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Chico e Tom

Foto de Felipe Assumpção / AgNews - No ultimo sábado, no Citybank Hall.

Fiquei comovida com esta foto. Um exemplo de amizade, respeito e profissionalismo dos mais sérios homens de humor que conheci.

Chico Anysio : O gênio da comédia, um artista pleno na sua arte. Como jornalista tive o privilégio de entrevista-lo muitas vezes. Na verdade a primeira entrevista foi no inicio da minha vida profissional quando ele já era um sucesso e estava estourado com um show na boate Sucata na Lagoa (RJ). Tenho o registro em preto e branco, é uma foto hilária. Entrevistei-o para as revistas e jornais por onde passei e lembro-me de uma com detalhes: num intervalo de gravação do programa no Teatro Fênix, sentamos na escada, ele vestido com a personagem Salomé, a velha gaúcha de Passo Fundo, e juntos lamentamos o final de nossos casamentos. Ele contava a separação de Alcione Mazzeo e eu de Régis Cardoso. Foi um desabafo de amigos e tive o maior cuidado em escrever esta matéria. Meses depois nos reencontramos numa festa no meu aniversário, quando eu estava tentando reatar com o ex-marido e ele me deu de presente um rolo de macarrão escrito Começar de Novo. Humor em todas as circunstâncias, com delicadeza e elegância.

Tom Cavalcante : Em meados dos anos 80 ele era a grande revelação do humor, estava arrebentando de sucesso na TV Globo, e foi contratado pela Agência DC Set, empresa que reunia os maiores artistas nacionais e para quem eu trabalhava. Não tínhamos muito contato até que um dia entrou pelo meu fax a copia de uma carta que Tom enviara a Chico justificando-se de um mal entendido. Se eu achasse conveniente, podia distribuir à imprensa. Era uma carta sincera e com enorme humildade. Era o aluno retratando-se ao mestre por uma tolice qualquer. Lamento não ter guardado esta carta, mas ali estava o caráter do artista que passei a admirar dentro e fora do palco. Jamais o entrevistei, mas tive o privilégio de acompanhá-lo quando saiu da TV Globo para a TV Record. Foram três meses convivendo diariamente e participando da implantação de um programa que aos poucos ganhou sua cara. Aprendi a admirar a sua capacidade de se transformar com os personagens e a genialidade do imitador.  É único.  Aprendi também a conhecer o bom marido, pai e amigo.

Tom e Chico : um encontro que estava escrito nas estrelas. Dois cearenses geniais que se amam, que me emocionam com sua arte e me fazem chorar com uma foto.

Igual a ela…

New York, janeiro 1982 - Mamãe, eu e Bernardo

Acabei de almoçar sozinha, coloquei os cotovelos sobre a mesa, cruzei as mãos e por um momento me vi igual a minha mãe. Era exatamente nesta posição que ficava quando constatava que todos tinham acabado a refeição e balançava o sino de prata chamando a empregada para retirar os pratos da mesa. Os dedos longos cruzados, a cabeça num porte altivo, com os olhos ela acompanhava o movimento da empregada ao recolher os pratos e travessas acomodando tudo com muito cuidado na bandeja. Nesta postura permanecia até chegar à sobremesa e servir cada um de nós. Os pedaços de goiabada com queijo, ou colheradas de doce de leite cozido na panela de pressão junto com o feijão, eram divididos irmamente para evitar discussões. E hoje me peguei de mãos cruzadas repetindo o gesto, mesmo sem ter campainha para tocar nem empregada a chamar para recolher o único prato que eu mesma preparei.

Passei grande parte de minha vida não querendo ser igual a minha mãe. Já basta a semelhança física, e sempre foi difícil conviver com seu jeito pouco afetuoso. Impossível lembrar um abraço, um afago ou um colo. Se existiram foram tão rápidos que esqueci. Recordo seu jeito impecável de se arrumar para qualquer ocasião. Nenhuma ruga em suas roupas, sempre limpas e perfumadas. Mamãe tinha uma forma simpática de receber as visitas, atender ao telefone e se relacionar com os vizinhos. Quase que uma profissional em relações públicas. Jamais esqueceu um aniversário ou deixou de visitar amigos em momentos importantes. Os que a conheceram não devem ter percebido que seus filhos sentiam falta de um beijo de boa noite, um abraço ao voltar da escola, ou apenas ficar sentada de mãos dadas assistindo um filme na TV. Este último item nem pensar, pois mamãe odiava filmes. Não entrava no mundo dos sonhos e ilusões. Apesar de ser professora, jamais a vi com um livro nas mãos. Mas apesar de tudo isso era uma pessoa interessante e boa de conversa.

Somos exatamente o que rejeitamos ser. Li isso algumas vezes e acreditei que o fato não se repetiria comigo. Ledo engano. Hoje me vejo subindo as escadas apoiando as mãos sobre as coxas, exatamente igual a ela. Sou surpreendida em me ver com as mãos no queixo prestando atenção em algo que se passa na TV, assim como ela. E se for prestar mais atenção descobrirei mais semelhanças, pois ela está em mim muito mais do eu queria.

Há pouco mais de um ano ouvi pela primeira vez ela dizer “eu te amo minha filha”. A voz já muito fraca, a dificuldade em falar proveniente de uma paralisia facial, só próxima do fim conseguiu verbalizar o que deve ter sentido muitas vezes. Não sei o que aconteceu na trajetória dessa mulher que sempre teve gestos educados, não gritava nem gargalhava. Uma mulher contida, que manejava as agulhas de tricô com extrema agilidade fazendo roupas para bebê com tamanha delicadeza que me faz acreditar que somente ali colocava o enorme amor que não sabia expressar.

Mamãe não me ensinou a rezar nem a conversar com Deus. Passou grande parte da vida sem tocar no assunto, e quando surgia o tema num encontro familiar dizia: “política e religião não se discutem”. Nos últimos 10 anos depois da perda do marido e do filho, fez um altar em seu quarto com santos, anjos, fitas e flores com bênçãos diversas. Uma vez estávamos sentadas à mesa da cozinha conversando sobre o que acontece quando a vida acaba e, depois de ouvir todas as minhas colocações, ao ver uma formiguinha rondando o açucareiro esmigalhou-a com a unha comentando: “minha filha, a vida termina assim não tem nada depois. Morremos como a formiguinha. Acabou.”

Não lamento mais ter suas semelhanças físicas nem gestuais, pois na essência somos completamente diferentes. E a vida continua…

Nada além… nada além de uma ilusão…

Uma cena da novela Passione se tornou meu objetivo de vida. Eu já assisti inúmeras novelas, tanto como telespectadora, quanto como jornalista e também como mulher de diretor, mas jamais imaginei que uma cena fosse me tocar tão intensamente. Uma belíssima produção de jantar à beira da piscina – a Globo faz isso magistralmente – com orquestra tocando “Nada além” e, de repente, Olavo convida Bete Gouvea  para dançar.  Não sonho em ter casa com piscina, nem festa com orquestra ao vivo, mas desejo chegar aos 80 anos dançando com a mesma leveza que Fernanda Montenegro nesta cena.

Aprendi a dançar com meus irmãos quando tinha menos de 10 anos. Os três mais velhos ensaiavam para as domingueiras no clube, e como faltava par eu era  levada ao posto de dançarina de salão. E gostei da brincadeira! Fui par constante do meu irmão Victor, dançamos até poucos meses antes de sua partida. E assistindo Bete e Olavo, como num filme, fotogramas, algumas imagens com cor, outras esmaecidas, como os meus sentimentos me fizeram voltar ao tempo… Lembrei pessoas, senti cheiro de festas, vi o quanto fui feliz em todos aqueles momentos e sorrisos estampados no papel, viajei num tempo em que eu ouvia:

“Dança esta música  comigo ?”

