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Sansão do Campo

sansão do campo

Neste outono, por muitas ruas onde passo, encontro floridas as cercas vivas de Sanção do Campo* . Parecem pequenos tufos de algodão, são de extrema delicadeza e quem não conhece é incapaz de perceber quantos espinhos tem os seus galhos. À primeira vista parece frágil como suas flores, mas seus galhos produzem espinhos semelhantes aos da roseira e funcionam como uma barreira contra invasores, contra a poeira das estradas e quebra o vento. A natureza sempre surpreende, assim como o homem…. Revelam espinhos onde pensávamos ser só carinho, revelam carinho onde pensávamos ser só espinhos.

Aprendi há algum tempo que ninguém é exatamente o que aparenta, sempre temos o que descobrir e desvendar…. Enquanto caminho reflito que o aprendizado pode estar em cada passo, e consigo perceber tudo isso pois estou aberta para o que a vida oferece…. Não é fácil passar dos 60. Como escreveu Rita Lee “envelhecer é uma loucura”…Penso que é o tempo mais difícil de uma existência. A infância corre fácil, tudo é novo. A adolescência por mais incomoda que seja passa rápido, já se chega à juventude com um mundo de tesão por descobertas, passasse dos 30 com desejos maiores de conquistas e solidez, aos 40 há um brilho de olhar a trajetória quase ganhando o mundo, aos 50 o orgulho da maturidade, aos 60 é divertido ser visto como prioridade apesar de se sentir ainda jovem, mas chegar aos 70 é um susto com o futuro.  O tempo está mais curto. Posso fazer planos para 10 ou 15 anos? Quanto ainda terei de lucidez e vida com qualidade? São muitas perguntas sem respostas.

Enquanto me alongo no Pilates percebo integralmente a matéria que sou. Sinto todo o corpo enquanto me movimento. Por mais que em determinados pontos a pele perdeu o tônus, os músculos estão fortes. Atingi uma abertura de pernas que em outras épocas faria enorme sucesso… Agora servem apenas para exercitar a elasticidade… E entendo que o caminho está em contemplar o cenário que se apresenta e buscar no corpo e na alma mais elasticidade, flexibilidade, harmonia, amor, fé e aceitação do que vem pela frente…Como o Sansão do Campo, mesmo que hajam espinhos vamos manter a beleza das pequenas flores…

 

* Sansão do Campo, também conhecido como Sabiá, o Sansão do Campo é uma espécie pioneira nativa da região nordeste do Brasil, sendo um arbusto de rápido crescimento que apresenta vantagens que o tornam ideal para a formação de cerca viva.  É uma planta perene que necessita de pouquíssima manutenção e, dependendo da situação, bastante rústica e resistente, dispensando inclusive as podas. Suas pequenas flores acrescentam valor ornamental à cerca viva, um outro diferencial em relação à outras espécies para a mesma finalidade, além de ser utilizada para restaurações e recomposições de áreas degradadas. Outra característica marcante do Sansão do Campo é a utilização de sua madeira, que é muito apropriada para usos externos, como mourões, estacas, esteios e lenha.  Nome Científico: Mimosa caesalpiniifolia (Leguminosae Mimosoideae)

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Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri