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Domingo

Quando deixo algum tempo de escrever é por que a cabeça ferve. Silencio as letras no papel e uma velha maquina batuca frases/pensamentos alucinantes construindo textos sem sentido. Ou com todo sentido. Estou em momento de Saturno passando pelo meu mapa astral. Caiu uma árvore no quintal, estourou o motor da geladeira, queimou o ar condicionado e dois ventiladores de teto, quebrei copos e apareceu goteira no quarto recém construído. Dizem que com Saturno é assim, mexe com tudo, desestrutura , põe pra fora o que não vale, sai do lugar para voltar de outro modo. De novo ? Desafios, assim é a vida.
Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Cabeça vazia

Tempo morno, barulho do mar e das folhas dos coqueiros, um assobio do vento, faço o exercício de esvaziar a cabeça. Om om om….
Tento varrer a poeira dos menores pensamentos, calar a mente e sempre volta um cisco. Tenho pensado nisso nestes últimos tempos.
A mente não se cala, os pensamentos correm de um lado para o outro como se fossem peças soltas numa enorme caixa levada em cima de um carro de boi chacoalhando pela estrada. Roda pião bambeia pião…
Nada para nem com o vento nem com o bater do mar nem com meus pensamentos.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Às vezes me estranho

Foto: Cláudia Schembri

No meio da faxina a Lugo comentou: “Da. Léa, a senhora “esmagreceu”… Esmagreci sim, Lugo, nas últimas 2 semanas entrei em uma academia preparando o “corpitcho” para o verão. Tenho andado muito, não na esteira, mas numa nova modalidade de caminhadas com peso, pois molhar todo o jardim puxando 50 metros de mangueira não é fácil. O alongamento está em plena forma, colocando e tirando roupas do varal, travando portas e janelas. Também tenho feito um pouco de musculação em situações diversas, como levantar as pesadas janelas guilhotina em madeira e varrer o pátio. O agachamento está ótimo, tanto para retirar as tiriricas que nascem na grama, como ao catar “pérolas” que Xico e Bella espalham pelo quintal. Pequenas corridas para abrir o portão pois o automático ainda não foi instalado, também estão no programa, e o step, subo e desço a escada dezenas de vezes até o escritório para escrever, montar álbuns, responder emails … Muito me salva o Blackberry pendurado no pescoço para conferir o que acontece no mundo entre o corte de uma folha seca no jardim e limpar a horta… E no meio da novela quando exausta, quase desmaiando na cama passo o creme nas mãos para reduzir os calos penso nas quantas vidas executo no mesmo dia… Tudo continua no outro dia ao acordar com o sol. Não me queixo, agradeço, mas as vezes me estranho … A minha outra vida ficou nas fotos, nas memórias e nos amigos… O meu conteúdo foi acrescido de um ouvido e de um olhar mais aguçado para os pássaros, o vento, o mar e o silencio que em milionésimo de segundos pode acontecer nos intervalos do movimento dos galhos das árvores…Tudo pára nesta pequena fração de tempo, tempo de respirar e sentir o mundo… Tempo de reflexão, ouvir o coração, sentir o que vai na alma.. Nem tudo está perdido no planeta…

Longa noite

Nos últimos anos o dia 21 ganhou um destaque no meu calendário. Na data  que papai e Victor partiram bate sempre um momento lembrança. Hoje foi diferente. Lembrei com gosto de comemoração: 2 anos da Pizzaria Varanda, da Joyce Hermeto, a melhor pizza do espaço sideral  como consta no seu cartão…

Relembrando: eu vivo numa vila com menos de 350 moradores. Isto é real. Sempre falei que éramos perto de 800, mas o censo passou por aqui e na entrevista na casa da Olímpia e do Claudio os pesquisadores foram bombardeados por perguntas e com isso a revelação. E se somos tão poucos, uma festa é a oportunidade de encontrar uma dúzia de amigos. Mas no final do dia com o telefonema avisando da morte do Sr. João Capador fiquei pensando na ironia de um lugarejo que tem tão pouco movimento e bem nesta noite uma festa e um velório na mesma rua !

