De mulher prá mulher…

 

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Hoje estava na praia quando ouvi a notícia da morte de Da. Marisa Letícia Lula da Silva. 66 anos, pouco mais jovem do que eu, e, de repente, uma gavetinha abriu na minha memória e lembrei que um dia estive com ela. Era o dia 27 de setembro de 2010 e a DC Set  estava produzindo a festa de gala dos 100 anos do Corinthians no Auditório Elis Regina, no Anhembi (SP) com mega show do artista Roberto Carlos. A plateia estava repleta de celebridades, jogadores de todos os tempos, políticos, e na lista constava o presidente Lula da Silva, corinthiano roxo… Naquele mês de setembro o presidente Lula  estava empenhado na campanha da então candidata Dilma Roussef e, coincidentemente, naquele dia. faria um comício nas redondezas… As equipes DC Set e RC estavam a todo vapor na super produção e, entre outras funções, caberia a mim, junto com Andres Sanches, presidente do clube, receber Lula e comitiva… Pouco antes do show começar um telefonema avisa que o comício havia se delongado e o presidente pedira à sua esposa, Da. Marisa Letícia Lula da Silva, para representar a família. Rapidamente a equipe afinou a logística e fomos receber a primeira dama no estacionamento. Uma chegada discreta, pouco aparato, e me lembro bem do seu jeito delicado ao descer do carro, recompor o casaco em tom caramelo que ia até abaixo dos joelhos, estender a mão e dizer “muito prazer” com um simpático sorriso. Expliquei que para escapar do assédio do público iriamos entrar pelos bastidores, que o caminho era um pouco tortuoso e, enquanto caminhávamos entre fios e caixotes, ela com salto alto e eu com o privilégio de um sapato baixo, senti que segurou o meu braço buscando apoio e fomos andando como duas amigas que vão às compras de braços dados.  Era uma mulher de estatura mediana, magra, falando baixo, um jeito delicado. No nosso trajeto, talvez uns 500 ms, em certo momento ela foi vista por parte da plateia que estourou em gritos e aplausos. Da. Marisa respondeu ao aceno não como uma estrela entrando no palco, mas como uma pessoa comum que revia os amigos à distância. Detalhes dos bastidores não importam…O que ficou foi a simplicidade ao andarmos de braços dados… Desejo que sua nova caminhada seja  de luz, amparada por bons amigos  ….

Foto : Revista Veja – Abril

Feliz 2017

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A Murta com seus frutos

Acordei e vi a árvore de Ingá florindo de um lado da casa e a de Murta cheia de frutos do outro. Para quem vive em um grande centro esses fatos nada representam, mas para quem tem uma exuberante natureza a sua volta são sinais, nem que seja a promessa da chegada de muitas abelhas que passarão a rodear com um zumbido tão alto que me levam a crer que tem uma serra elétrica nas proximidades… Ah! prazeres de uma outra qualidade de vida… Neste tempo de verão vejo a alegria com que os turistas por aqui passam e se encantam… É uma vila muito simples, por isso a cada dia mais raro em meio a tanta tecnologia, tragédia, violência urbana, pressão, caos, medo…

Todos os meus amigos e também os amigos dos meus amigos deveriam ter o direito de passar uma semana por ano em um local como Vila de Santo André, onde as ruas são de terra, onde espontaneamente acontecem pequenos eventos a beira do rio para alegrar os visitantes, onde a gastronomia vai do PF básico ao restaurante de luxo, onde chove nas madrugadas e tem sempre estrelas e uma lua desenhada no céu, onde se toma banho de mar pois até as ondas são tranquilas.

