Por fora como é por dentro

Minha mãe nunca me falou sobre envelhecer. Creio que as mães não comentam com as filhas, pois preferem que, assim como elas acreditaram, continuem pensando que a juventude vai ser eterna. Quantas vezes sentei ao seu lado na sala de televisão e, enquanto agilmente ela fazia tricô, lembrávamos histórias divertidas da família, conversávamos sobre a vida dos outros, mas jamais falamos sobre aquele momento em que ela vivia, como se sentia com os cabelos além de brancos estarem mais ralos, a coluna arqueando o corpo, as veias marcando as mãos e se mostrando azuis nas pernas muito brancas.

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Minha mãe nunca me falou sobre como viu seus bebês se tornarem adultos e um dia chegarem em casa trazendo seus próprios bebês formando uma família. O assunto sempre ficava na periferia do bom casamento e seriam felizes para sempre. Não soube o que pensava sobre o sentimento de mulher transformada em avó, nem ousei perguntar como se sentia quando percebi que não tinha mais opinião nos encontros aos domingos. Todos falavam, menos ela. Seu ponto de vista era importante apenas quando se tratava de receitas caseiras, uma referência sobre a árvore genealógica da família ou o melhor modelo/cor para um casaquinho de bebê.  E mamãe sempre foi de opinião, mas o tempo foi deixando-a mais pensativa…

Minha mãe nunca me falou sobre como era ver seus pares partindo. A avó, os pais, os tios, primas, amigos, irmãos, alguém querido saindo de cena deixando o espetáculo mais pobre, os diálogos interrompidos, a risada murcha, o volume da trilha musical diminuindo.  Chegavam outros personagens, mas já era outro espetáculo. Aqueles que a acompanharam por tanto tempo ia fechando a cortina, ficava faltando um pedaço, como se tirassem o corrimão na subida da escada, a calda de ameixa no manjar branco, a meia quente na noite fria. E agora, no meu contexto, fico refletindo sobre como conviver com esta mudança de encenação constante, com tantas perdas a cada semana…

Minha mãe nunca me falou sobre os calores no corpo que mesmo pós menopausa continuam a acontecer. Não comentou sobre desejos e prazeres, sobre abraços e afeto, nunca soube quanto carinho ainda havia entre ela e papai depois dos 80. Ela comentou depois da morte do papai que num período curto em que ele passou por um processo de demência senil e levantava-se de madrugada querendo ir trabalhar, ao dormir ela amarrava a ponta de uma fita no seu pulso e a outra no dela, assim estaria junto em qualquer circunstância.  Não tenho em quem amarrar a fita, mas me encanta estes amores eternos… Choro com cenas de amor nas telas, com músicas apaixonadas

Minha mãe nunca me falou sobre como é sem graça viver sem mãe. Ela bem que podia ter contado pois teve esta experiência antes de mim. E quando entra o mês de maio e se aproxima o seu aniversário e dia das mães, lembro sobre o que me ensinou e também o que esqueci de perguntar. Agora não dá mais tempo para saber o que pensava sobre tanta coisa, mas jamais vou esquecer o que me ensinou, e uma das preciosidades foi como cuidar do acabamento no tricô, no bordado, no crochê, na costura…. Ela dizia para não deixar nós, linhas soltas, qualquer obra deve ser bonita do lado direito como no avesso, tanto na frente como atrás. E este acabamento na construção de uma obra tomei como rumo na vida. Serve para amizades, amores, trabalhos, textos, seja lá o que for. Tem que estar bem-acabado, bem-cuidado, bem-preservado, por dentro e por fora…. Obrigada Yayá… Nessa reflexão, vejo que tenho as respostas prás perguntas que formalmente nunca te fiz! Muito amor por você!

Ver com outros olhos

“Amanhã às 8 você faz a cirurgia… leva o cartão do SUS e o RG…”

“Estou trabalhando, não posso…”

“Oportunidade não se perde…”

Eram quase 5 da tarde quando aconteceu este diálogo. Saí atrás da Aninha, Secretária de Saúde, pedindo ajuda para saber como ter o cartão do SUS. Em poucos minutos estava em minhas mãos, é um procedimento muito fácil, me perguntei por que não fiz antes, pois mesmo com plano de saúde nunca se sabe o que a vida reserva na emergência. Segui com o cartão e sem a certeza de aceitar a proposta. Eu nada tinha pedido. Comentara sobre a necessidade de algum dia fazer esta cirurgia que não há como fugir, é questão de tempo, e assim do nada caiu a solução na minha mão. Era um prêmio que não sabia se devia receber. Continuei trabalhando até as 11 da noite, dividida entre meus pensamentos e a frase repetindo no ouvido “Oportunidade não se perde…”  Lembrava do meu plano de saúde, mas também da dúvida em fazer uma cirurgia que é simples, mas tão delicada, com algum médico no sul da Bahia.  E este grupo de cirurgiões oftalmologistas que acabara de chegar faz parte do melhor time de São Paulo.

