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Em casa

Estou há dois dias trabalhando num novo projeto sem sair do apartamento em São Paulo . Acordei muito inspirada na 3ª. feira, encarei as teclas bem cedo, avisei ao pessoal do escritório e quando dei conta estava quase na hora do almoço. E ainda vestida de pijama e roupão. Continuei escrevendo e quando vi estava noite. Já passei por um processo desses e é mesmo assim, absorvente, dedicação total, alienação do que está do lado de fora. Hoje acordei e voltei ao computador até três da tarde quando constatei que ninguém no edifício notou que há dois dias eu não passara pela portaria. Tenho horários bem estabelecidos, aviso quando viajo e os porteiros nem notaram a minha ausência. Penso nas pessoas que vivem sozinhas, algumas morrem e só muito tempo depois encontram o corpo. Nascer e morrer são atos solitários, mas não precisamos levar ao pé da letra. Fico bem sozinha. Escrevo no silêncio, às vezes ouço o Adagio de Albinoni outras os Noturnos de Chopin, sempre alguma musica suave. E vamos combinar que é praticamente impossível estar fora do mundo quando se está conectada a internet, ligada no skype e no MSN. Mas a experiência destes dias me fez refletir em quem se importa com quem… E numa cidade tão grande como São Paulo as pessoas passam rápidas… Penso que o mundo está preocupado em postar um alô no facebook e mandar emails com novenas ou piadas. E enquanto refletia sobre o assunto, fazendo uma análise psicológica do indivíduo perante a sua solidão, escutei um grito do apartamento ao lado. Era a vizinha, uma viúva solitária, apaixonada por futebol, comemorando a vitoria do futebol feminino.

– Elas ganharam, elas ganharam !! Foi três a zero !!!

Os porteiros devem ter ouvido. Nada como ter alguma coisa para gostar e ocupar o tempo. Volto para as teclinhas, meu trabalho continua.

Sem prazo de validade

Na beira do rio enfeitado com bandeirinhas, o forró comendo solto no alto falante, os jovens dançando quadrilha, uma amiga paulista que tem casa na vila confessa a tristeza de não ter realizado o sonho de ser bailarina.  Quase chegando a casa dos 50 percebe que dançar na ponta do pé tinha prazo de validade. O assunto surgiu por conta do filho que tirou um tempo para viver uma experiência que os pais sabiam que não tinha futuro.  Deixaram que ele descobrisse por si que viver nessa vila de pescadores para um jovem formado, bem nascido e criado, fazia parte de uma rebeldia passageira. Alguns anos para amadurecer e voltar pra civilização com experiência em passeios por trilhas selvagens, conhecimento das marés e sobrevivência em área de grande diversidade social. No futuro ele não ira lastimar a falta de vivência do sonho como a mãe.
Refletindo sobre a conversa de ontem, aproveitando o pouco de sol e mar, percebo que meus sonhos não tem prazo de validade. Tudo o que desejo ainda esta em tempo. Faço uma pequena lista : escrever um livro, ler sem óculos, aprender a cozinhar algo inesquecível para os paladares mais apurados; acabar uma colcha de crochê, andar mais vezes de bicicleta, emagrecer 10 quilos. Saber escrever para teatro, começando por um monólogo; morar “ad eternum” em Sto Andre; ter uma vespa ou outro tipo de veículo de 2 rodas para ir ate a balsa, arrumar todas as gavetas e pastas com documentos, ver mais vezes o dia acabar com as andorinhas correndo no céu como se fosse um monte de papel queimado solto no vento. Decorar as letras de “Ne me quittes pás” e “Non, je ne regrette rien” com francês perfeito. Aos 70 bordar e escrever muito… Costurar e cansar de tanto blogar… Depois dos 80 reler alguns livros como “100 anos de solidão” (será que não vou me enrolar com tantos personagens?) e toda coleção do Monteiro Lobato. Talvez possa contar historias para crianças que não tenham Ipad.  Inspirada na bela Edoarda Casadei que se foi com bem mais de 80, ir a praia com o sol nascendo e tomar banho de mar só de calcinha sem causar espanto.
Tudo é possível quando os desejos não envelhecem. Podem ser simples e eternos como conseguir doações de amigos para fazer uma quadrilha na festa junina e agradecer a Ju Braga, Jorge Roberto Martins, Ana Veronica Mautner, Eleonora Santa Rosa, Andréa Pitta e Nel, amigos meus e da vila que atenderam ao pedido… A foto da Cláudia Schembri mostra a alegria antes de começar a quadrilha…