O meu prognostico é que este será meu ano azul…. Não são previsões da astrologia, do tarô ou da bola de cristal, mas assim defini com dias tão azuis e por ter ganho uma bolsa, um colar, uma agenda e uma luminária da mesma cor.  Basta muito pouco para se colorir um ano e se reposicionar diante de um futuro que começo a desenhar nestes primeiros dias… Se o azul ficar marinho vou dar um jeito de clarear… Feliz 2017 em seu 7º dia…

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O Ingá com suas flores

…e assim se passaram 15 anos

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Apesar de minha mãe dizer que acabamos como pó, prefiro acreditar na alma e que quando as pessoas morrem vão para um outro local, um novo cenário e um dia nos reencontramos. Este sentimento espiritualista cristão me acalma.  Mas em nenhum momento diminui a vontade em estar junto. Recentemente na novela “Eta mundo bão” o personagem central repetia que “tudo de ruim que acontece é pra melhor”. Desculpe Walcir Carrasco, autor da novela, mas esta frase é minha, repetida intensamente nos últimos anos. Repito para mim  e para amigos em crise… Nada poderia ser pior do que a partida tão rápida do meu irmão. Em apenas 9 meses aquele homem lindo, cheio de sonhos, cumpriu sua parte nesta dimensão e se foi. Se ele ainda aqui estivesse certamente eu continuaria vivendo em uma vida louca entre Rio e São Paulo, sabe-se lá por onde mais, e apenas usufruindo deste paraíso nas férias… Não teria aprendido com a mudança das marés e as luas o verdadeiro movimento da vida… Hoje vivo na casa que foi dele, ainda com muitos de seu mas do meu jeito…Sou feliz em saber que ele está só do outro lado da cortina … Quem sabe vendo eu cuidar de tudo, da grama que nasceu, as árvores que estão altíssimas, das novas flores que plantei, da horta e dos amigos que me visitam e ouvem eu lembrar de suas historias… Cada dia que amanhece ou mergulho no mar agradeço por este presente. Qualquer hora nos vemos meu querido irmão… Hoje são 15 anos de sua partida…

Foto feita por Leila Castanheira, primeira travessia da balsa, 1992.

Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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Carlos Alberto Vizeu

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Carlos Alberto Vizeu com seu grande amigo Boni.

Quando ainda não se falava em preservar memória, eu já guardava fotos, cartas, recortes das reportagens que escrevi…. Isto faz tão parte do meu DNA que escrevi  3 livros que caminham nesta esfera : Um Instante Maestro, sobre o apresentador de TV Flávio Cavalcanti; O Rei na Terra Santa, sobre a produção do show em Jerusalém, e A Verdade é a Melhor Notícia  onde relato a experiência de 30 anos em assessoria de imprensa. Com as empresas e pessoas com quem trabalhei, fechei cada projeto em caixas, pastas, onde entreguei todo o processo bem detalhado, documentado… E acho que foi esse meu olhar para a história / estória que me aproximou de Carlos Alberto Vizeu, profissional de publicidade, produtor e diretor de TV, que cuidou da memória da TV brasileira como se fosse a da sua família.

Conheci Vizeu quando ele procurava um jornalista para apresentar um programa de entrevistas que ocuparia um horário que a sua produtora, TeleTape, tinha na antiga TV Corcovado, de segunda a sexta, das 19 às 20hs. Nós tínhamos amigos em comum e foi num fim de tarde no Antoninos, à beira da Lagoa, que ele me falou sobre o projeto e dei a sugestão de uma série de profissionais que poderiam exercer a função… Mas foi na saída, me acompanhando até o carro, que Vizeu foi definitivo: “eu quero você apresentando o programa. ” Delírio, pensei. Eu tinha um escritório de assessoria de imprensa, muitos clientes e nenhum interesse no assunto. Televisão era uma lembrança do início da vida profissional, sempre morri de vergonha de me ver na telinha, fazer entrevistas fora de cogitação… Aconteceram mais alguns encontros para falarmos sobre este suposto programa que “alguém” iria apresentar e no final Vizeu me ganhou… Superei as dificuldades, aceitei a minha voz rouca, arrumei espaço na agenda e foi um ano imensamente feliz produzindo e apresentando o “Programa da Noite”.

