Confissões

prof delcio

Tenho fugido dele há muitos anos. Quando se apresenta é sorrateiramente, no meio de uma grande mudança, ressurge do nada e me olha desafiador. É apenas um livrinho sem capa, com algumas folhas soltas, mas mexe com as minhas entranhas. Não pelo teor dos poemas de Castro Alves e nem por saber de cor “Vozes D´África” – Deus! Ó Deus, onde estás que não respondes!? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde, desde então, corre o infinito… Onde estás, Senhor Deus?...-  mas por lembrar sempre de onde veio.

A dedicatória quase apagada mesmo que desaparecesse eu não esqueceria e diz “À aluna Léa Ceres Viana Penteado vencedora do “I Concurso de Redação” realizado no Ginásio Batista Brasileiro em 1962”. Acompanha as assinaturas da diretora Zeni e do professor Delcio. Aos 13 anos cursando a 3ª série, como todas as alunas do ginasial tive que fazer uma redação para participar do concurso. Não lembro se o tema era livre, mas a minha tinha o título “Saudades”. Nunca fui atenta às regras de gramática, mas tinha estilo. Me lembro das 3 folhinhas retiradas do caderno onde passei a limpo com a letra cuidadosa e sem rasura a redação. Eu sabia que estava bacaninha, mas a estima não era tão elevada ao ponto de achar que seria a melhor. E não é que foi?

Como eu era apenas uma aluna mediana, nem tão bonita, nem rica, nem da Igreja Batista, ter sido a vencedora causou um mal-estar. Poucas horas depois do anuncio feito no alto falante do pátio com todas as alunas formadas em fila, começou o zumzumzum de que eu não podia ser autora daquela redação tão surpreendentemente boa. Eu gostava de ler e escrever, sempre fui criadora de histórias que só ficavam nos meus pensamentos e não sei de onde tirei inspiração para colocar no papel. Lembro alguns trechos e deve ter chamado a atenção do professor Delcio, um homem negro, muito magro, com mais de 60 anos, o fato do primeiro e o último parágrafo começarem exatamente iguais. Nem sei aonde vi isso, mas sei que fiz assim e deu um diferencial à redação.

A revolta das colegas era velada. Não falavam abertamente, só no cochicho. Fiquei constrangida, triste, fora do prumo durante algumas semanas. Puro bulling, diriam nos dias de hoje. Engoli seco, não comentei em casa, tive vergonha. Em algum pensamento maluco nos longos seis quarteirões que caminhava da minha casa à escola cheguei a duvidar que tivera competência para escrever. Eu não era tão boa assim. Meu guarda-roupas era uma bagunça, eu odiara meu irmão quando nasceu, roubei bombons de minha mãe, assisti TV escondido e com tantos erros como podia escrever bem e ganhar um concurso?

Perguntas que ficaram nas pedras chutadas e o tempo passou mostrando que escrever era mais forte do que todas as dúvidas, minhas e dos outros. No ano seguinte, na formatura do ginásio, fui escolhida para ser a oradora da turma e fiz um lindo discurso que ninguém mais podia contestar a autoria.

E bem nesta semana quando acerto escrever para o Portal Anna Ramalho, o livro “Espumas Flutuantes” voa da estante e a história de como tudo começou vem à tona. Um fato jamais comentado nem nos divãs dos analistas, nem nas confissões da igreja, nem repetida para a família, filho, maridos, namorados, amigos chegados… Guardada no fundo do coração saiu sem dor e com uma enorme gratidão ao concurso de redação que mostrou o meu caminho.