Sr. Capador é referencia para os que moram ou veraneiam aqui.  Aos 88 anos foi um dos primeiros moradores, receitava chás de ervas que buscava na roça, usando um chapéu de couro rezava quem o procurasse, tinha um pequeno bar/mercadinho onde ficava a maior parte do tempo sentado em um banquinho jogando dominó. Tinha sempre parceiros para jogo e historias… Por isto a noite em Santo André vai ser longa. Fiquei na porta do velório, ao lado do seu mercadinho, acompanhando a chegada dos moradores. É uma incrível cerimônia de despedida. As cadeiras de plástico foram colocadas na rua. Uma romaria de adultos, jovens, crianças vai saindo das ruelas e becos, se aproximando, todos com roupa de festa. Muitos trazem garrafa térmica, cobertores e até um colchonete !

Passei uma noite assim, é para nunca esquecer. Fiquei sentada à beira do rio recebendo cumprimentos de mãos calejadas, morenas, desconhecidas e já se passaram quase 9 anos …. Aprendi muito com a simplicidade dessas pessoas que entendem que chegar e partir é momento de celebração.   21/10/2010

Estúpido Cupido

João (Ricardo Blat), Carneirinho (Tião D´Avila), Caniço (João Carlos Barroso) e Mederiquis (Ney Latorraca)

Querido Tião,

Adorei sua mensagem no FB, saber que a sua filhota Carolina lhe deu dois netos e que você continua em pleno exercício do seu oficio de ator na novela “Ribeirão do Tempo”, na Record. Mas o que mais gostei foi a frase, quase um suspiro: “PASSOU UM LONGA PELA CABEÇA DESDE ESTÚPIDO CUPIDO”.

Não se intimide em lembrar do passado, pois este mesmo filme também passou na minha cabeça.  Saudades a parte, a verdade é que a novela de estréia do Mario Prata tinha uma história simples, sedutora e deliciosa. Ele misturou com perfeição nos costumes dos anos 60, humor amor e aventura, e o nosso velho e bom Regis (Cardoso) soube reger com leveza e elegância tramas e personagens. Acredito que a maioria dos atores/atrizes guardou este como um trabalho de referencia, pois tudo era muito bom. Do texto aos figurinos, trilha sonora, coreografias e cenários tudo muito cuidado. Voltamos a dançar rock n´roll, a andar de lambreta e a torcer nos concursos de Miss. Eram os anos 60 encantados! As “garotas” (que fim levou Heloisa Millet?), a turma do Mederiquis, as freiras, o Cabo Fidelis (inesquecível Tony Ferreira), as fofoqueiras, as familias, todos vivendo na fictícia cidade de Albuquerque … Um ótimo momento da TV brasileira fechando com louvor a fase das novelas em preto & branco…

Esta conversa me levou a pesquisar na internet, fui ao youtube onde revi o talento de vocês (links abaixo) e no Wikipedia onde constatei que eram apenas 27 atores! Fazia-se novelas com elenco enxuto e não se discutia tanto a audiência… Vocês deram conta deste recado e de todos os outros que a vida ofereceu… Parabéns Tião, como é bom ter historias para contar (e mostrar) para os netos…  Um beijo carinhoso desta repórter amiga..

Primeiro capítulo

Chamada de estréia 1

Chamada de estréia 2

 

A música em mim, parte 2.

Aos 17 anos...

Conheci Ângela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, ou simplesmente Ângela, ou Jóca, no 1º ano do curso Clássico no Instituto Coração de Jesus, uma escola que à noite chamava-se Colégio Veiga de Almeida e ficava em frente ao Colégio Militar na Tijuca. No primeiro dia de aula descobrimos que nascêramos no mesmo dia e mês, com um ano de diferença, e isto bastava para selar uma amizade para sempre. Alguns dias depois fui à sua casa e conheci um contexto de família liberal, com o pai psiquiatra, Aloísio Porto Carrero e a mãe, dona de casa e costureira maravilhosa. Em 1965 na efervescência da ditadura o sobradinho na rua Jaceguai 27 na Tijuca onde moravam, era refugio de talentosos contestadores que nos fins de semana se reuniam para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aloísio e Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e sobretudo falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo de Sinval Silva (compositor de preciosidades gravadas por Carmem Miranda) a Nelson Cavaquinho. Ali eu vi Jacó tocar o seu Bandolim, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhei os novos que surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Rolando Farias, Paulo Emilio, mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Deste grupo surgiu o MAU – Movimento Artístico Universitário que ganhou o país com todos eles transformados em estrelas do programa Som Livre Exportação na Rede Globo .