Um ano feliz onde tive a oportunidade de conhecer o Vizeu devoto de Santa Edwiges, filho da Da. Yolanda e do Sr.Ary.  De conhecer Vizeu diretor de comerciais premiados nacional e internacionalmente, que preservava a memória da publicidade através do programa Intervalo, exibido durante muitos anos na então TV Educativa. E conhecer também o Vizeu apaixonado pela TV e sua trajetória, que anos depois pesquisou, escreveu, roteirizou e dirigiu um belíssimo documentário sobre os 60 anos da tv brasileira abordando os temas Os Pioneiros, Teledramaturgia, Telejornalismo, Show e Auditórios, Humor, Infantil, Propaganda, Tecnologia e TV’s Educativas. Este documentário é de tal importância que TODAS as emissoras de tv cederam seus arquivos para compor a série…

Vizeu foi um amigo de vida, daqueles que podemos ficar anos sem ver e quando encontramos nada mudou pois a essência do carinho e fidelidade à amizade permanecem… Desde 2003 ele atuava como consultor do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) na Rede Vanguarda.  Juntos eles desenvolveram várias peças de publicidade, e o mais recente foi em agosto com o comercial de 13 anos da emissora que atua no Vale do Paraíba. Há poucos meses liguei para contar que a Luciana Savaget encontrara nos guardados da família uma longa entrevista que fiz com Edna Savaget, sua mãe, pioneira da TV, e gostaria de utilizar no documentário que está produzindo. Ele ficou feliz, “pede para ela me ligar, libero com o maior prazer”. E assim nos despedimos…Ele sempre doce, delicado, elegante… E assim, desta forma, ontem ele partiu deixando tantas memórias dos outros, mas não teve tempo de escrever o livro com a sua história…  Adoraria ter escrito este livro, assim como ter a cópia de todos os programas que fiz… Eu também preservo a memória dos outros e não cuido da minha… Mas encontrei no Youtube este vídeo do acervo do Dr. Jorge Bastos Garcia com a abertura do programa e parte de uma entrevista … Obrigada Vizeu por você ter passado em minha vida e deixado tão boas lembranças !

 

 

 

Meu voto

MARÇO 2016

Com Fabiana e Alexandre em foto de Cláudia Schembri

Há 12 anos quando escolhi viver em Vila de Santo André, abraçava causas e projetos em torno apenas do povoado. Passava correndo por Santa Cruz Cabrália, louca para pegar a balsa, cheguei a fazer uma camiseta com a inscrição Vila de Santo André – Bahia – Brasil.  Mas aos poucos a cidade foi se revelando prá mim. Assim como tantas outras entre as mais de 5500 cidades do país, Cabrália tem enorme extensão territorial e poucos recursos. Um diamante bruto, enorme potencial para o turismo em seus mais de 35 kms de praias – muitas semi-virgens –, e uma área rural em plena expansão. Uma cidade que tem identidade e cultura próprias, um lugar bom para se viver que vai buscando seu jeito e o orgulho de ser “santa-cruzense”.

Junto com a minha mudança que veio do Rio de Janeiro, trouxe além de um cão, livros, fotos e discos, o título de eleitor que não demorei a transferir. E assim, neste exercício de cidadania, estou chegando ao 3º pleito e não me arrependo das escolhas que fiz. Mesmo os que não foram eleitos, eram os que eu considerava mais alinhados às minhas propostas, independente de partido.

Estou acompanhando o movimento eleitoral com as novas leis. E muito mudou. Menos poluição visual e sonora, mais transparência nos recursos, e os candidatos hão de gastar muita sola de sapato para convencer o eleitor em quem depositar a sua confiança com o voto. Nesta campanha nem dá para falar mal da concorrência, o tempo é curto para bla bla bla e mi mi mi. É preciso objetivar, mostrar quem se é de cara e de ficha limpa.