Quero sentir mais uma vez o cheiro bom do seu perfume Lancaster misturado com o meu Toque de Amor…  Quero acreditar que ainda estou com aquele vestido de renda azul turquesa, com um decote nas costas e sinto a sua mão suada na minha cintura… Faz calor e às vezes vem uma brisa morna do ventilador, um leve abano que não descola a franja da minha testa, mas alivia como uma delicada esponja de pó de arroz empoando meu nariz…. E somos apenas nós dançando La Mer ao som do disco de Ray Conniff  que roda na vitrola no enorme salão do clube da Tijuca… O mundo parou ali… Parou sim, por alguns segundos e deixou cravado em mim este sentimento que se torna tão vivo quando fecho os olhos e lembro de você…   Meu corpo se mexe, meus pés seguem os seus passos e sinto que sou Ginger Rogers e você Fred Astaire… Ninguém dança melhor do que nós… Posso perceber, mesmo com os olhos fechados que abriu uma grande roda no salão e todos admiram nossa coreografia…Como ensaiamos tantas vezes no quintal de casa, embaixo da mangueira, você assobiando no meu ouvido, às vezes cantoralando a melodia bem baixinho… Passos perfeitos, gestos delicados, somos só nós e Ray Conniff… Dança comigo mais esta noite para eu pensar que você ainda está aqui pois sei que ainda dançaremos outras vezes, na verdade nunca paramos de dançar … Você meu par perfeito e desfeito, partiu antes da música terminar … Mas tenho aqui o registro do seu sorriso ainda me olhando como se dissesse “tolinha, o baile não acabou”…

Já esqueci os momentos tristes da sua partida, a memória é seletiva, ficaram as boas lembranças, como das nossas danças… Os anos desfilam em papéis e concluo que a nossa vida é um grande baile… Com quantos dancei, esbarrei, e cada um saiu seguindo seus passos, em seu ritmo, tempo e hora… Nunca recusei uma dança, nunca fugi dos desafios… E hoje compreendo que cada um dança seus conflitos e esperanças, em busca do par perfeito para completar sua essência… Você se foi também numa manhã de sol, num cortejo simples que seguiu um caminho de terra onde podia se ouvir ao longe o barulho do mar. La Mer, o mar que tanto dançamos. Descansa em paz enquanto eu continuo nessa dança, mesmo me sentindo às vezes muito sozinha, mas sem esquecer os passos que você me ensinou…  Os 80 que me aguardem, estarei lá, firme e forte, dançando com você na memória…

Escolhas

Barra do Peso, Belmonte-BA

Acordei pensando em escolhas. Nada tão profundo como a que coube à Sofia ao optar entre a morte do filho ou da filha em um campo de concentração, mas na de pares, grupos, amigos… Quando criança,  brincava de roda e tinha uma canção que dizia “escolho a …… para ser meu par” . Com a amiga escolhida ia-se para o meio da roda onde se ficava requebrando e se exibindo por alguns minutos, enquanto todas as outras crianças rodavam olhando a cena… Eu ficava muito constrangida quando chegava a minha vez de tirar apenas uma amiga para dançar no meio da roda, seria mais justo se todos saíssem requebrando como em uma escola de samba, assim não estaria deixando alguém de lado…E da roda às festinhas na adolescência a escolha continuava, só que desta vez era mais dramático : alguém me tirava para dançar. Tinha a opção de recusar a dança, mas jamais consegui tomar esta atitude, morria de dó do pobre rapaz… E lá ia eu pelo salão dançando com quem me convidasse, mas raramente surgiam estranhos. Fazíamos parte do mesmo grupo, gostávamos das mesmas coisas, tínhamos o mesmo comportamento e educação…

Naquele tempo ainda não sabia que eu seria o reflexo do meu grupo e esta seria a mais desafiadora experiência… Os grupos que escolhi fazer parte ou me escolheram, como a família de onde vim, as crianças com quem brinquei, os rapazes que me tiraram para dançar, as garotas com quem troquei confidencias na adolescência, os amigos da escola, os parceiros profissionais, os amores e casamentos todos foram espelho dos momentos que vivi. A estrutura do núcleo familiar me deu os princípios básicos de educação, moral, ética e segurança para escolher minhas tribos. Amei nas semelhanças que me via no outro e na mesma proporção odiei a fragilidade do outro que era também a minha e que eu não queria enxergar. Sou os lugares por onde passei e as pessoas com quem andei. Sou um caleidoscópio de tudo isso, caquinhos coloridos que refletidos no espelho se multiplicam em dezenas de formas. Às segundas-feiras quando me vejo sentada à mesa da varanda com Cláudia, Flávia, Luciana e Suely, o pequeno grupo de estudo e meditação, fico feliz em constatar que aonde eu for sempre vou encontrar pessoas com a mesma essência… Acho até que o universo já conhece o meu estilo, visto os bons pares da minha vida…

