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De outras vidas…

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Aprendi em casa a fazer e conservar amigos. Meus pais não se contentaram com os 5 filhos. Ajudaram a criar outros três, receberam muitos amigos e parentes em longas temporadas, numa época que onde 7 comiam, 10 comiam também!  Ensinaram que fazer e cuidar de amigos é um exercício, e aprendi muito bem a lição. Quando alguém desaparece vou atrás e, se não encontro, é sinal que partiu para outra dimensão… As redes sociais têm sido generosas com reencontros e, entre tantos amigos, hoje me permito reverenciar uma que, como disse sua mãe, “esta é uma amizade que veio de outras vidas”. Ela é um exemplo de determinação e generosidade.

Aos 38 anos, empresária bem-sucedida, formada em duas faculdades, pós-graduada, completando um MBA, teve um AVC. Como sequela, ficou com palidez no nervo ótico, o olho onde através da câmera via o mundo e fotografava por puro deleite. Mas superar foi fácil. Aprendeu a fotografar com o olho esquerdo, desfez a sociedade na farmácia de homeopatia em BH, e atendendo a sugestão da neurologista mudou a vida antes que a vida mudasse ainda mais o seu caminho.

Quando estava iniciando um novo ciclo, veio trabalhar comigo na Secretaria de Cultura de Cabrália e alguns meses depois descobriu que estava com esclerose múltipla. Decidiu rejeitar os tratamentos convencionais que, segundo ela, eram muito invasivos e comprometiam o paciente e, por ser de uma família que se dedica à saúde e a educação, com suporte de alguns médicos estudiosos e pesquisadores, fez um mix de tratamento envolvendo a alopatia, antroposofia, homeopatia, acrescido de espiritualidade e muita fé. Alguns médicos ainda não entendem como conseguiu superar a doença auto imunine, mas o fato é que hoje ela é fotógrafa, atua como voluntária em projetos sociais e, quando o mar está tranquilo, desliza com seu stand up paddle pelas águas de Vila de Santo André… Salve Claudia Schembri em seu aniversário… Amiga, irmã, que todo dia me mostra que a fé move montanhas e é possível começar de novo !

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As amigas

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Enquanto adiantava a costura esperando o almoço – estou fazendo 50 coelhinhos para encher de guloseimas e dar às crianças na Páscoa – abri uma “stella” e lembrei da minha mãe.  Entre as suas características, eu admirava a capacidade de fazer e manter amigos.  Ela agregava, cuidava e era enorme o caderninho onde anotava a data de aniversário de todos que passavam por sua casa.  Minha mãe tinha amigas de muitos anos que chamávamos de “tias” mesmo sem qualquer parentesco. Uma delas, tia Maria, fora casada com um primo da mamãe, morava em Curitiba. Nascida em família rica e influente, escreveram seu nome na palma da mão do Cristo Redentor quando o monumento foi construído. Era o que falavam e na minha fantasia infantil era o máximo da nobreza.  Tia Maria era mais velha, tinha cabelos brancos, era alta, porte elegante, rosto jovem e sorridente. Aquele jeito que só tem quem nasceu em berço de ouro mas sabe o que é simplicidade sem pobreza. Uma ou duas vezes por ano passava uma temporada em nossa casa em São Paulo, e a primeira providencia ao chegar era encomendar ao armazém um engradado de cerveja. Isso mesmo. Um engradado de madeira repleto de garrafas casco escuro. Tia Maria fazia no tricô maravilhosas roupinhas de bebê. Assim como ela, eram casaquinhos, mantinhas, sapatinhos delicados e de extremo bom gosto, com os frufrus suficientes para não sufocar as crianças. Ela ensinou minha mãe a tricotar com esta qualidade, e às 10 da manhã, todos os dias, eu já podia vê-las sentadas na sala, agulhas e lãs a postos, tendo ao lado um copo de cerveja estupidamente gelada. Conversavam e riam. Jamais perguntei se não erravam os pontos com a cerveja, mas eu não tinha noção do teor alcoólico e tomar cerveja não era pecado.

Lembro de minha mãe e suas amigas Maria, Ladyr, Lygia, Glicínia e sinto falta das minhas amigas de vida. Hoje tomamos cerveja via face, Skype e whatsapp… Às vezes tenho o prazer de receber em casa e tiro a barriga da miséria. É bom ter por perto quem conhece minha história, e não apenas reconhece numa foto nas redes sociais. Amigas é um bem precioso, com ou sem cerveja. Amigas ouvem as tristezas, perdoam as ausências, entendem as escolhas, elogiam até o corte tosco do cabelo. Amigas riem dos ridículos, apoiam as perdas, acolhem os erros, perdoam o excesso de peso, enchem a alma de alegria… Uma “stella” como brinde às amigas de vida e volto à costura…

O Vestido Verde

MURIEL

A tarde estava deliciosa, amigos reunidos num almoço de aniversário, à mesa delicias e conversas divertidas…. Aos nossos pés um visual maravilhoso da natureza exuberante de Santo André, mar ao fundo se perdendo no infinito, céu azul pontuado por nuvens branquinhas… Me sentia como se fosse um drone admirando a vila do alto, voando livre no novo vestido verde. Praticamente uma libélula. Como na canção infantil da Terezinha de Jesus, “de uma queda fui ao chão”… Tropecei num degrau e fui… Acudiram muitos cavalheiros e cavalheiras para estancar o sangue escorrendo do nariz. Era muito sangue. Na ridícula posição de quatro, o braço direito fortalecido pelo Pilates sustentou o corpo, os óculos voaram, o pratinho de sobremesa na mão esquerda espatifou-se na pedra São Tomé, e eu só pensava em não sujar ou rasgar o vestido de seda verde que ganhei no Natal.

Enquanto me acudiam – “traz um pano… gelo… tylenol” – eu estancava o sangue com as mãos lembrando a fatídica frase da minha mãe que se tornou lenda na família “rasgou o vestido? ” Saíamos para uma festa com nossas melhores roupas e ao descer a escada escorreguei com o sapato novo, sola em couro fino sem ranhuras, e de degrau a degrau cheguei ao chão. Ao ouvir o barulho mamãe correu para ver se tinha algum estrago no vestido de organdi com rendas e fitas. Foi assim que me senti, ainda tonta ao ser amparada por amigos e atendida por uma médica doutora de muitos títulos, mas que no passado teve experiência em pronto socorro. Deitada no sofá, com muito gelo no nariz, ri da cena ridícula. Tudo podia ser pior: quebrar o nariz ou os dentes, talvez os óculos ou o prato pudessem cortar o rosto… Mas foi apenas um pequeno talho no nariz e o joelho ralado. Nem hematomas e o melhor de tudo : o vestido está intacto. Nenhuma gota de sangue, nenhum arranhão… Como o de organdi com rendas e fitas.

Foto : Cláudia Schembri

O futuro será um espetáculo !

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Esta semana, numa conversa, alguém me lembrou que a vida é finita. Sei, mas não sei. Ou esqueço que sei. Quanto tempo de vida ativa você ainda acha que tem? Me perguntam insistindo para que eu me lembre de quanto já caminhei. Respondo que creio ter todo o tempo do mundo. Talvez um dia, um mês, um ano, uma década…  No momento estou na campanha rumo aos 70 com muita saúde. Me lembro do susto quando subi na balança ao voltar de Portugal em 2004: 75 quilos cravados. Como assim? Nos dois anos anteriores deixei de fumar e entrei na menopausa, isso me tirou dos 62 quilos. Somaram as delicias da gastronomia lusa, as viagens pela França, Espanha, começando um grande estrago! Depois vieram a vida boa na Bahia, tempos com mais stress trabalhando em SP, e quando percebi, cheguei aonde estou. Não revelo meu peso nem sob tortura, mas decidi chegar aos 70, ou próximo disso, nos 70 anos…. Vou até aonde achar que estou me sentindo bem, sem cara de doente nem corpo caidaço…

Tenho refletido sobre qual foi o momento em que deixei de me olhar por fora e foquei no interior… Deus, os mestres, os santos, os gurus, os anjos, não podem gostar de alguém que esquece o externo, a saúde, o bem estar com o corpo. Posso culpar as confortáveis calças comprida com elástico na cintura, os vestidos largos, a praia deserta onde quase ninguém me vê, a cerveja gelada no calor, o Aperol Spritz com amigos, as deliciosas massas italianas, as caipivodkas aos domingos, as barras de chocolate Talento assistindo filme, cocadas da Lelê, e por aí vai… Na realidade o que me fez engordar foi o conjunto da obra. Voltar ao corpinho do passado é querer me agarrar à fonte da juventude. Sei que hoje sou bem melhor, deve haver um meio termo. E é o equilíbrio o que mais busco nestes tempos. O mesmo sentimento quando subo na prancha do Pilates. No início parecia impossível, hoje consigo surfar em terra firme…

Há 8 dias comecei o processo do olho no entorno sem perder o conteúdo. Comprei uma balança, doei 31 latas de cerveja e dois litros de refrigerante que estavam na geladeira. Não tomo refrigerante há muito tempo, mas eu comprei para atender amigos nas férias. A lata do delicioso doce de leite de Minas está guardada para um momento especial, uma pequena colher como prêmio quando estiver próxima ao objetivo. Pilates 4 vezes por semana, caminhadas. Nada de carboidrato, só proteína, ovos, legumes e verduras… Zero açúcar e farinha branca. Vale o azeite e o ghee (manteiga clarificada) feito em casa. Água, muita água… Preces e bons pensamentos, na certeza que o futuro será um espetáculo !