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Aprendendo e ensinando

Foto : Cláudia Schembri

Até pouco tempo eu acreditava que conhecer alguém que não soubesse ler era tão improvável como nevar na Bahia.  Mas desde 2004 quando vim morar em Vila de Santo Andre, BA, descobri que o fato existe ao meu lado. Impactante ver garotos analfabetos com pouco mais de 15 anos. Alguns aprenderam pouco na escola, ou quase nada. Sabem apenas escrever (ou desenhar?) o nome e são considerados analfabetos funcionais.  Segundo o relatório Educação para Todos divulgado há poucas semanas pela Unesco, a baixa qualidade do ensino nas escolas brasileiras é responsável pela nossa vergonhosa 88º posição no Índice de Desenvolvimento Educacional, atrás de países mais pobres como Paraguai, Equador e Bolívia. Vejo isso todos os dias. E por isso, como não dá para mudar o país, aproveito o tempo que estou aqui e faço o que posso.

Esta semana incentivei Cláudia Schembri, a fotógrafa que generosamente cede as fotos que coloco neste blog, para ajudar Nalanda, sete anos, moradora do outro lado da rua, a fazer os deveres de casa. Cláudia tem, entre outros estudos, formação em pedagogia e jeito para tratar crianças. Mas ficou assustada ao constatar no primeiro encontro que a menina apesar de estar na 2ª série não sabe ler.  Conhece o alfabeto, algumas sílabas, mas não forma palavras. O caderno está em branco e a menina sabe que nada sabe. Um enorme desafio, mas acredito que Cláudia vai conseguir ensinar Nalanda a ler e escrever.

Dentro deste movimento de fazer alguma coisa, a Lola convidou e ontem comecei a ensinar para um grupinho de 9 jovens que participam de um projeto de rádio na web no IASA (Instituto Amigos de Santo André), a fazer um blog. Enquanto eu escrevia o post anterior com todos colaborando com as informações, vendo fazer upload da foto feita no momento, percebi olhinhos tímidos e curiosos.  São adolescentes, não importa se vivem à beira de um rio lindo e de um mar imenso numa vila com menos de mil habitantes com ruas de terra e onde falta saneamento básico. Jovem é igual em qualquer parte do planeta. As meninas querem o “template” do blog lilás ou roxo e os meninos preferem o cinza e o preto. O grupo fechou acordo num tom laranja claro, e as aulas vão continuar uma vez por semana até dominarem a ferramenta do blog. Impossível descrever a alegria que essa aula me trouxe. Aprendo muito vivendo aqui e ensinei a minha profissão para muitas pessoas. Mas desta vez é completamente diferente. É um sentimento que não se explica nem se vende. É um aconchego no coração, é retribuir à vida um pouco do que sei. É como ajudar a abrir uma janela e liberar a borboleta, como a da foto, que passou a noite dentro de casa…Vai voar por outros mundos, liberta…

IASA criando blog

Estou reunida no IASA com um grupo de jovens que desenvolvem um projeto de Rádio e Televisão. Vários temas são apresentados, entre eles preservação do meio ambiente, divulgação da Vila de Santo André como destino turístico, campanhas de saúde e programas musicais. São 9 jovens, entre 14 a 16 anos, que integram o grupo Impacto Jovem.

Hoje estou aqui compartilhando o pouco do que eu sei na criação de um blog.

Com a galera

Sobre a partida…

Passei os últimos dias com um pensamento constante. Onde eu fosse ou o que eu fizesse, lá estava a questão chegando sem pedir licença. Um assunto que dói e toca profundo não se vai embora de uma hora para outra. O que tanto me incomodava era o fato que vinha acompanhando de longe, através da internet e de noticias passadas por amigos, sobre o processo final do músico Paulo Moura. Apesar de não ter convivido tão próximo do seu talento e genialidade como gostaria, era meu amigo por tabela, já que era muito especial na vida de duas pessoas que quero muito bem, Cacaia Jorge e Paulo Martins. Além de partilhar da dor dos amigos que estavam envolvidos neste momento de forma tão intensa, o que me tocou profundamente foi abrir a ferida que tento cicatrizar das perdas recentes com processos semelhantes. Que a morte é inerente ao homem, é fato. Mas como se conduz me angustia.

