Sem palavras

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Começo escrevendo na cabeça. As vezes surge um parágrafo inteiro, fico repetindo para não perder até chegar para o papel ou amadurecer. Em outras, os pobres textos morrem antes do papel, se perdem nos labirintos do cérebro e podem retomar algum dia sem qualquer aviso. Visualizo estes labirintos exatamente como aparecem nas imagens dos cérebros, cheios de meandros, cobrinhas onde se escondem boas ideias e inspirações. Fico tentando aguçar para ver se retorna alguma frase bacana para escrever nesta crônica, mas enquanto não surge vou colecionando bons temas como por exemplo, criar um bloco para o carnaval chamado “Caiacanga”. A ideia nasceu noite dessas enquanto tomávamos vinho e comíamos o nhoque da sorte no Sant´Annas. Uma amiga, da mesma faixa etária, comentou que em determinada situação estava visitando um amigo, enrolada numa canga, desprovida de sutiã e, inesperadamente, no meio da conversa, a dita caiu. Mais do que uma saia justa! Saiu tentando se recompor, mas o que tinha que ser revelado foi. Imaginei para o carnaval do próximo ano uma ala de mulheres maduras embrulhadas em cangas e ameaçando deixar cair em meio ao desfile. Não causaria qualquer impacto na pequena vila onde moramos, mas seria uma cena bem ridícula. As exibicionistas da 3ª. idade !

Estas tolas lembranças servem só para esquentar as teclas, pois é claro que um bloco desses não se cria nem somos loucas o suficiente… Mas compartilho esse pensamento para perceberem por onde anda a minha busca de inspiração em tempos de bombardeios políticos… Enquanto não sei o que escrever, monto quebra cabeças ou jogo paciência. Tudo no computador. Deve ter mais uma meia dúzia de dezenas de pessoas que fazem o mesmo e com quem quero dividir minha mais nova descoberta, um outro lado legal destes joguinhos de cartas. Quem brinca com isso sabe que existem momentos em que parece que não vai ter mais jeito, o jogo vai parar ali, nenhuma carta vai se encaixar e perder é a única certeza. Mas, de repente, aparece uma carta que não se estava prestando atenção e tudo muda. Todos os jogos vão se encaixando e pronto, encerra-se com louvor a paciência.  Tenho uma alegria enorme quando isso acontece pois lembro que em algum momento da vida quando achei que nada ia dar certo, saía uma carta da cartola mágica e o problema se resolvia…. As vezes está ali, bem ao lado, e a gente não consegue enxergar…. É aprender a ver com olhos menos viciados, uma das melhores técnicas para montagem de quebra-cabeças…. Quando não encontro uma determinada peça, faço pausa, mudo de assunto e ao voltar ela surge. É o desapego nos pequenos gestos…

Nestes últimos anos estou aprendendo a dar tempo para o olhar, perceber o que está no em torno, ver os pequenos milagres de cada dia. É soberba a luz entre as árvores no fim da tarde, o facho de sol que entra no box quando tomo banho bem cedo. Deixo seus raios aquecendo as minhas costas pois alguém me disse que é bom para espantar tristeza. Tristezas não tenho. Nem mesmo quando escuto uma música antiga, destas de rasgar os pulsos que vem na voz da Bethania… Estou me afiando na simplicidade e constato o quanto os meus amigos que estão nos grandes centros ficam sensibilizados quando posto uma foto no Instagram de um barquinho à deriva no rio, um vídeo da água correndo com a balsa,  um pica-pau de crista branca, a orquídea Dora que sempre floresce, a abóbora que surgiu da terra de compostagem, o mesmo com os melões quase no ponto… Fatos do meu cotidiano, em casa ou a caminho ao trabalho…Viver tudo isso me dá uma enorme alegria  mesmo sem inspiração para a crônica desta semana… Mas será que precisa ?

Sobre (e sob) a rede

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Há pouco mais de um ano Sara, moradora de São Paulo, apaixonada por New York, criou um espaço no Instagram para compartilhar fotos da Big Apple e convidou turistas e profissionais a fazer o mesmo… Assim surgiu @what_i_say_in_nyc que na semana passada tinha mais de 153 mil seguidores de todas partes do mundo postando fotos de ângulos fantásticos… Juntos construíram um grande álbum, formaram uma enorme tribo de loucos por Manhattan… O que começou como hobby e a deixava no conforto do anonimato, a semana passada tomou outra dimensão. Ah! o sucesso, sempre o sucesso, com o ego a inveja na cola,  de repente, ela viu sua conta hackeada. Trocaram a senha, mudaram o nome e começou uma conversa de extorsão. Momentos de terror até uma amiga conseguir postar um aviso que a conta tinha sido roubada e os seguidores que nunca a tinham visto, não sabiam se era mulher ou homem, nem em que lugar do planeta morava, passaram a enviar mensagens à base do Instagram denunciando o fato. Os gerentes internacionais responderam e mais do que devolver o espaço à Sara estão tentando enquadrar o larápio.

