As amigas

abertura cronica

Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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2 Respostas para “As amigas

  1. Léa, hoje foi muito importante ler esse seu post. Viva, curta, ame e sonhe sempre. bjus

  2. Leleca, uma pergunta que só podia vir da Nenô: Nós sempre seremos amigas, não é? Amigas e comadres porque aquele casamento acabou
    mas o vínculo de tanta generosidade naquele momento e em tantos outros, nunca passou. Te amo. Nenô

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