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Há três meses eu estava às voltas com o projeto Voluntários do Sertão que escolheu Santa Cruz Cabrália para, durante 5 dias, fazer uma enorme transformação na vida da população. Poderia ter sido qualquer outra cidade com menos de 30 mil habitantes no país, mas chegou aqui por vontade política do prefeito Jorge Pontes que saiu buscando em Brasília boas propostas para a saúde da comunidade. No Ministério da Saúde ele soube no Sesai – Serviço de Saúde Indígena – sobre Dorinho, um menino do sertão de Condeúba que se transformou em empresário bem-sucedido e uma vez por ano realiza um fantástico mutirão. A maior ação de saúde e cidadania gratuita do país. Na sua 16ª edição queria atender índios e foi assim que juntou a vontade política com a ação humanitária. Cabrália é uma cidade com uma das maiores comunidades indígenas em área urbana do Brasil e se adequava ao perfil. O Prefeito topou a parada de oferecer hospedagem, alimentação, transporte local e estrutura para fazer acontecer. Reformou o hospital, transformou escolas em centros de atendimentos, teve que pedir macas emprestadas nas cidades vizinhas, fez muitas reuniões com todos os secretários, vendeu o sonho até para quem não achava possível e a partir do dia 16 começaram a chegar 20 carretas, depois voos da FAB com 387 voluntários entre médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais diversos. A tudo isso somou-se 700 voluntários da cidade, entre funcionários municipais e moradores, e o sonho virou realidade. Até acontecer era difícil explicar, mas como diria minha mãe, o que é bom a gente conhece logo….

Voltando ao meu drama. Depois de uma noite entre pesadelos com discussões íntimas e filosóficas, ecoando “Oportunidade não se perde…” às 8hs eu estava no local marcado e me deparei com o circo armado. Era apenas Oftalmologia. Quatro carretas enormes cercadas por tendas. Cadeiras dispostas em filas, separadas por grades, uma triagem perfeita. O cartão do SUS e o RG na mão, digitadores conferindo informações e a fila começa a andar. Chegam voluntários pingando colírio nos olhos dos pacientes. Já dilatei várias vezes a pupila, conheço o procedimento. Crianças, velhos, jovens, mulheres, rapazes, se assustam com a gotinha. E ia eu seguindo o povo, mudando de cadeira, pois esta é uma fila sentada. À minha frente uma índia idosa, ao lado uma garota com pouco mais de 12 anos, pessoas carregando travesseiros e edredons, dormiram aguardando atendimento. Meu sentimento de culpa explode. Quero sair correndo, mas encontro com uma das voluntárias com quem conversei muito sobre logística e como superar dificuldades no evento, pois nem tudo o que pediam a cidade podia oferecer. Ela é profissional destacada de uma multinacional e uma vez por ano é só voluntária. Quando me viu escancarou um sorriso e disse: “que bom você estar aqui… faz os dois olhos de uma só vez… manda um beijo para o Dr. Neto…” e foi embora atarefada no maior astral… Recebo o comentário e carinho como sinal para não desistir, esqueço a culpa. E vou passando de cadeira a cadeira, andando muito rápido e em uma hora já estou no consultório oftalmológico. Um espaço pequeno onde cabe perfeitamente o médico sentado em um banquinho com seu equipamento e uma secretária numa mesinha com computador fazendo anotações. Ele examina e confirma: catarata. “Quer fazer os dois olhos? ”  Já não sou mais dona de mim e vou aceitando o que a vida me oferece.

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Mais gotinhas nos olhos, número do SUS e RG para um outro digitador registrar, colam adesivos na minha blusa, alguém me acompanha ao centro cirúrgico e quando percebo já estão me preparando. Touca nos cabelos, me vestem um tipo de avental, capa cobrindo os sapatos. Sentado ao meu lado, esperando a porta da sala de cirurgia abrir, um senhor passando dos 70 desabafa: “se o médico disser que não pode mais operar, vou prá casa feliz. Eu não sabia que tinha catarata”….  Assim como ele, no dia anterior uma senhorinha chegou com 100% de catarata. Estava cega, saiu enxergando tudo… Centenas de histórias assim.  A porta abre, me conduzem à uma cadeira azul tão inclinada que parece uma cama. Creio que deviam ter uma 8 iguais. Deito, alguém passa um líquido em volta do meu olho direito, cobre com uma venda, abre um buraco e coloca um aparelho para manter aberto. Incomoda um pouco. Chega outra pessoa que percebo ser o médico e pergunto quem é Neto. Era ele. Coincidência ter caído em suas mãos. Digo que Ana mandou um beijo. Ele diz que ela devia ter subido para vê-lo e avisa que vai mais uma gotinha e esta irá arder. Estou entregue às suas mãos. A partir daí fiquei com a impressão que havia uma música no ar, mas era o delicado barulho do laser. As luzes iam mudando de intensidade, parecia um caleidoscópio, até entrar um pequeno elemento verde esmeralda esplendoroso e a brincadeira acabou. Fecharam meu olho e começou tudo de novo do outro lado. Não havia passado 8 minutos quando levantei da cama. Eu enxergava tudo com muito mais luz. Saí tateando, me colocaram óculos escuros. E assim estou a menos de uma semana da cirurgia de cataratas nos dois olhos…. A minha vida tem outro brilho…. Quem passou por isso sabe o que estou falando, quem ainda não, vale saber que é o maior barato !! Nunca pensei que meus olhos estivessem tão embaçados… A gente vai se acostumando com o ruim, com poucos propósitos transformadores, nenhuma novidade e vai perdendo a beleza, o brilho e a cor… Nestes dias em que tenho que estar longe de multidão, sem óculos de grau nem olhos pintados, decidi que quero estar pronta a aceitar as ofertas de mudanças. Mesmo que tenha medo no princípio, discuta com meus botões, perca meu sono, tenho que lembrar sempre que “Oportunidade não se perde…”

EM TEMPO:

Os Voluntários do Sertão tinha estimativa de 30 mil atendimentos em cinco dias e chegou a 40.450.

As amigas

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Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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Sem palavras

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Começo escrevendo na cabeça. As vezes surge um parágrafo inteiro, fico repetindo para não perder até chegar para o papel ou amadurecer. Em outras, os pobres textos morrem antes do papel, se perdem nos labirintos do cérebro e podem retomar algum dia sem qualquer aviso. Visualizo estes labirintos exatamente como aparecem nas imagens dos cérebros, cheios de meandros, cobrinhas onde se escondem boas ideias e inspirações. Fico tentando aguçar para ver se retorna alguma frase bacana para escrever nesta crônica, mas enquanto não surge vou colecionando bons temas como por exemplo, criar um bloco para o carnaval chamado “Caiacanga”. A ideia nasceu noite dessas enquanto tomávamos vinho e comíamos o nhoque da sorte no Sant´Annas. Uma amiga, da mesma faixa etária, comentou que em determinada situação estava visitando um amigo, enrolada numa canga, desprovida de sutiã e, inesperadamente, no meio da conversa, a dita caiu. Mais do que uma saia justa! Saiu tentando se recompor, mas o que tinha que ser revelado foi. Imaginei para o carnaval do próximo ano uma ala de mulheres maduras embrulhadas em cangas e ameaçando deixar cair em meio ao desfile. Não causaria qualquer impacto na pequena vila onde moramos, mas seria uma cena bem ridícula. As exibicionistas da 3ª. idade !

Estas tolas lembranças servem só para esquentar as teclas, pois é claro que um bloco desses não se cria nem somos loucas o suficiente… Mas compartilho esse pensamento para perceberem por onde anda a minha busca de inspiração em tempos de bombardeios políticos… Enquanto não sei o que escrever, monto quebra cabeças ou jogo paciência. Tudo no computador. Deve ter mais uma meia dúzia de dezenas de pessoas que fazem o mesmo e com quem quero dividir minha mais nova descoberta, um outro lado legal destes joguinhos de cartas. Quem brinca com isso sabe que existem momentos em que parece que não vai ter mais jeito, o jogo vai parar ali, nenhuma carta vai se encaixar e perder é a única certeza. Mas, de repente, aparece uma carta que não se estava prestando atenção e tudo muda. Todos os jogos vão se encaixando e pronto, encerra-se com louvor a paciência.  Tenho uma alegria enorme quando isso acontece pois lembro que em algum momento da vida quando achei que nada ia dar certo, saía uma carta da cartola mágica e o problema se resolvia…. As vezes está ali, bem ao lado, e a gente não consegue enxergar…. É aprender a ver com olhos menos viciados, uma das melhores técnicas para montagem de quebra-cabeças…. Quando não encontro uma determinada peça, faço pausa, mudo de assunto e ao voltar ela surge. É o desapego nos pequenos gestos…

Nestes últimos anos estou aprendendo a dar tempo para o olhar, perceber o que está no em torno, ver os pequenos milagres de cada dia. É soberba a luz entre as árvores no fim da tarde, o facho de sol que entra no box quando tomo banho bem cedo. Deixo seus raios aquecendo as minhas costas pois alguém me disse que é bom para espantar tristeza. Tristezas não tenho. Nem mesmo quando escuto uma música antiga, destas de rasgar os pulsos que vem na voz da Bethania… Estou me afiando na simplicidade e constato o quanto os meus amigos que estão nos grandes centros ficam sensibilizados quando posto uma foto no Instagram de um barquinho à deriva no rio, um vídeo da água correndo com a balsa,  um pica-pau de crista branca, a orquídea Dora que sempre floresce, a abóbora que surgiu da terra de compostagem, o mesmo com os melões quase no ponto… Fatos do meu cotidiano, em casa ou a caminho ao trabalho…Viver tudo isso me dá uma enorme alegria  mesmo sem inspiração para a crônica desta semana… Mas será que precisa ?

Sobre (e sob) a rede

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Há pouco mais de um ano Sara, moradora de São Paulo, apaixonada por New York, criou um espaço no Instagram para compartilhar fotos da Big Apple e convidou turistas e profissionais a fazer o mesmo… Assim surgiu @what_i_say_in_nyc que na semana passada tinha mais de 153 mil seguidores de todas partes do mundo postando fotos de ângulos fantásticos… Juntos construíram um grande álbum, formaram uma enorme tribo de loucos por Manhattan… O que começou como hobby e a deixava no conforto do anonimato, a semana passada tomou outra dimensão. Ah! o sucesso, sempre o sucesso, com o ego a inveja na cola,  de repente, ela viu sua conta hackeada. Trocaram a senha, mudaram o nome e começou uma conversa de extorsão. Momentos de terror até uma amiga conseguir postar um aviso que a conta tinha sido roubada e os seguidores que nunca a tinham visto, não sabiam se era mulher ou homem, nem em que lugar do planeta morava, passaram a enviar mensagens à base do Instagram denunciando o fato. Os gerentes internacionais responderam e mais do que devolver o espaço à Sara estão tentando enquadrar o larápio.

Este grito nas redes me fascina e me assusta.  Ao mesmo tempo são movimentos mágicos. Estamos vivendo isso todos os dias… Alguns assustam pela violência que vem nas entrelinhas ou até de forma bem direta… Prefiro os movimentos mágicos da rede embaixo de uma arvore que me levam à reflexão. Citar Nova York é sempre puxar um fio atoa na memória, qualquer imagem vem carregada de lembranças. Do sabor do cachorro quente nas esquinas, ao cheiro das castanhas assadas, o prazer da taça de vinho branco as sextas-feiras no bar da Grand Central, o vento frio no inverno cortando as ruas da ilha… Tudo me lembra… Viver lá aos 32 anos foi a primeira grande experiência pessoal que a vida me deu. Conclui este fato nos últimos tempos. Era eu comigo, eu com Deus e that´s it. Foram muitos fins de semana sozinha. Lembro que acordei uma segunda-feira com dor nos braços. Já no trem, a caminho do trabalho, ao ajeitar a roupa no corpo dei conta que tinha passado dois dias sentada no sofá fazendo aquela blusa de tricô. Explicada a dor nos braços e o sentimento de que cada ponto tinha um pensamento, um sonho, uma possibilidade, uma saudade.

Aprendi a colher as folhas de oak que caíam no jardim, a lavar, passar e arrumar. Andar na neve, ter reservas pois se o dinheiro acabasse não havia a quem pedir. A cortar o próprio cabelo, fazer mãos em pés nas noites de spa que inventava na banheira de casa. Quem não conviveu com a solidão, desconhece seus limites, diminui seus horizontes. Uma amiga que salta em paraquedas, parapente e asa delta, desce corredeiras em caiaque, faz stand up paddle, está com um frio na barriga pois pela primeira vez vai morar sozinha. Ela ainda vai descobrir o quanto será uma experiência transformadora. Mas não adianta falar, tem que meter a cara… Acho que a vida não é para passo miúdo. É para quem se arrisca, se atira no trampolim sem rede e se permite depois ficar deitada em uma, olhando o sabiá que constrói um ninho e nada mais importa neste momento.  Nem mesmo uma foto de New York.

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“Olá Léa, estou enganado ou você morou na rua Cascata, na Tijuca, Rio de Janeiro ? Em caso afirmativo, dentre outras, fomos colegas de colégio.  Sou Luiz Cezar, do Colégio Tijuca-Uruguay na rua Conde de Bonfim. “

Sou eu sim, respondi rapidamente à mensagem que chegou no facebook.

“Na época você tinha os cabelos compridos e era loura, muito bonita…”

Não era eu. Você está confundindo. Fui loura quando criança, depois alourei na maturidade com a ajuda de produtos químicos e confesso que não era um modelo de beleza para ser inesquecível….

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Procuro o perfil de quem manda a mensagem e encontro um homem próximo aos 70 anos, cabelos grisalhos com uma criança ao lado. O neto, presumo eu. Bingo, ele confere.  Uma série de nomes de ex-colegas ele traz à conversa. Lembro vagamente. Mas me recordo com todas as cores e formas da proprietária do colégio, Da. Carolina e sua irmã a ensandecida Da. Lola, loura platinada, que tirava o apito do bolso do avental para chamar os alunos. O colégio ficava em uma linda casa do tempo em que a Tijuca era um bairro elegante de classe média alta. Na parte superior era a residência da família, embaixo os empregados. A casa virou colégio na parte de serviço e as irmãs solteironas continuavam morando na parte alta. O quintal era grande, havia até uma quadra para esportes… Era um colégio pequeno, poucas turmas, na parte da manhã atendia ao ginásio e à tarde ao primário.

Cheguei lá por acaso. No dia 1 de janeiro de 1961 a minha família mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro. Viemos em uma Kombi parando pela Dutra diante da ressaca do papai com tantas despedidas no réveillon. No volante papai, como copiloto mamãe, e distribuídos nos dois bancos cinco filhos legítimos, duas adotadas e um cachorro. Ainda tinham baldes, vassouras e panos para a primeira faxina na casa que papai havia alugado no bairro da Tijuca.  Aos 12 anos tudo o que eu conhecia do bairro era a casa da Da. Marina, mãe da tia Lygia, comadre e amiga da mamãe, aonde fiquei algumas vezes quando criança esperando ser levada para a casa da madrinha em Laranjeiras ou da vovó em Niterói.

Chegamos com o dia escurecendo, não havia luz nem móveis, mas achei linda. Em poucos dias estávamos bem instalados naquela grande casa, na arborizada e bucólica rua da Cascata, uma ladeira aonde no final havia uma queda de água entre as pedras e ao lado uma longa escadaria com acesso ao Morro da Formiga.  Uma rua residencial que tinha uma singela vila na entrada e apenas um pequeno edifício de três andares bem na metade. Gostei do novo ambiente, fiz algumas amizades e papai recomendou ao Victor, meu irmão quatro anos mais velho, que buscasse uma escola para nós dois. Depois de alguma pesquisa nas redondezas ele se encantou com a Tijuca-Uruguay, creio que muito mais pela arquitetura, as pitorescas dirigentes e o poético nome grafando Uruguay com ypsilon, do que por seu currículo escolar, tanto que lá só ficamos um ano.  Talvez por isso a memória dos tantos amigos que Luiz Cezar desfiou em nossa conversa era frágil.

Mais do que o colégio, professores e amigos, este ano eu descobri o Rio de Janeiro. O ônibus lotação que ia até Copacabana, o bonde até a Praça XV e Praça Tiradentes quando ia às compras com a mamãe, e todos os cinemas que haviam na Praça Saens Peña  – Olinda, Tijuca, Metro, Carioca e América – uma diversão aos domingo à tarde.  Foi uma paixão pela cidade e seu povo que eu não entendia como em dias de chuva usavam casaco e calçavam sandálias, pois no inverno em São Paulo eu aprendera a usar meias e sapato fechado. Era divertido ver como as pessoas eram muito mais espontâneas, conversavam em qualquer fila e no bonde, contavam suas histórias, e depois iam embora sem mesmo saber se iriam se reencontrar. Aprendi a comprar leite e manteiga fresca na CCPL, havia a Casa do Sabão que vendia tamancos de madeira que eu nunca tinha visto. Este foi o ano em que comecei a me tornar mulher: menstruei e ganhei o primeiro sutiã. Foi o ano em que comecei a dançar nos bailinhos do Clube Montanha e a torcer por meu irmão como goleiro no time da rua Canapó vestindo uma camisa escrita Smith que se transformou em seu apelido…

 

Foi um ano que me marcou profundamente, quando eu assumi que queria ser carioca, falar arrastado, escrever poesias sem nexo e saber sambar. Sinto muito Luiz Cezar, mas com tantas novidades você há de convir que o colégio era mero detalhe. Um turbilhão de novas emoções e descobertas como sentir o vento fresco no rosto quando seguia a passeio de bonde para o Alto da Boa Vista, ou quando papai colocava todos os filhos na Kombi e levava para tomar banho nas águas revoltas da praia da Barra. Era mais areia do que mar. Na volta parávamos em uma barraquinha e nos deliciávamos comendo milho verde. Mas sou imensamente grata por você ter tocado nesta memória e transformado este meu fim de semana em maravilhosas recordações…

Tá tranquilo, tá favorável

Noite estrelada, estendi o lençol no fio de aço no jardim, as cadeiras foram distribuídas formando a plateia, fixei o projetor em uma escada, o notebook no banquinho mais alto, o som no mais baixo, tudo pronto para receber os amigos iniciando uma nova temporada do Cine Clip com filmes fresquinhos… Do Oscar para as telas de Santo André… Luzes apagadas, pipocas nos potes, começa a sessão com a exibição de “Spotlight”, segundo a academia americana o melhor filme de 2015, quando o telefone toca na sala. Poucos chamam este número, geralmente amigos muito próximos, a família. Corri para atender e em clima do filme no primeiro momento não reconheci a voz. Mas a notícia era contundente. Uma pessoa muito querida acabara de ser diagnosticada com Parkinson. Ouvi sobre a dificuldade na locomoção, as quedas e o estado depressivo com o resultado dos exames. Desliguei o telefone com o coração partido e voltei à plateia como se estivesse tudo ok. Este processo louco é muito meu frente às notícias ruins. Continuo firme no que está rolando em volta e preciso de um tempo para a ficha cair literalmente. E a ficha caiu no dia seguinte. Amanheci lendo tudo que encontrava na internet sobre o assunto, procurei uma amiga médica que em meio a um longo papo saiu com uma frase simples que mudou minha forma de encarar tudo isso.

“Só quem vive mais tem estas doenças”.

A mais pura verdade. Se eu só tivesse passado dos 15 anos teria apenas conhecido sarampo, catapora, caxumba, coqueluche e talvez hoje nem ouvisse falar sobre isso com tantas vacinas no mercado. Mas passar dos 70 se enquadra bem naquele trecho da música Esotérico do Gil :  “mistério sempre há de pintar por aí”… Vida e morte estão no percurso… Com isso lembrei de um fato interessante que aconteceu há alguns anos na minha vila.  Quando cheguei há quase 12 anos ouvi que era difícil alguém morrer, nascer era mais fácil. Contava-se nos dedos os velórios até que em um ano foram vários. E foi em um destes que ouvi do Vitório uma declaração surpreendente:

“Vou mudar daqui pois não quero que a morte me pegue”.

Vitório tinha idade indefinida. Provavelmente muito mais que 60. Negro e forte, rosto expressivo e vincado, cortava madeira na roça e vendia para fazer cercas. Mas o Ibama proibiu a poda que ingenuamente ele acreditava ser “árvores de mato”, mas eram da preservada Mata Atlântica. Com isso ele começou a vender vassouras de piaçava que fazia retirando o produto também da roça. Fazia uma porção de bicos, tomava uns tragos e saía tagarelando pelas ruas e vielas sobre a mudança que deveria fazer. Não conseguiu mudar de vila nem de vida, e não faz muito tempo partiu.

Foto : Cláudia Schembri

Então, quando reflito sobre o tempo, lembro que a morte não se escolhe, não se foge nem se espera. Ela chega na hora certa. Até lá o melhor é pensar que somos imortais. Acredito na qualidade dos meus pensamentos e dos meus desejos, o que jogo ao mundo volta para mim na mesma proporção e sempre há alguma coisa legal que se pode fazer…Por enquanto, tá tranquilo, tá favorável !!

Voltei

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Nos últimos anos tem sido assim: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro correm mais do que as minhas pernas podem alcançar…. Hospedes chegam e partem, amigos visitam, passam para uma conversa, um almoço ali, um jantar acolá, uma tapioca no café da manhã, um prosecco na praia – todo mundo toma espumante! – , um vinho no fim da tarde, eles estão de férias e eu trabalhando, em casa e na prefeitura. O filho me conforta por 4 semanas, longas conversas, vida colocada em dia, presente e futuro. Acompanho a sua maturidade, orgulho do seu caminho bem construído.  Fico feliz com suas escolhas e a forma clara, lucida de olhar o mundo.  Recebo como presente uma foto nossa reproduzida em um bordado. Não pode ser mais delicado… Continuo costurando amizades e afetos, em forma de bonecas e colchas… Num êxtase de inventividade, uni retalhos com bordados e ficou surpreendente… Nenhuma modéstia, a esta altura da vida este sentimento deixou de habitar em mim.

O carnaval passou e pela primeira vez vi como é em Cabrália. Acontece uma semana antes do original, já é tradição. É a Bahia com todos os Bs As Hs  Is e As em caixa bem alta. Impossível conversar no volume do trio elétrico. Entrei em um para ver como é e babei com a super sofisticação da área interna. Suítes de luxo, palco de responsabilidade. Fico surda e tento entender as letras geralmente com duplo sentido na mistura de ritmos sertanejo, arroxa, pagode e o que mais vier. É assim por aqui. Tão perto e tão diferente do bloco de Santo André que sai no sábado de carnaval com sua charanga tocando “mamãe eu quero” e outras tantas marchinhas, levantando poeira pelas ruas, homens vestidos de mulher, crianças de borboleta, fantasias bizarras, poucas baianas…Tudo inesquecível…Uma exaustão, um prazer único, quem viveu pode contar.

Aproveitando a entressafra de dois dias com casa vazia, dei folga para a turma que pega pesado comigo, tempo para respirar, bateu um banzo. Saudades de escrever e dos irmãos. Tenho muitos amigos e pouca família. Não vejo há tempo os que me viram com catapora, com quem dividi a lata de leite condensado, disputei o ultimo bife do prato, dancei até cansar, pedi colo, dormi junto, compartilhei sonhos e mangas caídas do quintal. Em volta da mesa no almoço de domingo éramos um grupo forte, parecia que a cena jamais se apagaria. Caímos na vida, os esteios da casa partiram e temo em nosso reencontro sermos apenas velhinhos com pouca memória…

Nas memórias recentes encontro para jantar um amigo que hoje mora em BH e conheci quando cheguei na Bahia. Pensei um projeto, ele deu força, montamos juntos e assim nasceu a Caravana Veracel, uma ação de cidadania que só por ter visto acontecer justificaria a minha existência. Já disse isso também no projeto de voluntariado em Lisboa em 2004, no relato sobre Jerusalém em 2012, e sou feliz por ter sido parte de tantos sonhos, por onde deixei um pedaço de mim, vi se tornar realidade. Como é bom fechar ciclos, iniciar novos…. Estou neste tempo, enfim um novo ano… Sei que algumas vezes o barco emperra na areia, o motor não pega, dá preguiça e não há muito a fazer senão esperar a maré subir e ganhar novamente o mar. E chegou a hora. Estou soltando as amarras, 2016 aqui vou eu…

Presente da Lilly

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Chegou um panetone. Presente que a Lilly mandou de SP pelas mãos gentis da Ana e do Augusto que todos anos veraneiam em Vila de Santo André. Abri o pacote de veludo e enfeite dourado para saborear a iguaria com café e ao mesmo tempo uma gavetinha da minha história também se abriu. Ah! como a memória gosta de sair para dar umas voltas e se fazer lembrada.

Era 1991, pós Rock in Rio no Maracanã, uma amiga convidou para assistir a palestra de um médico brasileiro que morara nos Estados Unidos e chegava com a novidade de um curso que ia mudar meu jeito de encarar a vida, desfazer traumas, aprender a ser mais inteligente e maximizar o uso do meu cérebro. Não perderia essa novidade por nada neste mundo e no dia marcado lá estava eu no salão de um hotel em Copacabana, num grupo de quase 100 curiosos, onde se destacavam estrelas globais, donas de casa, esotéricos, filósofos, psicólogos, estudantes, aposentados, médicos, e por aí vai…

Professor, palestrante de primeira linha, deixou a plateia boquiaberta. As possibilidades que ele mostrava para compreensão das pegadinhas que se cria na mente e como superar eram fascinantes. Desfazer trauma era ali, em 5 minutos. Era melhor do que os tantos anos que fiz de análise. Trouxe meu filho para o assunto, fizemos outros tantos cursos surgindo assim uma amizade com Lair Ribeiro. Certa vez em uma passagem pelo Rio de Janeiro saímos para caminhar na praia e ele me revelou que estava escrevendo um livro que ia vender mais de 100 mil cópias. Achei um delírio! Eu tinha alguns clientes na área editorial, pensava conhecer o mercado e não quis ser a “estraga prazer”, mas achava que era sonhar demais.

Ledo engano. “O Sucesso Não Ocorre Por Acaso” lançado em 1992 foi lido por mais de um milhão de pessoas e ficou meses entre os mais vendidos. Por este motivo jornais e revistas que classificavam os livros em Ficção e Não Ficção criaram o segmento Autoajuda. Como já  ouvi o Lair dizer, livro de geografia também pode ser considerado autoajuda pois o ajuda a conhecer um assunto sem professor. Era mais cômodo pegar a denominação utilizada nos Estados Unidos para os manuais onde as pessoas resolviam seus problemas sem terapeutas, bem no estilo “do it yourself – faça você mesmo” que os americanos adoram. Rotularam sem querer entender o conteúdo científico em como usar o cérebro de uma maneira eficaz. Não é ovo de Colombo, publicações do gênero são centenárias, o homem sempre quis saber como se desenvolve o pensamento. E morando nos Estados Unidos ele foi estudando e buscando conhecimento em programação neurolinguística, aprendizado acelerado, gestalt e uma terapia corporal chamada Three-in-one, criando os cursos de onde vieram vários livros.

Lair virou estrela na mídia, acho que foi o único entrevistado que não deixou o Jô falar. E como em nosso país ser bem-sucedido é crime, com a grande exposição não demorou a surgirem comentários deselegantes à sua literatura e duvidosos às técnicas que utiliza. Para mim nada mudou. Estou acostumada a ter amigos alvos de polêmica. Tinha menos de 20 anos quando participei de movimentos de esquerda e pouco depois trabalhava com Flávio Cavalcanti que diziam apoiar a ditadura. Aprendi que os cães ladram, a caravana passa e o que importa é a ética e a fidelidade aos amigos.

Não vejo Lair há alguns anos. Sei que além de cardiologista fez uma formação como nutrólogo – não confundir com nutricionista – e segundo alguns amigos que atuam na área médica, ele é o médico deste tempo. Seu olhar sempre esteve voltado para o novo homem e hoje além da mente, se preocupa também com os alimentos, hormônios, desenvolvimentos frente a longevidade com qualidade. Criou um curso de Pós-graduação em Nutriendocrinologia Funcional com módulos sobre teorias do envelhecimento e metodologia científica, gerenciamento de estresse, função das proteínas, carboidratos e gorduras, doenças degenerativas, manutenção de fluídos corporais, envelhecimento cutâneo e rugas faciais, e por aí vai num mundo novo. Começou com 30 alunos, atualmente são mais de 400. Os livros vão muito bem, umas 3 dúzias, alguns esgotados, distribuídos por todo o mundo. …

Lembrei de tudo isso pois chegou um panetone que a Lilly, mulher do Lair, mandou e foi saboreando com café em torno da mesa, conversando com a Ana, o Augusto e o Bernardo vieram essas memórias de carinho e respeito pelos amigos.

