A CoronaVac, o Butantan e eu

Album de família

Cada vez que ouço falar na CoronaVac e no Butantan meu coração bate mais forte. Não apenas por sentir que lá está sendo produzida a vacina que promete em breve  imunizar os brasileiros do vírus Covid 19, mas pela memória afetiva que o Instituto Butantan me traz. Tenho enorme orgulho em estar ligada à família Vital Brazil, cujo patriarca fundou o Instituto Butantan e ali desenvolveu muitas pesquisas cientificas, plantando a semente que mais de 1 século depois se mantém viva. A árvore genealógica da minha família por parte de mãe é bem interessante e gosto de contar assim:  por volta de 1916, duas jovens muito bem nascidas e criadas em Curitiba, Déa Meneses e Dinah Carneiro Vianna, se tornaram amigas. Déa morava com o pai, a mãe e os irmãos, era sobrinha do escritor Emilio de Meneses; enquanto Dinah vivia com o pai, Paulo Guajará Vianna e 8 irmãos, a mãe havia falecido há alguns anos. Déa se apaixonou pelo pai da amiga. Amor correspondido. Contava-se na família que Dinah dizia:

“Déa, como vai se casar com alguém com a idade do seu pai e ainda por cima com filhos para acabar de criar?”

Mas Déa foi firme, casou com Paulo e, algum tempo depois, Dinah, casou com um homem quase da idade do seu avô. O marido de Dinah era o cientista Vital Brazil, também viúvo, com 9 filhos, e com ela teve mais 9. Déa e Dinah foram mães quase ao mesmo tempo.  Não me lembro quem enviuvou primeiro, mas as amigas se consolaram nas perdas, comemoraram as conquistas, nascimento de netos e bisnetos. Dinah, generosa, deu uma casa para Déa no mesmo bairro onde foi construído o Instituto Vital Brazil em Niterói. Esta relação de carinho – amizade se perpetuou pelas gerações…

Eu sou neta de Déa, tinha 1 ano quando o vovô Vital morreu e cresci ouvindo falar sobre ele que foi padrinho do meu irmão Victor. Uma lenda que ia muito além da foto no álbum que herdei onde aparece elegantemente vestido e sentado ao lado de vovó Dinah. As minhas melhores lembranças de férias na infância estão ligadas diretamente a esta família, a casa tão grande, praticamente um sitio em Niterói aonde íamos buscar o leite no curral. Com a venda do Instituto para o Estado, as minhas memórias de férias foram transferidas para a casa em Laranjeiras, onde vovó Dinah vivia com meus padrinhos Eliah (Vital Brazil) e Álvaro (Protásio). Eu passava o dia cercada de primos e, apesar do barulho da garotada, tinha um silencio no ar. Talvez o jeito calmo e manso dos meus padrinhos em conduzir 11 filhos

Mas tinha algo ainda mais mágico nesta casa cercada por árvores. Havia muitas salas, como a de música com quase todos os instrumentos, da harpa ao piano, a de TV uma sensação com o equipamento recentemente lançado  onde assisti pela primeira vez os Espetáculos Tonelux, a sala de jogos, de costura e pintura, de refeições, de estar, varandas e tinha uma muito especial: um pequeno museu. Ali estavam expostos objetos e documentos do vovô Vital. Ainda menina eu percorria com os olhos atentos e as mãos ficavam seguras atrás da cintura para evitar a tentação de tocar no intocável. Me lembro de uma escrivaninha, uma espécie de armário de vidro com peças pequenas, como relógio, óculos, caneta, um tinteiro… Ainda tinham quadros, alguns moveis de época, e como eu gostava de admirar aquelas relíquias.  E é com esse mesmo olhar de menina encantada que ouço sobre a vacina que vai sair do Butantan, diretamente de onde saíram boas memorias da família e se encontrar comigo na Bahia.. Vai dar certo.

2021 aqui vou eu

Olá 2020, tentei escrever um longo texto me despedindo de você, mas não consegui…. Agradeço os tantos desafios… Tive o privilégio de permanecer no mesmo cenário, uma casa cercada por árvores, junto a uma praia quase deserta, num povoado pequeno que vive exclusivamente do turismo e que diante da pandemia parou… Tudo fechado… Mas nunca fui tão ativa solitariamente como neste ano inesquecível. Aulas de Kabalah, bordado e redes sociais. Muitas séries e filmes na Netflix, meti as caras na cozinha, fiz foccacia e risoto, enfrentei uma obra em casa durante 3 meses, produzi o 5º Festival da Lagosta quando o turismo retomou depois de 6 meses e nunca se consumiu tanto crustáceo como naqueles 10 dias de outubro…

Sobrevivi com saúde, insônias e sonhos de voar, ver amigos, andar pelas ruas, queimar máscaras, inventar alguma vida nova… Escrevi menos do que queria, nem meia dúzias de páginas de um livro, mas estou mais rica de sentimentos e desejos… Tudo vai passar e continuo com planos e preciso de muitas vidas para realizar todos… Em mais alguns dias começo um novo ciclo, mais 365 dias passaram no meu caminho e foram muito bem vistos, olhados e cuidados, algumas vezes com lagrimas outras com risadas… Uma rede na varanda foi meu melhor presente, ali me embalo preparando para os novos tempos… Hello vida, aqui vou eu de cabeça para 2021, do jeito que for e vier, mais viva do que nunca….

Ressaca

Eu sou uma profissional de comunicação que há muitos anos trabalha com eventos. Eventos enormes, em áreas fechadas para 200 mil pessoas, em áreas abertas para milhares delas e, entre os ensinamentos que recebi com grandes produtores como Dody Sirena, Cicão Chies e Roberto Medina, o mais simples é o que acontece no palco. O artista, os técnicos de som e luz, os cenógrafos, sabem o que fazer. A grande questão é o que rola no entorno. Como chegar e sair do local, a logística dos fornecedores, a segurança do público e como o evento se incorpora na localidade. Talvez algumas dezenas de histórias para contar na relação com diversas comunidades, como ao lado da Cidade do Rock na Barra da Tijuca, nas Piscinas do Sultão em Jerusalém ou no Parque Bela Vista em Lisboa.  O respeito aos locais dos eventos e aos seus moradores sempre foi fator fundamental nos planejamentos e nos levaram a muitas horas de reunião.

Isto tudo para dizer o quanto um lado meu se entristeceu em integrar um grande movimento criado no povoado aonde vivo para que não acontecessem 6 dias de festas para até 600 pessoas/dia no final do ano.  Não entro no mérito do evento, apropriado ou não para a localidade cuja mídia sempre promoveu como um local de tranquilidade e cujas 3 experiências de réveillons foram desastrosas. Mas me refiro ao momento em que vivemos, tudo acontecendo numa comunidade com pouco mais de 800 habitantes que, naturalmente, já tem um grande aumento na sua população no final do ano e que está passando pela pandemia com apenas 7 casos registrados pela Secretaria de Saúde de Cabrália. E ainda temos um outro ponto relevante: estamos numa APA – Área de Proteção Ambiental – e neste período acontece desovas de tartarugas.

Inapropriada a proposta, foi o mínimo que pensei…  Mas a insistência dos produtores permanecia apesar das conversas que tentamos manter e aí não nos coube outro caminho a não ser sair em defesa de vidas, pois essas importam… Tanto importam que no início da pandemia, quando tudo fechou, levantamos recursos e distribuímos durante 6 meses cestas básicas para os trabalhadores da praia que ficaram desassistidos e também colaboramos com a doação de medicamentos básicos para o posto de saúde.  A fragilidade da saúde pública em todo o país é latente, aqui não foge à regra, por mais boa vontade que tenha a administração. Por ser um município com menos de 30 mil habitantes, Santa Cruz Cabrália, onde se encontra o bairro de Santo André, tem como referência para saúde a vizinha Porto Seguro, 24kms distante, com grande ocupação nos 20 leitos de UTI, sendo 10 particulares. A grande maioria dos trabalhadores desta festa seria de moradores e quando tudo terminar como ficaríamos?  Infectados?

Resisti a participar do movimento pois achava um absurdo que os produtores insistissem com o assunto. Varias reuniões já tinham acontecido e fiquei fora. Mas chegou num ponto que não deu mais. Já existia um grupo formado e me engajei. Uma união de moradores, turistas e empresários. Começamos a falar com amigos, disparar apelos nas redes sociais, abaixo assinado virtual e físico onde recolhemos mais de 2 mil assinaturas, nos tornamos assunto na mídia nacional, entramos com uma ação no Ministério Público e tudo culminou no horário nobre da TV Globo, com o Jornal Nacional. Seguindo a teoria dos 6 graus*, nosso clamor chegou ao Governador Rui Costa que veio à público dizer que “festa não”, através de um decreto estadual. Uma posição política exemplar.  Hoje vivemos o alívio.   Tenho o sentimento de ter ajudado a estancar o vírus. Sinto uma ressaca como no final dos grandes eventos, quando só resta desmontar o palco, juntar os recortes da mídia e fechar os relatórios… Sei que turistas mais conscientes virão, utilizando máscaras, desfrutando de  nossa enorme extensão de praia, ocupando hotéis, pousadas e restaurantes, cumprindo os protocolos determinados pelo Governo e acreditamos que com isso a Vila de Santo André volte a ter o título de quase todas as reportagens publicadas a seu respeito: um local de tranquilidade, paz e contemplação.

*A Teoria dos Seis Graus de Separação originou-se a partir de um estudo científico desenvolvido pelo psicólogo Stanley Milgram, que criou a teoria de que no mundo são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Reveillon Não

Foto : Claudia Schembri

Este ano estou tendo a oportunidade de viver experiências riquíssimas e únicas na comunidade onde moro. Como diria o Artur Xexéo, “os meus 14 leitores” sabem que vivo numa vila pequena, com menos de mil habitantes onde nem sempre todos concordam, mesmo nos assuntos de interesse geral. Em abril realizamos um projeto bacana, levantamos quase 40 mil reais e entregamos durante 6 meses cestas básicas aos trabalhadores da praia que ficaram sem os turistas que normalmente chegam em escunas e chalanas. Estávamos nos preparando para um verão com todos os cuidados, isolamento social, o que é muito fácil diante da enorme extensão de praia que temos, quando apareceram 4 produtores do Rio e São Paulo com um projeto para uma grande festa de réveillon.

Eu disse não ao convite para uma reunião. Mas um produtor paulista pediu que recebesse os visitantes e chegaram à minha casa duas moças e dois rapazes. Logo no início percebi o nível da loucura tanto ao apresentarem o projeto com intenção de aglomerar 800 pessoas em 7 dias de festa em tempos de distanciamento, quanto à pouca informação e conhecimento do perfil do povoado. As moças já conheciam de duas curtas temporadas de 1 semana, e os rapazes vieram pela primeira vez.  Uma sensação de invasão e total falta de respeito foi pra mim a resultante dessa reunião.

Não sabiam que somos uma APA (Área de Proteção Ambiental), que os nossos turistas gostam da tranquilidade, viajam com família,  por vezes com muitas crianças que andam pelas ruas à pé ou de bicicleta, ainda tem a turma da ashatanga yoga que sai de casa cedinho para as práticas carregando uma bolsa com o tapetinho nas costas, tem os que já passaram dos 60 e se deliciam com nosso mar de poucas ondas, e todos amam no final do dia ir para a beira do rio assistir ao show das maritacas quando voltam para o mangue…É uma vila simples, encantadora, com pouco mais do que 2 km de extensão, onde todos se cumprimentam na rua, e não precisa de grandes festas, pois estar aqui de férias já é um show…

Mas os produtores não desistiram, mesmo sem autorizações das secretarias de Saúde e de Meio Ambiente, continuaram com a proposta em campanhas nas redes sociais, vendendo ingressos e sonhos, e esta semana convocaram moradores e empresários para uma reunião… “Queremos ouvir a vila”, diziam eles… Mesmo com chuva, lá fomos levar o nosso parecer. Eu achava que muitos pensavam como eu, mas não imaginava quantos mais estavam na mesma vibe… E foi um desfile de NÃOS em alto e bom som. E os produtores ouviam sem se abalar. Cheguei a ouví-los dizer que tinham um projeto para o futuro de Santo André…. como assim ???

Lembrei que há 16 anos, quando me preparava para o semestre sabático que se tornou em uma mudança radical na minha vida, estava com muitas dúvidas e fui conversar com uma astróloga que disse algo que ainda me norteia: não faça o que você acha que é bom para a comunidade, espere ver o que eles precisam.  E é neste pensamento que tenho construído a minha relação com Santo André.  Por isso que ri, achei ingênuo, petulante, a produtora dizer que tinha uma fórmula para a vila sem jamais ter vivido temporadas de baixa estação, épocas de chuva, as enormes crateras que surgem nas ruas, falta d’agua, as discussões do preço da balsa, a falta de médico no posto de saúde, as podas deixadas nas ruas, enfim, todas as mazelas que o povoado tem e só quem aqui vive conhece…

Bom, mas apesar de todos os NÃOS dos moradores e empresários, eles insistem em fazer os 7 dias de festas repletos de pessoas em plena interação social. Continuam anunciando em suas redes sociais, vendendo o que estamos conscientemente contra.

Nós que não estamos de passagem por  Santo André, mas SOMOS  Santo André,  buscamos as possibilidades para que o nosso NÃO chegue a um número cada vez maior de pessoas através das redes sociais, quem sabe o nosso grito chegue nas páginas de um jornal de circulação nacional,  num caderno de turismo que conte a história de um pequeno povoado praiano que quer apenas preservar seus moradores e turistas habituais … Estamos  em uma cidade que não tem hospital em funcionamento, utilizamos o hospital municipal de Porto Seguro cuja UTI já está no talo… Segundo o decreto do Governador da Bahia Rui Costa, até 15 de novembro eventos só até 200 pessoas. Do jeito que anda o movimento do vírus, creio que o bom senso manda continuar neste clima… E com a comunidade unida de uma forma jamais vista, acredito que vamos mais do que vencer o vírus. Vamos nos livrar do que pode ser um grande problema para os moradores e turistas que amam e respeitam a vila, e celebrar o réveillon como sempre fazemos à beira mar, com os visitantes de sempre, em clima de paz, amor e principalmente saúde…

Sobre escolhas…

A professora, que também era poeta, se aposentou e foi morar numa pequena cidade nas serras do Estado do Rio…. Uma vida mais tranquila para quem passou os últimos 25 anos correndo entre a escola, a casa e atenção ao filho criado pelo pai, mas a quem visitava todos os dias.  Sozinha, chegou na pequena cidade, comprou uma casinha e foi conhecendo a comunidade.  Era o casal da mercearia, o taxista, o farmacêutico, as carolas da igreja, os viznhos e havia também o verdureiro, que trazia a produção da sua roça para vender na cidade. Ele vinha empurrando um carrinho de madeira, parava na casa da professora, ela escolhia alguns legumes, frutas e verduras, e ele seguia para a beira da estação do trem aonde tinha freguesia certa. Na volta, encontrava a professora sentada na varanda geralmente lendo um livro ou escrevendo poesias. Trocavam mais um dedo de prosa, comentavam assuntos banais como o calor ou o frio da estação, e ele seguia para casa. Com o passar do tempo, o verdureiro passou a parar e tomar café. Começou a guardar o carrinho de madeira na casa da professora, trazia as verduras em sacolas e nasceu uma amizade. Os vizinhos achavam estranho as conversas animadas entre pessoas de mundos tão diferentes.

Certo dia, a professora poeta foi para o Rio de Janeiro visitar a família e chegou acompanhada do verdureiro. Bem vestido, cabelo aparado, barba feita, unhas cortadas, adentrou aos salões do apartamento da família na Av. Rui Barbosa e o apresentou como seu companheiro. Foi um choque! O filho letrado, diplomado, fluente em 3 idiomas que conhecia o pequeno agricultor das raras visitas que fazia à mãe, não entendeu o que a levou, uma mulher culta e sensível, viver com um verdureiro analfabeto. Sim, ele era analfabeto, só conhecia os números. A ex-sogra, em cuja mesa só se comia em pratos com o brasão da família e usava talheres de prata, foi condescendente com a escolha. Compreensão feminina, o que nos dias de hoje chamam de sororidade. 

Me lembrei da história da professora e do verdureiro que juntos viveram até o fim dos dias, um cuidando do outro, com relatos de mulheres imponderadas que fazem escolhas estranhas e amores improváveis ao assistir “Lida Baarová” na Netflix. O filme conta sobre a atriz tcheco-austríaca que por dois anos foi amante do ministro da propaganda nazista da Alemanha, Joseph Goebbels, o mais perfeito exemplo de escolhas insensatas. Tinha tudo para cair fora do jogo de sedução, crescer na profissão, mas como coração é terreno sem dono, não há o que discutir… É um filme biográfico, um gênero que gosto muito, pois conhecer trajetórias para entender melhor a vida, muito me agrada.   Vira e mexe, aqui na minha região, escuto casos de profissionais, altas executivas, mulheres cultas que atuam em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, cargos de poder e atuação impecável, chegam para uma pequena temporada e se apaixonam por homens mais simples, rudes, pescadores, agricultores, pedreiros, que fazem acontecer um amor sem tamanho, coisa de novela… Para uma, que me confidenciou um desses romances em que andavam na praia a luz do luar e ele contava sobre as marés, os períodos de boa pesca e conhecia o canto de quase todos os pássaros, perguntei o que conversavam depois do amor. O que acontecia quando batia aquela leseira e muitos reconhecem ser o momento em que se percebe se a escolha foi correta, se vale a pena continuar junto para um bom tempo, quem sabe construir uma vida … Com a maior tranquilidade ela me respondeu: “Faço nada, abraço e durmo… ” Ah… Simples assim… Ainda há muito o que se entender sobre relações e escolhas, sem qualquer julgamento…   

A Casa

Uma casa em obras é como uma pessoa nua à frente de um espelho de aumento revelando as suas mazelas… Todas as celulites, rugas, cravos e marcas de espinhas, gorduras acumuladas, varizes e cabelos brancos que ficavam escondidos estão à mostra para os que não as viram surgir e chegam para consertar…. É este o meu sentimento em meio a uma obra na qual estou envolvida há mais de um mês… Primeiro foi o telhado, pois a minha casa não tinha…. Sim era uma casa sem telhado, construída em estilo mediterrâneo com laje, se tornou inviável com tanto sol e chuva no sul da Bahia. Foi uma decisão difícil mudar o estilo da casa. O primeiro a sugerir foi o Paulinho, originalmente arquiteto, na última vez que me visitou olhou para o alto e foi contundente: “coloca um telhado com uma beira larga, mais de 50 cms, para proteger toda a casa”. Mas não vai contra o estilo? “Então continua chovendo dentro da casa...” pontuou bem-humorado.

Este ano, antes da pandemia, quando ainda se pensava num tempo normal, ouvi a opinião de um arquiteto amigo e vizinho. Era a mesma do Paulinho e sou grata por ter recebido sábios conselhos e feito a mudança. A sensação que tive quando as telhas cobriram a casa foi de proteção e cuidado. Já não estou mais exposta ao tempo. Tenho uma casa com eira e beira…

E para cuidar da casa toda, o telhado se estendeu para uma varanda, um espaço que não tinha qualquer valia e está se transformando num salão para relaxar com redes, poltrona, estrado com almofadas, com vento leve, uma brisa sempre fresca que vem do mar …  E não me canso de perguntar: por que não pensei nisso antes? Mas meu olhar estava viciado naquilo que se apresentava e tenho cada dia mais certeza de como é importante ouvir outras opiniões, trocar ideias…

A pintura começou, chega como um vestido novo para uma jovem dama, com quase 30 anos. Os toldos das janelas foram retirados revelando umas nesgas da cor original que ficou protegida do sol por alguns anos… Antes da tinta, como uma limpeza na pele cansada, escovão para tirar o limo que escorreu das árvores, uma boa dose de lixa, impermeabilizante e depois, enfim, a casa, terá seu novo vestido verde folha para se misturar entre as árvores e se manter num jeito discreto, num canto de terreno, exatamente como projetada ao ser construída por meu irmão… Aguardo feliz este novo tempo…          

A lagosta e eu…

Seguindo a tradição familiar, sou bem fraca na cozinha. Mamãe não gostava nem sabia cozinhar, mas sugeria pratos ótimos para todas as assistentes que passaram por nossa casa. Nos últimos anos, iniciada por uma amiga, descobri Rita Lobo e nesse período de pandemia fiz risotos e focaccias que foram bem recebidos.  Mas ser pouco competente em temperos e panelas não me impediu de nos últimos 5 anos estar envolvida com a gastronomia, desde que em 2016 capitaneei o Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento em Vila de Santo André. O sucesso foi tal que no ano seguinte se expandiu por Santa Cruz Cabrália e em sua trajetória teve a participação de 74 restaurantes e foram consumidos mais de 1500 quilos de lagosta. Esta é a 5ª. edição, tinha tudo para não acontecer, tempo de pandemia, alguns restaurantes ainda fechados, zero patrocínio, mas quem segura uma capricorniana teimosa que, como dizia meu pai, adora inventar coisas?

A bem da verdade o que me fascina é ver o que a promoção de eventos produz numa sociedade, como estimula o turismo, gera empregos, aumenta horizontes, cria oportunidades, movimenta recursos… Seja um Rock in Rio em Lisboa desbravando a Europa ou um Festival da Lagosta na Santa Cruz Cabrália com menos de 30 mil habitantes, conduzo meus sonhos e projetos com o mesma magnitude, respeito e atenção.  De repente a gastronomia da região ganha espaço na mídia e tanto os restaurantes dos sofisticados resorts, como as cabanas de praia, o bistrô na beira do rio, as trattorias, tem holofotes voltados para seus sabores provocando uma enorme alegria para os chefs e empresários que são estimulados a criar receitas e se renovar. 

Com meu olhar experiente em grandes eventos, o ano passado pedi ao Emerson Stark, 24 anos, morador de Sto André, para desenvolver um aplicativo contendo os pratos participantes, a história do festival, informações sobre Cabrália e como chegar. Ele fez um trabalho lindo e este ano resolvi dar um passo ainda maior. Além do aplicativo, era hora de aposentar os jurados tradicionais e a escolha da Melhor Lagosta e Melhor Atendimento ser feita pelo público. Quem come dá a nota através de um QR Code impresso no Guia do Festival, aonde se chega até um hot site e é só escolher entre 0 e 10 para pontuar o sabor. Emerson e seu sócio o índio Wilson Junior, toparam o desafio.  Mas como dois rapazes deste pequeno pedaço do sul da Bahia se especializaram no mundo digital ?

Em 2013 se instalou na cidade um CEIT (Centro de Educação e Inovação Tecnológica) realizado pela QUALCOMM e Fundação Telefônica Vivo, em parceria com a USAID e Prefeitura Municipal. O objetivo era incentivar a inclusão digital, explorando o potencial educacional das tecnologias móveis e das redes de telecomunicações, mobilizando a comunidade. Infelizmente o CEIT encerrou atividades alguns anos depois, mas a semente já estava plantada e dando frutos. Através deste projeto, Emerson, Wilson e outros jovens tiveram a oportunidade de viajar para São Paulo e serem palestrantes no encontro nacional de empreendedores no Campus Party e aí o mundo grande ficou perto, criar passou a não ter limites…

Com toda essa tecnologia e o alto astral dos empresários do setor, seguindo todos os protocolos dos tempos de pandemia, 10 restaurantes embarcam de 9 a 18 de outubro no Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento. É uma honra conduzir esse projeto com o endosso do Senac, Sebrae e Abrasel, e o apoio da Katz Engenharia, parceria da Revista Bacana, pois instituições e empresários tem a consciência da importância da promoçao do turismo gastronômico para o desenvolvimento de um destino. Da minha parte, continuo buscando fazer a diferença na cidade onde escolhi viver. É isto que me move e me faz feliz. Não sei cozinhar, não tenho restaurante, nem sou tão apaixonada pelo crustáceo, mas amo fazer o festival…

Para saber mais acompanhem o @festivaldalagostacabralia, e se estiverem aqui por perto escolham a sua lagosta :

Cabana A Praia Branca (Mutá)

Lagosta ao Coco : Cozida com a água e na nata do coco verde, e ainda cebola, vinho branco seco, raspa de queijo da Serra Canastra, salsa, creme de leite e uma base de arroz. R$ 55,00 – Av. Beira Mar, 2850 – Praia do Mutá Aberto todos os dias de 10 às 16hs – Tel:  (73) 9990-3321

Cabana Macuco (Coroa Vermelha)

Lagosta das Índias : Lagosta assada guarnecida de um papelote feito na folha de bananeira recheada de ingredientes tipicamente indígenas. Ainda uma surpresa: a sobremesa fica por conta da casa. R$ 69,00 – Avenida Beira Mar n. 50, Coroa Vermelha – Todos os dias de 9:00 – 16:30 – Tel:  (73) 99920-1122  e  3677-1000

Hibisco Praia (Mutá)

CaNuVAL :  acrônimo de Cátia, Nuca, Vanessa e Alanda, homenagem às funcionárias do restaurante abraçando a causa do Outubro Rosa : Risoto cozido com vinho branco caldo de peixe e um molho leve de abacaxi, filé de lagosta e, por fim, uma pitada de açafrão para dar uma cor ainda mais viva a esse lindo prato. Acompanha salada de rúcula, tomate cereja e cubos de abacaxi. R$65,00 – Endereço: Av. Beira Mar, n. 12402, bairro Ponta do Mutá, Aberto de segunda a domingo das 10:00hrs as 17:00hrs Telefone (73) 999364442

Luz de Minas Bistrô, Brigaderia Café (Santo André)

Canoa dos Deuses : Um prato aromático de lagosta grelhada na manteiga de garrafa, com manta de nibs de cacau acompanhado de creme de kefir com hortelã e brotos frescos. Prato assinado por Said Dias, com toques da parceira Renata do @brigadeirodasminas R$ 85,00. Av. Beira Rio 62Todos os dias de 13:00 –  21:00 hs –  Tel: (73) 99871-0888 – 31 99958-7965

Maria Nilza (Guaiú)

Lagostelas : Lagosta grelhada no vinho branco com arroz indiano feito com castanhas e melaço de lagosta, laminas de abóbora grelhada.  Acompanha um drink da casa. R$ 65,00 – Praia do Guaiú – Todos os dias 09:30 às 16:00 horas – Tel : (73) 99985-0149

Recanto do Sossego (Coroa Vermelha)

Agnolotto : Agnolotto com recheio de lagosta, ricotta, aspargo com tomate cereja em crosta de bacon. R$ 80,00 – BR-367, 133,  Coroa Vermelha – Todos os dias de 8:30 – 23:30hs Tel: (73) 999-232630 

Restaurante Caju (Campo Bahia Hotel Villas Spa) (Santo André)

Lagosta Mar e Terra : Lagosta grelhada e flambada na cachaça e Risoto de aspargos com bisque de lagosta  Valor: R$ 89,00 +10%R$ – Av. Beira Mar 1885, Vila de Santo André – Todos os dias 12h às 15 – 19h às 22h Tel: (73) 3671-4200

Restaurante Gaivota (Santo André)

Duo de Lagosta : Cauda grelhada com aroma de limão rosa. Arroz cremoso de lagosta com coco. vinagrete de maxixe. Redução de frutas amarelas com vinho do vale de São Francisco. R$ 85,00 – Av. Beira Rio Todos os dias 12 às 21hs Tel: (73) 3671-4144

Restaurante Pitanga (Vila Angatu Eco Resort Spa) (Santo André)

Lagosta Angatu : Angatu significa felicidade e bem-estar, o equilíbrio yin yang vem na lagosta grelhada com tiras de berinjela, abobrinha e cenoura acompanhada de musseline de ervas e purê de banana da terra com lascas de castanhas tostadas. R$ 67,00 + 10% tx serviço Av. Beira Mar 2000, Vila de Santo André- Todos os dias 20 às 23hs Tel: (73) 3282-8200 

Restaurante Trigo (Cais Cabrália)

Massa de Cacau Tagliatelle ao cacau de Bahia, com lagosta e granola de pistache – R$65,00 Rua 23 de julho n 20, Praça da Ancora, Cais  – 5ª. a sábado 18hs – domingo 12 hs Tel: (73) 99109-8435

20 anos

Em setembro de 2000 eu estava envolvida em conhecer melhor o mundo da internet. Como diretora de comunicação do Rock in Rio, que iria acontecer em janeiro de 2001, numa volta para a Cidade do Rock, palco da emblemática 1a edição em 1985, estávamos num grande movimento de mídia. Já tínhamos sites e e-mail, ainda não haviam as redes sociais. Eu convivia diariamente com o assunto, encantada com a nova ferramenta e o destaque ainda era maior pois o patrocinador master, aquele que viabilizava a retomada do festival, era a AOL, um provedor de internet. Tínhamos dentro da produção uma área que só cuidava deste assunto. Era tudo muito inovador. Assim como mulheres grávidas que só encontram barrigudas à sua frente, eu só pensava em internet e me chamou a atenção a notícia do lançamento de um site sobre celebridades. E naquele domingo liguei no SBT no programa do Gugu e assisti o lançamento de O Fuxico

Uau ! Parecia a Revista Amiga que vi nascer transportada para o século XXI de forma digital! Pulava o processo da gráfica, a distribuição nas bancas e entrava direto na tela do computador. Tentei acessar o site, mas não consegui…. Depois vim saber que o volume de acessos foram tantos que derrubou a rede do UOL… O Rock in Rio aconteceu inovando muito com a internet. Passaram-se muitos anos e acessar o mundo digital entrou no dia a dia dos brasileiros. Sites, blogs, conteúdo, mecanismos de buscas está tudo à disposição. E, com as muitas midias disponíveis, em 2006, quando, a convite do Projeto Emoções em Alto Mar, fui organizar a lista de veículos de imprensa que passariam 5 dias à bordo de um luxuoso transatlântico acompanhando a incrível experiencia de confraternizaçao entre amigos e fãs do Roberto Carlos, sugeri ao Dody Sirena, empresário do artista, dar um enfoque maior à midia digital, levando para a viagem diversos sites. O Fuxico foi um dos relacionados. Em 6 anos de atuação havia crescido, tinha milhares de acessos, se tornara referencia em sites de celebridades e aberto caminho para outros tantos. Eu não tinha contato com a jornalista Esther Rocha, editora, mas achei o telefone na web, fiz o convite e fomos nos conhecer em alto mar.

Foi em alto mar que ouvi a sua trajetória e ficamos amigas. Exemplo de “self made woman”, desbravadora, resiliente, divertida, foi preciso muito pouco para admirar a sua obra, o seu olhar para o futuro que motivou o apresentador Gugu Liberato, seu colega dos tempos da faculdade de jornalismo, em investir no que a principio parecia uma maluquice. O Fuxico foi o primeiro acesso para este mundo digital que se estendeu para a sua outra paixão, a gastronomia, que a fez voltar para a universidade, se transformar em chef e criar o site Vamos Falar de Comida. Tudo isso já justificaria a homenagem que faço hoje, no 1º dia dos 20 anos de O Fuxico, deixando meu registro de respeito e admiração à Esther e sua equipe, onde todos tratam os assuntos mais dificeis com respeito… Ela sabe que a comunicação deixou de ser cartesiana.  Além da ousadia e criatividade, quem está nesta área precisa ter grande acuidade, uma visão ainda mais acirrada de onde quer chegar. O poder de uma noticia abalar uma marca, uma instituição ou uma pessoa é grande e o processo é rápido. Reconstruir às vezes é difícil ou impossível. Esther, que venham mais tantos anos de sucesso e alegria… Com o mesmo astral, profissionalismo e dignidade…

O Brasil não Conhece o Brasil

A Bahia não estava no meu mapa natal, a minha família é do Paraná, mas meus pais escolheram dois baianos como meus padrinhos de batismo e crisma.  Meus padrinhos Álvaro Protásio e Almir Mansur me mimaram de um jeito muito manso.  Ambos eram homens altos, elegantes e tinham um modo tranquilo de falar. Um sotaque às vezes arrastado, que fazia uma enorme diferença numa família de sulistas. Esta talvez seja a minha primeira referência de uma Bahia que abracei há 16 anos quando vim morar em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, onde o Brasil começou.  Abracei tanto que até já sou Cidadã Cabraliense.