As perdas essenciais que sofri, todas antecederam períodos de doença onde o sofrimento era dos enfermos e dos cuidadores. Foram longos os tempos aguardando a morte. Doía no corpo e na alma. Dia a dia esperando o momento final, e por que tem que ser assim ? Que prêmio maravilhoso recebem os que simplesmente vão dormir e não mais acordam, aos que partem rápido deixando a família atônita, mas sem a triste visão da matéria se deteriorando!

Se pudesse, Senhor, eu abriria mão de muitos prazeres e até singelas alegrias só para garantir o meu bilhete de passagem rápido… Um sonho profundo que me levasse valeria mais do que qualquer gole de cerveja em dia de sol quente, cobertor macio em noite fria, abraço afetuoso, passarinhos cantando no quintal, a alegria de ver florescer pela primeira vez a “cotonete” (foto), andar com olhos fechados na areia com maré baixa, dormir vendo estrelas, suspiro profundo durante a meditação, vestir roupa nova, abrir embrulho de presente, o cheiro da maresia, telefonema inesperado, reencontrar amigos, cigarra cantando no fim dos dias de verão, ponto final em texto revisado… Ufa! Apesar de tudo isso, Senhor, que o meu caminho seja o que tiver que ser, e a Sua vontade seja feita… Descanse Paulo Moura. (Foto : Cláudia Schembri)

Pensamentos em pedaços

Movimentos compassados, prá frente e prá atrás, vovó pedalava a máquina de costura. Nem sei se ainda sabem o que é máquina de costura com pedal, ou se acham que as roupas já “nascem” prontas… Mas quando criança eu ficava sentada no chão, ao pé da máquina, vendo vovó costurar as roupas da família enquanto assobiava… Nunca vi ninguém assobiar tão bem, interpretava valsas, canções populares e infantis, tinha um vasto repertório capaz de me deixar extasiada por longo tempo. No vai e vem do corte de tecidos às vezes ela deixava cair propositalmente uns pedacinhos de pano que eu emendava transformando em manto de rainha ou cobertor para as bonecas. E quando tudo parecia monótono, vovó abria uma gavetinha cheia de botões e me oferecia aquelas preciosidades como divertimento. Eram muitos, mas muitos botões, de todos os tamanhos, materiais e procedências… Eu podia brincar o quanto quisesse, mas depois tinha que devolver à caixinha intacta. Pelo bom comportamento, às vezes ganhava algum botão dourado que servia de medalha no manto de rainha…

Estas lembranças surgiram quando puxei um fio de memória para descobrir de onde vem o meu prazer em unir pedaços, a paixão por quebra cabeças, colchas de retalhos e mosaicos, uma alegria incomparável que me leva a passar anos fazendo centenas de quadradinhos de crochê numa interminável colcha colorida que um dia há de ficar pronta. Sempre gostei de tricotar qualquer coisa que tivesse listras, ou criar desenhos geométricos em casacos soltos e desestruturados…

A viagem dos pedacinhos de minha vida me levou nesta semana a fazer uma colcha. Tinha alguns retalhos,  comprei outros tecidos, cortei, misturei, juntei  e surgiu uma nova estampa… Um patchwork do meu jeito, e enquanto costuro minha mente ferve, vai e volta… Mostrei a colcha quase pronta à minha amiga Luciana Wis, psicanalista, figura singular que há quase um ano é minha vizinha em Vila de Santo André.  Comentei que acabara de descobrir que tenho ímpetos em juntar caquinhos e como isso me faz bem. Sinto que nesse exercício vou coordenando os pensamentos, encaixando as duvidas como quem combina o tecido xadrez com a estampa floral.