Sim e Não

Nos últimos dias o NÃO tem sido constante no meu vocabulário. Que palavrinha difícil!  Disse NÃO de forma suave, gritando, rindo, chorando, implorando, lúcida e louca. Já disse NÃO me negando, sem mesmo saber quem eu era e o que era …

Algumas vezes falei NÃO politicamente, em outras amorosamente, e em muitas – mas muitas mesmo – profissionalmente. Creio que me contratam também para isso. Mas o meu atual desafio é falar NÃO para educar, impor limites, determinar espaços e reafirmar posições. Falar NÃO quando seria mais fácil dizer SIM, mas com o passar do tempo eu iria morrer de raiva…

Estas reflexões profundas chegaram por conta do exercício diário que estou fazendo para ensinar Bella, uma cadela da raça Pastor Alemão, nova paixão em casa, a viver civilizadamente e se tornar guardiã… Bella tem menos de 3 meses e mostrou coragem ao enfrentar o Xico que, apesar de enorme, é o mais delicioso e amoroso Golden Retriever do planeta…

Se todos os NÃOS da minha vida tivessem sido para educar cães, esse texto nem teria surgido… Mas quando os NÃOS repetidos para Bella começaram a me incomodar, percebi que havia alguma coisa a mais ……Preciso rever os NÃOS que disse querendo dizer SIM e os SIM com a boca travada querendo dizer NÃO … Continuo pensando no assunto, esperando que um dia eu seja apenas SIM…

O tamanho do sonho

27 milhões acumulados na Megasena é o que basta para muitos apostarem na “compra” do sonho. Mas sonho se constrói, se for possível ter um empurrão milionário melhor ainda, mas se a aposta não vingar a vida segue… Tenho um amigo que quando criança ia para uma fazenda no interior de Minas onde pegava carona num caminhão que transportava leite e passava noites imaginando o dia que teria um latão com suas iniciais JAR. Não um latão simplesmente decorativo, mas um latão com leite tirado de vacas de sua fazenda. O caminho profissional do meu amigo deu muitas voltas pelo mundo do showbiz. Continua viajando com shows pelo Brasil e pelo mundo, foi juntando economias e há 3 anos comprou uma fazenda em Minas… Uma terra distante, estrada de chão batido e começou com 12 novilhas. Hoje tem mais de 100…Voltou esta semana de férias com as mãos calejadas e encardidas da vida rural. Com orgulho mostrou as fotos dos bois, vacas e novilhas, das jandaias ciscando no quintal, abraçado com o caseiro, o riozinho que corta suas terras e quando chegou na foto  onde aparece sentado nos latões respirou fundo e comentou : “como sonhei ver minhas iniciais num latão de leite” …. Já são 285 litros de leite dia, e lá vai o Guto com suas terras, uma vida rústica em casa com fogão de lenha e feliz da vida… Um sonho não tem tamanho, é só começar a desejar com carinho…

Guto e seu sonho...

Minha amiga Vanusa

A primeira vez que a vi foi na Serra da Cantareira (São Paulo) em uma casa linda onde vivia em clima de família feliz com Antônio Marcos, as filhas Amanda, bem pequena e Aretha ainda no colo… Vanusa e Antônio Marcos formavam o casal perfeito da música jovem no início dos anos 70. Ele moreno, cantor, poeta, compositor de sucesso; ela loura, rebelde, cantora, compositora e mãe dedicada. O casamento durou mais algum tempo, o amor entre os dois a vida afora e a nossa amizade, manteve-se firme.  Antônio Marcos morreu muito cedo (1945-1992), tinha pressa de viver, voracidade e uma intranqüilidade digna dos poetas. Vanusa casou e descasou muitas vezes e estive ao seu lado em momentos marcantes como no nascimento de Rafael (filho de Augusto César Vanucci) e em algumas gravações incríveis como um disco produzido por Paulo Coelho onde, entre outras músicas, gravou a versão em português de “I Will Survive”, hit de Gloria Gaynor, feita pelo próprio produtor.  Em 1999 eu escrevi e co-produzi o musical autobiográfico “Ninguém é Loura por Acaso” .  Ficamos 3 meses em cartaz, a proposta era viajar o país e dar continuidade em outras edições Ninguém é loura 1, 2, 3… Havia muito para contar … Mas Vanusa ao mesmo tempo em que é divertida, encara uma cozinha com qualidade para receber os amigos, sensível para a poesia e pintura, tem seus jeitos às vezes um pouco estranhos em se relacionar com os amigos. Com isso o espetáculo ficou apenas como referências em nossos currículos e 11 anos se passaram. Ontem nos reencontramos e foi como voltar na Serra da Cantareira quando tínhamos muitos sonhos, achávamos que podíamos tudo e não tínhamos idéia do que faríamos quando chegássemos aos 60 anos…

