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Força na peruca

Não sou produtora. Sempre afirmei em todos os eventos que trabalhei. Sou cabeça de criar, inventar, promover e não me chamem para produzir. Tanto repeti que o universo me respondeu com um desafio: vai ser o que você não quer ser. A vida tem disso… Tudo o que negamos acaba um dia batendo em nossa porta. É o que temos que aprender na caminhada… E foi assim que surgiu o Festival de Inverno de Santo André. Tive uma ideia! Isto é normal. Vou escrever um projeto, também normal. Vou comunicar às pessoas, fazer os contatos, colocar toda a comunidade para participar. Tudo muito óbvio. Levei o projeto ao prefeito que adorou “é tudo o que desejo para Santa Cruz Cabrália”, ele falou. “Conte com o palco som luz e a estrutura para o festival”. Aprendi que em reuniões profissionais não se deve ir sozinho. Estava acompanhada da administradora da vila, Silvia, e da diretora de cultura da cidade, Rita, testemunhas da promessa de que o sonho ia sair do papel. Mas ficou apenas ali. E  agora que já coloquei as crianças e os jovens prá ensaiar um lindo espetáculo? Aos convidados que viriam de longe (diretor de cinema, atores, músicos, coreógrafa) enviei um email agradecendo e pedindo desculpas pela falta de recursos com o não cumprimento da palavra do prefeito. Mas para a turma daqui? Como dizer que nada iria acontecer? A oferta de patrocínio da Veracel, empresa de celulose do Sul da Bahia, é apenas 15% do orçamento !! Não acredito em políticos, mas acredito em milagres e em amigos. Hoje o palco começou a ser construído à beira do rio, como havia planejado. Um amigo que tem empresas de eventos em Porto Seguro, Locar Eventos e DiskStand, quando telefonei dizendo que estava tudo cancelado, disse: “nós vamos fazer de qualquer maneira”. Bem que eu poderia ter feito um moderno “crowdfunding” mas sou do tempo de ação entre amigos… Zenaide, Lily, Reghi, Luiz Felipe, Juliana, Eleonora, Rodrigo, Andréa, Nel, Betty, amigos pessoais e da vila que estão em São Paulo, Rio e BH deram uma ajuda para as faixas que já foram para a rua, para o fundo do palco que está sendo produzido (afinal um espetáculo tem que ter cenário!!!) e para os cartazetes com a programação que ficam prontos na 2ª. feira. O incrível Zé de Broi, talentoso diretor de arte que veio morar em nossa vila criou a comunicação visual… Ontem quando saí com uma enorme escada no carro e com a ajuda do Guinho colocamos as faixas na rua, lembrei dos mega eventos que participei onde não se colocavam faixas mas enormes outdoors, totens, anúncios de página inteira nos mais importantes jornais. Hoje vendo o caminhão descarregar o material com a estrutura do palco às beira do rio, foi uma enorme emoção. Talvez maior do que um Rock in Rio… Ficamos estabelecendo a melhor posição para palco e plateia… Serão 200 cadeiras brancas embaixo de um toldo, caso o tempo mude… Poucos vão precisar trazer cadeiras de casa… Ainda falta resolver o transporte e hospedagem dos 5 músicos que vem de Trancoso, camisetas para a equipe de voluntários, faixas para os bairros vizinhos, carro de som anunciando na comunidade e outros detalhes… Aprendi que o ótimo é inimigo do bom e faço do tamanho que der… Abaixo a programação e tenho imenso prazer em convidar a todos para este festival! Faço meu acerto de contas com a “produção” e realizo meu primeiro e único evento.

Fundo do palco

PROGRAMAÇÃO Dia 27 – Sexta-feira – 20h30 Dança

  • Fragmentos do espetáculo ABAPURU HOMEM NOVO apresentado por crianças e jovens do CCC
  • Apresentação do Grupo Afro Aféfé com os dançarinos Andressa, Guto, Jairo, Mari, Monica, Priscilla,  Simona e Vivian, e os percussionistas Kaito Odara e Marcello Bottini.

Dia 28 – Sábado – 20h30 Música

  • Apresentação dos alunos de cordas e flauta do IASA
  • Quarteto de cordas do Neojiba- Instituto SHC de Trancoso
  • Duo Ray Trapp& Marcelo Bottini

Dia 29 – Domingo – 20h30 Cinema

  • “Morde Diabo” – curta realizado por um grupo de jovens de Santo André na Oficina Itinerante de Vídeo Tela Brasil de Santa cruz Cabrália.
  • “Xingu” – longa com João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat, baseado na história real dos Irmãos Villas Boas.

A estrada

Estrada Porto Seguro – Eunápolis

Quando viajo de carro e vejo uma casinha à beira da estrada, sem vizinhos, solitária, fico imaginando o que faz uma pessoa viver assim. Não sei se é uma escolha ou uma determinação do destino, mas sempre invento historia, crio personagens e isto faz com que as viagens sejam mais divertidas. De onde eu moro para uma “meia civilização” são alguns quilômetros de estrada. E hoje, indo para Eunápolis levar o Xico ao veterinário, lembrei que há alguns anos quando estavam construindo a Veracel, uma enorme fabrica de celulose aqui no sul da Bahia, para se tornar viável o escoamento do material produzido teriam que construir uma estrada unindo a indústria ao seu terminal marítimo. A estrada passaria nas imediações do distrito de Barrolândia, uma localidade pobre e pequena, e para definir o local exato realizaram uma audiência publica. Presentes os representantes da fábrica, autoridades municipais e os moradores. A fábrica sugeria um traçado sem comprometer o povoado, passando por fora, minimizando ao máximo os efeitos dos grandes caminhões e também do trânsito que seria gerado. Já os moradores exigiram que a estrada cortasse bem ao meio da localidade, com isso ganhariam ares de cidade grande. Um amigo envolvido neste processo, comentou que ouviu a seguinte justificativa de uma moradora ainda jovem : “quem sabe assim alguém passa por aqui e me leva embora.”

Os moradores ganharam, a linda estrada lá está. Quantos sonhos à beira de uma estrada! Não sei se a jovem saiu de Barrolândia, talvez os caminhoneiros apressados não parem nem para visitar o “brega”, mas o desejo de aventurar para outros lugares faz parte da busca do ser humano. As aventuras motivam, atenuam dias tristes, alimentam a alma. Eu continuo encantada com as estradas, vendo as casinhas à beira, fantasiando sobre a paisagem. Foi isso que me inspirou a escrever o argumento do filme “À Beira do Caminho” que Breno Silveira dirigiu e estreia em agosto.  É só esperar para conhecer a alma de um caminhoneiro.