E por caminhos surpreendentes, acabei me envolvendo de tal forma com a cidade que hoje, por estar vice-presidente do Conselho de Turismo, integro o grupo gestor da Câmara de Turismo da Costa do Descobrimento que reúne as cidades de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Guaratinga e Belmonte. Já participei de alguns encontros virtuais com representantes da Secretaria de Turismo do Estado e de outras instituições ligadas ao turismo junto aos gestores das 13 câmaras técnicas que envolvem dezenas de municípios, mas ontem, numa comemoração antecipada do Dia Internacional do Turismo que acontece no próximo domingo, fiquei maravilhada ouvindo os tantos destinos que essa Bahia oferece.

Com uma enorme diversidade de cenários, do mar ao sertão, dos sabores acres e doces, dos relevos e planícies, das grutas aos rios, dos tempos tórridos e áreas mais frescas, tudo tão perto e tão apaixonante que deu vontade de entrar no carro e sair estrada afora… E ainda tem as festas, o folclore, a arte, a cultura, o artesanato, tudo muito bem guardado, surgindo delicadamente em meio a tempos de quarentena. Pude ouvir como estes destinos estão se reinventando, como o Senac e o Sebrae foram importantes com suas plataformas e programas para qualificar os profissionais que atendem estas áreas para ir mais adiante do que o simples uso de máscaras e álcool em gel. Momento de saber como bem receber sem aglomeração oferecendo segurança aos turistas…

A boa nova que ouvi é que muitos turistas estão chegando pelas estradas, e impossível não lembrar Elis cantando “o Brasil não conhece o Brasil” (Querelas do Brasil, de Aldir Blanc / Maurício Tapajós).. Quem sabe um ponto positivo pode ficar desta pandemia: impulsionar o turismo nacional. E para quem quiser desvendar a Bahia, seguem os destinos onde as câmaras técnicas estão se dedicando para oferecer o melhor ao viajante… E só pra lembrar, de 9 a 18 de outubro tem a 5ª. edição do Festival da Lagosta em Santa Cruz Cabrália. Uma ótima pedida, e quem sabe a oportunidade da gente se encontrar por aqui.

Bahia de Todos os Santos (Salvador, Aratuípe, Cachoeira, Candeias, Itaparica, Vera Cruz, Madre de Deus, Maragojipe, Muniz Ferreira, Nazaré, Salinas da Margarida, Santo Amaro, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara e Simões Filho.), Caminhos do Jiquiriçá (Amargosa, Jiquiriçá, Milagres, Mutuípe, Santa Inês, Ubaíra, Castro Alves, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Santa Terezinha, Varzedo e Itatim.), Caminhos do Oeste (Barra, Barreiras, Santa Rita de Cássia, São Desidério, Bom Jesus da Lapa, Correntina, Ibotirama, Santa Maria da Vitória, Jaborandi e São Félix do Coribe), Caminhos do Sertão (Feira de Santana, Canudos, Euclides da Cunha, Itapicuru, Tucano, Cipó, Uauá, Adustina, Alagoinhas, Irará, Banzaê, Paripiranga, Santo Estevão), Caminhos do Sudoeste (Iguaí, Jequié, Maracás e Vitória da Conquista), Chapada Diamantina (Circuito da Chapada Norte: Bonito, Campo Formoso, Quixabeira, Jacobina, Miguel Calmon, Miramgaba, Ourolândia, Pindobaçu, Senhor do Bonfim e Utinga. Circuito do Diamante: Andaraí, Ibicoara, Iraquara, Itaetê, Lençóis, Mucugê, Barra da Estiva, Boninal, Iramaia, Itaberaba, Ituaçú, Nova Redenção, Palmeiras e Seabra. Circuito do Ouro: Abaíra, Jussiape, Paramirim, Piatã, Dom Basílio e Rio de Contas. Circuito da Chapada Velha: Barra do Mendes, Brotas de Macaúbas, Gentio do Ouro e Central) , Costa das Baleias (Alcobaça, Caravelas, Itamaraju, Mucuri, Nova Viçosa, Prado e Teixeira de Freitas), Costa do Cacau (Ilhéus, Itacaré, Ipiaú, Maraú, Una, Canavieiras, Itabuna, Uruçuca, Santa Luzia, Pau Brasil e São José da Vitória), Costa do Dendê (Cairu, Camamu, Valença, Taperoá, Igrapiúna, Ituberá), Costa do Descobrimento (Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Guaratinga e Belmonte), Costa dos Coqueiros (Mata de São João, Jandaíra, Entre Rios, Conde, Lauro de Freitas, Esplanada, Dias D´Ávila, Camaçari), Lagos e Cânions do São Francisco (Paulo Afonso, Santa Brígida) e Vale do São Francisco (Juazeiro, Sobradinho, Remanso, Curaçá e Sento Sé)

Simonal nos 70 anos da TV

Nas celebraçoes dos 70 anos da TV brasileira, esta é uma das tantas historias que vi …O 18o capitulo do livro “Um Instante, Maestro!” onde relato a trajetória do apresentador Flávio Cavalcanti, dediquei a Wilson Simonal..

A música foi um dos elementos de maior importância nos programas que Flávio Cavalcanti criou e apresentou ao longo da vida. Em 1970, na Tupi, três dos artistas de maior sucesso na época eram seus contratados com exclusividade. Um deles era Wilson Simonal. Hoje é impossível encontrar um artista que tenha tido tanto sucesso e prestígio quanto Simonal no final dos anos 60, início de 70. Ele não era sertanejo, tampouco brega ou MPB. Criara um estilo, um movimento, uma marca que vendia milhares de discos, faturava alto com os shows que fazia no Brasil e exterior. Apresentava programas de televisão, era capa de revistas e chegara a lançar um bonequinho de pano, o Mug, que virou mania nacional.

Super afinado, com muito balanço e um repertório popular onde interpretava as canções mais simples de forma sofisticada, Simonal além de tudo era o rei da simpatia. Vestia-se com a maior elegância, era recebido nas festas mais fechadas da sociedade e tinha um Mercedes Benz branco, novinho em folha. As críticas que lhe eram feitas traziam sempre um ponto de inveja e preconceito: ele era um negro bem-sucedido. Voou mais alto do que o melhor sonho que um garoto pobre pode ter ao se tomar cantor. Filho de dona Maria, uma empregada doméstica semialfabetizada, começou, como muitos cantores, em um programa de calouros, o de Ary Barroso, aos dezessete anos. Sua apresentação mereceu um raro elogio do exigente compositor. Aos dezoito foi servir ao Exército, no 89º Grupo de Artilharia de Costa Motorizada, no Leblon, e lá surgiu a oportunidade de mostrar seus dotes vocais ao fazer um show de improviso, onde imitava Agostinho dos Santos e Harry Belafonte, cantores negros como ele. Dois anos depois, ao deixar o Exército, entrou para um conjunto de rock liderado por Sérgio Riff. O grupo se reunia na casa de Riff, no Leblon, e uma noite Carlos Imperial foi lá ouvir os novatos.