Eu já escolhi o meu candidato e o conheci há alguns anos por acaso, enquanto fazia uma operação em um caixa eletrônico no banco e alguma coisa deu errado. Olhei para o lado e vi um rapaz alto, vestindo camisa social com as mangas dobradas, à primeira vista parecia o gerente. Pedi ajuda, ele disse não ser funcionário do banco, mas mostrou boa vontade em ajudar e logo viu que a solução era simples. Agradeci e só fui saber seu nome alguns anos depois, em março do ano passado, quando assumi a Secretaria de Comunicação e Governo de Santa Cruz Cabrália e fui formalmente apresentada a Alexandre Carvalho, Vice-Prefeito e Secretário de Planejamento.

Aquele rapaz de cabelos e olhos claros, sempre em movimento, falando alto, um enorme sorriso, me mostrou que suas decisões eram firmes. Estreante na política, trouxe consigo a experiência de administrador,  com a maturidade adquirida na gestão privada. Suas respostas eram objetivas, nada de empurrar as questões com a barriga. E, quando o soube candidato, decidi meu voto.

Sinto-me confortável em declarar meu apoio pois não trabalho na sua campanha nem sou filiada a qualquer partido. Acredito na democracia, no debate aberto e honesto, na construção em conjunto de uma cidade próspera, humana e com o olho no futuro. Boa sorte Alexandre Carvalho !

As fotos

 

11129843_1029878993690528_1316757353_n-1Sou grata ao Facebook por ser um canal onde eu possa acompanhar o tempo passar também para os meus amigos. Não estou envelhecendo sozinha. Faço parte da primeira geração que vive a maturidade de forma coletiva e online. Não faz muito tempo, lembro minha mãe abrindo caixas de fotos comentando sobre parentes e amigos. Tenho o sentimento de que até ela morrer, muitos dos que passaram em sua vida ficaram na imagem congelada da foto amarelecida, perdidos no tempo.

Ah Face como você me faz feliz ao rever a colega de escola que tinha o mais belo longo liso cabelo louro da turma, causava inveja pois não precisava fazer “touca”, e agora tem os mesmos lisos, mas não tão longos nem louros cabelos. E o namorado americano que envelheceu com charme, outros nem tanto, mas sempre encontro alguma juventude em todos os que um dia conheci e aparecem no meu face…

Parece simples escrever sobre isso, mas nem sempre sou feliz ao me ver envelhecendo. Confesso que me sinto com pouco mais de 30 anos. Não é o que o corpo mostra, mas é o que o espírito diz e me faz seguir acreditando que ainda há muitos sonhos para fazer acontecer. Mas outro dia no meio de uma meditação tive a certeza de que já andei muito e o caminho pela frente está mais curto…Talvez possa ter mais uns 20 anos. Legal. Ainda dá para plantar algumas árvores e comer os frutos mesmo não podendo mais subir no pé…

Estou procurando encarar tudo isso com a praticidade da capricorniana e com a boa relação que tenho com o que chamamos de mundo real. Espero que meu espírito empreendedor aliado à criatividade que reconheço ter, me tragam grandes experiências nestes próximos anos, pois não sou de nadar e morrer na praia… Viver tanta coisa boa para nos últimos 20 anos ter uma vida mais ou menos eu não quero… Espero que em meu mapa constem no mínimo uns 20 bons movimentos para justificar a caminhada.

Neste processo de criar uma boa relação com a maturidade física, recentemente tive o privilégio de ser fotografada por uma querida amiga que utilizou todas as suas melhores lentes para me mostrar exatamente como estou. Sem photoshop ou qualquer outro recurso, nas fotos sou eu hoje e tenho que aceitar um olho que está mais caído, as rugas em torno nos lábios resultado dos anos como fumante, os grisalhos até nas sobrancelhas, as manchas senis na mão e no colo, enfim, é o que temos nestes tempos… Estas fotos – uma sequência deliciosa … –  tem sido uma ótima terapia… Não dá para viver olhando pelo retrovisor, tudo acontece na frente… É passar o lápis nos olhos, um batom na boca, pendurar um brinco e um colar e sorrir para a foto…

Surpresa…

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Praia de Jacuman, Santo André da Bahia

Quando acordei no dia 02 de junho de 2014 não sabia a surpresa que me esperava. Na agenda o único compromisso era uma reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Cabrália cuja pauta constante do convite era “compensação do empreendimento Acquamarina Empreendimentos (Campo Bahia)”. Entenda-se o empreendimento como um grande condomínio em Vila de Santo André, povoado onde moro, que um grupo alemão estava construindo a toque de caixa, tempo recorde, para hospedar a seleção alemã de futebol que chegaria em menos de um mês.