 

Uma relíquia

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Perdi a conta de quantas vezes mudei de casa… Há alguns anos fiz uma conta e cheguei a 26 endereços em 23 anos. Pode parecer inacreditável, mas eu não gosto de mudar. A vida é que me pede e não sou de dizer não aos seus apelos. Exceto temporadas em São Paulo e uma curta no Rio, nos últimos 10 anos fixei raízes na minha Santo André da Bahia. Hoje fiz uma mudança de guarda roupa e encontrei no fundo de uma gaveta um lencinho com rendinha, tecido delicado e meu nome bordado entre pequenas flores. Presente da minha mãe. Por certo ela acreditava que minhas lágrimas seriam poucas e um pequeno lenço fosse suficiente para secá-las… E como ela me conhecia ! Estava certíssima ! Chorei muito mais de rir do que de tristeza ao ponto do tecido cor de rosa amarelar na gaveta. E quando chorei para valer, esqueci do lencinho e mergulhei lágrimas e nariz escorrendo em lenços de papel que retirava de sacos plásticos ou pequenas caixas. Creio que nem existem mais lencinhos de tecido o que deixou a poesia de lado. Não se acena mais na hora da partida e nem se encontra mais no mercado cavalheiros que tiram um lenço do bolso para oferecer a uma dama… Na verdade são mais raros cavalheiros e damas, a vida nem dá tempo e podemos nos considerar bem feliz com uma curtida num post… E pra ser ainda mais sincera, nestes novos tempos os lenços são os que menos me fazem falta.  Quem o escolheu, mandou bordar meu nome, embrulhou no capricho e presenteou é que me entristece a ausência.

9 March, 2015 10:17

Tenho saudades da voz dos amigos que encontro pouco… leio mensagens nas redes sociais e tento imaginar a entonação que estariam ao fazer os comentários que escrevem…Compartilham decepções, alguns são irônicos, outros desabafam, ficam indignados, riem kkkk rsrsrs….. O difícil é identificar sotaques e tonalidades de quem só conheço virtualmente… Invento vozes de acordo com as feições e a forma como se exprimem… alguns são pontuais e discretos, outros efusivos falam ALTO…GRITAM!
Hoje "redescobri" o uso do telefone e vou ligar cada vez que tiver saudades da voz de alguém… um alô custa tão pouco e faz tão bem…Ficamos mais vivos, mais próximos de onde saem as palavras… Não é da boca, como acreditamos, mas do coração.

na madrugada

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Acordo com latido de cães e tento reconhecer se é dos meus, assim como mãe busca o choro do seu filho… Ando tocada com a fragilidade e inteligência dos animais. Ontem me peguei chorando ao assistir no facebook um vídeo onde um cão protege outro que foi atropelado. As redes sociais me trazem revelações. É a conversa mais profunda que se abre com quem mal se conhece, é perceber como tantos procuram um lugar de paz num mundo tão enlouquecido.

Ontem voltei cansada da viagem, fui almoçar na pousada vizinha e no caminho o flamboyant florido me encantou. Flamboyants sempre me encantam, tenho um na memoria da infância, era muito grande e ficava em frente à casa da minha avó em Niterói. A luz da tarde ajudou e com o celular o fotografei embelezando a “rua da minha casa”. Este registro simples postado na internet foi como um desejo feliz para o fim de domingo… Um contraste dos últimos quatro dias quando estive navegando em num dos maiores navios do mundo, com capacidade para cerca de 4,000 passageiros, com 333 metros de comprimento e 38 de largura… O MSC Preziosa onde aconteceu o Projeto Emoções 2015  é uma cidade sofisticada e tecnológica que se movimentando sob o mar com uma capacidade muito maior do que a minha singela vila…Mas não tem flamboyants, cães latindo na madrugada, passarinhos cantando enquanto o dia nasce e encerro este registro…

comareg sa

Good afternoon,

Cinderela

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Eu fiz 12 anos de idade recém chegada ao Rio de Janeiro… Alguns dias antes acontecera a mais longa e cansativa viagem numa kombi saída de São Paulo na manhã de 1º de janeiro… Papai bebera algumas para se despedir da Paulicéia e viemos parando ao longo da Dutra para ele se recompor… No banco da frente iam papai, mamãe e o meu irmão pequeno… Ainda permitiam crianças sem cadeirinhas… Os três maiores no meio, enquanto eu com o cachorro e muitas sacolas no último banco… Chegamos na grande casa na rua da Cascata na Tijuca bem antes que o caminhão da mudança. Eu e meus irmãos fomos distribuídos na casa dos parentes até tudo ficar pronto para começarmos vida nova.