Este grito nas redes me fascina e me assusta.  Ao mesmo tempo são movimentos mágicos. Estamos vivendo isso todos os dias… Alguns assustam pela violência que vem nas entrelinhas ou até de forma bem direta… Prefiro os movimentos mágicos da rede embaixo de uma arvore que me levam à reflexão. Citar Nova York é sempre puxar um fio atoa na memória, qualquer imagem vem carregada de lembranças. Do sabor do cachorro quente nas esquinas, ao cheiro das castanhas assadas, o prazer da taça de vinho branco as sextas-feiras no bar da Grand Central, o vento frio no inverno cortando as ruas da ilha… Tudo me lembra… Viver lá aos 32 anos foi a primeira grande experiência pessoal que a vida me deu. Conclui este fato nos últimos tempos. Era eu comigo, eu com Deus e that´s it. Foram muitos fins de semana sozinha. Lembro que acordei uma segunda-feira com dor nos braços. Já no trem, a caminho do trabalho, ao ajeitar a roupa no corpo dei conta que tinha passado dois dias sentada no sofá fazendo aquela blusa de tricô. Explicada a dor nos braços e o sentimento de que cada ponto tinha um pensamento, um sonho, uma possibilidade, uma saudade.

Aprendi a colher as folhas de oak que caíam no jardim, a lavar, passar e arrumar. Andar na neve, ter reservas pois se o dinheiro acabasse não havia a quem pedir. A cortar o próprio cabelo, fazer mãos em pés nas noites de spa que inventava na banheira de casa. Quem não conviveu com a solidão, desconhece seus limites, diminui seus horizontes. Uma amiga que salta em paraquedas, parapente e asa delta, desce corredeiras em caiaque, faz stand up paddle, está com um frio na barriga pois pela primeira vez vai morar sozinha. Ela ainda vai descobrir o quanto será uma experiência transformadora. Mas não adianta falar, tem que meter a cara… Acho que a vida não é para passo miúdo. É para quem se arrisca, se atira no trampolim sem rede e se permite depois ficar deitada em uma, olhando o sabiá que constrói um ninho e nada mais importa neste momento.  Nem mesmo uma foto de New York.

1961

“Olá Léa, estou enganado ou você morou na rua Cascata, na Tijuca, Rio de Janeiro ? Em caso afirmativo, dentre outras, fomos colegas de colégio.  Sou Luiz Cezar, do Colégio Tijuca-Uruguay na rua Conde de Bonfim. “

Sou eu sim, respondi rapidamente à mensagem que chegou no facebook.

“Na época você tinha os cabelos compridos e era loura, muito bonita…”

Não era eu. Você está confundindo. Fui loura quando criança, depois alourei na maturidade com a ajuda de produtos químicos e confesso que não era um modelo de beleza para ser inesquecível….

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Procuro o perfil de quem manda a mensagem e encontro um homem próximo aos 70 anos, cabelos grisalhos com uma criança ao lado. O neto, presumo eu. Bingo, ele confere.  Uma série de nomes de ex-colegas ele traz à conversa. Lembro vagamente. Mas me recordo com todas as cores e formas da proprietária do colégio, Da. Carolina e sua irmã a ensandecida Da. Lola, loura platinada, que tirava o apito do bolso do avental para chamar os alunos. O colégio ficava em uma linda casa do tempo em que a Tijuca era um bairro elegante de classe média alta. Na parte superior era a residência da família, embaixo os empregados. A casa virou colégio na parte de serviço e as irmãs solteironas continuavam morando na parte alta. O quintal era grande, havia até uma quadra para esportes… Era um colégio pequeno, poucas turmas, na parte da manhã atendia ao ginásio e à tarde ao primário.