Atravessei a balsa e lá fui para a Casa Cabral Belmonte, em Cabrália, sede da Secretaria de Meio Ambiente. Encontrei um bom quórum para a reunião e, antes que começasse, engrenei uma conversa com um rapaz que nem sabia quem era, nem tinha visto em outras reuniões. Ele perguntou em que bairro eu morava e quando falei “Vila de Santo André” imediatamente quis saber o que eu considerava como melhor investimento no local caso o empreendimento tivesse que pagar alguma multa pela retirada de vegetação em área de preservação ambiental. Como me preocupo com o destino que é dado ao lixo e, assim como algumas vizinhas, faço compostagem, separo garrafas, plásticos e papelão que levo para um senhor que recicla no bairro ao lado, sugeri criar um projeto piloto de coleta seletiva e uma horta orgânica, politicamente correto para uma APA e agregaria valor ao turismo. A cidade aonde moro ainda tem lixões e isto me deixa desconsolada. A conversa ficou por aí e quando a reunião começou fiquei sabendo ser ele o promotor Bruno Gontijo que, diante denúncias recebidas e comprovadas, era o responsável por uma ação no Ministério Público da Bahia que estava sendo movida contra os empreendedores do Campo Bahia.

Sai do encontro certa de que no mínimo um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta –  aconteceria. No dia 13 de junho recebi a boa notícia : o TAC fora assinado entre o Ministério Público da Bahia, a Secretaria de Meio Ambiente e as empresas RLL Transporte e Logistica Ltda-Me e Acquamarina Santo André Empreendimentos Imobiliários Ltda.  como compensação financeira e reparações aos danos ambientais cometidos na construção do Campo Bahia. E o meu coração ficou ainda mais feliz ao saber que os R$ 300.000,00 a serem pagos neste TAC seriam utilizados para a implantação da coleta seletiva.

Existem ações que justificam uma existência, e esta bastaria para a minha encarnação, pensei com meus botões. Continuei acompanhando o assunto e colaborando com a Secretária Léia Monteiro na montagem de um edital para desenvolver o projeto. Pedi ajuda a quem sabia mais, Zaba e Gisela Moreau, à “lixóloga” Patrícia Blauth, com quem aprendi muito sobre o assunto, e me municiaram com muitos exemplos de editais e parcerias público-privada. Enquanto estudávamos a forma da nossa coleta seletiva, houve uma mudança de caminho. Certo dia o promotor telefonou querendo saber o que eu achava de transferir o recurso da coleta seletiva para a criação de um melhor sistema de água para Santo André. Fiquei honrada pela deferência, afinal ele podia mudar o TAC sem me consultar. Uma melhor água para o povoado eu sabia que era um sonho de toda a comunidade. A água estava um lixo, tão escura que manchava as roupas, uma péssima impressão quando escorria pela pia e, apesar de não ser considerada de má qualidade, ninguém gosta de cozinhar com um liquido barrento.

Mudou o tema e vieram mais reuniões para definir qual o melhor sistema a ser adotado e se enquadrasse ao orçamento, quais empresas poderiam atender e ainda precisávamos buscar uma parceria na vila, uma ONG com boas referências e confiabilidade da comunidade para administrar a obra, efetuar os pagamentos seguindo a planilha determinada em contrato e todo o processo burocrático. Gerir o recurso de um TAC não é a função do Ministério Público nem da Prefeitura. A função deles é acompanhar o processo.

