolhas.

Quando optei em sair do olho do furacão das grandes cidades e vir para a pequena Vila de Santo André, eu não estava desempregada. Ao contrário, estava num excelente momento profissional. Era diretora de uma promissora agencia de eventos da qual fiz parte da criação, completamente integrada no mercado de jornalismo, produção, eventos e marketing. Não sei se foi Deus, o destino, a casualidade que me fincaram na Bahia para não ver o meu Rio de Janeiro desmoronar e descobrir que, mesmo a mais de mil kms distante, posso participar de qualquer processo que necessite uma profissional criativa, experiente, integra, disponível 24hs, texto bacana, capacidade organizacional, bem-humorada e pau para toda a obra.

Nada foi previsto, tudo aconteceu com um desejo de entender melhor a vida e experimentar novos desafios. E foi possível. O mundo é maior do que o Rio e São Paulo, há muito a se doar e ensinar em localidades menores.  Estou sempre somando em algum projeto social ou na gestão pública. Fui secretária de cultura e de comunicação, em duas administrações distintas, cujos prefeitos não compartilhavam da minha escolha política. Como técnica aprendi e ensinei muito em Sta Cruz Cabrália, pouco mais de 28 mil habitantes, e em Vila de Sto André, com menos de 800 habitantes. Todos os egos e vaidades existem, como em qualquer lugar do planeta, e aprendi como conviver é delicado e rico…

Como jornalista, graças a internet, estudei redes sociais, e atuo postando fotos todos os dias no @santoandredabahia, na página http://www.facebook.com/santoandredabahia/ e mantendo atualizado o site www.santoandre-bahia.com . Todas estas redes tem o obetivo de promover o destino turistico onde escolhi viver, e isso é trabalho… Sou voluntária na área de comunicação do IASA, uma ONG que oferece aulas de música; vice-presidente do Conselho de Turismo de Cabrália; e, como uma região turística hospedagem é o que muitos procuram, tenho uma pequena pousada com três chalés para receber amigos e amigos de amigos, de um jeito muito especial…

Em 14 anos escrevi dois livros, atuei como consultora de comunicação em crises empresariais, participei da criação de projetos que se tornaram grandes eventos, dei palpite, somei, acrescentei, descasquei abacaxis com primor. E, nesse ínterim, lendo jornais e revistas online, ainda tive o prazer de ver muita folha no chão se transformando em adubo, maré subir e descer, lua nascendo, sol se pondo, vento derrubando galhos, passarinho cantando… Vi uma pequena muda de roseira dar flor, ouvi o silencio na madrugada, sol amanhecendo no meu rosto, cigarras anunciando o verão, chuvas lavando a alma em longo e úmido inverno…. Plantei árvores, acompanhei cachorro morrendo e crescendo, passarinho no ninho, amigos chegando e partindo, primeira estrela; júpiter, marte e saturno no céu… Rezo todos os dias agradecendo o que tenho, a minha família, aos amigos e aos que não gostam de mim… Nas minhas muitas mudanças, nacionais e internacionais, sempre soube que tinha um lugar para voltar, era a casa dos meus pais… Esta não existe mais e meu único lugar é o que construí. Com muito mais qualidade, precisando de muito menos, entendi que o amor incondicional, a delicadeza, o compromisso com a verdade, a fidelidade aos amigos é o que importa…

Por isso, em tempos de escolhas e mudanças, para quem não sabe o que fazer da vida, fica a dica : experimente sair da caixa e começar uma nova história… O mundo é acolhedor… Sempre vale à pena…

De outras vidas…

IMG_20180609_112656728

Aprendi em casa a fazer e conservar amigos. Meus pais não se contentaram com os 5 filhos. Ajudaram a criar outros três, receberam muitos amigos e parentes em longas temporadas, numa época que onde 7 comiam, 10 comiam também!  Ensinaram que fazer e cuidar de amigos é um exercício, e aprendi muito bem a lição. Quando alguém desaparece vou atrás e, se não encontro, é sinal que partiu para outra dimensão… As redes sociais têm sido generosas com reencontros e, entre tantos amigos, hoje me permito reverenciar uma que, como disse sua mãe, “esta é uma amizade que veio de outras vidas”. Ela é um exemplo de determinação e generosidade.

Aos 38 anos, empresária bem-sucedida, formada em duas faculdades, pós-graduada, completando um MBA, teve um AVC. Como sequela, ficou com palidez no nervo ótico, o olho onde através da câmera via o mundo e fotografava por puro deleite. Mas superar foi fácil. Aprendeu a fotografar com o olho esquerdo, desfez a sociedade na farmácia de homeopatia em BH, e atendendo a sugestão da neurologista mudou a vida antes que a vida mudasse ainda mais o seu caminho.