Saímos da adolescência e entramos juntas na juventude. Ainda posso ouvir o violão do Aloísio e nossas vozes em pleno pulmão entoando Pixinguinha num “Carinhoso” suplicante “vem vem vem vem… vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos seus….” Descobrimos juntas amores, dores de cotovelo e trocamos confidências… Lembro Ângela contando que havia se apaixonado por Gonzanguinha e com um jeito muito divertido dizia o quanto ele era magro, feinho e genial … Rimos muito, sempre, dessas e outras revelações íntimas que só na juventude se faz para as melhores amigas… Selamos uma amizade até 1991 quando Ângela aos 41 anos se cansou de respirar… Jamais esquecera seu grande amor, Gonzaguinha, e 6 meses depois de sua partida ela foi atrás … Em algum lugar no infinito deve estar rindo das nossas historias, quem sabe cantando com sua voz pequena e suave, como naqueles sábados na Tijuca…

No final dos anos 80 com Paulo Gracindo...

 

A música em mim

Era este disco que tinha lá em casa...

Se a infância acabou quando vi Maysa cantando na TV e constatei que havia um mundo que nem meus pais, irmãos, as freiras do colégio, os amigos da rua haviam me revelado, no mesmo instante abriu-se um novo caminho através da música. Não a música de fossa, o samba-canção pré-bossa nova que Maysa compunha e interpretava, mas a música como algo vital. Não tive formação musical acadêmica. Queria aprender piano, acordeão, mas isto não fazia parte da “cultura da família”, ou melhor, do orçamento curto. Papai tinha uma visão interessante sobre os outros assuntos que estavam fora do padrão básico de educação e saúde. Jamais falamos sobre isso, mas com o passar do tempo concluí que ele acreditava que sua responsabilidade era oferecer tudo o que podia para os 5 filhos, sem privilégios. Associou-se a um clube perto de casa onde todos podiam usufruir dos esportes. Comprou TV, vitrola, discos, livros e fez uma assinatura revista Seleções, informação para todos. Da coleção Thesouro da Juventude a obra de Monteiro Lobato, além de dicionários e livros diversos que se enfileiravam na estante do corredor. Lia-se com constância, por hábito, não por obrigação. Musicalmente o gosto era eclético. Nos domingos e feriados antes do almoço colocava para rodar na vitrola LPs e discos de 98 rotações que variavam de Noel Rosa com Aracy de Almeida à ópera Carmen de Bizet. Não sei o que regia a seleção musical que ainda podia ter Inezita Barroso, Glen Miller, Tonico e Tinoco, Waldir Calmon feito para dançar, “Continental” (orquestrado com “standards” americanos), Agostinho dos Santos e por aí seguia…Nenhum disco da Maysa, era novo demais. E foi esta falta de preconceito que estruturou minha vida muito mais do que papai podia imaginar. Qualquer som era bem vindo, só havia o bom ou o ruim, sem julgamento, apenas sentimento… Foi por isso que aos 16 anos quando fui à casa de Angela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, colega do curso Clássico (o Segundo Grau de antigamente) e vi uma roda de samba e uma porção de jovens cantando e compondo em plena ditadura, a música virou a minha vida pela segunda vez…

Infância

Aos 6 anos.

Me lembro que estava no colo de alguém e acordei na porta da escola. Esta é a mais remota lembrança que tenho. Devia ter 3 ou 4 anos, criança não ia para a escola nesta idade mas minha mãe era professora e as freiras abriram uma exceção.  O Ginásio Beatíssima Virgem Maria, no bairro do Brooklyn, São Paulo, foi a extensão da minha casa. Ainda sinto o aroma do café com leite que saía do enorme bule de metal que as freiras serviam no lanche acompanhando fatias de pão com geléia; o medo do olho de Deus onipresente e onisciente desenhado no quadro negro nas aulas de catecismo e o sabor das nêsperas e jabuticabas roubadas do pátio da escola.

