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Visto assim do alto…

Beto no coqueiro, foto Cláudia Schembri

Já ouviu falar em jupati e urutau ? Eu também nunca tinha ouvido falar até mudar para a Bahia em agosto de 2004. Confesso que um novo mundo se abriu com a vida rural. Jamais tive casa na serra ou na praia, na verdade a experiência de viver em casa foi pequena, sempre bati a porta do apartamento e a vida ficava lá dentro. Um domingo andando pelo quintal às 6 da manhã ouvi o barulho como de uma serra elétrica. Não acreditava que alguém pudesse estar cortando árvore a esta hora… Procurando de onde vinha o som me deparei com o Murtinho florido e coberto por abelhas…Um dia o Guinho, meu assessor para assuntos rurais, mostrou um urutau no topo de uma árvore. Demorei para identificar a ave que usa muito bem a sua plumagem para se camuflar, se passando por um pedaço de madeira ou um galho de árvore ou mesmo troncos partidos. Fica estática, não se assusta facilmente e só voa a noite onde sai para caçar insetos ou outros animais de pequeno porte. Tem muitas lendas sobre o urutau, é chamada de mãe-lua e em tupi guarani é chamada de ave fantasma. O urutau ficou meses morando lá em casa e um dia sumiu… Demorou mais algumas semanas, voltou e se instalou no mesmo toco em uma parte já seca da árvore, até que um dia percebemos que era A urutau, havia voltado para chocar ovos. Nasceu no quintal uma família de urutaus, que vão e voltam e trazem bom astral.
Os jupatis não os recebo com a mesma alegria. São da espécie marsupial, carregam os filhotes na barriga como os cangurus, um tipo de rato que tem um rabo comprido, o pelo curto e uma espécie de máscara em volta dos olhos…O primeiro verão que passei em Vila de Santo Andre certa noite acordei com um barulho no telhado e meu irmão contou que era jupati. Conheço muitas historias, entram nas casas, se tiver comida na cozinha fazem a festa e acho horrorosos.. Contando tudo isso pois hoje recebi uma foto lá de casa. O Beto, subidor oficial de coqueiros, foi limpar umas palhas e catar côcos e encontrou um jupati no meio das folhas. O jupati se assustou, caiu no chão e o Guinho cráu, sem dó nem piedade acabou com o bicho na paulada… Enquanto o Beto admirava o jardim do alto viu o, ou a, urutau belamente instalado (a)… E aí está a foto do Beto e minhas lembranças com saudades de casa…

Portugal…

Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa 2004

As minhas melhores lembranças são repletas de perfumes, sabores e sonoridades. Do sabor do café com leite servido em grandes bules de alumínio no lanche da escola das freiras na minha infância, a primeira vez que bebi champagne e percebi o que era “sorver estrelas”, tudo isso esta presente nos meus dias. Lembro do cheiro do sabonete Phebo rosas no banheiro do pequeno apartamento que morei em Nova York e me remetiam ao Brasil; o perfume que vinha da pequena arvore de dama da noite do jardim da casa na Tijuca e me acompanhava enquanto esperava no portão a chegada do namorado na adolescência. O cheiro de cigarro Gauloise das ruas Paris, e o bife frito acebolado, cuja fumaça fumegava a cozinha de casa.
O que tem em comum Noel Rosa, Tinoco e Tinoco, Glen Miller e a ópera Carmen, de Bizet ? Nas minhas lembranças é uma única sonoridade que saía dos LPs tocados na vitrola aos domingos de manhã. Era um luxo para o papai esperar o almoço ouvindo seus LPs, e tempos depois percebi que esta era a sua essência, um homem aberto às informações sem o menor preconceito. Aprendi bem esta lição e hoje quando passo um fim de semana a ouvir “Marilea in concert”, uma seleção de canções portuguesas que gravei em um cd enquanto morava em Lisboa e dei uma cópia para minha amiga Mariangela Sedrez, percebo que ouvir Amalia Rodrigues é o mesmo prazer que ouvir Cesárea Évora ou os roqueiros Chutos e Pontapés. Um fim de semana onde viajo nos dias de Lisboa, nas viagens pelo interior do país tão lindinho. Vem junto o aroma do pão com lingüiça assado em fornos artesanais nas feiras de Sintra, o sabor do bacalhau ao murro na tasquinha em frente ao El Corte Inglês onde almoçava quase todos os dias, a sardinha frita na subida da Alfama na festa de Santo Antonio e a delicia dos pastéis de Belém. O sabor dos vinhos, todos, dos verdes aos tintos, o meu querido Porto, e me alimento com estas lembranças.

Em casa

Sexta de Paixão.
Paixão da dor de Cristo.
Paixão de amor à vida.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Finalmente a foto : com Joana Angelica Gusmão e Sonia Biondo.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

O tempo

Como boa capricorniana sou muito pratica. Olho pra frente, o ontem foi maravilhoso, tenho saudades mas não sou saudosista. O melhor de se ter vivido bastante é alem de ter visto muita coisa é conhecer muita gente. E são as pessoas o principal elemento da minha vida. Posso estar distante como tenho passado a maior parte dos ultimos 8 anos, tempos na Bahia, agora a corrida em São Paulo, o vai e vem na ponte aérea, mas as pessoas com quem compartilhei momentos das minhas tantas “encadernações” estão eternamente comigo. E como as ondas do mar ela vão e voltam, uma rede que não se esgarça nem se perde.
Hoje recebi email carinhoso da Joana Angelica acompanhado desta foto. Bons tempos na redação do jornal O Globo. Creio que a foto é de 1980, pouco antes de eu chutar o balde e ir morar em Nova York. Escreviamos as matérias para o Segundo Caderno numa redação sem luxo, pra não dizer instalações precarias. Datilografávamos em laudas, faziamos copias dos nossos textos com papel carbono e sofriamos esperando o telefone dar linha para marcar entrevistas. Talvez muitos não saibam do que estou falando. Um assunto jurássico e só passaram 20 anos. E deste tempo ficou uma enorme experiencia, aprendizado que me serve a cada dia. Um tempo de integridade e respeito ao trabalho, pesquisa de assunto sem ter Google, lendo e estudando os assuntos em velhos recortes de jornais. Um tempo em que jornalista não era celebridade, era apenas uma profissão. E ficaram muitas histórias, a foto em preto e branco e uma amizade pra sempre. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Pensando…

Ontem perdi o sono. Depois de “fritar” na cama por uns 15 minutos voltei pra sala, liguei a tv e o computador – nesta ordem – e fiquei esperando o sono voltar. Andei pelo facebook lendo os amigos, limpei a caixa do velho orkut, joguei buraco, terminou o programa do Jô ainda vi o começo de um filme, mas bombardeada pelo sono desmaiei… Nesta madrugada assisti muitas matérias sobre o Armando Nogueira, e apesar de não termos trabalhado juntos lembro do profissional de primeira linha. Quando algum jornalista parte penso sempre no Tim Lopes. Conheci muito jovem, cabelo black power, trabalhava como boy na Bloch Editores e morava na Mangueira. Vestindo o uniforme com calça azul marinho e camisa azul clara com a logo da empresa bordado no bolso, carregava pastas e mais pastas de fotos de um lado para outro das redações. Alguns anos depois nos reencontramos no jornal O Globo. Eu no Segundo Caderno e ele repórter iniciante cobrindo a redação geral. De vez em quando vinha até a minha mesa e trazia uns textos mais poéticos, bem diferentes do que escrevia no dia a dia. Dizia que eu era sua copy desk moral. Do jornal O Globo foi para O Dia, e aí viveu vários personagens começando a construir um belo currículo como jornalista investigativo. De lá pulou pra TV Globo e sempre nos reencontrávamos com alegria. Por incrível coincidência em dezembro de 1991 fui à São Paulo receber meu único prêmio, o honroso Marketing Best pela comunicação do Rock in Rio 2 ele também estava na cidade fazendo alguma matéria. Foi comigo na entrega do prêmio num evento onde não conhecíamos uma só pessoa. Recebi o troféu e saímos para comemorar com muito vinho. Jamais esqueci Tim que tinha nome de Arcanjo. E também outros amigos e companheiros de redação que já se foram…Gostava de estar na redação, deixei fazem muitos anos. Mas hoje, quando mandei um email para o Maneco Jr, assessor de imprensa da exposição pedindo um help, ele respondeu tão rápido que tive o sentimento de estar falando com alguém do meu lado. Hoje escrevo sozinha, não é ruim, mas as vezes perco o sono.