O sempre presente Centro de Convivência e Cultura, com mais de 15 anos de bons serviços à vila,  aceitou entrar no projeto e ontem, em sua sede, foi assinado o contrato com a presença do promotor, dos representantes da prefeitura e das empresas que vão realizar a obra. Tudo acompanhado e explicado para um grupo de moradores que atendeu ao convite para participar do encontro. Em até quatro meses a água da vila estará bem melhor, com mais volume e qualidade.  Todos vão poder lavar lençóis brancos, tirar as manchas da pia e cozinhar com tranquilidade. Nada tenho a ver com isso… Foi só uma boa luz que entrou no meu quarto naquele 2 de junho e me deu este presente… Continuo aberta para  novas surpresas.

obs : em tempos de política vale lembrar que não legislei em causa própria. Não uso a água que vem da rua, tenho sistema de tratamento em casa com água retirada do poço.

Por fora como é por dentro

Minha mãe nunca me falou sobre envelhecer. Creio que as mães não comentam com as filhas, pois preferem que, assim como elas acreditaram, continuem pensando que a juventude vai ser eterna. Quantas vezes sentei ao seu lado na sala de televisão e, enquanto agilmente ela fazia tricô, lembrávamos histórias divertidas da família, conversávamos sobre a vida dos outros, mas jamais falamos sobre aquele momento em que ela vivia, como se sentia com os cabelos além de brancos estarem mais ralos, a coluna arqueando o corpo, as veias marcando as mãos e se mostrando azuis nas pernas muito brancas.

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Minha mãe nunca me falou sobre como viu seus bebês se tornarem adultos e um dia chegarem em casa trazendo seus próprios bebês formando uma família. O assunto sempre ficava na periferia do bom casamento e seriam felizes para sempre. Não soube o que pensava sobre o sentimento de mulher transformada em avó, nem ousei perguntar como se sentia quando percebi que não tinha mais opinião nos encontros aos domingos. Todos falavam, menos ela. Seu ponto de vista era importante apenas quando se tratava de receitas caseiras, uma referência sobre a árvore genealógica da família ou o melhor modelo/cor para um casaquinho de bebê.  E mamãe sempre foi de opinião, mas o tempo foi deixando-a mais pensativa…

Minha mãe nunca me falou sobre como era ver seus pares partindo. A avó, os pais, os tios, primas, amigos, irmãos, alguém querido saindo de cena deixando o espetáculo mais pobre, os diálogos interrompidos, a risada murcha, o volume da trilha musical diminuindo.  Chegavam outros personagens, mas já era outro espetáculo. Aqueles que a acompanharam por tanto tempo ia fechando a cortina, ficava faltando um pedaço, como se tirassem o corrimão na subida da escada, a calda de ameixa no manjar branco, a meia quente na noite fria. E agora, no meu contexto, fico refletindo sobre como conviver com esta mudança de encenação constante, com tantas perdas a cada semana…

Minha mãe nunca me falou sobre os calores no corpo que mesmo pós menopausa continuam a acontecer. Não comentou sobre desejos e prazeres, sobre abraços e afeto, nunca soube quanto carinho ainda havia entre ela e papai depois dos 80. Ela comentou depois da morte do papai que num período curto em que ele passou por um processo de demência senil e levantava-se de madrugada querendo ir trabalhar, ao dormir ela amarrava a ponta de uma fita no seu pulso e a outra no dela, assim estaria junto em qualquer circunstância.  Não tenho em quem amarrar a fita, mas me encanta estes amores eternos… Choro com cenas de amor nas telas, com músicas apaixonadas

Minha mãe nunca me falou sobre como é sem graça viver sem mãe. Ela bem que podia ter contado pois teve esta experiência antes de mim. E quando entra o mês de maio e se aproxima o seu aniversário e dia das mães, lembro sobre o que me ensinou e também o que esqueci de perguntar. Agora não dá mais tempo para saber o que pensava sobre tanta coisa, mas jamais vou esquecer o que me ensinou, e uma das preciosidades foi como cuidar do acabamento no tricô, no bordado, no crochê, na costura…. Ela dizia para não deixar nós, linhas soltas, qualquer obra deve ser bonita do lado direito como no avesso, tanto na frente como atrás. E este acabamento na construção de uma obra tomei como rumo na vida. Serve para amizades, amores, trabalhos, textos, seja lá o que for. Tem que estar bem-acabado, bem-cuidado, bem-preservado, por dentro e por fora…. Obrigada Yayá… Nessa reflexão, vejo que tenho as respostas prás perguntas que formalmente nunca te fiz! Muito amor por você!