Imperial tinha dois programas de televisão: “Os Brotos Comandam”, na TV Continental, e “Festival de Brotos”, na TV Tupi. O suingue do crooner conquistou Imperial, que o levou para a TV e depois para gravar um compacto na Odeon, com o “Chá-Chá-Chá Terezinha”. O chá-chá-chá era o ritmo do início dos anos 60, e a música foi feita por Imperial para sua namorada Tereza. A letra era assim: “Terezinha,/todo dia,/dança o chá-chá-chá,/dança, menina, dança, balança o corpo/que eu quero ver…” Uma bobagem, mas, como o ritmo estava no auge, a música estourou nas paradas. Surgiram então os convites para shows, e outros tantos LPs se seguiram, numa sucessão de hits.

Aos 32 anos de idade, Simonal chegava ao auge de sua carreira. Gravara três maravilhosos LPs de bossa nova e, sob orientação de Imperial, lançou a “pilantragem”, com a música “Nem Vem que Não Tem”. Era um samba mais arrastado, cadenciado. Surgia assim um novo estilo musical na MPB. Simonal estava de volta ao Rio, depois de uma temporada em São Paulo onde apresentava um programa de TV. Morava em Ipanema, numa belíssima cobertura, e estava muito bem casado com a Terezinha do chá-chá-chá. Em 69, fez uma apresentação que literalmente balançou o Maracanãzinho. Simonal era presidente do júri do Festival Internacional da Canção, e fora contratado para fazer o show da noite final. Uma de suas características como showman era manter domínio total sobre o público, e naquela noite não foi diferente. Dividiu a plateia em duas vozes, como num gigantesco coral, e “regeu” vinte mil pessoas cantando “Meu Limão, Meu Limoeiro” e “Patropi”. Um espetáculo inesquecível e jamais repetido por qualquer outro artista. Era muito sucesso para um homem só. Domingos de Oliveira, o cineasta mais in do momento, dirigiu no final de 69 o filme “É Simonal”, uma produção de Carlos Thiré, tendo como ator principal o próprio cantor e um elenco formado por Maria Gladys, Oduvaldo Viana Filho, Vanda Stefânia, Irma Álvarez, entre outros artistas consagrados. Em 70, Simonal foi contratado como garoto-propaganda da Shell, para uma grande campanha publicitária. Estava na telinha da TV o dia todo, os postos de gasolina estampavam o seu sorriso em enormes cartazes e a companhia de petróleo patrocinava seus shows.

Simonal tinha trabalhado com os melhores empresários do país, mas, julgando-se autossuficiente, resolveu criar uma agência para administrar sua carreira e seus bens. Para cuidar de tudo isso convidou Rui Brizola, um misto de empresário e administrador. Tornou-se assim o primeiro artista a se auto-empresariar, montando um sofisticado escritório todo branco, muito bem decorado e aparelhado, na Avenida Princesa Isabel 150, em Copacabana. Para cuidar da parte financeira, indicado por Rui Brizola, Simonal contratou o contador Raphael Viviani, paulista que já havia trabalhado em bancos. Viviani veio morar no Rio e durante quatro meses ficou no Hotel Plaza, em frente ao escritório de Simonal, com todas as despesas pagas. Com a indicação de Brizola, o cantor não se preocupou em investigar o passado do contador e, como estava sempre viajando com shows, envolvido com muitas festas, entrevistas, numa vida como nos melhores tempos de Hollywood, acabou relaxando no controle de seus negócios. Um dia o sonho virou pesadelo. O gerente do banco telefonou avisando que havia um problema com a conta corrente da empresa, um rombo muito grande, e tudo levava a crer que o contador estava desviando dinheiro.

Estávamos em 1971, num clima político explosivo, vivendo em cima de um barril de pólvora. Qualquer coisinha era motivo para especulações, distorções, divagações e patrulhamento ideológico. A popularidade de Simonal incomodava tanto a esquerda quanto a direita. Ele achava difícil ser um negro bem-sucedido, resumindo o racismo brasileiro com a seguinte frase: “Em lugar onde preto pobre não entra, branco pobre também não entra.”

Simonal acreditava ter amigos em todas as áreas. Ao saber do desvio de seu dinheiro, em vez de ir à polícia fazer uma queixa contra o contador, pediu a uns amigos policiais, entre eles o inspetor Mário Borges, que nas horas vagas fazia sua segurança pessoal, que fizessem a averiguação. No dia 24 de agosto de 1971 os policiais saíram em busca do contador no próprio carro do artista, dirigido por seu motorista, Luiz llogti. Já passava das dez da noite quando chegaram no prédio em que Viviani morava, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Chamaram Viviani pelo interfone e o levaram para o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social—, a fim de prestar depoimento sobre o desfalque dado na empresa de Simonal. O motorista Luiz llogti deixou-os no DOPS, na Rua da Relação, no Centro do Rio, e foi para casa, esperando o aviso para buscá-los. Algumas horas depois recebeu um telefonema avisando que o depoimento iria se prolongar e que ele não deveria voltar. O depoimento durou a noite toda. A mulher de Viviani viu quando o marido foi levado e identificou o motorista do cantor. O dia amanheceu sem Viviani chegar em casa, e sua mulher foi à 13ª Delegacia de Polícia dar queixa de que Simonal sequestrara seu marido. Ilogti não pôde afirmar se Viviani foi torturado, pois não assistiu ao depoimento, mas o contador declarou ter sofrido os mesmos métodos de tortura utilizados pelo regime militar, até confessar o roubo. Em pouco tempo o assunto chegou ao conhecimento da imprensa. O que seria um caso policial se transformou num escândalo político.

A partir daí foi aberto um inquérito contra o inspetor Mário Borges, acusado de sequestrar o contador e, sob coação física, tê-lo feito assinar uma confissão de desfalque contra a firma do cantor. Segundo Simonal, Mário Borges, para livrar-se do processo e justificar o fato de trabalhar como segurança pessoal do cantor, acusou-o de ser informante do DOPS. Com isso o cantor foi arrolado no processo, acusado de sequestrar e torturar o contador com a ajuda de informantes do DOPS. O caso tomou proporções enormes, atingindo drasticamente a carreira do artista.