Cheguei lá por acaso. No dia 1 de janeiro de 1961 a minha família mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro. Viemos em uma Kombi parando pela Dutra diante da ressaca do papai com tantas despedidas no réveillon. No volante papai, como copiloto mamãe, e distribuídos nos dois bancos cinco filhos legítimos, duas adotadas e um cachorro. Ainda tinham baldes, vassouras e panos para a primeira faxina na casa que papai havia alugado no bairro da Tijuca.  Aos 12 anos tudo o que eu conhecia do bairro era a casa da Da. Marina, mãe da tia Lygia, comadre e amiga da mamãe, aonde fiquei algumas vezes quando criança esperando ser levada para a casa da madrinha em Laranjeiras ou da vovó em Niterói.

Chegamos com o dia escurecendo, não havia luz nem móveis, mas achei linda. Em poucos dias estávamos bem instalados naquela grande casa, na arborizada e bucólica rua da Cascata, uma ladeira aonde no final havia uma queda de água entre as pedras e ao lado uma longa escadaria com acesso ao Morro da Formiga.  Uma rua residencial que tinha uma singela vila na entrada e apenas um pequeno edifício de três andares bem na metade. Gostei do novo ambiente, fiz algumas amizades e papai recomendou ao Victor, meu irmão quatro anos mais velho, que buscasse uma escola para nós dois. Depois de alguma pesquisa nas redondezas ele se encantou com a Tijuca-Uruguay, creio que muito mais pela arquitetura, as pitorescas dirigentes e o poético nome grafando Uruguay com ypsilon, do que por seu currículo escolar, tanto que lá só ficamos um ano.  Talvez por isso a memória dos tantos amigos que Luiz Cezar desfiou em nossa conversa era frágil.

Mais do que o colégio, professores e amigos, este ano eu descobri o Rio de Janeiro. O ônibus lotação que ia até Copacabana, o bonde até a Praça XV e Praça Tiradentes quando ia às compras com a mamãe, e todos os cinemas que haviam na Praça Saens Peña  – Olinda, Tijuca, Metro, Carioca e América – uma diversão aos domingo à tarde.  Foi uma paixão pela cidade e seu povo que eu não entendia como em dias de chuva usavam casaco e calçavam sandálias, pois no inverno em São Paulo eu aprendera a usar meias e sapato fechado. Era divertido ver como as pessoas eram muito mais espontâneas, conversavam em qualquer fila e no bonde, contavam suas histórias, e depois iam embora sem mesmo saber se iriam se reencontrar. Aprendi a comprar leite e manteiga fresca na CCPL, havia a Casa do Sabão que vendia tamancos de madeira que eu nunca tinha visto. Este foi o ano em que comecei a me tornar mulher: menstruei e ganhei o primeiro sutiã. Foi o ano em que comecei a dançar nos bailinhos do Clube Montanha e a torcer por meu irmão como goleiro no time da rua Canapó vestindo uma camisa escrita Smith que se transformou em seu apelido…

 

Foi um ano que me marcou profundamente, quando eu assumi que queria ser carioca, falar arrastado, escrever poesias sem nexo e saber sambar. Sinto muito Luiz Cezar, mas com tantas novidades você há de convir que o colégio era mero detalhe. Um turbilhão de novas emoções e descobertas como sentir o vento fresco no rosto quando seguia a passeio de bonde para o Alto da Boa Vista, ou quando papai colocava todos os filhos na Kombi e levava para tomar banho nas águas revoltas da praia da Barra. Era mais areia do que mar. Na volta parávamos em uma barraquinha e nos deliciávamos comendo milho verde. Mas sou imensamente grata por você ter tocado nesta memória e transformado este meu fim de semana em maravilhosas recordações…

Tá tranquilo, tá favorável

Noite estrelada, estendi o lençol no fio de aço no jardim, as cadeiras foram distribuídas formando a plateia, fixei o projetor em uma escada, o notebook no banquinho mais alto, o som no mais baixo, tudo pronto para receber os amigos iniciando uma nova temporada do Cine Clip com filmes fresquinhos… Do Oscar para as telas de Santo André… Luzes apagadas, pipocas nos potes, começa a sessão com a exibição de “Spotlight”, segundo a academia americana o melhor filme de 2015, quando o telefone toca na sala. Poucos chamam este número, geralmente amigos muito próximos, a família. Corri para atender e em clima do filme no primeiro momento não reconheci a voz. Mas a notícia era contundente. Uma pessoa muito querida acabara de ser diagnosticada com Parkinson. Ouvi sobre a dificuldade na locomoção, as quedas e o estado depressivo com o resultado dos exames. Desliguei o telefone com o coração partido e voltei à plateia como se estivesse tudo ok. Este processo louco é muito meu frente às notícias ruins. Continuo firme no que está rolando em volta e preciso de um tempo para a ficha cair literalmente. E a ficha caiu no dia seguinte. Amanheci lendo tudo que encontrava na internet sobre o assunto, procurei uma amiga médica que em meio a um longo papo saiu com uma frase simples que mudou minha forma de encarar tudo isso.

