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Sobre consciência negra

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Quando criança na casa dos meus pais jamais se falou sobre negros. A razão era simples: negros eram pessoas como nós e os chamávamos pelo nome… No início dos anos 50 minha família mudou de BH para São Paulo, papai alugou um sobradinho na rua das Acácias (hoje Pássaros e Flores) no Brooklin, um bairro distante sem pavimentação, muito barro no caminho e mamãe chorou quando viu aonde seria o nosso lar. Era uma área rural que começava a ser urbanizada. Ainda tinha algumas chácaras, rios onde tomava banho e o Ginásio Beatíssima Virgem Maria, a escola das freiras, aonde fui estudar. Foi lá que conheci Neide Fernandes, morava em uma casa simples numa rua atrás da minha. Quintal grande muito bem cuidado, flores e hortas, ali vivia com o pai policial militar que vestia um uniforme azul marinho sempre impecável, a mãe, a avó, dois irmãos e eu adorava brincar em sua casa. Neide não era branquelinha como eu. Era morena, o pai negro, a mãe e a avó mais claras, mas jamais percebi essa diferença por que lá em casa negro tinha nome e não cor de pele. A vida nos levou por caminhos diferentes, mas com a chegada das redes sociais nos reencontramos. Permanecemos amigas até há dois anos quando ela partiu depois de um curto tempo doente. Nem soube que estava internada, a noticia veio como uma bomba, também pela mesma rede social que nos reuniu. Neide sempre me surpreendia com pequenos mimos que enviava para a caixa postal. Pacotinhos com biscoitos de polvilho que derretiam na boca feitos por ela, pãezinhos de queijo, panos de prato e uma série de carinhos embalados. Um dia ela mandou o santinho da minha Primeira Comunhão. Chorei em rever a criança com o anjo da guarda ao lado. Teve o cuidado de manter intacta a lembrança por toda a vida. Quer amor e amizade maior ? Por isso, quando tanto se fala em 20 de novembro, sinto que a minha consciência negra é consciência do amor e carinho aos amigos. Homenagem à Neide Fernandes, aonde estiver…

Foto Claudia Schembri em 23 de novembro de 2011 no lançamento do livro Um Show em Jerusalém em São Paulo.

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Para Danuza Leão

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Sempre gostei de ler os jornais de domingo. Quando criança eu ganhava o suplemento infantil e assim nasceu o hábito.  Passei anos repetindo a rotina de colocar em uma cadeira na mesa do café da manhã os jornais e as revistas semanais. Tomar café era um ritual que se prolongava por horas, depois se estendia para a poltrona da sala onde as publicações eram colocadas em um banquinho. A esquerda ficavam as a ler, a direita as lidas…So saía de casa depois da última letra devorada. Este formato ficou no passado. No sul da Bahia as publicações chegam em forma digital e repito o ritual na mesa da varanda com o Ipad, e depois a leitura continua em uma rede no jardim, ou a beira da praia. E a praia foi a minha inspiração ao ler a crônica da Danuza Leão na revista Ela de O Globo.

A praia que ela descreve é muito igual à que a conheci no início dos anos 90 e aonde escolhi viver em 2004. Havia energia elétrica nas casas simples, não nas ruas…. As noites estreladas eram escandalosamente belas, e em uma barraca de piaçava à beira mar comia-se peixe frito com farinha e uma cachacinha prá descer mais fácil…. Não havia rúcula nem endivers nem brócolis, a salada era de repolho e tomate quase sempre verde.  A tv ficava do outro lado do rio, na praça da cidade, dentro de uma caixa que era aberta para alguns programas, e a balsa fazia travessia das 6 da manhã às 6 da tarde…. Os terrenos não tinham muros, cercas simples de pau de árvore amarradas por um arame farpado, mas qualquer um podia entrar e pegar fruta nos cajueiros, mangueiras, jaqueiras … Carros eram raros, não havia transporte público…

Esta praia não existe mais. Menos de 30 anos ganhou outros ares… Além dos “chegantes” que como eu escolheram por ser um bom lugar para viver, vieram as casas de veraneio, as pousadas, restaurantes e, mais recentemente, 2 resorts que estão buscando se inserir no segmento de “destinos para casamentos”.  Mudou muito sim. Antes um simples mercadinho hoje são 4, tem até 2 cabelereiros, uma loja de material de construção, 3 ONGs, wifi, tv a cabo, aluguel de bicicletas, loja de roupas, balsa até de madrugada, transporte público, uma estrada asfaltada que passa por fora, às vezes um som batidão numa esquina tirando o sono de quem mora perto…

Também não sou a mesma…. Com as tantas experiências e informações trazidas dos grandes centros por onde passei não me enquadraria no perfil de um amor e uma  cabana… Danuza querida, na nossa idade, um mínimo de conforto faz bem. Na minha quase deserta praia ainda tem muita estrela no céu, alguns quilômetros para andar a beira mar sem encontrar uma viva alma, a lua cheia nasce escandalosamente na hora certa em que o aplicativo do meu smartphone anuncia… Em contraponto sabiás, pardais, maritacas, beija flor, e outras tantas aves lindas e não raras, cantam no meu jardim.  E ainda tenho uma rede, deliciosa para ler você aos domingos… Quando quiser, apareça ! Vai ser um enorme prazer …

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Um pé lá outro cá. 3 noites e 3 dias na grande capital e quanta novidade. Encontro com a família em festa de aniversário, com direito a parabéns, bolo e brigadeiro. Visito o centro com amigas, conheço o prédio histórico Farol Santander, passamos na exposição do Adoniran Barbosa, depois teatro de onde saí embasbacada. Não com o talento notório das atrizes de Eva Wilma e Suely Franco, mas pela memória perfeita. Com 84 e 78 anos respectivamente, um show com o texto correndo inteiro, só as duas em cena, do riso à emoção.

Volto para casa e no caminho para o aeroporto uma parada rápida para visitar uma amiga no hospital. Estou em um tempo que tem sempre algum amigo partindo ou se preparando para seguir viagem.  Por morar distante, na maioria das vezes as notícias chegam pelas redes sociais, sem chance de acompanhar um funeral…. Mesmo sendo um momento de dor, nos velórios se reencontra amigos, sabe-se como estão envelhecendo…

No Uber pelas ruas de São Paulo fui pensando o que me aguardava no apartamento 306. Há alguns anos a amiga com quem compartilhei tantos momentos, que testemunhei casamentos, crescimento dos filhos, separações, sucessos e fracassos, que vi dar a volta por cima tantas vezes, entrou num processo onde viver é o que menos importa. Acabou o tesão. Uma apatia tão grande e foi se deixando para o nada… Como companhia para a solidão o cigarro, algum comprimido tarja preta e as vezes uma taça de vinho. Esse conjunto não dá certo pra ninguém.

Bato delicadamente na porta, entro com cuidado e a encontro na cama com os cabelos presos num rabo de cavalo no alto da cabeça, o que lhe dá um ar jovial. O rosto está magro, são poucas as rugas, não faz o tipo velhinha…. Uma sonda no nariz, outra no braço, as mãos enroladas com ataduras e amarradas na cama. A enfermeira justifica de que ela ficou agitada, arrancou as sondas e precisou tolher os movimentos. Olho para trás e lembro nossas mãos soltas correndo pelo Jardim Botânico atrás da filha de uma amiga que se perdeu. Nossa juventude estava ali com os filhos pequenos, tantos desejos e sonhos… Até as perdas eram provisórias…

Mais de 40 anos de amizade e, mesmo que as vezes a distância fazia um vácuo, bastava um telefonema para resgatar o carinho e continuávamos qualquer assunto do ponto que havíamos deixado, sem importar o tempo. E encontro a amiga falando com dificuldade. Queria ouvir contar sobre este momento, onde foi que tudo degringolou, como chegou a este ponto. O tubo no nariz, a boca machucada com os lábios desidratados, a voz embargada, os efeitos dos medicamentos, deixaram a voz fraca, as vezes titubeante. Falei mais do que ouvi. Derramei um longo discurso com bons pensamentos, palavras de fé e positivismo. Rezei ao seu lado, agradeci ao nosso encontro nesta encarnação. Do pouco que consegui ouvir, com total lucidez, guardei a frase: “sei que quando bato com o pé no fundo do poço, tomo impulso e subo”. E quantas vezes ela fez isso… Despedi com um beijo na testa, saí pedindo a Deus que este fundo do poço chegue rápido, que ela tenha força para bater o pé e voltar breve para a vida…

Paciencia

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No vai e vem do corpo no reformer* durante a aula de Pilates, vou contanto até 36 enquanto a outra parte do cérebro pensa, discute e reflete assuntos diversos… Ora os pensamentos são interrompidos pelo canto de um pássaro, outras por alguém que passa assobiando alguma canção… Este cenário fica entre árvores, jardineiras de pimentas e temperos, buganvílias e tumbérgias que às vezes se soltam dos galhos e fazem um tapete na entrada.

E foi no vai e vem desta manhã que fiquei refletindo sobre a imagem que uma amiga criou para explicar as ondas energéticas do nosso cérebro:  “são como velcro para agarrar maus pensamentos, e tefal para deixar escapar as boas energias”. Creio que vivemos um tempo VELCRO…. Muito ódio no ar, brigas, discussões, tudo a ferro e fogo… Discussões homéricas nas redes sociais, os amigos se assustam ao constatar que seus amigos estão fazendo uma escolha que não a sua, como assim? De repente se transformam em inimigos, um desencanto, como se o amor e o respeito que forjaram a amizade durante tantos anos deixassem de existir por conta das eleições.

Gostei da crônica de domingo do Fernando Gabeira, um ex-exilado, que não vê o Aeroporto do Galeão como saída para os problemas do país, “porque leio o outro nome dele, Antonio Carlos Jobim, e me lembro da beleza e do talento que este país abriga”.

Eu me lembro destas belezas e talentos todos os dias. Às vezes em fatos muito simples, como dos jovens da escola municipal de Santo Antônio que pedem ajuda para criar um jornal;  das árvores que o vizinho plantou ao construir a casa e dão sombra à rua; dos “horteiros” que vêm me ajudar e com isso acordo louca para ver as mudinhas cresceram na magia da noite; do nascer do dia no mar, um escândalo, e do pôr do sol no rio, um absurdo de lindo…Não é privilégio de quem mora fora do grande centro, mas de quem vai chegando aos 70 procurando entender que a vida não pode ser só embates, disputas, poder…

Entre as muitas mensagens que vêm nas redes sociais, enquanto escrevia recebi uma sobre a física quântica e as eleições, completando perfeitamente o meu sentimento:  “Tudo está em movimento. A matéria não é densa, é apenas um monte de partículas se movimentando. Os cientistas já provaram que o observador determina se o átomo vai se comportar como partícula ou como onda, num experimento chamado “Fenda Dupla”. Trocando em miúdos, isso significa que cada pessoa cria a sua própria realidade. Realidade essa que é interpretada de forma diversa de acordo com suas experiências de vida, meio cultural onde vive e projetos de futuro. Isso tudo me autoriza a valorizar a auto responsabilidade. Ou seja, se a sua timeline está cheia de troca de ofensas e você se perturba com isso, adivinha de quem é a responsabilidade? É sua. Você focou nisso. Você criou isso prá sua vida…”

Esta mensagem é de Roberta Ramalho, não conheço, mas adoro a generosidade dos compartilhamentos, simplesmente doar uma opinião que pode influenciar a vida de alguém… Como aconteceu com a minha, ficou tudo bem mais leve… Tão leve quanto a cena cotidiana que encontro na volta do Pilates. O cão, em frente da casa, à beira da estrada, esperando seu dono… Paciência e fidelidade aos seus princípios, creio que isto é o que estamos precisando…

 

reformer* é o equipamento mais comum entre os estúdios de Pilates. Ele é composto por uma plataforma deslizante que funciona como uma espécie de carrinho, que fica sobre uma estrutura retangular feita de madeira; o carrinho se conecta à molas, polias e cordas que são ligadas a esta estrutura.

Surpresas

 

Da parte mais alta do armário veio a pequena velha mala e eu não sabia que segredo revelaria o seu interior. Já tinham descido as roupas de cama e banho, tapetes, almofadas, cobertores, colchas, edredons. Toalhas redondas dos tempos do Rio, toalhas de renda bem grandes para dias de festa ou para emprestar para a igreja no dia de procissão, mas aquela mala nada me lembrava… A cada seis meses é feita uma grande arrumação no roupeiro da lavanderia para a nova temporada de hóspedes. Tudo é retirado. Teto lavado, luminárias, as prateleiras recebem tratamento contra cupins, estes minúsculos insetos que amam a vida à beira mar e fazem um enorme estrago. Peça por peça é examinada, análise cuidadosa do que precisa ser substituído, uma lista do que vai e o que fica é feita, em total desapego. Mas por onde andava aquela mala que só agora apareceu?

“Estava aí, a senhora que não viu”, justificou a assistente. Não era tempo de ver, pensei ao levar a mala para a sala.  Enormes surpresas guardamos em casa e em nós mesmos sem perceber. E ali estava uma mala, não sei há quantos anos, no alto de um armário que é utilizado quase todos os dias e recebe uma enorme faxina duas vezes por ano. Ao abrir, sem qualquer cheiro de mofo ou de guardado, saiu um leve perfume de sabonete, e foram se revelando muitos anos de família, quase como um álbum de fotos. Eram os delicados crochês da vovó que ao longo de minha vida se espalhavam pelos móveis da casa da mamãe. Toalhas de todos os tamanhos, caminhos de mesa…  Lembranças muito vivas em algumas peças bem velhas, com a linha esgarçando, mas que me trazem a imagem da vovó sentada no sofá, enxergando muito pouco, crochetando e percebendo os desenhos que criava apenas através do tato. Às vezes um ponto a mais em uma fileira, uma laçada fora do lugar, mas ninguém reparava… Penduro então o crochê da vovó no varal para preservar a imagem em foto, pois os fios algum dia se romperão… Como tudo na vida…

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Escolhas

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Esta semana, duas postagens com muitas curtidas e comentários levaram-me a refletir. Na primeira, me solidarizei com os jornalistas demitidos na Editora Abril; a segunda comemorando 14 anos morando em Vila de Santo André.  Os dois assuntos apesar de dispares, se encontram num mesmo tema: escolhas.

Quando optei em sair do olho do furacão das grandes cidades e vir para a pequena Vila de Santo André, eu não estava desempregada. Ao contrário, estava num excelente momento profissional. Era diretora de uma promissora agencia de eventos da qual fiz parte da criação, completamente integrada no mercado de jornalismo, produção, eventos e marketing. Não sei se foi Deus, o destino, a casualidade que me fincaram na Bahia para não ver o meu Rio de Janeiro desmoronar e descobrir que, mesmo a mais de mil kms distante, posso participar de qualquer processo que necessite uma profissional criativa, experiente, integra, disponível 24hs, texto bacana, capacidade organizacional, bem-humorada e pau para toda a obra.

Nada foi previsto, tudo aconteceu com um desejo de entender melhor a vida e experimentar novos desafios. E foi possível. O mundo é maior do que o Rio e São Paulo, há muito a se doar e ensinar em localidades menores.  Estou sempre somando em algum projeto social ou na gestão pública. Fui secretária de cultura e de comunicação, em duas administrações distintas, cujos prefeitos não compartilhavam da minha escolha política. Como técnica aprendi e ensinei muito em Sta Cruz Cabrália, pouco mais de 28 mil habitantes, e em Vila de Sto André, com menos de 800 habitantes. Todos os egos e vaidades existem, como em qualquer lugar do planeta, e aprendi como conviver é delicado e rico…

Como jornalista, graças a internet, estudei redes sociais, e atuo postando fotos todos os dias no @santoandredabahia, na página http://www.facebook.com/santoandredabahia/ e mantendo atualizado o site www.santoandre-bahia.com . Todas estas redes tem o obetivo de promover o destino turistico onde escolhi viver, e isso é trabalho… Sou voluntária na área de comunicação do IASA, uma ONG que oferece aulas de música; vice-presidente do Conselho de Turismo de Cabrália; e, como uma região turística hospedagem é o que muitos procuram, tenho uma pequena pousada com três chalés para receber amigos e amigos de amigos, de um jeito muito especial…

Em 14 anos escrevi dois livros, atuei como consultora de comunicação em crises empresariais, participei da criação de projetos que se tornaram grandes eventos, dei palpite, somei, acrescentei, descasquei abacaxis com primor. E, nesse ínterim, lendo jornais e revistas online, ainda tive o prazer de ver muita folha no chão se transformando em adubo, maré subir e descer, lua nascendo, sol se pondo, vento derrubando galhos, passarinho cantando… Vi uma pequena muda de roseira dar flor, ouvi o silencio na madrugada, sol amanhecendo no meu rosto, cigarras anunciando o verão, chuvas lavando a alma em longo e úmido inverno…. Plantei árvores, acompanhei cachorro morrendo e crescendo, passarinho no ninho, amigos chegando e partindo, primeira estrela; júpiter, marte e saturno no céu… Rezo todos os dias agradecendo o que tenho, a minha família, aos amigos e aos que não gostam de mim… Nas minhas muitas mudanças, nacionais e internacionais, sempre soube que tinha um lugar para voltar, era a casa dos meus pais… Esta não existe mais e meu único lugar é o que construí. Com muito mais qualidade, precisando de muito menos, entendi que o amor incondicional, a delicadeza, o compromisso com a verdade, a fidelidade aos amigos é o que importa…

Por isso, em tempos de escolhas e mudanças, para quem não sabe o que fazer da vida, fica a dica : experimente sair da caixa e começar uma nova história… O mundo é acolhedor… Sempre vale à pena…

A casa dos meus avós…

… era uma parte em madeira e outra em alvenaria, um formato de construção muito usado no sul… Foi assim que comecei a lembrar deles esta manhã, dia que se comemora  São Joaquim e Santa Ana, Dia dos Avós.

Vovô era aposentado da rede ferroviária do Paraná, tinha pouco mais de 60 anos mas era considerado idoso, andava arrastando os chinelos.  Ele me contou que muito antes, quando meu pai era menino, moravam à beira da estrada de ferro e seu trabalho era sinalizar a passagem dos trens. No jardim da casa tinha uma pequena árvore de erva doce, foi aonde conheci de onde vinham as sementinhas que minha avó fazia chá….

As férias em Curitiba com as famílias dos meus pais, eram aguardadas ao longo do ano. Ficava um pouco na casa de cada tio, mas os tempos com meus avós eram especiais. Eu devia ter menos de 10 anos quando descobri a sua coleção de revistas O Cruzeiro*. Empilhadas no canto de um quarto, organizadas por ordem de publicação, era um enorme prazer desvendar as fotos e os textos. Era a minha Disney… Passava horas folheando as revistas e mal sabia que no futuro seria  “escrevinhadora”… Não importa se repórter, redatora, jornalista, roteirista, autora, a minha vida ficou definitivamente relacionada com a comunicação, palavras e imagens, estáticas ou em movimento…

As vezes penso o que levou meu avô a fazer esta coleção. A família era simples, a instrução foi a básica e naqueles tempos as revistas eram um luxo, “importadas” do Rio de Janeiro…  Não sei o fim que levou esta coleção, mas sou grata aos meus avós por terem aberto esta porta…

*O Cruzeiro foi uma revista semanal ilustrada brasileira, lançada no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1928, editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Ultima publicação em julho de 1975. Fonte : Wikipedia

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Vovó Luiza, vovô Izaltino, com minha irmã Déa.

A pensão

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Veio a lembrança um tempo em que fui rebelde e saí do Rio atrás de um namorado em São Paulo. Devia ter uns 19 anos e em férias na casa de uma tia me encantei por um fotografo com mais de 40. Era irresistível! Cabeça raspada, jaqueta de couro e olhos azuis, elementos que bastavam para cometer a loucura de largar o vestibular, o emprego de secretária na Editora Abril, juntar as economias e tentar a vida em sampa… Claro que tinha tudo prá não dar certo, e não deu. Coração partido, sem querer voltar, recusei o convite para ficar na casa da tia, mas aceitei as indicações para ser “diarista” em confecções. Eu vestia tamanho 40 e, naquele tempo, as confecções contratavam moças para provar as roupas antes de irem para a produção. Era um tipo de manequim com vida e eu passava o dia entre as confecções nas proximidades da rua José Paulino para no final do mês ter um salário para o sustento básico, que incluía um quarto em uma pensão nas Perdizes. Pode parecer um relato deprê, mas neste período me diverti muito, fiz amigos incríveis, frequentei o templo da bossa nova em SP, o João Sebastião Bar onde ouvi muita música boa e vi muita gente começando.

Mas o assunto não é esse, na verdade eu queria contar sobre a pensão para moças onde morei. Era digna de um filme de Almodovar. Um casarão antigo e bem conservado, com 10 quartos, distribuídos entre dois andares e o quintal. Todos os quartos tinham o básico: cama, armário, mesa e cadeira. Os que ficavam do lado de fora, tinham o luxo de uma pia. O meu era assim. A proprietária era uma senhora um pouco gorda, passando dos 70 anos, cabelos brancos com reflexos azulados sempre arrumados, rosto bonito e rosado, baton vermelho, unhas pintadas e vestia blusas (ou camisolas? quem sabe peignoir ?) bordadas com rendas e babados. Ficava recostada em travesseiros, coberta por lençóis e colchas impecáveis, só aparecia o tronco. Ela não tinha as pernas.

Daquele local privilegiado tinha o controle total do seu negócio. Da janela próxima a cama via o quintal, da porta grande a escada, o movimento da sala do café, e de uma outra porta acompanhava a cozinha. Reinava absoluta. As portas do quarto só fechavam algumas horas por dia para a sua higiene. A cada entrada ou saída das hospedes era um cumprimento, uma palavra simpática, um sorriso. Um ambiente no maior alto astral sob o comando daquela mulher cujo passado não ousei perguntar. Não lembro se tinha família, mas era cercada por funcionárias muito dedicadas.

Quando decidi voltar para o Rio, três meses depois, ao me despedir fui recebida com um largo sorriso, uma xícara de chá com uma fatia de bolo, e uma profusão de afeto em forma de frases otimistas, como a importância de buscar o melhor para o meu caminho, da maravilha de ser jovem com tanto tempo para arriscar. Ainda não se falava em auto estima e auto ajuda, mas neste dia aprendi o que era resiliência…E seu sorriso, sua imagem, sua alegria até hoje me servem de exemplo.

O sapato verde

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Quando a Tai me deu a bola pequena para um novo exercício de pilates, viajei no tempo. A pequena e pesada bola era exatamente da cor daquele sapato que jamais esqueci. Foi amor à primeira vista: olhei na vitrine e me apaixonei. Nunca tinha visto e desejado tanto um sapato verde de salto alto.  Talvez não combinasse com as roupas, mas aquele verde com um mix de tons petróleo e turquesa era especial, sedutor, chiquíssimo. A delicada pelica tinha um brilho perolado, o que deixava o sapato ainda pouco adequado a muitos trajes, mas nada importava.  Eu tinha a impressão de que a cor era uma experiência do fabricante, nenhum outro fora confeccionado, assim como o Fiat Uva que tive. Quando comprei, a concessionária avisou que apenas dois veículos vieram com esta cor inusitada, um teste da fábrica. Os dois foram emplacados juntos, mas o outro foi destruído dias depois em um acidente, e com isso os amigos sabiam por onde eu andava, afinal era a única a conduzir um Fiat Fanta Uva perolado entre o Rio e São Paulo. Fomos felizes por muitos anos, até fizemos um Rock in Rio !

Refletindo enquanto escrevo, percebo que cores e combinações pouco usuais fazem parte da minha vida. Tive o cabelo cor de cenoura, mas neste quesito me superei, foram muitas mudanças. Pintei uma parede de laranja uniforme da Comlurb por indicação do feng shui; na adolescência pedi e tive um quarto com moveis pintados de cinza com paredes e cortinas cor de rosa inspirado em algum filme de Hollywood e hoje imagino que os próximos toldos de minha casa podem ser de tecido acquablock estampado com samambaias. Sou uma pessoa de gostos estranhos, se correr solto, com o passar do tempo posso virar uma fashionista como a Iris Apfel. Mas voltando ao sapato verde perolado que veio à memória através  da bola de pilates, me lembrei também que não o vi envelhecer nem furar a sola de tanto dançar em festas, mas dei de presente à uma prima querida que também se apaixonara por ele ao ver em meus pés. Ela queria tanto quanto eu o quis e achei que merecia compartilhar. E aí me deparei com uma enorme coincidência sincrônica da vida…. Senti a ausência desta prima no facebook e, investigando, descobri que sofrera um AVC e estava internada. Ela não merecia…Tão brilhante, tão plena, tão cheia de desejos e projetos… Está em uma casa de repouso, cercada de amigos que não sabem o que fazer para amenizar a situação e eu daqui da Bahia ainda tenho sonhos em forma de sapatos coloridos e desejo muito que ela saiba que se não aguentamos mais o salto, vamos de havaianas !

Começo a pensar que as redes sociais têm me trazido mais notícias de obituários e doenças, do que casamentos e nascimentos de filhos…. Na verdade, só nascimento de netos e bisnetos de amigos.

Preciso de mais sapatos verdes, carros coloridos, alegria no coração…. Preciso acreditar que ainda há muito para se rir, celebrar, comemorar, nem que sejam as rugas e os quilos a mais…. Preciso ser menos rigorosa quando me pego falando demais, detalhando casos que podem não interessar aos outros, mas lembrar boas histórias é viver de novo…. Preciso estar atenta aos amigos, e o Facebook é um ótimo medidor de frequência mesmo que às vezes traga notícias tristes, partidas que são sempre chegadas a outro plano…. E preciso lembrar de agradecer sempre por esta vida…

As amigas

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Enquanto adiantava a costura esperando o almoço – estou fazendo 50 coelhinhos para encher de guloseimas e dar às crianças na Páscoa – abri uma “stella” e lembrei da minha mãe.  Entre as suas características, eu admirava a capacidade de fazer e manter amigos.  Ela agregava, cuidava e era enorme o caderninho onde anotava a data de aniversário de todos que passavam por sua casa.  Minha mãe tinha amigas de muitos anos que chamávamos de “tias” mesmo sem qualquer parentesco. Uma delas, tia Maria, fora casada com um primo da mamãe, morava em Curitiba. Nascida em família rica e influente, escreveram seu nome na palma da mão do Cristo Redentor quando o monumento foi construído. Era o que falavam e na minha fantasia infantil era o máximo da nobreza.  Tia Maria era mais velha, tinha cabelos brancos, era alta, porte elegante, rosto jovem e sorridente. Aquele jeito que só tem quem nasceu em berço de ouro mas sabe o que é simplicidade sem pobreza. Uma ou duas vezes por ano passava uma temporada em nossa casa em São Paulo, e a primeira providencia ao chegar era encomendar ao armazém um engradado de cerveja. Isso mesmo. Um engradado de madeira repleto de garrafas casco escuro. Tia Maria fazia no tricô maravilhosas roupinhas de bebê. Assim como ela, eram casaquinhos, mantinhas, sapatinhos delicados e de extremo bom gosto, com os frufrus suficientes para não sufocar as crianças. Ela ensinou minha mãe a tricotar com esta qualidade, e às 10 da manhã, todos os dias, eu já podia vê-las sentadas na sala, agulhas e lãs a postos, tendo ao lado um copo de cerveja estupidamente gelada. Conversavam e riam. Jamais perguntei se não erravam os pontos com a cerveja, mas eu não tinha noção do teor alcoólico e tomar cerveja não era pecado.

Lembro de minha mãe e suas amigas Maria, Ladyr, Lygia, Glicínia e sinto falta das minhas amigas de vida. Hoje tomamos cerveja via face, Skype e whatsapp… Às vezes tenho o prazer de receber em casa e tiro a barriga da miséria. É bom ter por perto quem conhece minha história, e não apenas reconhece numa foto nas redes sociais. Amigas é um bem precioso, com ou sem cerveja. Amigas ouvem as tristezas, perdoam as ausências, entendem as escolhas, elogiam até o corte tosco do cabelo. Amigas riem dos ridículos, apoiam as perdas, acolhem os erros, perdoam o excesso de peso, enchem a alma de alegria… Uma “stella” como brinde às amigas de vida e volto à costura…