Quando estava iniciando um novo ciclo, veio trabalhar comigo na Secretaria de Cultura de Cabrália e alguns meses depois descobriu que estava com esclerose múltipla. Decidiu rejeitar os tratamentos convencionais que, segundo ela, eram muito invasivos e comprometiam o paciente e, por ser de uma família que se dedica à saúde e a educação, com suporte de alguns médicos estudiosos e pesquisadores, fez um mix de tratamento envolvendo a alopatia, antroposofia, homeopatia, acrescido de espiritualidade e muita fé. Alguns médicos ainda não entendem como conseguiu superar a doença auto imunine, mas o fato é que hoje ela é fotógrafa, atua como voluntária em projetos sociais e, quando o mar está tranquilo, desliza com seu stand up paddle pelas águas de Vila de Santo André… Salve Claudia Schembri em seu aniversário… Amiga, irmã, que todo dia me mostra que a fé move montanhas e é possível começar de novo !

A visita

2016-12-21 13.26.50

Estava entretida costurando bandeirinhas para enfeitar o verão quando o celular avisou que tinha mensagem. Era uma amiga que não vejo há séculos, está de férias em Arraial e com dia chuvoso saiu de carro sem destino. Chegou em Cabrália, pegou a balsa e no meio da travessia mandou o whatsapp “se você estiver de bobeira passo aí para dar um beijo”. Sempre estou de bobeira para receber beijo e, enquanto enviava as informações de como chegar até minha casa e prendia os cães, lembrei do seu irmão, um grande amor que passou no meu caminho e foi embora muito cedo… Um amor que durou pouco, mas nem por isso foi raso. Um dos homens mais brilhantes que conheci, com senso de humor refinado, jeito de intelectual desprotegido, ideias aos borbotões, grande figura. Certa noite, no final de um jantar,  ele confessou estar com a vida confusa demais para entrar num relacionamento mais sério. Dei o maior vexame ao chorar na mesa do restaurante. Como eu ia perder alguém tão legal ?

Ah! o amor, “o ridículo da vida” como escreveu Herivelto Martins, fez desmoronar uma mulher que chegava aos 40 anos, com muitas experiências e ainda com sonhos de ter um bom companheiro… Ficaram as boas memórias, o  livro de fotos do Salvador Salgado que ganhei no aniversário, a trilha sonora no CD da Bethânia cantando Roberto Carlos que ouvimos muito e um par de brincos de lápis-lazuli comprados no Chile.  Não fui ao Chile com ele, mas comprei quando lá estive, pensando que iria de gostar de ver nas minhas orelhas.

Tudo isso passou na minha cabeça “como se fosse um filme”, diria o Faustão, em menos de 10 minutos, tempo de a balsa chegar em Santo André e ela tocar a campainha do portão. Entrou pelo jardim tão linda, a maturidade está lhe fazendo bem, acompanhada de um casal de amigos. Dia chuvoso, muitas árvores no jardim, sinto que a casa fica triste, mas se alegrou com as visitas. Sentamos na varanda e, como sempre, conto a minha saga de 13 anos longe da “civilização” e o quanto faço e produzo, que meus dias nunca são iguais e nem monótonos. Nas entrelinhas sempre estou dizendo “fiquem tranquilos, estou feliz nesta reencadernação“. Trocamos pensamentos de vida, fui mostrar o mar, puderam perceber como tudo pode ser mais lindo com o sol e, meia hora depois, já nas despedidas, me perguntam se não sentia solidão. Devem ter achado que o tempo cinza, temperatura mais fria, morando sozinha com dois cães pudesse bater uma vontade de ir embora.

Mas cada dia tenho mais certeza que não poderia estar em lugar melhor para ver meus cabelos embranquecerem. Encaro sem subterfúgios os prazeres e as mazelas que aparecem…. Posso ser o que quero, bem boazinha e bem mazinha, é só escolher em que sintonia vou navegar…. Tenho uma casa que me permite o privilégio de receber amigos o ano inteiro. Conversas que entram e saem, como as que virão no início de outubro, quando cinco pessoas que não se conhecem, mas circulam nas mesmas áreas, vão se tornar amigas aqui…. Tenho certeza…. Nada combinado, tudo por conta do universo que sabe o quanto eu gosto de juntar pessoas e dá uma mãozinha.  E aí rolam altos papos, um bom peixe na mesa grande do jardim e a alegria do momento. Depois os visitantes partem,  mais alguns dias ficam silenciosos, até que chegam outros amigos, novos assuntos…

Estou conectada 24 horas para atender um cliente de são paulo que pode nem precisar de mim em um dia, mas quando chama estou tão perto como se fosse na mesa ao lado no seu escritório… Nas horas de folga me entretenho com costuras, leio o que aparece no papel e jornais na tela do Ipad, sem compromisso faço clipping de assuntos que podem interessar aos amigos, invento projetos, sou cidadã aonde moro, estudo redes sociais, refaço o site de turismo da vila, me alongo no pilates, ando na praia, assisto novelas e, sinceramente, não tenho tempo para pensar em solidão. Como postou no facebook minha prima Livia Garcia-Roza “A solidão pode ser cheia de encantos para certas pessoas. Me incluo entre elas.”

 

Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri