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As amigas

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Enquanto adiantava a costura esperando o almoço – estou fazendo 50 coelhinhos para encher de guloseimas e dar às crianças na Páscoa – abri uma “stella” e lembrei da minha mãe.  Entre as suas características, eu admirava a capacidade de fazer e manter amigos.  Ela agregava, cuidava e era enorme o caderninho onde anotava a data de aniversário de todos que passavam por sua casa.  Minha mãe tinha amigas de muitos anos que chamávamos de “tias” mesmo sem qualquer parentesco. Uma delas, tia Maria, fora casada com um primo da mamãe, morava em Curitiba. Nascida em família rica e influente, escreveram seu nome na palma da mão do Cristo Redentor quando o monumento foi construído. Era o que falavam e na minha fantasia infantil era o máximo da nobreza.  Tia Maria era mais velha, tinha cabelos brancos, era alta, porte elegante, rosto jovem e sorridente. Aquele jeito que só tem quem nasceu em berço de ouro mas sabe o que é simplicidade sem pobreza. Uma ou duas vezes por ano passava uma temporada em nossa casa em São Paulo, e a primeira providencia ao chegar era encomendar ao armazém um engradado de cerveja. Isso mesmo. Um engradado de madeira repleto de garrafas casco escuro. Tia Maria fazia no tricô maravilhosas roupinhas de bebê. Assim como ela, eram casaquinhos, mantinhas, sapatinhos delicados e de extremo bom gosto, com os frufrus suficientes para não sufocar as crianças. Ela ensinou minha mãe a tricotar com esta qualidade, e às 10 da manhã, todos os dias, eu já podia vê-las sentadas na sala, agulhas e lãs a postos, tendo ao lado um copo de cerveja estupidamente gelada. Conversavam e riam. Jamais perguntei se não erravam os pontos com a cerveja, mas eu não tinha noção do teor alcoólico e tomar cerveja não era pecado.

Lembro de minha mãe e suas amigas Maria, Ladyr, Lygia, Glicínia e sinto falta das minhas amigas de vida. Hoje tomamos cerveja via face, Skype e whatsapp… Às vezes tenho o prazer de receber em casa e tiro a barriga da miséria. É bom ter por perto quem conhece minha história, e não apenas reconhece numa foto nas redes sociais. Amigas é um bem precioso, com ou sem cerveja. Amigas ouvem as tristezas, perdoam as ausências, entendem as escolhas, elogiam até o corte tosco do cabelo. Amigas riem dos ridículos, apoiam as perdas, acolhem os erros, perdoam o excesso de peso, enchem a alma de alegria… Uma “stella” como brinde às amigas de vida e volto à costura…

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As amigas

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Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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