O calor do primeiro verão, a fresca da tarde na rua arborizada, as mangas do quintal são coisas pra não mais esquecer… Pela primeira vez eu tinha um quarto que não dividiria com minha irmã e podia dormir com a janela aberta olhando as estrelas. Entre as muitas novidades um dia em passeio de reconhecimento pela Praça Sanz Peña, o centro comercial do bairro, avistei na vitrine da Sloper* algo que fez pular o meu coração:  um par de sapatos que mesclava couro cor de rosa e plástico transparente… Nunca eu tinha sonhado em ver coisa mais linda, mimosa, feminina e, por que não dizer, carioca…Era quase Cinderela !

Desejei imensamente aquela sapatilha. Imaginava meus dedinhos exibidos na transparência do plástico. Acreditava que minha vida seria outra, que conseguiria fazer muitos amigos, era como um atestado de modernidade e carioquice. Insisti muito para mamãe comprar, mas o meu aniversário já tinha passado e o orçamento era apertado… Passei semanas sonhando cor de rosa até que um dia passeando com a madrinha Cilá revelei o sonho e dias depois se tornou realidade. Naquele verão fui a mais feliz garota da Tijuca. Jamais esqueci este sentimento… Hoje, quando estava fechando a compra de uma sandália em uma loja Arezzo em Porto Seguro, olhei na prateleira e uma sapatilha rosa sorria pra mim, da mesma maneira quando o vi a primeira vez  na vitrine da Sloper. Meu coração bateu acelerado. O tom rosa mais forte, amadurecido como eu, porém o mesmo encantamento… Uma Cinderela mais vivida, experiente com um coração de adolescente… Cheguei a conjecturar que poderia ser juvenil demais, nem ser adequada ao meu estilo atual e talvez nenhuma roupa combinasse… Mas era o último par, só tinha esta cor e do meu número exato…. Alguém tem dúvida que eu comprei? Que se dane o resto eu vou ser feliz…

Sloper – eu achava que era o que tinha de mais elegante na Tijuca. Era uma loja de departamentos nos moldes da Mesbla e dos grandes magazines franceses do final do século XIX  que vendia roupas, sapatos, bijuterias, maquiagem, perfumes… um luxo!

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Mix de sentimentos

todos

Morar em uma área semi rural faz com que as necessidades sejam diferentes.  Meus interesses estão mais para refazer as madeiras de uma das hortas suspensas, montar uma nova tenda para a grande mesa debaixo das árvores, colocar uma tela mais alta no canil para a Akira não fugir, do que uma roupa de grife, um sapato como manda a moda, um batom com a cor do verão, um perfume must da estação… E quando saio do meu mundo e me deparo com uma grande cidade sou tomada por um terrível sentimento de inadequação… Lá não valem as havaianas coloridas, os vestidos largos, as cangas, os biquínis, as camisetas e as bermudas. Estou fora do contexto no chamado estilo urbano. Mesmo com pulseiras, colares, panos enrolados para proteger do ar condicionado acomodo-me na poltrona do avião, fecho a cortina e sinto-me estranha…

Foi com este sentimento que cheguei ao Rio para passar 2 noites e menos de dois dias na casa de uma amiga que mora bem próximo de onde eu teria um compromisso, pois tenho pânico de ficar presa em engarrafamentos e não chegar na hora… Somos amigas desde 1969 e passamos juntas uma época muito boa de juventude… O tempo nos separou com casamentos e filhos e nos reencontramos há uns 10 anos. Ainda não conhecia seu apartamento à beira mar feito com carinho e suor. Literalmente suor e calos nas mãos. Por conta própria pinta a casa, reforma a cozinha colocando novo azulejo, troca o papel de parede do corredor, passa rejunte, retira aquecedor do banheiro, reforma móveis, faz uma mesa de centro… Inacreditável!