Ver com outros olhos

“Amanhã às 8 você faz a cirurgia… leva o cartão do SUS e o RG…”

“Estou trabalhando, não posso…”

“Oportunidade não se perde…”

Eram quase 5 da tarde quando aconteceu este diálogo. Saí atrás da Aninha, Secretária de Saúde, pedindo ajuda para saber como ter o cartão do SUS. Em poucos minutos estava em minhas mãos, é um procedimento muito fácil, me perguntei por que não fiz antes, pois mesmo com plano de saúde nunca se sabe o que a vida reserva na emergência. Segui com o cartão e sem a certeza de aceitar a proposta. Eu nada tinha pedido. Comentara sobre a necessidade de algum dia fazer esta cirurgia que não há como fugir, é questão de tempo, e assim do nada caiu a solução na minha mão. Era um prêmio que não sabia se devia receber. Continuei trabalhando até as 11 da noite, dividida entre meus pensamentos e a frase repetindo no ouvido “Oportunidade não se perde…”  Lembrava do meu plano de saúde, mas também da dúvida em fazer uma cirurgia que é simples, mas tão delicada, com algum médico no sul da Bahia.  E este grupo de cirurgiões oftalmologistas que acabara de chegar faz parte do melhor time de São Paulo.

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Há três meses eu estava às voltas com o projeto Voluntários do Sertão que escolheu Santa Cruz Cabrália para, durante 5 dias, fazer uma enorme transformação na vida da população. Poderia ter sido qualquer outra cidade com menos de 30 mil habitantes no país, mas chegou aqui por vontade política do prefeito Jorge Pontes que saiu buscando em Brasília boas propostas para a saúde da comunidade. No Ministério da Saúde ele soube no Sesai – Serviço de Saúde Indígena – sobre Dorinho, um menino do sertão de Condeúba que se transformou em empresário bem-sucedido e uma vez por ano realiza um fantástico mutirão. A maior ação de saúde e cidadania gratuita do país. Na sua 16ª edição queria atender índios e foi assim que juntou a vontade política com a ação humanitária. Cabrália é uma cidade com uma das maiores comunidades indígenas em área urbana do Brasil e se adequava ao perfil. O Prefeito topou a parada de oferecer hospedagem, alimentação, transporte local e estrutura para fazer acontecer. Reformou o hospital, transformou escolas em centros de atendimentos, teve que pedir macas emprestadas nas cidades vizinhas, fez muitas reuniões com todos os secretários, vendeu o sonho até para quem não achava possível e a partir do dia 16 começaram a chegar 20 carretas, depois voos da FAB com 387 voluntários entre médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais diversos. A tudo isso somou-se 700 voluntários da cidade, entre funcionários municipais e moradores, e o sonho virou realidade. Até acontecer era difícil explicar, mas como diria minha mãe, o que é bom a gente conhece logo….