Vanusa querida, quem diria, apesar das nossas loucuras chegamos lá! Cheguei com as minhas cicatrizes, uma safena a menos, e você com um grande golpe que ficou marcado no seu ombro ao quebrar a clavícula. Sei que os últimos meses foram complicados para você, mas lembre-se que já passamos por situações ainda mais difíceis quando tínhamos menos experiência e hoje rimos de tudo isso… E ainda vamos rir mais da sua memória curta, esquecendo da letra das músicas que você canta há anos, e da versão cult dada ao Hino Nacional num momento em que você simplesmente estava fora de si… A mesma internet que fez com que nos reencontrássemos nos últimos anos jogou você na mídia num dos momentos mais constrangedores de sua trajetória… Não pouparam o seu desconforto, a sua carência, a sua doença, os seus remédios, as suas neuroses, os seus vício, seja lá o que for, mas sem dó nem piedade você virou piada… Quem te conhece sabe que você estava distante dos seus princípios, das mineirices de boa moça que sempre casou, pois não podia simplesmente “ficar com alguém” … Afinal, o que os outros iriam dizer ?

Acontece amiga, que não podemos perder a nossa essência, pois muito já se foi… Se foi a nossa juventude, mas não os nossos sonhos… Se foi a elasticidade de nossa pele, a agilidade do nosso corpo, a vista ficou cansada, aparece um pouco de artrite nos dedos, rugas em torno dos olhos e dos lábios, uma pelanquinha embaixo do braço e por aí vai… Pode tudo cair, menos a nossa integridade e a alegria de viver…  Ainda temos uns 20 ou 30 anos à frente para fazer outra história com a sabedoria conquistada com o que já passamos… Mas vamos construir este novo tempo sem arrogância, com humildade e  paciência, como se todos estes 60 anos rodados fossem apenas o ensaio para o grande show …

Foi fazendo a foto da capa desta revista que conheci Vanusa.

Encontrando na rede

Simplesmente ADORO os encontros e reencontros que o mundo virtual oferece. Li no twitter do @bmazzeo um comentário sobre a saúde do seu pai com o link para o blog http://bloglog.globo.com/chicoanysio/. Generoso e genial, Chico responde as críticas, algumas até ofensivas, de forma carinhosa e muito elegante. Um sábio ! Não poderia ser de outra forma, sempre foi um homem íntegro, correto e com caráter acima de qualquer suspeita. Encantada com seu texto, dando uma olhada geral na pagina do blog, encontro na relação dos outro bloglogs o da Rosana Ferrão, http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=189&mes=7&ano=2010 com quem convivi quase um ano nos preparativos do Rock in Rio 2001… E o tema do post é DIA DO ROCK com historias do rock em sua vida e no meio de tantas fotos eu me encontro nesta aqui abaixo…

Rock in Rio Café, ano 2000, em uma das seleções da Escalada do Rock... Jamari França, Tom Capone, Alexandre Hovoruski, Tony Platão.... e mais e mais... ótimas lembranças

Reencontrei uma figura incrível, em poucos minutos este sábado friorento em São Paulo ficou quentinho com as lembranças do Rock 3 e na minha cabeça começou a tocar “se a vida começasse agora e o mundo fosse nosso outra vez, e a gente não parasse mais de cantar, de sonhar…ô ô ô ô ô ô ô ô Rock in Rio….”