Por volta dos 8 anos ganhei uma bicicleta preta com finos frisos vermelhos. Não era nova, era “herança” de minha irmã que papai mandou reformar. Pedalei muito e com amigos ia à beira de um pequeno rio tomar banho e depois ficar correndo sob o sol até secar e voltar para casa sem vestígios. Desenhei com giz plantas baixas de casas de bonecas no cimento do jardim e ali vivia entrando e saindo apenas pelas mini portas que inventava. Ninguém podia pular as paredes…

Sentei muito no muro para ficar vendo as pessoas passarem na rua. O movimento era pequeno, mas eu sentia que ali do alto tinha domínio do mundo. Montei laboratórios com vidros de remédios, fiz experiências misturando mercúrio cromo com pedrinhas de anil azul e com um pouco de goma de roupa fazia comprimidos em formas de botões.

Costurei roupas de bonecas, me escondi embaixo da escada e com alguns velhos “bobs” que mamãe enrolava os cabelos, grampos e um espelhinho fiz um salão de beleza !  Tomei Crush aos domingos, assisti na TV ao Circo do Palhaço Arrelia e o Pullman Junior,  desenhei em cartolina o Palácio da Alvorada e tirei nota 10 por saber escrever no quadro negro Juscelino Kubitschek. Fui mimada, paparicada e bebê até os 9 anos quando nasceu meu irmão Marcus.

Uma noite depois que a porta da geladeira caiu no dedão do meu pé papai achou por bem que eu ficasse acordada vendo TV, atento que estava ao machucado. Creio que foi nesse dia que a minha infância acabou. Descobri Maysa e literalmente “meu mundo caiu”. Fiquei perplexa com a figura que entrava num estúdio esfumaçado decorado com pilastras greco-romanas, cabelos curtos caídos nos olhos, trazendo na mão uma taça de bebida e cantando “Ouça”… Aquilo não era coisa prá criança ver! Eu vi e fiquei encantada. Era a mais pura vanguarda, um planeta que eu não conhecia, muito além das bonecas, bicicletas e dos bobs da mamãe…

Ali a mágica se fez e me seduzi por este mundo diferente de artistas… Conheci Maysa em 1970 como jurada do programa Flávio Cavalcanti. Contei que antes dos 10 anos havia trocado a trilha sonora de criança por suas músicas. Criamos uma relação de amizade… Em setembro de 1973 procurei Maysa para uma entrevista.  Na cobertura de seu apartamento, na Rua Almirante Pereira Guimarães, em Copacabana, conversamos uma tarde inteira e na saída ela me deu 4 folhas de papel A4 dobradas ao meio com uma pequena autobiografia manuscrita. Hoje, no dia da criança lembro a minha infância e óbvio, de Maysa…  O que ela escreveu prá mim, segue abaixo…

“Nasci no Rio, sou de gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde de Silva. Hoje em dia é uma clínica, tenho imensas saudades daquela casa e sempre sonho com ela.

Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e tem uma filha linda, chamada Maysa como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais.

A música sempre foi importante prá mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente e quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com os dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora: assim nunca pude levar a serio uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho hoje com 17 anos, numa festinha em casa toquei algumas de minhas músicas que compunha desde os 13 anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o “baby” nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Silvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional.

Para poder seguir essa profissão tive que abrir mão de muitas coisas e por fim não podendo mais, larguei até meu casamento, minha casa enfim, a minha vida de moça de sociedade para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs. Muitos feitos no Brasil, 2 nos States, Itália, Espanha, Argentina, etc.

Compus muitas e devo ter gravado umas 50. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre.

Fora do Brasil estive 7 anos.

As razões foram várias, mas a a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol e todos os seus negócios estavam na Espanha.

Segundo, foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse apenas Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo o que ele é e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei Jayminho para a Espanha e não me arrependo.

Atualmente a minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total.

Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muitas coisas em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo o que sou agora é uma conseqüência lógica do que passei. Só que procuro tirar de bom o que ficou e jogar fora o que não interessa.

Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase que inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há 16 anos atrás onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada.

Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim já há algum tempo, que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei meu cavalete, meus discos e levei a minha paz que, justamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem 17 anos, é bonito, rico, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, não mais fervente. É isso ai. Bicho!”

Maysa

setembro de 1973

Em tempo : o meu pé ainda tem a cicatriz da porta da geladeira.