Sentada no pátio de casa, embaixo de um céu estrelado, numa noite em que a chuva deu folga, com o jeito manso que tem de falar as coisas mais profundas, Luciana disse que isso é coisa de quem tem um olhar menos rígido, múltiplo… Como resultado as cenas se tornam mais enriquecidas e o olhar ganha diversidade … Que alívio saber que é apenas isso…A minha loucura não é compacta, é fluida, móvel e sendo assim vou continuar juntando tecidos, linhas, caquinhos e pessoas…

Aprendizados

“Queime a lagarta antes que ela te queime…”

Dei um grito quando vi o Guinho que, com um galho seco na mão,  mexia na lagarta dourada que há mais de uma semana “cultivava” dentro de um grande vaso, alimentando diariamente com folhas tenras… A lagarta que apareceu no quintal, não era do tipo que se transformaria em borboleta. Era gorda, uma espécie diferente, parecia um pompom, mas nem por isso perigosa…

“Queime a lagarta antes que ela te queime”, me fez lembrar a mamãe. Tenho pensado nela com freqüência, e hoje podia até ouvi-la  fazendo essa recomendação quando aparecia no quintal muito menos que uma lagarta, mas uma simples taturana preta. E eu, curiosa, também ficava com um raminho de árvore virando a infeliz de cabeça prá baixo tentando contar quantas eram as perninhas que a faziam andar rápido. Memórias de criança, e quando penso em mamãe a primeira lembrança é da sua frase favorita, repetida centenas de vezes, geralmente servida antes das refeições:

“Vocês jamais vão poder dizer “a minha mãe cozinhava isso ou aquilo muito bem”, pois eu odeio cozinhar…”

Está certo mamãe, não importa se na memória do meu paladar ficou faltando seus temperos, mas reconheço que aprendi outras coisas de grande valia e que me acompanham até hoje, como fazer tricô. Confesso que faço pouco, também no calor da Bahia de pouco valeriam os suéteres, mas o prazer de ter sempre algum trabalho manual foi seu ensinamento. Crochê, ponto de cruz, vagonite, tapeçaria, costura, desde o primeiro paninho que fiz na escola com amostras de pontos para bordar você esteve ao meu lado zelando pelo capricho. Aprendi a fazer qualquer destes trabalhos manuais com o mesmo cuidado, tanto do lado direito como o avesso, a dar pequenos nós na linha para não deixar “um serviço sujo” e arrematar com zelo para o bordado ficar seguro, sem fios pendurados. Talvez você não saiba, mamãe, mas isso valeu para a vida toda. Saber ficar sozinha, me bastar no silencio enquanto a cabeça viaja em pensamentos e as mãos se ocupam foi de grande importância. Foi o início do aprendizado de aquietar a mente, o primeiro passo para a meditação. A estrutura do bordado – “o que está na frente tem que ser tão bom quanto o que está atrás” – é o exemplo de ética que você me deixou. Ser apenas uma pessoa, íntegra e transparente, em qualquer ângulo. Dar pequenos nós, é o que mais tenho feito. Unido e reunido pessoas, resgatado amigos, amarro com cuidado e deixo o fio curto para não fugirem…Era desnecessário mamãe, também deixar um sabor na lembrança. Seu legado foi muito maior.

Na balsa

Ana Cristina, Marilia, Miqueias e Luan atravessando na balsa para estudar/estagiar no Resort Costa Brasilis. Uma nova geração nasce do outro lado do rio. Tem sol depois da chuva. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Viva São Pedro !

O barquinho enfeitado ... saindo do rio para o mar...

Santa Cruz Cabrália como cenário.