Viva!

11129843_1029878993690528_1316757353_n (1)Pouco mais das 5 da manhã quando saí para a praia, olhei o quadro na varanda com fotos ​de muitos amigos e vi quantos já partiram… Nem chegaram a minha idade… ​Estou no lucro mesmo fazendo aniversário em tempo de ressaca de Natal e Ano Novo. Aprendi a festejar assim. Alguns amigos cansados de festas, muitos viajando, outros começando dieta, mas nem por isso deixei de ser feliz apagando as velinhas com grande ou pequena platéia.

Fui caminhando pela servidão, vendo o sol nascendo no mar e agradecendo pela vida… Extasiada com o  escândalo do canto dos pássaros, a beleza do flamboyant que por falta de chuva continua florido, tudo é motivo de gratidão. Aniversário é dia de reverenciar os antepassados, mesmo os que não conheci .  Estiquei a canga na areia e olhando o mar com o sol nascendo agradeci à família, ao meu filho, aos meus mestres, aos amigos de sempre, aos amigos recentes, aos amigos virtuais, muitos eu nem conheço a voz, nunca vi pessoalmente e leem meus textos, comentam meus posts, me querem bem…

Este aniversário chega acompanhado de uma reflexão promovida por um curso de Eneagrama que aconteceu esta semana em Vila de Santo André. Ah! esta vila sempre surpreende! Adriano Fromer Piazzi é um editor de livros bem-sucedido, nos últimos anos tem se dedicado a este estudo e aproveitou a semana para dar um curso com as primeiras noções. Eu conheço o assunto, estudei em dois workshops, mas num pré aniversário voltar a pensar em quem realmente sou foi mais que perfeito.  Eneagrama não tem a ver com signos, não vem no gene e nem se desenvolve com a educação familiar. São 9 perfis de personalidade, fala-se sobre isso  desde a antiguidade. Nos últimos tempos passou a ser uma ferramenta muito usada para autoconhecimento e por empresas para selecionar os profissionais adequados à cada função.

Neste curso de dois dias mais uma vez constatei que sou forte, obstinada, firme, confrontadora e não peço ajuda.  Como é duro não mostrar a fragilidade… Sou rebelde, mandona, radical… Já fui bem mais, nos últimos anos a vida me amaciou.  Assumo o controle do que faço, dos assuntos mais complicados aos mais simples, e como já ouvi dezenas de vezes “entrega para a Léa que ela resolve”. Falo o que penso, tenho uma ética muito pessoal, acredito na justiça e na integridade. Sou de explodir mas me recupero rapidamente. Nada como uma noite para aliviar. No dia seguinte passou, não guardo mágoa, posso ignorar quem me fez mal, mas não desejo o mal. Adoro a verdade, não consigo atuar nas meias palavras. Tem que ser certo, reto. Sou generosa, boa parceira, pau pra toda obra.​

Revi meus sentimentos e atitudes. Alguns a favor, outros mais delicados,  mas saber quem sou simplifica tudo. Sei aonde estou pisando e mesmo  quando parece que tudo vai desmoronar não tenho medo. Medo apenas de ter medo. Revi também a personalidade dos outros tipos. Do super exigente, ao temeroso, passando pelo romântico e o mental. Os que empurram com a barriga, os que não querem aplausos e os que sofrem por não ter… Bom constatar que não somos iguais, isto me reafirma a importância de ter mais respeito ao semelhante e, numa boa, eu não aguentaria  conviver apenar com Leas.

Jamais imaginei quantos anos viveria e aonde chegaria. Fazendo o que ? Com quem ? Não pensei sobre isso nem aos 20, nem aos 40, quanto mais passando dos 60. Fui fazendo a vida com o que se apresentava. Um dia de cada vez, sem muitos planos a longo prazo, com um enorme prazer em estar no momento presente que foi se desdobrando e me trazendo presentes. Presentes em forma de amigos, desafios, afetos, alegrias, conquistas, amores, aprendizados…

Este ano vivi mais Santa Cruz Cabrália, a cidade da minha doce Vila de Santo André. Expandi conhecimentos, fiz amigos e sou grata ao Prefeito Jorge Pontes por ter me convidado para ser Secretária de Comunicação. Um aprendizado todos os dias. Este ano me encantei com as aulas de cerâmica, dar forma ao barro, ver queimar, colorir, transformar em peças… Costurei menos do que queria, rezei bastante…

Ah! vida!!! Quanto ainda por fazer ! Mais amigos, mais conhecimentos, mais esperança, mais obras em casa, mais hóspedes, mais saúde, mais risadas, mais lágrimas de alegria, mais surpresas… Que coisa boa é estar ainda por aqui… E  que venham os dias, meses e anos que tiverem que vir e eu serei eternamente feliz !