Voltando ao meu drama. Depois de uma noite entre pesadelos com discussões íntimas e filosóficas, ecoando “Oportunidade não se perde…” às 8hs eu estava no local marcado e me deparei com o circo armado. Era apenas Oftalmologia. Quatro carretas enormes cercadas por tendas. Cadeiras dispostas em filas, separadas por grades, uma triagem perfeita. O cartão do SUS e o RG na mão, digitadores conferindo informações e a fila começa a andar. Chegam voluntários pingando colírio nos olhos dos pacientes. Já dilatei várias vezes a pupila, conheço o procedimento. Crianças, velhos, jovens, mulheres, rapazes, se assustam com a gotinha. E ia eu seguindo o povo, mudando de cadeira, pois esta é uma fila sentada. À minha frente uma índia idosa, ao lado uma garota com pouco mais de 12 anos, pessoas carregando travesseiros e edredons, dormiram aguardando atendimento. Meu sentimento de culpa explode. Quero sair correndo, mas encontro com uma das voluntárias com quem conversei muito sobre logística e como superar dificuldades no evento, pois nem tudo o que pediam a cidade podia oferecer. Ela é profissional destacada de uma multinacional e uma vez por ano é só voluntária. Quando me viu escancarou um sorriso e disse: “que bom você estar aqui… faz os dois olhos de uma só vez… manda um beijo para o Dr. Neto…” e foi embora atarefada no maior astral… Recebo o comentário e carinho como sinal para não desistir, esqueço a culpa. E vou passando de cadeira a cadeira, andando muito rápido e em uma hora já estou no consultório oftalmológico. Um espaço pequeno onde cabe perfeitamente o médico sentado em um banquinho com seu equipamento e uma secretária numa mesinha com computador fazendo anotações. Ele examina e confirma: catarata. “Quer fazer os dois olhos? ”  Já não sou mais dona de mim e vou aceitando o que a vida me oferece.

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Mais gotinhas nos olhos, número do SUS e RG para um outro digitador registrar, colam adesivos na minha blusa, alguém me acompanha ao centro cirúrgico e quando percebo já estão me preparando. Touca nos cabelos, me vestem um tipo de avental, capa cobrindo os sapatos. Sentado ao meu lado, esperando a porta da sala de cirurgia abrir, um senhor passando dos 70 desabafa: “se o médico disser que não pode mais operar, vou prá casa feliz. Eu não sabia que tinha catarata”….  Assim como ele, no dia anterior uma senhorinha chegou com 100% de catarata. Estava cega, saiu enxergando tudo… Centenas de histórias assim.  A porta abre, me conduzem à uma cadeira azul tão inclinada que parece uma cama. Creio que deviam ter uma 8 iguais. Deito, alguém passa um líquido em volta do meu olho direito, cobre com uma venda, abre um buraco e coloca um aparelho para manter aberto. Incomoda um pouco. Chega outra pessoa que percebo ser o médico e pergunto quem é Neto. Era ele. Coincidência ter caído em suas mãos. Digo que Ana mandou um beijo. Ele diz que ela devia ter subido para vê-lo e avisa que vai mais uma gotinha e esta irá arder. Estou entregue às suas mãos. A partir daí fiquei com a impressão que havia uma música no ar, mas era o delicado barulho do laser. As luzes iam mudando de intensidade, parecia um caleidoscópio, até entrar um pequeno elemento verde esmeralda esplendoroso e a brincadeira acabou. Fecharam meu olho e começou tudo de novo do outro lado. Não havia passado 8 minutos quando levantei da cama. Eu enxergava tudo com muito mais luz. Saí tateando, me colocaram óculos escuros. E assim estou a menos de uma semana da cirurgia de cataratas nos dois olhos…. A minha vida tem outro brilho…. Quem passou por isso sabe o que estou falando, quem ainda não, vale saber que é o maior barato !! Nunca pensei que meus olhos estivessem tão embaçados… A gente vai se acostumando com o ruim, com poucos propósitos transformadores, nenhuma novidade e vai perdendo a beleza, o brilho e a cor… Nestes dias em que tenho que estar longe de multidão, sem óculos de grau nem olhos pintados, decidi que quero estar pronta a aceitar as ofertas de mudanças. Mesmo que tenha medo no princípio, discuta com meus botões, perca meu sono, tenho que lembrar sempre que “Oportunidade não se perde…”

EM TEMPO:

Os Voluntários do Sertão tinha estimativa de 30 mil atendimentos em cinco dias e chegou a 40.450.