O mundo desabou para Simonal. Sua gravadora, a Philips, rescindiu o contrato alegando estar sofrendo pressões dos outros artistas. Ele passou a ser responsabilizado por todos os artistas, jornalistas e políticos perseguidos e torturados. Problema policial à parte, Simonal estava sendo vítima de uma sórdida campanha de difamação e boicote a uma carreira bem-sucedida. As portas foram se fechando. As casas noturnas lhe davam espaço, mas a imprensa evitava divulgar seus shows. Flávio Cavalcanti, ao contrário, continuava tratando o cantor como superastro, convidando-o todos os meses para o programa. Isso lhe garantia a presença na mídia eletrônica no momento em que seus discos eram retirados da programação de diversas rádios. O jornalista João Luiz Albuquerque lembra que nessa época estava fazendo uma entrevista com ele e, para continuar o papo, foram jantar no Mario’s, um restaurante muito conhecido no Leblon. Na mesa em frente havia alguns jornalistas e intelectuais, que começaram a provocar o cantor com piadinhas. Simonal resistiu o quanto pôde, mas em determinado momento virou-se para o grupo e falou: “A diferença entre nós é que eu sou negro, rico, e não tenho compromisso com a esquerda nem com a direita.”

No final de 1973, a barra estava ainda mais pesada. Flávio, sempre amigo de Simonal, passou a ser também seu compadre. Numa cerimônia muito simples, na igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, Frei Memória batizou Max, o filho caçula do cantor, junto com meu filho, Bernardo. Algumas semanas depois a família Simonal deixava o Rio para morar em São Paulo. Após a mudança, uma “mágica” qualquer do destino impediu que chegasse até ao cantor e seu advogado a comunicação sobre o julgamento em que Mário Borges o acusava de “delação”. A partir daí o processo começou a correr à revelia. Num julgamento posterior, o assistente de acusação, Dr. Jorge Alberto Romeiro Jr., perguntou ao inspetor Vasconcelos, superior de Borges, se o cantor tinha algum envolvimento com o órgão. A resposta foi negativa. Este fato não foi divulgado na época, e o cantor continuava a ser tratado como o maior torturador do século.

Em novembro de 1974, Wilson Simonal foi julgado à revelia, sob a acusação de extorsão mediante sequestro. Foi obrigado a cumprir cinco anos e quatro meses de prisão, sendo um ano em colônia agrícola. No dia 12 de novembro ele foi preso em São Paulo e levado ao presídio de Agua Santa, num subúrbio do Rio, onde permaneceu por doze dias, enquanto seu advogado conseguia liberdade provisória até um novo julgamento. Em seu segundo dia de prisão uma notícia trouxe uma dor ainda maior. A morte do amigo, meio-irmão, Erlon Chaves.

Em novo julgamento, o juiz Mena Barreto desqualificou o sequestro e o condenou a seis meses de detenção, que poderiam ser cumpridos em liberdade por ser ele réu primário. Sua vida, no entanto, estava totalmente destruída. Simonal perdeu tudo o que havia conquistado, o sucesso, o prestígio, os bens materiais. Entrou em decadência, foi despejado da mansão onde morava em São Paulo, e sua mulher Tereza, profundamente estressada, passou longos períodos internada para tratamento médico.

Em maio de 1992 reencontrei Simonal. Acabara de mudar para um apartamento perto do Ibirapuera, em São Paulo, e estava terminando de arrumar a casa. Convalescia de uma hepatite, tossia muito, a respiração era ofegante, e dizia estar muito cansado. Não fazia shows há dois meses, e contou que começou a sentir esses sintomas numa temporada no México. Nessa turnê, fazia dois shows por noite, sentia muito calor, transpirava demais, não tinha apetite e entre uma apresentação e outra ia para o hotel descansar. Contou também que estava bebendo mais do que o normal, o que afetara o fígado e a vesícula. Como estava se alimentando muito mal, acabou anêmico, e tudo isso gerou uma hepatite.

Esse encontro com Simonal foi para mim como uma viagem ao tempo. Em sua casa, ao lado do sofá forrado de couro verde, havia uma mesa repleta de porta-retratos com fotos amarelecidas relembrando sua época de sucesso. Apesar do rosto envelhecido e do cabelo grisalho, Simonal mantinha o charme do tempo em que era o primeiro da música brasileira. Falava com as mesmas gírias, repetia o sorriso de canto nos lábios e sonhava com um grande espetáculo onde pudesse reviver uma cena do Circo – show apresentado no Canecão em 1973 -, onde surgia no palco com o rosto pintado de palhaço.

Simonal não se incomodava em falar do passado. Acreditava que nos meios de comunicação algumas pessoas o julgavam um mau-caráter, mas estava certo de que a grande maioria embarcara nessa onda para ficar de bem com a classe. Lembrava de que antes do caso Viviani, quando viajava ao exterior, trazia cartas de exilados para suas famílias e também assinou muitas listas dando dinheiro para auxiliar presos políticos, apesar de não ter uma posição política formada. Só muitos anos depois soube, através de amigos, que o dinheiro desviado por Viviani era repassado a Dulce Maia, irmã do publicitário Carlito Maia, conhecida militante de esquerda, com o objetivo de financiar guerrilhas. Acreditava ter sido vítima do macarthismo da esquerda festiva, do racismo e da inveja. Sentiu-se atirado vivo aos leões quando o jornal Pasquim publicou na capa um dedo enorme, a imagem do dedo-duro, onde estava escrito seu nome. Não gostava de falar sobre o mal que tudo isso provocara à sua carreira e à sua família, e às vezes chegava a imaginar como estaria se nada disso tivesse acontecido.

Apesar de ter feito carreira no mercado internacional, como México, França, Argentina e Chile, onde continuou sendo aplaudido e respeitado, jamais se recuperou financeiramente. Mora com Tereza e os dois filhos menores, Patrícia e Maximiano, num apartamento alugado. O filho mais velho, Simoninha, trabalha com João Marcelo, filho de Elis Regina, num estúdio de som e mora sozinho. Sem trabalhar há meses, Simonal conta com a ajuda de muitos amigos, entre eles seu antigo empresário Marcos Lázaro. Mas os fantasmas ainda o perseguem. Fez questão de conseguir um habeas data, um documento oficial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, datado de 28 de agosto de 1991, que nega a sua colaboração para qualquer órgão de repressão, seja DOPS ou SNI. Esta simples folha de papel, entretanto, não foi suficiente para apagar as mágoas dos 22 anos em que foi perseguido e boicotado. Simonal ainda sonha em ser o mesmo artista popular, como na década de 60.

Wilson Simonal – Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1938 — São Paulo, 25 de junho de 2000