 

Sabonetes

Adoro sabonetes e agora há pouco no banho enquanto me deliciava com o “soap body” Calvin Klein que a minha amiga Wilma trouxe de Berlin, a cabeça voou e fui ao tempo com o Cinta Azul, Eucalol e Lifebuoy … O Cinta Azul que não existe mais, marcou uma geração por ter patrocinado a apresentação de Bat Masterson no Rio de Janeiro em 1961. Para quem não lembra, Bat Masterson era mocinho de uma série faroeste produzida para a TV que foi ao ar pela TV Tupi de 1959 a 1961.  “O sabonete Cinta Azul, tem o prazer de apresentar, um novo filme de caubói, Bat Masterson.” No papel principal, o ator Gene Barry, que interpretava o bom moço, elegante, muito bem vestido com chapéu côco e uma bengala. A música tema, vertida para o português, foi sucesso na voz de Carlos Gonzaga – o mesmo que gravou Diana, Carol…-  e todas as crianças sabiam cantar “No velho oeste ele nasceu, E entre bravos se criou, Seu nome em lenda se tornou, Bat Masterson, Bat Masterson..”

 

 

 

 

 

 

A promoção do Cinta Azul colocava cápsulas dentro dos sabonetes e uma vez encontradas eram trocadas por bengalas promocionais. Mamãe comprou muitos sabonetes, quebrei todos e consegui uma bengala… Adorei achar no youtube um trechinho do Bat Masterson http://www.youtube.com/watch?v=uFeGrWFu7Qo… Quem quiser ouvir a música na versão em português tem uma foto montagem em http://www.youtube.com/watch?v=NCpJLUKY_rw

Com o sabonete Eucalol tenho relação de afeto. Aos 15 anos fiquei amiga de Cissa, Angela, Vera e Issa Stern, filhas dos herdeiros da Perfumaria Myrta S.A. A fábrica faliu em 1980, mas o Eucalol ficou na historia por ter revolucionado o mercado. Foi o primeiro sabonete feito à base de eucaliptos, era verde ! Além disso tinha uma forma de comunicação inusitada: em 1930 lançou uma campanha colocando estampas diferenciadas dentro das embalagens dos sabonetes para incentivar o colecionismo, e com isso aumentar as vendas e o faturamento da empresa.  

No blog Caríssimas Catrevagens do Marcos Dhotta de Recife, mais vintage impossível, tem imagens deliciosas destes cartões vendidos a peso de ouro para colecionadores…

E o Lifebuoy reencontrei outro dia nas prateleiras do supermercado em Porto Seguro. Me lembro do jingle e em como soava estranho um sabonete com esse nome numa época em que nem se falava tanto inglês. Lifebuoy é uma das mais antigas marcas de sabonete no mundo. Surgiu em 1894 na Inglaterra, mas só chegou ao Brasil em meados dos anos 30. O fabricante garantia que o produto acabava com o mau cheiro do corpo, surgindo aí o termo cecê, nos anos 50.  Isso graças ao poder anti-séptico e bactericida do produto, enfatizado nas campanhas publicitárias do produto, especialmente nos países subdesenvolvidos… E viva um banho e a viagem pela internet onde busquei as informações para ilustrar a minha memória…

Ed Wilson

Só ontem a noite num email da Marília Barbosa soube da morte de Ed Wilson. Muitos talvez não se lembrem – ou conheceram – o irmão do Renato (Renato e Seus Blue Caps). Mas eu tenho não sei se uma deformação ou excesso de informação de uma época da música brasileira que muitos ao ouvir fazem “arghs” e “irghs”, chamam de brega, e quem aceita dá um up grade dizendo que é Jovem Guarda. É por isso que lembro dele muito bem… Acho que conversamos não mais do que meia dúzia de vezes para reportagens na revista Amiga. Gente, eu era repórter da Revista Amiga !!! Nada a esconder, só me orgulhar… E Ed sempre foi gentil e manso… E esta delicadeza está na obra que deixou como “Chuva de prata”, gravada por Gal Costa, “Pede a ela”, por Tim Maia e “Agüenta coração”, por José de Augusto, tema de abertura da novela “Barriga de aluguel”, da TV Globo.

Ed fazia parte das Jovens Tardes de Domingo e partiu aos 62 anos. Não importa de quê, foi no seu tempo e eu fui buscar no youtube um pouco dele nesse link…

http://www.youtube.com/watch?v=sboMpq-OVOA