Preciso escrever mais sobre isso…

O meu vizinho do lado…

Quando alguma coisa me toca o assunto fica rondando minha cabeça como numa centrifuga de idéias ate que espremidas, peneiradas e coadas se transformam em textos. Acho que foi na semana passada que assisti no Jornal Nacional uma reportagem feita pelo Roberto Kowalick de que o governo do Japão está preocupado com  dezenas de idosos com mais de cem anos de idade desaparecidos. E o caso que chocou o país aconteceu numa casa em Tóquio onde morava o homem supostamente mais velho da capital, Sogen Kato, de 111 anos. A polícia descobriu o corpo dele mumificado no segundo andar. Tinha morrido há mais de 30 anos e nenhum vizinho se deu conta. Que dor !!

Eu não tenho problema em ficar sozinha, passei um grande desafio morando em Nova York quando no inverno, muitas vezes, ficava o fim de semana quase sem falar. Não era promessa, mas circunstâncias. O recesso era interrompido no domingo às 6 da tarde quando telefonava para falar com meu filho no Brasil. Mas penso na tristeza no fim da vida do velho Kato, na decepção de que ninguém se importava com ele. Ou não? Pode até ser normal à cultura oriental de cada um no seu quadrado. Distantes e frios, ao mesmo tempo em que exercitam com perfeição a contemplação, o olhar a distancia, mas não ao próximo…

A questão do velho Kato é um pouco dúbia já que a aposentadoria continuou sendo paga e os parentes estão sendo investigados, mas será que ele tinha a consciência de que não fazia a menor diferença?

O abandono e a solidão me tocam… Em algum momento de alguma “encadernação” acho que fui peregrina mundo a fora…  Para refletir sobre nossos vizinhos, fui buscar a poesia do Vinicius de Moraes que tem musica do Toquinho e fala sobre isso…

Um homem chamado Alfredo

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão.
Abriu o gás, o coitado,
O último gás do bujão.

Porque ninguém o queria,
Ninguém lhe dava atenção.
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração.
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação.

Ah! Quanta gente sozinha,
Que a gente mal adivinha.
Gente sem vez para amar,
Gente sem mão para dar,
Gente que basta um olhar, quase nada…

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão.
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada.

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom.
Um homem por trás dos óculos,
Como diria Drummond.

Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver.
Embaixo, assinado Alfredo,
Mas ninguém sabe de quê.

Isto é Brasil

Entre as muitas regras que havia na casa dos meus pais, a que mais me incomodava era que “política e religião não se discute”. Perdemos bons momentos em família para conversar sobre estes temas e até nos conhecermos melhor.  Penso que cidadania é um ato político e religião é essência.  Esta regra imposta por mamãe, hoje me faz refletir que foi criada como uma artimanha para calar papai. Ele era alegre, conversador, contador de historias e estes assuntos eram um prato cheio para longos encontros, coisa que ela não gostava muito. Mas apesar da linha dura, mamãe não conseguiu dispersar minha curiosidade sobre ambos os assuntos. Pós 1964 me uni a um grupo que papai chamava com bom humor de “os seus amigos comunistas” e na seqüência sai em busca da fé em várias religiões e seitas…

Acertei e errei algumas vezes em ambos os assuntos, mas esta semana assistindo ao debate na Band fiquei perplexa com a quantidade de marketing e a falta de conteúdo dos candidatos a presidência. Só foi deixar falar “ao vivo” para as fragilidades apareceram. Eles crescem quando estão nos programas políticos bem editados, com boa luz e melhores ângulos, como uma novelinha feita pelos melhores diretores, mas soltos num debate é assustador.  Chega a ser inacreditável se pensarmos que estamos ouvindo aqueles que se propõe administrar o quinto maior país do mundo em área territorial e também na mesma colocação como contingência populacional!

Não sou analista política, mas tenho em minha volta o panorama de um Brasil carente de educação, saúde, emprego e oportunidades. Eu vivo num lugar onde não há saneamento básico, onde existem várias casas que ainda não tem banheiro (!!!)  e é surreal sermos a nona maior potência do planeta e a maioria dos trabalhadores nesta área rural não quer emprego com carteira assinada para não perder a Bolsa Família. Isto é Brasil ! Chego pensar que o meu nível de exigência é fora da realidade, pois não consigo ver nenhum dos candidatos com capacidade para resolver esta questão. Será que a vida é assim mesmo, que Deus é brasileiro e no final tudo vai dar certo?