Dia de São Pedro em cidade de barqueiros e pescadores é festa. E lá foram os barquinhos enfeitados com a imagem do santo subindo o rio, entrando no mar até Vila de Santo André, com cânticos e preces… E por falar em prece, segue a do Santo do dia :

“Ó glorioso São Pedro , por causa de sua vibrante e generosa fé, sincera humildade e flamejante  amor Nosso Senhor o honrou com o singular privilegio e em especial a liderança de toda a Sua Igreja. Obtenha para nós a graça de viver na fé, um sincero amor e lealdade a Igreja , aceitando a todos os seus ensinamentos e obedecendo a todos os seus preceitos. Deixe-nos alegrar e conseguir um paz na terra e uma eterna felicidade no Paraíso.”

Fotos : Cláudia Schembri

O pote de ouro

Gosto da lenda do pote de ouro no pé do arco-íris. Singela e lúdica leva para vôos sem asas, pura imaginação. E o que eu faria com um pote de ouro? E como faço para chegar até lá? Sempre acho que encontrarei muito mato no caminho e me vejo debatendo em um capinzal que cobre a minha cabeça. Cobre sim a minha cabeça, mão não é o capinzal. São tolos os pensamentos que não deixam ver que o pote de ouro está dentro de mim, dentro de nós. As soluções estão aonde nascem os problemas, e não fora de deles… Lembrei disso quando Cláudia enviou esta seqüência linda de fotos feitas na travessia da balsa… Fez um sol lindo e depois veio uma grande chuva, prenúncio de arco-íris… E eis que surge o pote de ouro no momento em que entendemos que somos luz e sombra, o bom e o mau, a tristeza e alegria, e todos os inversos são um só. A alma humana é simultaneamente divina e diabólica, sagrada e profana, santa e pecadora. E se for prestar atenção ao que escreveu Hermes Trimegisto na Tábua da Esmeralda em 680 dC, “é verdade, certo e muito verdadeiro que o que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.” Ninguém é só sol nem só chuva…Mas todos somos arco-íris com pote de ouro… (Fotos : Cláudia Schembri)

Começa a surgir ...

Cabrália ainda distante

Chegando mais perto da cidade

Se derramando na cidades

Esplendoroso no barquinho pesqueiro

O tamanho do amor

Delicadeza ainda existe !

Lembrancinha do casamento de Vera e Denise feito pelas amigas do Consulado de Portugal no Rio de Janeiro. Pequeno terço de Fátima acompanha os corações perfumados.

Comecei a escrever este texto ontem enquanto aguardava o vôo de volta para casa. Dei um comando errado e quando ví ja estava postado. Tentei tirar e não consegui… Concluo agora o pensamento…

Vera Linhares foi uma herança que meu irmão deixou. Vera e Victor foram amigos por muitos anos, destes que chamamos amigo de toda a vida. Quando Victor ficou doente e voltou para o Rio, ficou algum tempo hospedado em sua casa e nos aproximamos. Victor foi e Nenô se tornou lembrança de boas historias.

E assim se passaram 9 anos, até há algumas semanas quando Vera me enviou um email convidando para ser madrinha do seu casamento. Não era um casamento padrão : aos 60 anos ela ia se casar pelas leis portuguesas com Denise, sua companheira há 17 …  Era um convite para ser testemunha de uma história de amor sem preconceitos. No auditório do Consulado de Portugal, um grupo de amigos ouviram a Chanceler Maria Jose Piedade Nunes lendo o documento que consolidava a união conforme lei aprovada recentemente. Vera passa a ter todos os direitos em Portugal por estar casada com Denise, que nascida no Brasil tem a cidadania portuguesa por ser funcionária de carreira no Consulado… E que os anjos digam amém para que a felicidade estampada no rosto das duas se perpetue.

Corrigindo

Falha nossa na apuração:o Prefeito de Santa Cruz Cabrália Jorge Pontes foi afastado sim, mas foram 6 vereadores que votaram contra e 3 estavam a favor…
De qualquer maneira este assunto ainda vai dar pano prá manga como diria minha avó…