“Só quem vive mais tem estas doenças”.

A mais pura verdade. Se eu só tivesse passado dos 15 anos teria apenas conhecido sarampo, catapora, caxumba, coqueluche e talvez hoje nem ouvisse falar sobre isso com tantas vacinas no mercado. Mas passar dos 70 se enquadra bem naquele trecho da música Esotérico do Gil :  “mistério sempre há de pintar por aí”… Vida e morte estão no percurso… Com isso lembrei de um fato interessante que aconteceu há alguns anos na minha vila.  Quando cheguei há quase 12 anos ouvi que era difícil alguém morrer, nascer era mais fácil. Contava-se nos dedos os velórios até que em um ano foram vários. E foi em um destes que ouvi do Vitório uma declaração surpreendente:

“Vou mudar daqui pois não quero que a morte me pegue”.

Vitório tinha idade indefinida. Provavelmente muito mais que 60. Negro e forte, rosto expressivo e vincado, cortava madeira na roça e vendia para fazer cercas. Mas o Ibama proibiu a poda que ingenuamente ele acreditava ser “árvores de mato”, mas eram da preservada Mata Atlântica. Com isso ele começou a vender vassouras de piaçava que fazia retirando o produto também da roça. Fazia uma porção de bicos, tomava uns tragos e saía tagarelando pelas ruas e vielas sobre a mudança que deveria fazer. Não conseguiu mudar de vila nem de vida, e não faz muito tempo partiu.

Foto : Cláudia Schembri

Então, quando reflito sobre o tempo, lembro que a morte não se escolhe, não se foge nem se espera. Ela chega na hora certa. Até lá o melhor é pensar que somos imortais. Acredito na qualidade dos meus pensamentos e dos meus desejos, o que jogo ao mundo volta para mim na mesma proporção e sempre há alguma coisa legal que se pode fazer…Por enquanto, tá tranquilo, tá favorável !!

Voltei

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Nos últimos anos tem sido assim: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro correm mais do que as minhas pernas podem alcançar…. Hospedes chegam e partem, amigos visitam, passam para uma conversa, um almoço ali, um jantar acolá, uma tapioca no café da manhã, um prosecco na praia – todo mundo toma espumante! – , um vinho no fim da tarde, eles estão de férias e eu trabalhando, em casa e na prefeitura. O filho me conforta por 4 semanas, longas conversas, vida colocada em dia, presente e futuro. Acompanho a sua maturidade, orgulho do seu caminho bem construído.  Fico feliz com suas escolhas e a forma clara, lucida de olhar o mundo.  Recebo como presente uma foto nossa reproduzida em um bordado. Não pode ser mais delicado… Continuo costurando amizades e afetos, em forma de bonecas e colchas… Num êxtase de inventividade, uni retalhos com bordados e ficou surpreendente… Nenhuma modéstia, a esta altura da vida este sentimento deixou de habitar em mim.

O carnaval passou e pela primeira vez vi como é em Cabrália. Acontece uma semana antes do original, já é tradição. É a Bahia com todos os Bs As Hs  Is e As em caixa bem alta. Impossível conversar no volume do trio elétrico. Entrei em um para ver como é e babei com a super sofisticação da área interna. Suítes de luxo, palco de responsabilidade. Fico surda e tento entender as letras geralmente com duplo sentido na mistura de ritmos sertanejo, arroxa, pagode e o que mais vier. É assim por aqui. Tão perto e tão diferente do bloco de Santo André que sai no sábado de carnaval com sua charanga tocando “mamãe eu quero” e outras tantas marchinhas, levantando poeira pelas ruas, homens vestidos de mulher, crianças de borboleta, fantasias bizarras, poucas baianas…Tudo inesquecível…Uma exaustão, um prazer único, quem viveu pode contar.