Velhos tempos, belos dias

Fim de tarde em Vila de Santo Andre, Bahia

Já ouvi falar de gente que tem depressão domingo à noite quando começa a musiquinha do Fantástico. Nunca tive isso, mas nos últimos meses tenho me sentido meio blue nas tardes de domingo. Tem uma música do Roberto que me traz uma enorme nostalgia quando o refrão repete “jovens tardes de domingo quantas alegrias, velhos tempos belos dias…”
As minhas maiores recordações são de fatos que aconteciam aos domingos. A missa que dava direito a um ingresso para o cinema no galpão ao lado da Igreja, a domingueira dançante no clube com as primeiras paqueras, namorar no portão, preparar a roupa para o trabalho durante a semana e depois, já morando sozinha, o lanche na casa dos meus pais. Quando morei fora do país, era no fim das tardes de domingo que telefonava pra saber notícias da família, e hoje descubro que, como na música “meus domingos são doces recordações” . Tenho me surpreendido no impulso de telefonar pra casa, jogar conversa fora, saber noticias, mas a minha casa hoje sou eu e concluo que “o que foi felicidade, me mata agora de saudades, velhos tempos, belos dias…”

Quando eu partir

Outro dia assisti no programa Saia Justa uma conversa tendo como tema um filme – acho que é japonês – , onde era dado às pessoas ao morrer a escolha de uma cena para ser levada à proxima encarnação, todo o mais seria esquecido. E Maitê, Monica, Marcia e Beth falaram sobre suas melhores lembranças. Fiquei com o assunto na cabeça e uma coisa de imediato tinha certeza : a minha lembrança para sempre seria de Vila de Santo Andre. Não estava muito certa de qual cena. Se o jardim da minha casa com direito a roseira florida, o caminho do mar, a travessia de balsa ou apenas a imensidão da praia vazia. Hoje descobri o que quero guardar para sempre. É uma cena de Sto Andre do ponto de vista de dentro do mar. O que vejo quando estou na água : o mar batendo na areia branca e na sequencia a vegetação, os coqueiros tendo como pano de fundo o céu azul. Nunca vi estampa mais linda do que essa. O mar, a areia, o verde da folhas no azul. Se me for permitido é isso eu quero levar na memória ao partir. Léa Penteado enviado do meu Blackberry

Lembra da Nalva Aguiar ?

Durante o show, a verdadeira Nalva Aguiar

Assistindo uma parte do ensaio do show Emoções Sertanejas na última terça-feira, observava cada um dos artistas no palco quando me deparei com uma “senhorinha” vestindo camiseta vermelha, os ombros um pouco arqueados, sem maquiagem ou glamour, e por eliminação, só podia ser a cantora Nalva Aguiar. Lembro do seu nome, o título de Rainha dos Caminhoneiros, mas não consegui cantarolar nenhum de seus sucessos… Ontem, assistindo ao show, quando foi anunciado o seu nome, quem entrou no palco era uma outra pessoa. Magrinha corpo ereto muito bem equilibrado no salto alto, calça justa, colete, chapéu de cowboy e lenço vermelho na mão, era a cantora Nalva Aguiar em sua verdadeira essência. Como no programa de televisão “extreme make over” ela sofreu uma transformação total. Os seus 65 anos de idade não pesavam em suas costas, era um misto de garota da Jovem Guarda com a arrebatadora cantora das festas de peão.
Fiquei ouvindo a sua interpretação segura em “As curvas da estrada de Santos”, um jeito de quem tem intimidade com palco e microfone, e nada parecia com a “senhorinha” tímida da noite anterior. No jargão do futebol “treino é treino, jogo é jogo”, mas no showbussiness mesmo no “treino” estão em clima de jogo… Ainda mais quando estão reunidos num palco 18 dos maiores nomes da música sertaneja para homenagear Roberto Carlos.
Penso na importância de cada um conhecer a sua essência e sua identidade. A Nalva sabe que é cantando no palco que ela se realiza… E às vezes as realizações estão em gestos simples. Uma outra Nalva, que serve café e cuida do nosso escritório, é imensamente feliz com seu trabalho. É detalhista na limpeza, diz que o café que faz é o melhor do mundo, e veste o uniforme preto com muita dignidade. Está sempre de bom humor e é nesse “palco” que está a sua essência.
Vivo em “palcos” distintos, em dois mundos diferentes. De um lado a minha casa no sul da Bahia, num povoado com menos de 800 habitantes, sem saneamento básico, ruas de terra batida, em uma área de preservação ambiental. Do outro, em São Paulo, a maior cidade do Brasil, das Américas e do hemisfério Sul; a 14ª. cidade mais globalizada do planeta e a mais rica da América do Sul. Em qualquer lugar a essência é a mesma… Guardada as devidas proporções faço a mesma função : abro portas, junto pontas, junto pessoas, promovo, crio, escrevo, contemplo, percebo e sou feliz. Com toda essência e identidade que me é própria.

