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Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri

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Outros carnavais

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Sentada a beira do rio esperando o bloco Unidos de Santo André passar, lembrei da foto com Paulo Martins que recentemente emoldurei e pendurei na parede da sala e me remete a outros carnavais. Meus pais se conheceram num baile de carnaval. Minha mãe era a rainha, ficava no trono acenando para os súditos; meu pai entrou no baile como penetra, não era sócio do clube e vestiu uma fantasia de dominó (não consigo imaginar!!!) com capuz na cabeça para não ser reconhecido… Ouvi esta história dezenas de vezes quando me vestiam de bailarina ou qualquer outra fantasia que “herdava” das primas ricas e me levavam para o clube com um saco de confete, um pacote de serpentina e uma lança perfume Rodo Metalica.

Sempre me senti ridícula fantasiada. Até mesmo quando adolescente saía no grupo das  garotas da rua da Cascata vestida de índio ou melindrosa para brincar no baile no Montanha Clube. Em grupo o vexame era menor. Deve ter sido isso que me estimulou a aceitar o convite dos incríveis Stenio Pereira e Equio Reis para sair na comissão de frente da Portela. Na verdade era um séquito que acompanharia a colunável milionária Beky Klabin em sua estreia no carnaval.  Equio e Stenio eram dois artistas sensacionais que marcaram o fim dos anos 60 e início dos 70 em Ipanema. Um baiano, ator e diretor de teatro, o outro arquiteto carioca, foi o primeiro casal assumidamente gay que conheci. Juntos criaram uma grife, um estilo que fez sucesso entre artistas e descolados.

Beky era uma grande figura. De origem turca, chegou menina ao Brasil, casou com o empresário do ramo de papel e celulose Horácio Klabin com quem teve dois filhos. Foi jurada do programa do Chacrinha, namorou o cantor Waldick Soriano, o cirurgião plástico Hosmany Ramos que anos depois foi preso e julgado como traficante… Ela “causava” na sociedade carioca e por ser apaixonada por samba foi parar na Portela. As portas da sua cobertura na Av. Vieira Souto – o metro quadrado mais caro do mundo! – eram abertas para ritmistas e passistas realizarem os ensaios da “trupe” que a acompanharia na avenida. Claro que tudo regado a muito champagne e caviar. Não lembro quantos éramos naquele carnaval de 1972, mas viemos em torno de Beky que “carregava” um vestido branco, coberto de plumas e pedrarias. Evoluíamos numa coreografia ensaiada durante semanas seguindo a letra do samba “Ilu aiê odara, negro cantava na nação nagô…” Dizem que as joias que Beky usava eram de muitos quilates, por isso, discretamente, alguns seguranças a acompanhavam. Ainda não havia o sambódromo, as escolas se exibiam na Presidente Vargas, e quando terminou o desfile, lá estava nos esperando o seu motorista com o porta malas da Mercedes aberto repleto de bebidas e comidinhas para o grupo… Lembro voltando para casa com a maquiagem escorrendo no rosto …

Beky foi a primeira personalidade do “high society” a desfilar em uma escola de samba o que causou furor e se tornou um escândalo… Sua personalidade era tão marcante como referência em glamour e poder, que segundo consta, Gilberto Braga nela se inspirou para escrever a personagem Stela, vivida por Tônia Carrero na novela “Agua Viva” em 1980. Resgatei um de seus pensamentos: “Assim como Stela, detesto praia. Mas mando o copeiro buscar a água do mar para jogar no meu corpo porque queima mais”.

E, na doce brisa do fim de tarde do sábado de carnaval, vendo a explosão de cores do por sol relembrei deste carnaval enquanto esperava o bloco passar… Sem abre alas e coreografia, prefiro ver a vida de camarote…

Na foto abaixo, Beki Klabin (10 de setembro de 1921 – 20 de agosto de 2000.

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Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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Viva!

11129843_1029878993690528_1316757353_n (1)Pouco mais das 5 da manhã quando saí para a praia, olhei o quadro na varanda com fotos ​de muitos amigos e vi quantos já partiram… Nem chegaram a minha idade… ​Estou no lucro mesmo fazendo aniversário em tempo de ressaca de Natal e Ano Novo. Aprendi a festejar assim. Alguns amigos cansados de festas, muitos viajando, outros começando dieta, mas nem por isso deixei de ser feliz apagando as velinhas com grande ou pequena platéia.

Fui caminhando pela servidão, vendo o sol nascendo no mar e agradecendo pela vida… Extasiada com o  escândalo do canto dos pássaros, a beleza do flamboyant que por falta de chuva continua florido, tudo é motivo de gratidão. Aniversário é dia de reverenciar os antepassados, mesmo os que não conheci .  Estiquei a canga na areia e olhando o mar com o sol nascendo agradeci à família, ao meu filho, aos meus mestres, aos amigos de sempre, aos amigos recentes, aos amigos virtuais, muitos eu nem conheço a voz, nunca vi pessoalmente e leem meus textos, comentam meus posts, me querem bem…

Este aniversário chega acompanhado de uma reflexão promovida por um curso de Eneagrama que aconteceu esta semana em Vila de Santo André. Ah! esta vila sempre surpreende! Adriano Fromer Piazzi é um editor de livros bem-sucedido, nos últimos anos tem se dedicado a este estudo e aproveitou a semana para dar um curso com as primeiras noções. Eu conheço o assunto, estudei em dois workshops, mas num pré aniversário voltar a pensar em quem realmente sou foi mais que perfeito.  Eneagrama não tem a ver com signos, não vem no gene e nem se desenvolve com a educação familiar. São 9 perfis de personalidade, fala-se sobre isso  desde a antiguidade. Nos últimos tempos passou a ser uma ferramenta muito usada para autoconhecimento e por empresas para selecionar os profissionais adequados à cada função.

