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Meu olhar em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, Bahia

Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri

Outros carnavais

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Sentada a beira do rio esperando o bloco Unidos de Santo André passar, lembrei da foto com Paulo Martins que recentemente emoldurei e pendurei na parede da sala e me remete a outros carnavais. Meus pais se conheceram num baile de carnaval. Minha mãe era a rainha, ficava no trono acenando para os súditos; meu pai entrou no baile como penetra, não era sócio do clube e vestiu uma fantasia de dominó (não consigo imaginar!!!) com capuz na cabeça para não ser reconhecido… Ouvi esta história dezenas de vezes quando me vestiam de bailarina ou qualquer outra fantasia que “herdava” das primas ricas e me levavam para o clube com um saco de confete, um pacote de serpentina e uma lança perfume Rodo Metalica.

Sempre me senti ridícula fantasiada. Até mesmo quando adolescente saía no grupo das  garotas da rua da Cascata vestida de índio ou melindrosa para brincar no baile no Montanha Clube. Em grupo o vexame era menor. Deve ter sido isso que me estimulou a aceitar o convite dos incríveis Stenio Pereira e Equio Reis para sair na comissão de frente da Portela. Na verdade era um séquito que acompanharia a colunável milionária Beky Klabin em sua estreia no carnaval.  Equio e Stenio eram dois artistas sensacionais que marcaram o fim dos anos 60 e início dos 70 em Ipanema. Um baiano, ator e diretor de teatro, o outro arquiteto carioca, foi o primeiro casal assumidamente gay que conheci. Juntos criaram uma grife, um estilo que fez sucesso entre artistas e descolados.

Beky era uma grande figura. De origem turca, chegou menina ao Brasil, casou com o empresário do ramo de papel e celulose Horácio Klabin com quem teve dois filhos. Foi jurada do programa do Chacrinha, namorou o cantor Waldick Soriano, o cirurgião plástico Hosmany Ramos que anos depois foi preso e julgado como traficante… Ela “causava” na sociedade carioca e por ser apaixonada por samba foi parar na Portela. As portas da sua cobertura na Av. Vieira Souto – o metro quadrado mais caro do mundo! – eram abertas para ritmistas e passistas realizarem os ensaios da “trupe” que a acompanharia na avenida. Claro que tudo regado a muito champagne e caviar. Não lembro quantos éramos naquele carnaval de 1972, mas viemos em torno de Beky que “carregava” um vestido branco, coberto de plumas e pedrarias. Evoluíamos numa coreografia ensaiada durante semanas seguindo a letra do samba “Ilu aiê odara, negro cantava na nação nagô…” Dizem que as joias que Beky usava eram de muitos quilates, por isso, discretamente, alguns seguranças a acompanhavam. Ainda não havia o sambódromo, as escolas se exibiam na Presidente Vargas, e quando terminou o desfile, lá estava nos esperando o seu motorista com o porta malas da Mercedes aberto repleto de bebidas e comidinhas para o grupo… Lembro voltando para casa com a maquiagem escorrendo no rosto …

Beky foi a primeira personalidade do “high society” a desfilar em uma escola de samba o que causou furor e se tornou um escândalo… Sua personalidade era tão marcante como referência em glamour e poder, que segundo consta, Gilberto Braga nela se inspirou para escrever a personagem Stela, vivida por Tônia Carrero na novela “Agua Viva” em 1980. Resgatei um de seus pensamentos: “Assim como Stela, detesto praia. Mas mando o copeiro buscar a água do mar para jogar no meu corpo porque queima mais”.

E, na doce brisa do fim de tarde do sábado de carnaval, vendo a explosão de cores do por sol relembrei deste carnaval enquanto esperava o bloco passar… Sem abre alas e coreografia, prefiro ver a vida de camarote…

Na foto abaixo, Beki Klabin (10 de setembro de 1921 – 20 de agosto de 2000.

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Alongar

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Sempre ao sair do Pilates tenho a sensação de estar mais alta. Hoje voltei pela estrada sentindo o sol estourar na pele, o cheiro das árvores nativas misturadas com o do asfalto, como se estivesse caminhando sob pernas de pau.  Acho que cresci uns 10 centímetros nesta última hora… O tempo que passo entortilhada em mim mesma sobre o teclado ou no sofá enquanto faço bordados desaparece. Sinto como se eu fosse uma roupa que ficou muito tempo pendurada no varal, embaixo do calor escaldante da Bahia e ao ser retirada está bem esticadinha… Enquanto caminho reflito que além do corpo deveria alongar os pensamentos. Esticar tal qual o elástico que levanta as minhas pernas e faz com que eu me sinta como uma bailarina em piruetas…. Alongar percepções, sentimentos, intuições…. Um pouco de Pilates para a alma, decifrar o que parece indecifrável no conhecimento de mim mesma… Sou uma porção de mulheres misturadas e apesar de tantos anos convivendo com esta questão ainda me surpreendo… Vou me alongar para a vida que ainda me espera…

Feliz 2017

murta

A Murta com seus frutos

Acordei e vi a árvore de Ingá florindo de um lado da casa e a de Murta cheia de frutos do outro. Para quem vive em um grande centro esses fatos nada representam, mas para quem tem uma exuberante natureza a sua volta são sinais, nem que seja a promessa da chegada de muitas abelhas que passarão a rodear com um zumbido tão alto que me levam a crer que tem uma serra elétrica nas proximidades… Ah! prazeres de uma outra qualidade de vida… Neste tempo de verão vejo a alegria com que os turistas por aqui passam e se encantam… É uma vila muito simples, por isso a cada dia mais raro em meio a tanta tecnologia, tragédia, violência urbana, pressão, caos, medo…

Todos os meus amigos e também os amigos dos meus amigos deveriam ter o direito de passar uma semana por ano em um local como Vila de Santo André, onde as ruas são de terra, onde espontaneamente acontecem pequenos eventos a beira do rio para alegrar os visitantes, onde a gastronomia vai do PF básico ao restaurante de luxo, onde chove nas madrugadas e tem sempre estrelas e uma lua desenhada no céu, onde se toma banho de mar pois até as ondas são tranquilas.

O meu prognostico é que este será meu ano azul…. Não são previsões da astrologia, do tarô ou da bola de cristal, mas assim defini com dias tão azuis e por ter ganho uma bolsa, um colar, uma agenda e uma luminária da mesma cor.  Basta muito pouco para se colorir um ano e se reposicionar diante de um futuro que começo a desenhar nestes primeiros dias… Se o azul ficar marinho vou dar um jeito de clarear… Feliz 2017 em seu 7º dia…

inga

O Ingá com suas flores

As amigas

abertura cronica

Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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Sobre (e sob) a rede

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Há pouco mais de um ano Sara, moradora de São Paulo, apaixonada por New York, criou um espaço no Instagram para compartilhar fotos da Big Apple e convidou turistas e profissionais a fazer o mesmo… Assim surgiu @what_i_say_in_nyc que na semana passada tinha mais de 153 mil seguidores de todas partes do mundo postando fotos de ângulos fantásticos… Juntos construíram um grande álbum, formaram uma enorme tribo de loucos por Manhattan… O que começou como hobby e a deixava no conforto do anonimato, a semana passada tomou outra dimensão. Ah! o sucesso, sempre o sucesso, com o ego a inveja na cola,  de repente, ela viu sua conta hackeada. Trocaram a senha, mudaram o nome e começou uma conversa de extorsão. Momentos de terror até uma amiga conseguir postar um aviso que a conta tinha sido roubada e os seguidores que nunca a tinham visto, não sabiam se era mulher ou homem, nem em que lugar do planeta morava, passaram a enviar mensagens à base do Instagram denunciando o fato. Os gerentes internacionais responderam e mais do que devolver o espaço à Sara estão tentando enquadrar o larápio.

Este grito nas redes me fascina e me assusta.  Ao mesmo tempo são movimentos mágicos. Estamos vivendo isso todos os dias… Alguns assustam pela violência que vem nas entrelinhas ou até de forma bem direta… Prefiro os movimentos mágicos da rede embaixo de uma arvore que me levam à reflexão. Citar Nova York é sempre puxar um fio atoa na memória, qualquer imagem vem carregada de lembranças. Do sabor do cachorro quente nas esquinas, ao cheiro das castanhas assadas, o prazer da taça de vinho branco as sextas-feiras no bar da Grand Central, o vento frio no inverno cortando as ruas da ilha… Tudo me lembra… Viver lá aos 32 anos foi a primeira grande experiência pessoal que a vida me deu. Conclui este fato nos últimos tempos. Era eu comigo, eu com Deus e that´s it. Foram muitos fins de semana sozinha. Lembro que acordei uma segunda-feira com dor nos braços. Já no trem, a caminho do trabalho, ao ajeitar a roupa no corpo dei conta que tinha passado dois dias sentada no sofá fazendo aquela blusa de tricô. Explicada a dor nos braços e o sentimento de que cada ponto tinha um pensamento, um sonho, uma possibilidade, uma saudade.

Aprendi a colher as folhas de oak que caíam no jardim, a lavar, passar e arrumar. Andar na neve, ter reservas pois se o dinheiro acabasse não havia a quem pedir. A cortar o próprio cabelo, fazer mãos em pés nas noites de spa que inventava na banheira de casa. Quem não conviveu com a solidão, desconhece seus limites, diminui seus horizontes. Uma amiga que salta em paraquedas, parapente e asa delta, desce corredeiras em caiaque, faz stand up paddle, está com um frio na barriga pois pela primeira vez vai morar sozinha. Ela ainda vai descobrir o quanto será uma experiência transformadora. Mas não adianta falar, tem que meter a cara… Acho que a vida não é para passo miúdo. É para quem se arrisca, se atira no trampolim sem rede e se permite depois ficar deitada em uma, olhando o sabiá que constrói um ninho e nada mais importa neste momento.  Nem mesmo uma foto de New York.

Voltei

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Nos últimos anos tem sido assim: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro correm mais do que as minhas pernas podem alcançar…. Hospedes chegam e partem, amigos visitam, passam para uma conversa, um almoço ali, um jantar acolá, uma tapioca no café da manhã, um prosecco na praia – todo mundo toma espumante! – , um vinho no fim da tarde, eles estão de férias e eu trabalhando, em casa e na prefeitura. O filho me conforta por 4 semanas, longas conversas, vida colocada em dia, presente e futuro. Acompanho a sua maturidade, orgulho do seu caminho bem construído.  Fico feliz com suas escolhas e a forma clara, lucida de olhar o mundo.  Recebo como presente uma foto nossa reproduzida em um bordado. Não pode ser mais delicado… Continuo costurando amizades e afetos, em forma de bonecas e colchas… Num êxtase de inventividade, uni retalhos com bordados e ficou surpreendente… Nenhuma modéstia, a esta altura da vida este sentimento deixou de habitar em mim.

O carnaval passou e pela primeira vez vi como é em Cabrália. Acontece uma semana antes do original, já é tradição. É a Bahia com todos os Bs As Hs  Is e As em caixa bem alta. Impossível conversar no volume do trio elétrico. Entrei em um para ver como é e babei com a super sofisticação da área interna. Suítes de luxo, palco de responsabilidade. Fico surda e tento entender as letras geralmente com duplo sentido na mistura de ritmos sertanejo, arroxa, pagode e o que mais vier. É assim por aqui. Tão perto e tão diferente do bloco de Santo André que sai no sábado de carnaval com sua charanga tocando “mamãe eu quero” e outras tantas marchinhas, levantando poeira pelas ruas, homens vestidos de mulher, crianças de borboleta, fantasias bizarras, poucas baianas…Tudo inesquecível…Uma exaustão, um prazer único, quem viveu pode contar.

Aproveitando a entressafra de dois dias com casa vazia, dei folga para a turma que pega pesado comigo, tempo para respirar, bateu um banzo. Saudades de escrever e dos irmãos. Tenho muitos amigos e pouca família. Não vejo há tempo os que me viram com catapora, com quem dividi a lata de leite condensado, disputei o ultimo bife do prato, dancei até cansar, pedi colo, dormi junto, compartilhei sonhos e mangas caídas do quintal. Em volta da mesa no almoço de domingo éramos um grupo forte, parecia que a cena jamais se apagaria. Caímos na vida, os esteios da casa partiram e temo em nosso reencontro sermos apenas velhinhos com pouca memória…