Aproveitando a entressafra de dois dias com casa vazia, dei folga para a turma que pega pesado comigo, tempo para respirar, bateu um banzo. Saudades de escrever e dos irmãos. Tenho muitos amigos e pouca família. Não vejo há tempo os que me viram com catapora, com quem dividi a lata de leite condensado, disputei o ultimo bife do prato, dancei até cansar, pedi colo, dormi junto, compartilhei sonhos e mangas caídas do quintal. Em volta da mesa no almoço de domingo éramos um grupo forte, parecia que a cena jamais se apagaria. Caímos na vida, os esteios da casa partiram e temo em nosso reencontro sermos apenas velhinhos com pouca memória…

Nas memórias recentes encontro para jantar um amigo que hoje mora em BH e conheci quando cheguei na Bahia. Pensei um projeto, ele deu força, montamos juntos e assim nasceu a Caravana Veracel, uma ação de cidadania que só por ter visto acontecer justificaria a minha existência. Já disse isso também no projeto de voluntariado em Lisboa em 2004, no relato sobre Jerusalém em 2012, e sou feliz por ter sido parte de tantos sonhos, por onde deixei um pedaço de mim, vi se tornar realidade. Como é bom fechar ciclos, iniciar novos…. Estou neste tempo, enfim um novo ano… Sei que algumas vezes o barco emperra na areia, o motor não pega, dá preguiça e não há muito a fazer senão esperar a maré subir e ganhar novamente o mar. E chegou a hora. Estou soltando as amarras, 2016 aqui vou eu…

Presente da Lilly

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Chegou um panetone. Presente que a Lilly mandou de SP pelas mãos gentis da Ana e do Augusto que todos anos veraneiam em Vila de Santo André. Abri o pacote de veludo e enfeite dourado para saborear a iguaria com café e ao mesmo tempo uma gavetinha da minha história também se abriu. Ah! como a memória gosta de sair para dar umas voltas e se fazer lembrada.

Era 1991, pós Rock in Rio no Maracanã, uma amiga convidou para assistir a palestra de um médico brasileiro que morara nos Estados Unidos e chegava com a novidade de um curso que ia mudar meu jeito de encarar a vida, desfazer traumas, aprender a ser mais inteligente e maximizar o uso do meu cérebro. Não perderia essa novidade por nada neste mundo e no dia marcado lá estava eu no salão de um hotel em Copacabana, num grupo de quase 100 curiosos, onde se destacavam estrelas globais, donas de casa, esotéricos, filósofos, psicólogos, estudantes, aposentados, médicos, e por aí vai…

Professor, palestrante de primeira linha, deixou a plateia boquiaberta. As possibilidades que ele mostrava para compreensão das pegadinhas que se cria na mente e como superar eram fascinantes. Desfazer trauma era ali, em 5 minutos. Era melhor do que os tantos anos que fiz de análise. Trouxe meu filho para o assunto, fizemos outros tantos cursos surgindo assim uma amizade com Lair Ribeiro. Certa vez em uma passagem pelo Rio de Janeiro saímos para caminhar na praia e ele me revelou que estava escrevendo um livro que ia vender mais de 100 mil cópias. Achei um delírio! Eu tinha alguns clientes na área editorial, pensava conhecer o mercado e não quis ser a “estraga prazer”, mas achava que era sonhar demais.

Ledo engano. “O Sucesso Não Ocorre Por Acaso” lançado em 1992 foi lido por mais de um milhão de pessoas e ficou meses entre os mais vendidos. Por este motivo jornais e revistas que classificavam os livros em Ficção e Não Ficção criaram o segmento Autoajuda. Como já  ouvi o Lair dizer, livro de geografia também pode ser considerado autoajuda pois o ajuda a conhecer um assunto sem professor. Era mais cômodo pegar a denominação utilizada nos Estados Unidos para os manuais onde as pessoas resolviam seus problemas sem terapeutas, bem no estilo “do it yourself – faça você mesmo” que os americanos adoram. Rotularam sem querer entender o conteúdo científico em como usar o cérebro de uma maneira eficaz. Não é ovo de Colombo, publicações do gênero são centenárias, o homem sempre quis saber como se desenvolve o pensamento. E morando nos Estados Unidos ele foi estudando e buscando conhecimento em programação neurolinguística, aprendizado acelerado, gestalt e uma terapia corporal chamada Three-in-one, criando os cursos de onde vieram vários livros.

Lair virou estrela na mídia, acho que foi o único entrevistado que não deixou o Jô falar. E como em nosso país ser bem-sucedido é crime, com a grande exposição não demorou a surgirem comentários deselegantes à sua literatura e duvidosos às técnicas que utiliza. Para mim nada mudou. Estou acostumada a ter amigos alvos de polêmica. Tinha menos de 20 anos quando participei de movimentos de esquerda e pouco depois trabalhava com Flávio Cavalcanti que diziam apoiar a ditadura. Aprendi que os cães ladram, a caravana passa e o que importa é a ética e a fidelidade aos amigos.

Não vejo Lair há alguns anos. Sei que além de cardiologista fez uma formação como nutrólogo – não confundir com nutricionista – e segundo alguns amigos que atuam na área médica, ele é o médico deste tempo. Seu olhar sempre esteve voltado para o novo homem e hoje além da mente, se preocupa também com os alimentos, hormônios, desenvolvimentos frente a longevidade com qualidade. Criou um curso de Pós-graduação em Nutriendocrinologia Funcional com módulos sobre teorias do envelhecimento e metodologia científica, gerenciamento de estresse, função das proteínas, carboidratos e gorduras, doenças degenerativas, manutenção de fluídos corporais, envelhecimento cutâneo e rugas faciais, e por aí vai num mundo novo. Começou com 30 alunos, atualmente são mais de 400. Os livros vão muito bem, umas 3 dúzias, alguns esgotados, distribuídos por todo o mundo. …

Lembrei de tudo isso pois chegou um panetone que a Lilly, mulher do Lair, mandou e foi saboreando com café em torno da mesa, conversando com a Ana, o Augusto e o Bernardo vieram essas memórias de carinho e respeito pelos amigos.

Viva!

11129843_1029878993690528_1316757353_n (1)Pouco mais das 5 da manhã quando saí para a praia, olhei o quadro na varanda com fotos ​de muitos amigos e vi quantos já partiram… Nem chegaram a minha idade… ​Estou no lucro mesmo fazendo aniversário em tempo de ressaca de Natal e Ano Novo. Aprendi a festejar assim. Alguns amigos cansados de festas, muitos viajando, outros começando dieta, mas nem por isso deixei de ser feliz apagando as velinhas com grande ou pequena platéia.

Fui caminhando pela servidão, vendo o sol nascendo no mar e agradecendo pela vida… Extasiada com o  escândalo do canto dos pássaros, a beleza do flamboyant que por falta de chuva continua florido, tudo é motivo de gratidão. Aniversário é dia de reverenciar os antepassados, mesmo os que não conheci .  Estiquei a canga na areia e olhando o mar com o sol nascendo agradeci à família, ao meu filho, aos meus mestres, aos amigos de sempre, aos amigos recentes, aos amigos virtuais, muitos eu nem conheço a voz, nunca vi pessoalmente e leem meus textos, comentam meus posts, me querem bem…

Este aniversário chega acompanhado de uma reflexão promovida por um curso de Eneagrama que aconteceu esta semana em Vila de Santo André. Ah! esta vila sempre surpreende! Adriano Fromer Piazzi é um editor de livros bem-sucedido, nos últimos anos tem se dedicado a este estudo e aproveitou a semana para dar um curso com as primeiras noções. Eu conheço o assunto, estudei em dois workshops, mas num pré aniversário voltar a pensar em quem realmente sou foi mais que perfeito.  Eneagrama não tem a ver com signos, não vem no gene e nem se desenvolve com a educação familiar. São 9 perfis de personalidade, fala-se sobre isso  desde a antiguidade. Nos últimos tempos passou a ser uma ferramenta muito usada para autoconhecimento e por empresas para selecionar os profissionais adequados à cada função.

Neste curso de dois dias mais uma vez constatei que sou forte, obstinada, firme, confrontadora e não peço ajuda.  Como é duro não mostrar a fragilidade… Sou rebelde, mandona, radical… Já fui bem mais, nos últimos anos a vida me amaciou.  Assumo o controle do que faço, dos assuntos mais complicados aos mais simples, e como já ouvi dezenas de vezes “entrega para a Léa que ela resolve”. Falo o que penso, tenho uma ética muito pessoal, acredito na justiça e na integridade. Sou de explodir mas me recupero rapidamente. Nada como uma noite para aliviar. No dia seguinte passou, não guardo mágoa, posso ignorar quem me fez mal, mas não desejo o mal. Adoro a verdade, não consigo atuar nas meias palavras. Tem que ser certo, reto. Sou generosa, boa parceira, pau pra toda obra.​

Revi meus sentimentos e atitudes. Alguns a favor, outros mais delicados,  mas saber quem sou simplifica tudo. Sei aonde estou pisando e mesmo  quando parece que tudo vai desmoronar não tenho medo. Medo apenas de ter medo. Revi também a personalidade dos outros tipos. Do super exigente, ao temeroso, passando pelo romântico e o mental. Os que empurram com a barriga, os que não querem aplausos e os que sofrem por não ter… Bom constatar que não somos iguais, isto me reafirma a importância de ter mais respeito ao semelhante e, numa boa, eu não aguentaria  conviver apenar com Leas.