Neste curso de dois dias mais uma vez constatei que sou forte, obstinada, firme, confrontadora e não peço ajuda.  Como é duro não mostrar a fragilidade… Sou rebelde, mandona, radical… Já fui bem mais, nos últimos anos a vida me amaciou.  Assumo o controle do que faço, dos assuntos mais complicados aos mais simples, e como já ouvi dezenas de vezes “entrega para a Léa que ela resolve”. Falo o que penso, tenho uma ética muito pessoal, acredito na justiça e na integridade. Sou de explodir mas me recupero rapidamente. Nada como uma noite para aliviar. No dia seguinte passou, não guardo mágoa, posso ignorar quem me fez mal, mas não desejo o mal. Adoro a verdade, não consigo atuar nas meias palavras. Tem que ser certo, reto. Sou generosa, boa parceira, pau pra toda obra.​

Revi meus sentimentos e atitudes. Alguns a favor, outros mais delicados,  mas saber quem sou simplifica tudo. Sei aonde estou pisando e mesmo  quando parece que tudo vai desmoronar não tenho medo. Medo apenas de ter medo. Revi também a personalidade dos outros tipos. Do super exigente, ao temeroso, passando pelo romântico e o mental. Os que empurram com a barriga, os que não querem aplausos e os que sofrem por não ter… Bom constatar que não somos iguais, isto me reafirma a importância de ter mais respeito ao semelhante e, numa boa, eu não aguentaria  conviver apenar com Leas.

Jamais imaginei quantos anos viveria e aonde chegaria. Fazendo o que ? Com quem ? Não pensei sobre isso nem aos 20, nem aos 40, quanto mais passando dos 60. Fui fazendo a vida com o que se apresentava. Um dia de cada vez, sem muitos planos a longo prazo, com um enorme prazer em estar no momento presente que foi se desdobrando e me trazendo presentes. Presentes em forma de amigos, desafios, afetos, alegrias, conquistas, amores, aprendizados…

Este ano vivi mais Santa Cruz Cabrália, a cidade da minha doce Vila de Santo André. Expandi conhecimentos, fiz amigos e sou grata ao Prefeito Jorge Pontes por ter me convidado para ser Secretária de Comunicação. Um aprendizado todos os dias. Este ano me encantei com as aulas de cerâmica, dar forma ao barro, ver queimar, colorir, transformar em peças… Costurei menos do que queria, rezei bastante…

Ah! vida!!! Quanto ainda por fazer ! Mais amigos, mais conhecimentos, mais esperança, mais obras em casa, mais hóspedes, mais saúde, mais risadas, mais lágrimas de alegria, mais surpresas… Que coisa boa é estar ainda por aqui… E  que venham os dias, meses e anos que tiverem que vir e eu serei eternamente feliz !

 

 

 

 

 

Toque

massagem-terapeutica-4Na cama, antes de dormir, creme nos pés e nãos mãos; no rosto pela manhã e à noite, nos cabelos antes do mar, óleo no corpo durante o banho e assim a pele, considerada o maior órgão do corpo humano e o mais pesado, vai sendo tratada. Dias após dia poucos toques sem muita atenção. O conjunto da obra se movimenta, as vezes estala um joelho, o pescoço fica tenso, um braço encrenca com o gesto repetitivo do mouse, mas a vida segue… Como se nada mais existisse a não ser  movimentos quase que automáticos, repetitivos, sem graça…

Até que um dia, o inesperado convite para a entrega do corpo à uma maca, numa sala silenciosa, aroma de essências, toalhas mornas sob a pele, as mãos começam tocando a sola do pé e reencontro o prazer de receber uma boa massagem…

Ah! Como estava com saudades de mãos profissionais esticando meu corpo, fazendo vivos os ossos, desfazendo os nós dos pés, apertando o couro cabeludo, puxando as orelhas e tudo isso com o aroma dos óleos … Nós pés uma gota de vetiver, gerânio em todo corpo, nas costas eucalipto e lavanda, laranja no abdome, jojoba no rosto e a delícia de respirar profundamente estes delícias… Prazer do tato e do olfato…

Incrível a capacidade que temos de não nos dar pequenos prazeres… Outro dia uma amiga veio passar uns dias em casa e confessou que não tomava banho de mar há mais de 20 anos… Outra passou uma semana andando descalça, havia esquecido como era bom pisar na areia, na grama e na terra… Comecei a lista o que estou deixando de fazer para recuperar o tempo esquecido… Já saí de bicicleta, a noite vou ver estrelas (aqui tem milhares) e antes do dia telefonar para alguns amigos em lugar de curtir no Face… A vida muda, ainda bem !!

Quem vier à Vila de Santo André e quiser conhecer este prazer marque uma sessão com a Jôrene Ferro na Pousada Terra Morena