Rapidamente

Em menos de 6 meses o velho barco encalhado na praia foi desaparecendo. Era uma peça decorativa, descanso para os caminhantes, uma imagem bucólica. Quase não o encontrei. Foi coberto pela areia e a vegetação nativa se espalhou.
Como tudo na vida que se abandona, um dia desaparece. Desmaterializa no tempo, some das lembranças. No verão ninguém vai mais lembrar, será apenas um monte de areia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

O que não da pra ver

Eu sei que a câmera do celular não revela na foto a delicadeza e todas as nuances que vi de um pequeno pesqueiro no mar azul cercado por gaivotas. Assim como na vida, nem tudo é visível, fotografável, registrável de forma estática. Sutilezas se encontram nas relações afetivas que de fora consideramos sólidas mas desmontam como os ondas na praia. Se espalham na areia, desaparecem como se nunca tivessem sido ondas altas, encarapitadas, amedrontadoras.
Impossível imaginar o que se passa com o outro. Ah! a mente, esta senhora de respeito e surpresas! Hohe um amigo bem casado telefonou cedo pedindo emprestado o modem. A mesa do café ainda estava posta quando chegou. Ofereci um cafezinho, ele sentou e contou a recente separação. Quase 20 anos e tudo foi para o brejo. Cansou, deteriorou e cada um vai seguir as novas revelações que a vida traz. Os budistas acreditam que quanto mais erramos maiores sao os desafios. Vamos apanhando ate aprender. Descobri com o tempo que muitas vezes quando a vida coloca um desafio em nossa frente, é o momento de tomar outro caminho, aprender algo novo. Se não vamos por bem, vamos por mal, ja dizia vovó.
Na claridade deste inverno no sul da Bahia que é a coisa mais linda do mundo, aproveito para expandir esta luz aos que passam por transformações em suas vidas. Que haja clareza e paz para enxergar novos tempos com os olhos da alma. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

A 2 passos do paraíso

Acordei sem saber a hora. Tentei adivinhar pela intensidade do sol que entrava pela janela e iluminava a cama. O cantar dos passarinhos, o barulho das ondas, o balanço das folhas das árvores, sem qualquer outra interferência sonora. Lembrei da musica do Evandro Mesquita, realmente estou a 2 passos do paraíso. Fiquei me espreguiçando, esticando dos pés a cabeça, cada pedacinho do corpo. Certa vez mamãe revelou uma intimidade do papai : ele se esticava todo antes de sair da cama, pois nenhum animal saía da cama correndo. Foi nesta época que ela também contou que fazia o mesmo em frente do grande espelho no banheiro, mas nos últimos tempos se sentia ridícula ao ver seu corpo magro refletido. Podia contar as costelas.
Sigo a tradição da família de espreguiçar enquanto penso sem pressa nas horas sem pressa. Creio que so quando estivermos chegando ao paraíso a vida deixa de ter pressa. Nada mais importa a não ser esta paz, o sol morno e a certeza de que tudo podia ficar assim, sem cheque especial, inflação, infiltração na varanda, metas a cumprir, engarrafamentos, desafios. E para esquecer de tudo faço a pequena prece do dia “Sou grata pela noite que passou e mais um dia que tenho para cumprir a minha missão. Eu estou aqui so para fazer aquilo que tem que ser feito. Não tenha nada a temer pois sei que Ele vai comigo. Que eu possa abençoar cada pessoa que passar por mim neste dia. Que eu seja amorosa, paciente, alegre e viva feliz todos os momentos. Obrigada. ” E por que hoje é domingo e faz sol vou ver a vida, praticamente no paraíso. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

O outro

Esperando a balsa que saiu antes da hora levando a ambulância, so me resta pensar na vida. Lembrando antigas relações constatei que só guardei os bons momentos que me proporcionaram e nunca penso no que proporcionei ao outro.
Aprendi há muito tempo que a memória é seletiva e salvadora. Mesmo o amor mais ingrato, o trabalho mais sofrido, quando chegam as lembranças restrinjo ao que foi bacana. Se aconteceram fatos ruins transformo em comédia. E se não ficou nada de bom, acho que a mente inventa pois seria cruel so ter amargas recordações. Ninguém sobrevive sem um alento no coração.
Pergunto aos meu botões se não deixei nada na vida do outro e se lembram de mim com carinho, respeito e gratidão por momentos do passados. O que ajudei a construir, ensinei, passei como exemplo. Quais desafios superamos juntos ? E constato que é impossível saber o que vai na cabeça do outro, mesmo de alguém com quem tenha vivido por longo tempo numa profunda relação. Alguém que se tenha visto chorar, dividido a intimidade de escovar os dentes, compartilhado dinheiro em tempos difíceis. O outro depois que parte é sempre um desconhecido, uma surpresa, uma revelação, tão improvável quanto a balsa que deixa o cais antes do horário por conta de uma emergencia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Para mulheres