Jamais imaginei quantos anos viveria e aonde chegaria. Fazendo o que ? Com quem ? Não pensei sobre isso nem aos 20, nem aos 40, quanto mais passando dos 60. Fui fazendo a vida com o que se apresentava. Um dia de cada vez, sem muitos planos a longo prazo, com um enorme prazer em estar no momento presente que foi se desdobrando e me trazendo presentes. Presentes em forma de amigos, desafios, afetos, alegrias, conquistas, amores, aprendizados…

Este ano vivi mais Santa Cruz Cabrália, a cidade da minha doce Vila de Santo André. Expandi conhecimentos, fiz amigos e sou grata ao Prefeito Jorge Pontes por ter me convidado para ser Secretária de Comunicação. Um aprendizado todos os dias. Este ano me encantei com as aulas de cerâmica, dar forma ao barro, ver queimar, colorir, transformar em peças… Costurei menos do que queria, rezei bastante…

Ah! vida!!! Quanto ainda por fazer ! Mais amigos, mais conhecimentos, mais esperança, mais obras em casa, mais hóspedes, mais saúde, mais risadas, mais lágrimas de alegria, mais surpresas… Que coisa boa é estar ainda por aqui… E  que venham os dias, meses e anos que tiverem que vir e eu serei eternamente feliz !

 

 

 

 

 

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 20.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 7 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Felicidades

O publicitário Nizan Guanaes publicou a semana passada na Folha de São Paulo, um belo artigo com o sugestivo título “Rezar”. Como eu rezo, compartilhei no FB e outros tantos amigos comentaram e multiplicaram a informação. Uma corrente bacana se formou. Até onde eu vi eram mais de 24 mil compartilhamentos.  Eu penso que o que passa pela nossa cabeça é o alimento para a alma e o coração. Minhas constatações, não tem fundamento científico, apenas um olhar à vida e um ajuntamento de leituras variadas.

Eu sei como é difícil silenciar a mente. Ela fala mais do que a boca, corre de um lado para outro, muda de assunto traz lembranças antigas, projeta diálogos que jamais existiram, anda para frente e para trás no tempo.  Aquietar é tarefa árdua, por isso creio que enquanto rezo ou medito ou repito um mantra fujo da “mente vazia morada do demônio”. Ouvi pela primeira vez esta frase devia ter pouco mais de 13 anos. Ao lado da grande casa em que morávamos na Tijuca vivia uma família que tinha apenas um filho estudante do Colégio Militar, aplicado e bonitão. A mãe zelosa repetia esta frase ao telefone para as garotas que o procuravam, acrescentando: “pensa em outra coisa, vai ser melhor para você. ” E eu ouvia por trás da veneziana da janela do meu quarto e imaginava como devia ser difícil pensar em outra coisa e sedutora a morada do demônio com desejos ilimitados…

anjo

O céu e o inferno, anjos e demônios, caminharam comigo ao longo dos meus 10 anos de idade. Na 4ª. série do primário, hoje ensino fundamental, entrou uma nova aluna que sentou na carteira ao meu lado. Sim, as carteiras escolares eram duplas, quem passou dos 50 conheceu esta forma integrativa nas antigas salas de aula. Rapidamente ficamos amigas e um dia ela confidenciou que via o meu anjo da guarda. Estudávamos em colégio de freiras e santos, anjos, querubins eram temas corriqueiros. Mas ver o anjo da guarda era delírio. E é claro que entrei nesta viagem sem contar para ninguém, nem mesmo ao padre no confessionário. Durante todo este ano, comi metade do prato de comida, meio sanduíche, meio picolé. Corri menos, pedalei menos ainda. Deixei de subir em árvores, pulei pouco corda, dormi num canto da cama, pois tinha que deixar espaço para o meu anjo. Ele não podia se cansar e também tinha suas vontades. Assim vivi um ano exercitando o dividir com quem não via. Apenas acreditava que estava comigo, zelava por mim. A garota foi embora o ano seguinte, e por mais doido que tenha sido a experiência aprendi a conversar com o meu anjo, com um Deus, sem qualquer medo do fogo do inferno.  Com Ele posso dividir alegrias, tristezas, duvidas… Prato de comida não é mais necessário…

Mesmo nos períodos em que estive mais para o profano do que para o sagrado, permaneci acreditando que foco, atenção, boas palavras e bons pensamentos, transformam.  Aonde você coloca a sua atenção – ou tensão, ou tesão – vai dar frutos. É por isso que neste final de ano, desejo que você ganhe alguns minutos de prazer em sua vida como uma prece, ou reflexão, ou meditação ou apenas um pensamento de gratidão por mais este ano.  Foi muito bom ter me disciplinado a escrever todas as semanas, feito novos amigos, compartilhado meus pensamentos. Que todas as boas coisas do universo façam parte do seu novo ano… Feliz 2016.

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O inquilino

Bom dia Léa!

Bom dia João!

Durante quatro meses, todas as manhãs, repetia este diálogo.  Ele chegava de mansinho e me pegava no computador. Amigo de amigos de Belo Horizonte, João, poeta e advogado, veio passar uns dias na minha pequena Pousada Banana da Terra. Chegou em meados de junho, encontrou os primeiros dias chuvosos, mas na sequencia veio muito sol para curtir a praia. Foi à festa de São João na beira do rio, se encantou com os cenários que gratuitamente a natureza oferece, e a simplicidade da vila tranquila na baixa temporada fez João desejar por aqui viver quatro meses sabáticos. Voltou para BH só para organizar a vida, avisar aos filhos e amigos. Preparei um chalé para recebê-lo, construí uma pequena cozinha, uma nova varanda para a longa temporada. O quarto ganhou um gaveteiro para guardar mais roupas, na sala uma mesa para o poeta colocar seu computador e derramar a poesia.

JP_chegando

João chegou dia 11 de agosto com uma mala grande e o olhar curioso. Muitos livros na bagagem. Bermudas, camisetas, sungas para a praia, sandálias havaianas, um belo desafio pela frente, mas rapidamente se adaptou ao mundo semi rural. Conheceu os arredores, passeou de barco nos manguezais de Belmonte, navegou no Jequitinhonha, conheceu Canavieiras e em Porto Seguro foi apenas uma vez para comprar uma bicicleta e um par de tênis para as caminhadas na estrada de terra. Acordava por volta das 5 horas, andava na praia, pedalava 2kms até a balsa, fez aulas de yoga e de cerâmica, participou da cerimônia de meditação da lua cheia. Foi a festas, fez amigos, almoçou em todos os restaurantes e no final da tarde pegava uma cadeirinha e ia para a beira da praia ver a lua chegar.

Dr. João Paulo, de sobrenome tradicional mineiro, se transformou apenas em JP, mais um morador da vila. Não leu os livros, nem escreveu poesias… A escrita ficou restrita aos e-mails para a família e amigos dando notícias que estava bem. Talvez não acreditassem que fosse suportar tanto tempo longe da civilização. Sentiu-se solto e livre como um dos tantos passarinhos que iam comer mamão na frente do seu chalé. Todas as manhãs ele esperava um esquilo descer pelo velho cajueiro em busca de algum fruto do dendezeiro e mimava Xico e Akira dando biscoitos. Regou a grama do jardim próximo ao seu chalé, cuidou da planta que dei como presente no aniversário e teve festa surpresa com bolo. A saúde ficou ótima, com a  pressão estável e nem mesmo o tempero baiano fez qualquer mal.

Mas como o tempo era marcado no calendário, sexta-feira passada, cumpridos 4 meses, João voltou para BH… Foi organizar a vida, decidir o que fazer com o apartamento, os móveis, os objetos guardados em seus poucos mais de 70 anos, Quer voltar pois como cantarolava “tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem…”. Descobriu que pode viver com muito pouco, pois o que tem na natureza preenche o coração. Quando nos despedimos seus olhos ficaram cheios de água. Poetas são sensíveis. Disse que volta depois do carnaval, enquanto isso o esquilo, o Xico e a Akira, a grama e o vaso com planta, a lua e as estrelas, a Lelê, a Fatinha e o Emanoel, a bicicleta, o caminho da praia, as ondas do mar, a estrada até a balsa e todos os seus amigos ficarão com saudades…

Bom dia João !