Nalva antes, durante o ensaio...

Encontro com o Ministro

Com a filha Dandara, tocando a imagem do artista que se transforma em diversas fases.

Pontualmente às 5 da tarde chegou o Ministro. Com um jeito tranqüilo, veio caminhando pelo parque do Ibirapuera sem aparato, batedores ou segurança ostensiva. Um sorriso manso, um sotaque bahiano. Acompanhado da filha Dandara e alguns assessores, o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, foi conhecer a Exposição Roberto Carlos 50 anos de Música. Percorreu os 4 andares da OCA, ouviu musica – contou que a sua favorita o Rei não canta mais, “E que tudo mais vá pro inferno” – , assistiu a filmes, sentou na lambreta, e como qualquer mortal curtiu o projeto que como Ministro colaborou para se tornar realidade através do uso da Lei Rouanet.
Olhando aquele jeito tão simples e entusiasmado em querer ver, ouvir, entender e admirar a obra do artista, qualquer desavisado ou pouco atento a política que estivesse por ali circulando não reconheceria a autoridade que tantas vezes quando Secretária de Cultura de Santa Cruz Cabrália quis procurar. Eu e todos os secretários de cultura de cidades do interior do país que andam com o pires na mão almejaram estar cara a cara com o poder da cultura do país.
Tive um enorme orgulho de ser Secretária de Cultura da cidade onde o Brasil começou. Um município no sul da Bahia, com pouco mais de 30 mil habitantes, inadimplente, lutando com enormes dificuldades. Uma bola de neve que não consegue parar de crescer e se repete em grande parte dos mais de 5 mil município brasileiros. Apertam o cinto para atender o básico, saúde e educação, não sobra nada para a Cultura, mesmo que exista um número hipotético no orçamento anual. Consegui com uma pequena e querida equipe – valeu Cláudia, Zé Luiz, Sr. Jique… – fazer algumas ações deliciosas que a cidade curtiu. Foi um período onde prendi mais do que ensinei. Enfrentei alem da falta de dinheiro o desafio de não ser nativa, e ao sair deixei amigos. Ficou a tristeza de não ter conseguido fazer uma Casa de Cultura. Um projeto lindo – cultural e arquitetônico – para uma casa tombada com vista para o Rio João de Tiba, com um custo em pouco mais 300 mil reais, num espaço justo e necessário para a cidade. Acesso ao conhecimento é transformador. Através do lúdico, da arte e do movimento, o conhecimento acelera a transformação. Colabora na formação de cidadãos conscientes, cria oportunidade aos jovens, traz o mundo mais perto.
Mas o convite para integrar a equipe que construiu o projeto Roberto Carlos 50 anos de música, fez com que eu saísse da Prefeitura e me trouxe para São Paulo. Mas a vida é tão perfeita, por uma mágica do destino, menos de dois anos depois, fiquei durante mais de uma hora numa boa conversa com o Ministro. Acredito que o universo conspira a favor dos sonhadores e que nada acontece na vida por acaso, quem sabe não é tempo para se recomeçar o projeto.

"... e que tudo mais vá pro inferno...", o jornalista, a filha, eu, o ministro e a advogada Cris Olivieri