Na recepção da clínica de exames, apenas mulheres das mais diversas idades e classes sociais.  Louras, morenas, gordas, magras, umas bem tratadas outras que se esqueceram com o tempo, dividem seus pensamentos com a conversa de Ana Maria Braga sobre TOC na enorme TV presa a parede.  Devem estar refletindo como eu sobre o estado de suas mamas, seu útero e hormônios. Olhares se cruzam, fico estudando os pés. Uma sandália preta Crock calçada com meias de lã da mesma cor, uma sapatilha sem meias, um par de tênis para corrida, um par de botas elegantes… Ao procurar a dona das botas encontro um rosto idoso e por puro preconceito achei que ia achar um bem mais jovem. Um olho na tv outro no painel que vai dando o número da senha recebida na porta. A mulher de sandália Crock cochila ao meu lado, ressona… A magrinha que lê Mario Vargas Losa não saiu ainda da primeira página, enquanto a jovem de cabelo crespo e colete de crochê ja está indo embora.
No painel a senha 304.  É minha vez.  Carteira de identidade, cartão do plano de saúde e pedido do médico.  A recepcionista nem olha prá mim, apenas entrega um questionário de histórico de câncer de mama. Nada a declarar.  Volto para a TV e agora a Ana Maria dá uma receita de bem casado. Estou em jejum… Não demora e uma atendente me chama, como na escola, “Léa Ceres Viana Penteado”. E  fui dar a veia para tirar sangue e encher vidrinhos, despir   a parte debaixo da roupa para o papanicolau, ultrasonografia de útero e depois a parte de cima para a mamografia.
“Segura a mama direita… isso… agora fica com os pés prá frente, a orelha encosta deste lado, o rostinho aqui e o queixinho para cima. Segura bem a mama, encolhe a barriga e quando eu avisar você não respira”… Com o peito imprensado entre duas placas o “não respirar” já seria normal… A máquina gelada, a sala fria e a tensão óbvia do check up anual.
“Pronto, agora do outro lado….” e depois de frente, em vários ângulos nas posições mais ridículas… Só quem já fez sabe o que é uma mamografia… Por mais que seja doloroso e incômodo, a atendente é gentil e só fala no diminutivo. “Queixinho, pezinho, rostinho, orelhinha..” e por aí vai… Tudo no tempo certo, nem um minuto de atraso… Saio e vejo outras mulheres na recepção. Acabou a Ana Maria, agora é um programa sobre saúde, bem de acordo com o local… O resultado das mamas, hormônios e afins só na semana que vem… E você ja fez o seu exame anual ?

Aos amigos de Santo André da Bahia

Rio João de Tiba – foto: Cláudia Schembri

Um paraíso! Esta é a opinião de todos que passam por lá. Uma vila pequena, com ruas de terra, natureza exuberante, casas simples, algumas pousadas e restaurantes charmosos, um emaranhado de sotaques se misturam . Vila de Santo André da Bahia, bem do lado de Porto Seguro sobrevive longe do axé e do turismo de pacotes. Vila de Santo André da Bahia tem dois movimentos : um no verão, por pouco mais de 3 meses, quando tudo é festa com amigos, visitantes, turistas; e outros na baixa estação, por nove meses, quando o silencio prevalece, algumas pousadas e restaurantes fecham, o burburinho fica por conta das crianças indo prá escola e nos jogos de futebol aos domingos. Volta a ser a Vila de Santo André da Bahia, dos seus habitantes. Dizem que são pouco mais de 600, com poucas ofertas de trabalho esperando o verão.

E para quebrar o nada prá fazer, o espaço se abre para pensar nas manifestações culturais e as tradições. Infelizmente, na maioria das vezes fica só no pensamento por total falta de apoio da prefeitura e de patrocinadores locais que também estão “em baixa”. A baiana Silvia, dos deliciosos acarajés na praia e do restaurante Orquídea, sempre foi atuante nas festas populares e,  em parceria com o IASA (Instituto Amigos de Santo André) que faz um belíssimo trabalho com crianças e jovens da vila, está tentando este ano remontar a apresentação da quadrilha para as festas juninas dias 23 e 24 de junho. 

Uma festa em homenagem a São João que vai ser ótimo para os turistas que vão para o feriado de Corpus Christi. E caso consiga que a quadrilha se apresente, haverá o estimulo de fazer uma festa no campo de futebol, com barraquinhas para vender bebidas e quitutes, gerando  um clima social e de confraternização entre os moradores, com isso tem assunto até o verão chegar!

Por isso, venho aqui passar o chapéu para os amigos e frequentadores do verão na vila : precisamos recolher 700 reais para comprar tecidos e refazer as fantasias… A Silvia já está ensaiando o pessoal e é uma delicia a festa unir todas as gerações… Quem quiser colaborar, com qualquer valor, é só depositar na conta do INSTITUTO AMIGOS DE SANTO ANDRÉ – IASA – BANCO DO BRASIL – AG. 2574 – 7 – CC 11.509 – 6 – CNPJ 07.850.777/0001 – 94… No depósito acrescente Silvia, assim fica facil identificar. Estarei lá e as fotos estarão aqui…Obrigadíssima !!!

Domingo a noite

Tenho preguiça de ir prá cama domingo à noite. Meu corpo pede para prolongar o fim de semana, fico arrumando a casa, zapeando a TV, enrolando a chegada até o quarto, procurando algum livro, mas ontem tive um presente: Marília Gabriela entrevistando Jean Wyllys no SBT a meia noite. A entrevista no GNT o mes passado assisti no youtube, mas o encontro de ontem, talvez por ser em TV aberta, foi surpreendentemente claro e explicativo.  A história de um menino baiano que sobreviveu à miséria, à discriminação pela pobreza, ao preconceito por ser homossexual e aos apelos para se tornar “celebridade” como ganhador do BBB.

Lúcido, articulado, culto e baianamente leve, Jean Wyllys me fez acreditar que ainda tem gente boa na política. O nome Jean (sugestão de uma tia que lia fotonovela) e Wyllys (idéia do pai, pintor de carros, que adorarava Rural Wyllys) leva perceber que seria de alguém que vinha prá fazer diferença no mundo. E está fazendo. Quando responde sobre como se percebeu gay “a gente não se percebe, a gente é” e a explicação sobre o tititi que armaram para a distribuição dos kits homofóbicos é transparente.. Eu lí que a bancada evangélica para não apoiar a CPI contra o Palocci exigiu a suspensão dos tais kits… Por sinal, estes kits não seriam distribuídos aleatoriamente às escolas, apenas as que tivessem alunos em crise no 2º. grau. E para complicar ainda mais e derrubar o assunto, os contra a proposta apresentaram como kit homofóbico o preparado pelo Ministério da Saúde para atender travestis e prostitutas… Basta! É muita sujeira para o meu gosto, mas com gente como o Jean, vejo luz no fim do túnel, tenho esperança em novos tempos…Se o meu titulo de eleitor não estivesse em Santa Cruz Cabrália meu voto seria dele… E enquanto tiver “De Frente com Gabi “ à meia noite de domingo, minhas semanas fecham bem mais felizes.

Dançando

Ando com muita vontade de dançar. No último domingo assistindo ao quadro Dança dos Famosos no programa do Faustão, atenta à promoção do Credicard – cartão Emoções Roberto Carlos – saí dançando na mínima cozinha do apartamento onde moro em São Paulo. Uma cena ridícula mas confesso que muito divertida…A minha imagem refletida no vidro da porta que dá para varanda só não me levou às gargalhadas pois estava me levando muito a sério naquele momento… Não me preocupei se alguém pudesse ver da rua, mas lembrei de uma amiga, jornalista famosa que não revelo o nome por discrição, que contou fechar as cortinas da sala de casa e dançar sozinha nas noites de sábado. … Como vitalidade e juventude vem no mesmo ritmo, tenho conversado com alguns amigos de Vila de Santo André sobre um projeto de velhice coletiva…Sabemos que isso é certo e vivendo em uma vila tão pequena, poderemos sair de camisola pelas ruas, se nos perdermos qualquer um pode nos levar de volta prá casa ou seja, o vexame será preservado.  Pensei em incentivar algumas jovens à formação em enfermagem, afinal temos uma universidade em Santa Cruz Cabrália e com isso a mão de obra especializada estará garantida para atender nosso “home care” … A Jimena, bem mais jovem, pode continuar com suas aulas de alongamento, o coral de mulheres que a Claudia e a Lola estão montando pode ganhar mais reforço, a Marilia Viegas mantém a hidroginástica no rio e quem sabe até aumenta a turma de dança depois de assistir os vídeos que um amigo enviou. A sugestão é ver primeiro vídeo de 1964, Quinn aos 49 anos no inesquecível Zorba, o grego http://www.youtube.com/watch_popup?v=bXxJyIVz-98 e depois aos 84 anos numa deliciosa homenagem http://www.youtube.com/watch_popup?v=CKHlmb5xcq8   Eu vou chegar lá !!! Mas ainda faltam muitos anos, enquanto isso danço mesmo em casa.

em tempo : a foto é da Cláudia Schembri que por ser bem mais moça vai registrar tudo…