Nas memórias recentes encontro para jantar um amigo que hoje mora em BH e conheci quando cheguei na Bahia. Pensei um projeto, ele deu força, montamos juntos e assim nasceu a Caravana Veracel, uma ação de cidadania que só por ter visto acontecer justificaria a minha existência. Já disse isso também no projeto de voluntariado em Lisboa em 2004, no relato sobre Jerusalém em 2012, e sou feliz por ter sido parte de tantos sonhos, por onde deixei um pedaço de mim, vi se tornar realidade. Como é bom fechar ciclos, iniciar novos…. Estou neste tempo, enfim um novo ano… Sei que algumas vezes o barco emperra na areia, o motor não pega, dá preguiça e não há muito a fazer senão esperar a maré subir e ganhar novamente o mar. E chegou a hora. Estou soltando as amarras, 2016 aqui vou eu…

Felicidades

O publicitário Nizan Guanaes publicou a semana passada na Folha de São Paulo, um belo artigo com o sugestivo título “Rezar”. Como eu rezo, compartilhei no FB e outros tantos amigos comentaram e multiplicaram a informação. Uma corrente bacana se formou. Até onde eu vi eram mais de 24 mil compartilhamentos.  Eu penso que o que passa pela nossa cabeça é o alimento para a alma e o coração. Minhas constatações, não tem fundamento científico, apenas um olhar à vida e um ajuntamento de leituras variadas.

Eu sei como é difícil silenciar a mente. Ela fala mais do que a boca, corre de um lado para outro, muda de assunto traz lembranças antigas, projeta diálogos que jamais existiram, anda para frente e para trás no tempo.  Aquietar é tarefa árdua, por isso creio que enquanto rezo ou medito ou repito um mantra fujo da “mente vazia morada do demônio”. Ouvi pela primeira vez esta frase devia ter pouco mais de 13 anos. Ao lado da grande casa em que morávamos na Tijuca vivia uma família que tinha apenas um filho estudante do Colégio Militar, aplicado e bonitão. A mãe zelosa repetia esta frase ao telefone para as garotas que o procuravam, acrescentando: “pensa em outra coisa, vai ser melhor para você. ” E eu ouvia por trás da veneziana da janela do meu quarto e imaginava como devia ser difícil pensar em outra coisa e sedutora a morada do demônio com desejos ilimitados…

anjo

O céu e o inferno, anjos e demônios, caminharam comigo ao longo dos meus 10 anos de idade. Na 4ª. série do primário, hoje ensino fundamental, entrou uma nova aluna que sentou na carteira ao meu lado. Sim, as carteiras escolares eram duplas, quem passou dos 50 conheceu esta forma integrativa nas antigas salas de aula. Rapidamente ficamos amigas e um dia ela confidenciou que via o meu anjo da guarda. Estudávamos em colégio de freiras e santos, anjos, querubins eram temas corriqueiros. Mas ver o anjo da guarda era delírio. E é claro que entrei nesta viagem sem contar para ninguém, nem mesmo ao padre no confessionário. Durante todo este ano, comi metade do prato de comida, meio sanduíche, meio picolé. Corri menos, pedalei menos ainda. Deixei de subir em árvores, pulei pouco corda, dormi num canto da cama, pois tinha que deixar espaço para o meu anjo. Ele não podia se cansar e também tinha suas vontades. Assim vivi um ano exercitando o dividir com quem não via. Apenas acreditava que estava comigo, zelava por mim. A garota foi embora o ano seguinte, e por mais doido que tenha sido a experiência aprendi a conversar com o meu anjo, com um Deus, sem qualquer medo do fogo do inferno.  Com Ele posso dividir alegrias, tristezas, duvidas… Prato de comida não é mais necessário…

Mesmo nos períodos em que estive mais para o profano do que para o sagrado, permaneci acreditando que foco, atenção, boas palavras e bons pensamentos, transformam.  Aonde você coloca a sua atenção – ou tensão, ou tesão – vai dar frutos. É por isso que neste final de ano, desejo que você ganhe alguns minutos de prazer em sua vida como uma prece, ou reflexão, ou meditação ou apenas um pensamento de gratidão por mais este ano.  Foi muito bom ter me disciplinado a escrever todas as semanas, feito novos amigos, compartilhado meus pensamentos. Que todas as boas coisas do universo façam parte do seu novo ano… Feliz 2016.

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Força na peruca

Não sou produtora. Sempre afirmei em todos os eventos que trabalhei. Sou cabeça de criar, inventar, promover e não me chamem para produzir. Tanto repeti que o universo me respondeu com um desafio: vai ser o que você não quer ser. A vida tem disso… Tudo o que negamos acaba um dia batendo em nossa porta. É o que temos que aprender na caminhada… E foi assim que surgiu o Festival de Inverno de Santo André. Tive uma ideia! Isto é normal. Vou escrever um projeto, também normal. Vou comunicar às pessoas, fazer os contatos, colocar toda a comunidade para participar. Tudo muito óbvio. Levei o projeto ao prefeito que adorou “é tudo o que desejo para Santa Cruz Cabrália”, ele falou. “Conte com o palco som luz e a estrutura para o festival”. Aprendi que em reuniões profissionais não se deve ir sozinho. Estava acompanhada da administradora da vila, Silvia, e da diretora de cultura da cidade, Rita, testemunhas da promessa de que o sonho ia sair do papel. Mas ficou apenas ali. E  agora que já coloquei as crianças e os jovens prá ensaiar um lindo espetáculo? Aos convidados que viriam de longe (diretor de cinema, atores, músicos, coreógrafa) enviei um email agradecendo e pedindo desculpas pela falta de recursos com o não cumprimento da palavra do prefeito. Mas para a turma daqui? Como dizer que nada iria acontecer? A oferta de patrocínio da Veracel, empresa de celulose do Sul da Bahia, é apenas 15% do orçamento !! Não acredito em políticos, mas acredito em milagres e em amigos. Hoje o palco começou a ser construído à beira do rio, como havia planejado. Um amigo que tem empresas de eventos em Porto Seguro, Locar Eventos e DiskStand, quando telefonei dizendo que estava tudo cancelado, disse: “nós vamos fazer de qualquer maneira”. Bem que eu poderia ter feito um moderno “crowdfunding” mas sou do tempo de ação entre amigos… Zenaide, Lily, Reghi, Luiz Felipe, Juliana, Eleonora, Rodrigo, Andréa, Nel, Betty, amigos pessoais e da vila que estão em São Paulo, Rio e BH deram uma ajuda para as faixas que já foram para a rua, para o fundo do palco que está sendo produzido (afinal um espetáculo tem que ter cenário!!!) e para os cartazetes com a programação que ficam prontos na 2ª. feira. O incrível Zé de Broi, talentoso diretor de arte que veio morar em nossa vila criou a comunicação visual… Ontem quando saí com uma enorme escada no carro e com a ajuda do Guinho colocamos as faixas na rua, lembrei dos mega eventos que participei onde não se colocavam faixas mas enormes outdoors, totens, anúncios de página inteira nos mais importantes jornais. Hoje vendo o caminhão descarregar o material com a estrutura do palco às beira do rio, foi uma enorme emoção. Talvez maior do que um Rock in Rio… Ficamos estabelecendo a melhor posição para palco e plateia… Serão 200 cadeiras brancas embaixo de um toldo, caso o tempo mude… Poucos vão precisar trazer cadeiras de casa… Ainda falta resolver o transporte e hospedagem dos 5 músicos que vem de Trancoso, camisetas para a equipe de voluntários, faixas para os bairros vizinhos, carro de som anunciando na comunidade e outros detalhes… Aprendi que o ótimo é inimigo do bom e faço do tamanho que der… Abaixo a programação e tenho imenso prazer em convidar a todos para este festival! Faço meu acerto de contas com a “produção” e realizo meu primeiro e único evento.

Fundo do palco

PROGRAMAÇÃO Dia 27 – Sexta-feira – 20h30 Dança

  • Fragmentos do espetáculo ABAPURU HOMEM NOVO apresentado por crianças e jovens do CCC
  • Apresentação do Grupo Afro Aféfé com os dançarinos Andressa, Guto, Jairo, Mari, Monica, Priscilla,  Simona e Vivian, e os percussionistas Kaito Odara e Marcello Bottini.

Dia 28 – Sábado – 20h30 Música

  • Apresentação dos alunos de cordas e flauta do IASA
  • Quarteto de cordas do Neojiba- Instituto SHC de Trancoso
  • Duo Ray Trapp& Marcelo Bottini

Dia 29 – Domingo – 20h30 Cinema

  • “Morde Diabo” – curta realizado por um grupo de jovens de Santo André na Oficina Itinerante de Vídeo Tela Brasil de Santa cruz Cabrália.
  • “Xingu” – longa com João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat, baseado na história real dos Irmãos Villas Boas.