Um banho, camisola, copo de cerveja e conversa íntima de mulheres da mesma geração, com medos e ainda muitos sonhos. Ela conta sobre o fim do casamento. Apesar das aparências de ‘casal 20’, a relação vinha se esfacelando há anos, ela sempre contemporizando para preservar a família. Filhos casaram, saíram de casa, alguns até do país e ela continuou fazendo figuração de par perfeito. Há pouco mais de dois anos concluíram que o divórcio era a saída, ele mudou de quarto, mas não saiu de casa nem contaram para os filhos. Foi então que o previsível aconteceu. Ah!!!! estas terríveis redes sociais um reencontro casual com um amor do passado mexeu com a estrutura da mulher com pouco mais de 60 anos por quem o marido perdera o desejo. Aumentou a estima, mas manteve-se fiel ao parceiro em uma relação que não mais existia, preparando o anuncio aos filhos. Mas o marido sentiu-se traído virou o jogo e ela passou a ser considerada por eles a mais vil e desprezível mulher do planeta. Filhos e ex-marido a humilharam e cortaram relações. Encontrei minha amiga se reinventando no maior astral. Aceitando os novos tempos, elegante nas palavras ao se referir ao ex-marido e filhos, atenta ao futuro, preocupada com o neto que vai nascer e que não acompanhará a chegada nem dará o primeiro banho.

Fui dormir pensando nas viradas da vida, na minha própria que me trazia de volta ao Rio para rever um pedaço do passado. Ninguém virou as costas pra mim, simplesmente eu saí mas não esqueci dos caminhos por onde passei nem das pessoas com quem aprendi e dividi momentos inesquecíveis. A inadequação estética era apenas um pequeno detalhe perante a grandeza de estar novamente integrada a um grupo do qual ajudei a construir uma lenda.

Lembrei do ditado “em Roma como os romanos” e como figura urbana no dia seguinte fui pintar as unhas e o jovem cabelereiro cortou meu cabelo mais do que devia. Não importa, vai crescer. Como na juventude estiquei a roupa de festa sob a cama. Tomei banho, passei creme no corpo e pintei o rosto tomando emprestado o que há de mais chic em maquiagem nos tantos potinhos, caixinhas, tubinhos, lápis, rímel, pós, base, sombras, batons, que saiam das gavetinhas da minha amiga. Um espelho de aumento controlava os exageros. Com um pincel gordo ela acertou o blush, parecia que tínhamos voltado ao tempo e nos arrumávamos para o baile no clube da Tijuca ao som do The Fevers.

E pela primeira vez o esperar a festa não foi o melhor, mas sim o estar lá nos tantos abraços, sorrisos,  encontros… 30 anos de celebração de uma marca que cada um ajudou a construir… Foi como se jamais tivéssemos nos separado e voltei pra casa acreditando que por algumas horas fomos mais do que “uma só voz, uma canção” éramos todos a mesma alma…

Foto : Luis Guilherme – Divulgação Rock in Rio

O Ministro e o Rei

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Em 2010 quando foi realizada na Oca a exposição celebrando 50 anos de música do cantor Roberto Carlos, o projeto teve uma pequena parcela incentivada através da Lei Rouanet utilizando parte do patrocínio da Nestlé. A exposição com curadoria de Marcello Dantas, da qual tive a honra de assinar a direção ao lado do curador e Dody Sirena, era um grande sucesso de público e crítica. Um dia recebemos o telefonema do Ministério da Cultura: o Ministro Juca Ferreira gostaria de visitar a exposição. Nenhum pedido especial, apenas alguém da equipe para acompanhar nos 3 andares da mostra.  Por alguma razão nem Dody nem Marcello estavam em São Paulo, e lá fui eu naquele fim de tarde receber o Ministro que chegou com a maior simplicidade acompanhado de poucos assessores e da filha… Andamos juntos sem imprensa nem seguranças… Viu cada detalhe, posou para a minha câmera, ouviu as músicas, assistiu vídeos, como um dos tantos fãs do Rei…Não pediu encontro com o artista, nem autógrafo, nem  usou esta visita para se promover… Por isso quando li a notícia do seu retorno ao governo lembrei desta visita e fiquei esperançosa com os caminhos da cultura em nosso país… Enfim um profissional no posto. Boas falas para 2015!233 237242

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 20.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 7 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo