40 ANOS DE AXÉ

Da esquerda para a direita Diana Aragão (O Globo), eu, Christine Ajuz (O Dia), Angela Tostes (assessoria de imprensa) e, segurando minhas mãos, Luiz Caldas.

Este texto faz parte do livro “A VERDADE É A MELHOR NOTICIA” que lancei em 2015 contendo “cases” de assessoria de imprensa…. O Axé e Luiz Caldas fazem parte, e compartilho uma das sementes que plantou o movimento levando a musica baiana ao seu maior patamar…

“A Polygram era uma das 5 maiores gravadoras do país e tinha em seu elenco artistas do prestígio de Maria Bethânia e Caetano Veloso. Eu tinha uma relação amigável com seus diretores, alguns conhecia há muito tempo, como era o caso de Armando Pittigliani, que um dia em 1986 me telefonou convidando para um café na gravadora na Barra da Tijuca. Estava de olho em um grande lançamento. A novidade era um rapaz da Bahia que estava fazendo o maior sucesso com um ritmo novo e uma música chamada “Fricote”, estourada nas rádios de Salvador e no interior do estado. A gravadora planejava fazer um show fechado do cantor no Canecão, apenas para convidados, reunindo o melhor da mídia nacional, trazendo jornalistas e radialistas de diversos estados, apostando todas as fichas neste movimento musical que vinha com uma dança contagiante. Armando apertou o botão do gravador e o espaço se encheu com o som de uma música original, um ritmo diferente, bem mexido, cuja letra, nos dias de hoje seria considerada politicamente incorreta pois dizia:

Nega do cabelo duro / Que não gosta de pentear / Quando passa na baixa do tubo / O negão começa a gritar / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De violeta / Na boca e na bochecha / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De cor azul / Na boca e na porta do céu /

A letra fácil ficou cantando na cabeça. Para quem tem faro fino na descoberta de valores musicais, a gravadora estava no caminho certo. Pittigliani falou maravilhas do rapaz no trio elétrico, a multidão que o seguia no carnaval, uma verdadeira coqueluche. E ainda mostrou umas fotos do cantor bem magro, um cabelo longo no estilo de Michael Jackson no videoclipe “Thriller”, pés descalços e uma roupa largada. Ainda se falava que tinha uma dança acompanhando a música que era chamada de “deboche”. 

Com este volume de informação carregado de cheiro e frescor da Bahia, eu não conseguia ver o cantor no palco do Canecão. Se tinha mesmo este sucesso todo por que não levar os convidados para um show em Salvador? Iam sentir na pele a energia e estariam compactuando com a chegada de um novo artista. É o que nos dias atuais chamam em marketing de “brand experience”. Lembrei que quando morei em Nova York trabalhei em uma agencia de viagens e uma das agentes tinha na sua carteira de clientes uma pequena gravadora que quando queria apresentar algum artista novo no mercado convidava os radialistas para um fim de semana em uma das 3000 ilhas das Bahamas. Na piscina, aproveitando o sol, os radialistas viviam imersão sobre os novos artistas e jantavam assistindo os pocket shows. Ali mesmo a gravadora sabia se o produto iria para frente ou não, se mereceria um investimento maior.

A gravadora contestou minha sugestão preocupados com o orçamento, mas eu só pensava no impacto que faria o artista em sua própria cidade, com uma plateia já conhecendo a sua música e isto seria um ponto muito forte neste lançamento. Voltei para o escritório, fiz o levantamento do custo de 50 passagens saindo do Rio e de São Paulo para levar alguns jornalistas, radialista e produtores de TV, e dias depois voltei a me reunir na gravadora mostrando que não seria tão mais caro e poderiam aproveitar estes dias para reforçar a relação com os jornalistas.  Os 50 convidados se transformaram em quase 100. Vieram diretores da matriz na Holanda e o então Hotel Mediterranée em Salvador viveu dias de festa.

Num palco montado na Praça Castro Alves, com mais de 100 mil pessoas na plateia em total delírio, Luiz Caldas foi apresentado com todo seu tempero para a mídia nacional. Uma noite que ficou na história do rapaz e dos jornalistas, radialistas e produtores de TV que viram ali nascer o que veio depois ser o movimento do axé. Em poucas semanas o “Fricote” era sucesso absoluto e o cantor com seu jeito diferenciado de se apresentar descalço virou figurinha fácil em todos os programas de TV, páginas de revistas e jornais. No ano seguinte, aos 24 anos, ele se tornou rei absoluto do mais esfuziante carnaval de rua do país, Salvador bombava com o seu som do “deboche”. A música que trazia o batuque do negro da Bahia, o ritmo balançado da salsa e do merengue mais outras influências do caribé e as guitarras do rock, ele era a estrela máxima. Em 04 de março 1987 Luiz Caldas com seu melhor sorriso ganhou as bancas de revista de todo o país como capa da revista Veja. A gravadora teve um retorno financeiro e promocional muito maior do que o esperado com o lançamento no Canecão, impulsionando uma nova vertente musical.”

Parabéns @luizcaldas … este é um pedaço da sua historia…

Uma peregrina em Santo André

Nos conhecemos em um cenário bem diferente do que Vila de Santo André. Era janeiro de 1985 quando me recebeu em sua casa na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) para uma entrevista com seu marido Roberto Medina, contando com a presença dos filhos Jomar Jr, Rodolfo e Roberta. A reportagem foi capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, edição de domingo, estávamos em pleno Rock in Rio!

Maria Alice Couto Fernandes, ou Maria Alice Medina, mais de 1m70 de altura, o máximo de elegância em bem receber em todos os cenários que nos reencontramos desde então.  E não foram poucos. Do estilo roqueira chic à dona de casa, ela não deixava de ser notada. Eu a via num grupo de meditação ao nascer do dia no período em que o marido esteve sequestrado, como também estudando para o vestibular na faculdade de fisioterapia, acompanhando o marido em viagens ao exterior para contratação de artistas para outras edições do Rock in Rio, se preparando para fazer o caminho de Santiago, e em várias áreas VIPs do festival ao longo de todos esses anos. Uma amizade que não precisa ter presença constante, mas a certeza de que do outro lado tem alguém que lhe quer bem e conhece sua história.

Em 2002 me acompanhou até Santo André numa visita à casa do meu irmão que falecera meses antes. Foram poucos e intensos dias. Há 7 anos morando em Lisboa, vindo ao Brasil algumas vezes para visitar a família e amigos.  Desta vez me deu o privilégio de passar uns dias em minha casa. Chegou um dia antes da Festa de Iemanjá, trazendo como recomendação terapêutica tomar sol, banho de mar e pé na areia. Foi o que encontrou, além de boas conversas e atendimento com ótimos profissionais de bem-estar que lhe cobriram de cuidados. Dias encantados…

Tive tempo de saber dos seus passos em Portugal, sua realização como autora do livro “Do Rock a Compostela” lançado em 2019, onde conta a sua trajetória como mulher e mãe até se tornar peregrina na primeira passagem pelo Caminho de Santiago em 1999. Já fez o trajeto 14 vezes, sendo três saindo da França e as outras de Portugal. E não bastando ainda foi estudar na Universidade de Santiago da Compostela. O livro tem um texto primoroso, pessoal, interessantíssimo, profundo e com fotos belíssimas de sua autoria. Uma peça de edição sofisticada, um livro de mesa, cujo conteúdo bem que mereceria uma edição básica para atingir um público ainda maior.

Falamos também sobre seu envolvimento com projetos sociais em Portugal como Embaixadora da Plataforma do Agora, criada por uma portuguesa residente na Islândia que dá voz aos trabalhos sociais em mais de 60 países via rádio e outros meios de comunicação; diretora e fundadora de Zencancer e diretora de acontecimentos do Instituto Rope, instituição que realiza ações com portadores de doenças terminais. Na área literária, marca presença como membro da Academia Peregrina de Letras, cadeira 21, em São Paulo; participante da Academia Europeia de Escritores da Língua Portuguesa, Embaixadora do Instituto IMLUS, instituição do mundo da língua lusófona e Sócia Fundadora do MIMA – Museu Internacional da Mulher da Língua Lusófona.

Maria Alice não para. Com esse volume de conhecimento se tornou palestrante para peregrinos, mulheres 50+ e também no mundo corporativo onde fala sobre a capacidade de se reinventar. Ainda encontra tempo para ser mãe de três, avó de oito e cultivadora de amigos. Como consta no subtítulo do livro, “às vezes se ganhas às vezes se aprende”, e neste verão creio que percebeu que por aqui sempre sairá ganhando e aprendendo..

Esperamos um breve retorno!

As fotos da festa de Iemanjá são de Maria Alice…. as demais são dos amigos

Uma trajetória no showbusiness

Desde 1986 quando conheci a história de Dody Sirena, quis contar em um livro. As primeiras anotações foram em 1994 e, de lá pra cá, acompanhando sua trajetória, fazendo parte da equipe em diversos projetos, tentei algumas vezes convencê-lo o quanto poderia servir de inspiração para tantos outros sonhadores… Foram algumas negativas, sempre gentis. De tempos em tempos eu voltava ao assunto, até que em dezembro de 2021 acendeu uma esperança…Ele já havia trilhado um longo e bem-sucedido caminho no showbusiness, havia enfrentado a pandemia e, ao contrário de muitos empresários, não se retraiu, mas expandiu os negócios. Foi numa conversa por telefone que propus escrever o livro. Partiria do que vi, dos relatos de muitos profissionais com quem trabalhou, familiares, amigos, além de uma grande pesquisa. Se aprovasse publicaríamos.

Em novembro de 2023 entreguei os originais para análise. Ele ia embarcar alguns dias depois para fechar um grande negócio em Nova York, ficaria alguns dias com uma agenda mais tranquila e poderia ler. Dias depois enviou a mensagem que estava gostando bastante e quando voltasse queria conversar a respeito de algumas passagens. Foram duas longas conversas online quando trouxe comentários relevantes que engrandeceram o meu relato.

E assim, em maio de 2024 “DODY SIRENA, OS BASTIDORES DO SHOWBUSINESS”, lançado pela Matrix Editora, foi lançado com noites de autógrafos no Rio e em São Paulo, e a programada para Porto Alegre foi adiada para novembro devido as enchentes na cidade.  Ótimas críticas, muitas entrevistas e a surpresa para muitos do quanto esse homem construiu em mais de quatro décadas.

Quem quiser conhecer essa história, pode adquirir o livro no link abaixo…

https://matrixeditora.com.br/produtos/dody-sirena-os-bastidores-do-show-business/

Saindo do armário

Estou no clima de “Mudanças”, igual a música da Vanusa e do Sérgio Sá onde sou parceira com o texto falado. Trocando de quarto, fazendo limpeza nos armários constato mais uma vez que a função do guarda-roupa duplex é ser depositário de tudo o que não faz a menor falta no dia a dia, mas acreditamos que um dia vamos precisar… E assim passam anos com “fantasmas” presos em malas e caixas… Esta arrumação era inevitável, procrastinada diversas vezes quase que falou por si pedindo socorro. Me liberte, parece que diziam as caixas de CD e DVD. Estou em tempo de reduzir as memórias físicas, afinal está tudo na nuvem. Já tinha doado uma parte, não tenho nem equipamento e agora resolvi guardar somente registros muito especiais onde o meu trabalho aparece creditado no encarte ou com enorme memória afetiva que poderiam até se transformar em quadros.

Foi assim ao rever “Alma Mater”. Se tivesse que escolher apenas uma trilha sonora dos meus tempos morando em Lisboa seria esta. Descobri por acaso ao ouvir no rádio de um taxi e me encantei com a sonoridade do Rodrigo Leão, ex integrante do grupo Madredeus, que fui direto ao El Corte Inglês, uma enorme loja de departamentos, encontrar este que seria meu grande companheiro em terras lusas.  Além desta “alma” guardada estavam outras memórias que fui folheando e me levando aos momentos em que um dia foram importantes.  Folhear o passado é bom, mas o melhor é começar um álbum novo de figurinhas….

Em tempo : Rodrigo Leão e “Alma Mater” facilmente encontrado no Spotfy e outras plataformas. Trilha nova na casa !

Ipanema Adeus

Está rolando nas redes sociais no sul da Bahia um trecho do filme “Ipanema Adeus” com imagens do centro e cais de Santa Cruz Cabrália datado de 1974. O filme tem roteiro, direção e produção do Paulo Martins, primeiro marido, pai do meu filho, e começou a ser desenvolvido quando estávamos nos separando. Na sinopse Carlos, um executivo carioca de meia idade com um emprego estável e uma grande família, diante uma crise existencial abandona tudo e se muda para a Bahia para iniciar uma nova vida. O tema muito parecido com o que Paulo estava vivendo e, acompanhado dos protagonistas Hugo Carvana e Monique Lafond, viajou num fusca para filmar na região que, por total ironia do destino, eu vim viver há 20 anos. Razões totalmente diferentes me trouxeram, mas me levam a refletir sobre as “coincidências” da vida.

Há algumas semanas fui procurada por Diego Hamilton Reis, um professor de Porto Seguro que, junto com outros interessados na preservação da memória da cidade, está debruçado sobre as cenas dos anos 70. Considera um registro raro em formato audiovisual que mostra o casario, o cotidiano, personagens locais. Ele estava querendo localizar Paulo Martins, mas chegou tarde.

Paulo me visitou diversas vezes e ficaria imensamente feliz ao saber do legado de sua obra. Hoje quando completa cinco anos de sua partida, faço essa homenagem e convido aos interessados a assistir “Ipanema Adeus” disponível no Youtube…
Salve Paulinho !!

…e lá se foram 20 anos

Foi morando em Portugal, trabalhando no Rock in Rio-Lisboa, que um dia acordei decidida a parar de trabalhar por 6 meses. Os anos anteriores foram de glórias profissionais, perdas e dúvidas pessoais. Voltei ao Brasil, fechei o apartamento no Rio e vim para Vila de Santo André, Sta Cruz Cabrália, Bahia, que eu conhecia bem. Vim para a casa que era do meu irmão e que após sua partida minha mãe herdara. Cheguei com algumas malas, muitas interrogações, o desafio de vender a casa e buscar meu prumo.

Hoje fazem exatamente 20 anos que cheguei.  Me atirei como num trapézio sem rede para a experiência de viver num povoado à beira mar, na época com menos de 400 habitantes. Foi como ouvir de novo “eu caçador de mim” que me inspirou nos anos 80 a deixar tudo e ir morar em Nova York. Se lá deu certo, por que não tentar?

O destino fez sua parte e trouxe o recurso para comprar a casa. Fui de pedaço em pedaço, assim como os mosaicos, as colchas de retalhos e de crochê que faço montando um quebra-cabeça mental. Descobri que podia trabalhar em home office com internet discada. Primeiro seriam 6 meses que se tornaram dois anos e no dia em que decidi ir embora, fui convidada para ser Secretária de Cultura. Irresistível!

Ganhei muito em qualidade de vida. Tudo mais simples, apesar das dificuldades para uma urbanoide em estar numa área semi rural. Escrevi três livros, textos em blogs, criei o site da região em 2006, fui secretária de Comunicação em outra gestão e, seguindo um amigo craque em turismo, abri a minha casa para receber viajantes. Cidadã Cabraliense, título na parede e no coração, me tornei conhecida numa cidade onde não tinha raízes e adoro quando andando pela rua alguém diz: “oi dona Léa”.  

Fui mais longe do que podia sonhar. Agradecimentos são muitos, tantos amigos e histórias que preencheriam um livro.  Quem sabe um dia. Acompanhei a transformação do povoado, muros onde haviam cercas, uma comunidade amigável de nativos e chegantes. Estou cercada pela exuberância da natureza com pássaros, marés, luas, sons e movimentos que me falam sobre a impermanência dos tempos. Tudo é fluído.  E a vida é boa.

Para celebrar a data foto da Cláudia Schembri  

Casa da Léa

Quando tudo começou eram os chalés que a jornalista Léa Penteado tinha em sua casa no vilarejo de Santo André, Santa Cruz Cabra, Bahia, aonde recebia informalmente amigos e amigos dos amigos. Depois que o Ricardo Freire e o Nick Santiago ficaram hospedados trazidos pela querida Cacaia, seguindo a sugestão de quem entende de turismo nasceu a “Pousada Banana da Terra”. Mas os que chegavam diziam: “é a casa da Léa”.

Este verão, quase que numa crise de identidade, conversando com a Aline e a Esther, amigas profissionais de marketing e comunicação, surgiu a ideia de fazer um “rebranding” da Banana da Terra, um processo usual para ajustar a maneira como marcas se colocam perante ao público e o mercado. Concluímos facilmente que o certo era dar o nome da própria essência: CASA DA LÉA.

A bem da verdade, “Banana da Terra” sempre foi CASA DA LÉA. Até o localizador do Google sabe disso, era só criar uma nova identidade visual. Todos que por aqui passam conhecem o atendimento sob medida, das boas conversas no café da manhã, das colchas e os cabides que faço para os chalés, dos livros para empréstimo, das dicas de passeios e, como Freire escreveu no @viajenaviagem ,“é como se hospedar na casa de uma amiga que você fez no Facebook (não por acaso, as reservas são realizadas por lá).” E agora também as reservas são por aqui, ou no www.acasadalea.com site criado pela @krissubtil ou no www.santoandre-bahia.com

Parece que nada mudou, mas para mim tem sabor de começar de novo.

Chico 80 anos

Lendo nos jornais as homenagens aos 80 anos do Chico Buarque na próxima 4ª feira, lembrei de um encontro que tive com ele que, se não tivesse testemunhas, ficaria calada. Em 1967 eu fazia o curso pré-vestibular na rua México, centro do Rio de Janeiro, e entre os colegas havia o tímido Léo. O cursinho preparava para diversas áreas, eu fazia para psicologia, mas haviam aulas compartilhadas com alunos de economia e administração, a turma do Léo. Eu morava na Tijuca, assim como Ângela, a minha melhor amiga, com quem diariamente ia de ônibus para as aulas. Certo dia Léo convidou 10 amigos para seu jantar de aniversário e lá fui com Ângela para o endereço que era a Galeria Menescal em Copacabana. O apartamento ocupava toda a extensão da cobertura, da N.Sa. de Copacabana à Barata Ribeiro. Eu já tinha ido a casas elegantes, mas nada se comparava àquela. Sofisticada e conservadora, havia obras de artes em todas as paredes que eu reconhecia pela assinatura dos artistas que tinha lido em livros ou visto em museus.

Foi só então que soubemos da família do Léo. Era filho do Leão Gondim de Oliveira e de dona Lili (Amélia Whittaker Gondim de Oliveira), o pai diretor dos Diários Associados e a mãe presidente da revista O Cruzeiro, que fazia parte do mesmo grupo. Os Diários Associados foram criados por Assis Chateaubriand e se tornou o maior conglomerado de mídia da história da imprensa no Brasil, tendo no seu auge cerca de 100 empresas. Era a Rede Globo de hoje, com emissoras de rádio, TV, jornais e revistas em todo o país. O impacto do ambiente não tirou o jeito descontraído dos jovens e depois do jantar, um strogonoff como mandava o cardápio da época, fomos levados à uma sala e como sobremesa a grande surpresa: um tímido Chico Buarque sentado na sala, com o violão ao colo esperando a turma para tocar e cantar as canções que já faziam sucesso… Ele já era famoso e não sei qual a lembrança que os outros amigos guardam, mas eu fiquei encantada em ver um ídolo tão de perto. Fez um show acústico particular, e nós fizemos coro com as músicas do seu primeiro LP, lançado no ano anterior… Nos esbaldamos com “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, “A Banda”, “Noite dos Mascarados”, “A Rita”, “Madalena foi pro Mar”, “Você não Ouviu”, “Juca”, “Olê Olá”, “Meu Refrão”. 

Uma noite para nunca esquecer… Ninguém tinha máquina fotográfica, eu não imaginava ser jornalista e o registro na memória é impecável. Anos depois entrevistei Chico Buarque algumas vezes e não toquei neste assunto, mas jamais esqueci o privilégio de ter feito parte de uma plateia tão seleta. Dos amigos do cursinho testemunhas deste encontro, ficou o Roberto Abramson, a Ângela se casou com o Gonzaguinha, partiu há alguns anos, e os outros perdi o contato. Assisti a muitos shows do Chico, nenhum igual a este. Nunca mais soube do Léo, mas onde estiver agradeço imensamente o privilégio e espero que seu caminho tenha sido tão feliz como é o meu. Quanto ao Chico, desejo cada vez inspiração para continuar nos deliciando com a sua arte. 

Seu Beira Mar

Escrevo livros, já são 4. Escrevi reportagens para jornais e revistas, argumento para cinema, mini novelas, releases, cartas de amor e comerciais, apresentação de discos, musical para teatro, projetos, blog, posts nas redes sociais… Eu gosto tanto de escrever que, atendendo ao convite do chef Viko Tangoda, escrevi sobre a lenda do “Seu Beira Mar” para o cardápio do restaurante com esse nome no centro histórico de Cabrália . Muitos chegavam ao local perguntavam “quem é Seu Beira Mar” e agora ja sabem sobre a lenda que pesquisei com muito alegria, escrevi e assinei, na ultima página do cardápio … Para quem não conhece, segue abaixo.

“A Bahia, terra do sincretismo religioso, dos cultos de matriz africana e dos orixás, que inspirou na busca do nome para coroar a realização do sonho de um grupo de amigos de trazer nova vida e vitalidade ao Cais do porto de Santa Cruz de Cabrália.

Encontramos na força da lei, da ordem e da retidão de Pai Ogum e da força da maternidade, da geração e da criatividade de Mãe Iemanjá, o Seu Beira Mar, um lindo Caboclo da linha de trabalho destes dois Orixás.

Conta a história que um caboclo caçador certo dia andando por uma praia foi surpreendido por uma linda indígena e se encantou. Ao procurar o pai e o cacique para pedir sua mão em casamento, uma decepção! Ela estava comprometida e o pedido foi negado. Com um amor tão grande no peito, o caboclo arquitetou um plano, matou o pretendente para se casar com a amada.   

Nem todo o amor afastou do caboclo um pesadelo aonde aparecia um indígena morto em uma praia. Certa madrugada saiu em busca do local e foi surpreendido por uma onda com um brilho intenso. Era Iemanjá que vinha cobrar a morte do seu filho. Queria o caboclo para lhe servir e, ao tentar levá-lo, surgiu Ogum anunciando que o filho era seu. Iemanjá refletiu e propôs à Ogum que o caboclo servisse a ambos. Até a 7ª onda serviria a ela, levando os pedidos dos que precisam da sua proteção. E atenderia à Ogum nas rogativas dos perdidos e aflitos nas beiras do mar, tormentas e naufrágios. E assim, Iemanjá e Ogum estão sempre nas praias acompanhando o Caboclo Beira Mar e nos inspirando na realização de nosso sonho!

Salve Seu Beira Mar!!! ”   

Outono

Na madrugada de amanhã começa o outono. Hoje é o dia de São José e na Bahia o verão continua como se a vida fosse sempre um eterno sol, brisa, mar e noites estreladas… As amendoeiras não seguem o outono, trocam as folhas quando bem entendem. Mas o outono deixou marcas em mim… O primeiro que vi na sua essência foi em Maplewood, um distrito de New Jersey, onde morei por um curto e inesquecível tempo em uma casa no estilo dos subúrbios americanos como se vê nos filmes da “sessão da tarde”. na Oakland Road. Éramos 3 adultos, 2 crianças e o sonho de fazer uma revista para os brasilianistas que tinham aos montes nos anos 80. O sonho não era meu, entrei no projeto dos amigos que não aconteceu. Para continuar por mais tempo na América fui trabalhar numa agencia de turismo na rua 47, esquina com a 5ª avenida, em Manhattan, mais de hora e meia de viagem. Caminhava em torno de 20 minutos até a estação de trem, ruas lindas, arborizadas, passava por um parque e ia apreciando as árvores mudando de cor pensando na vida que mudara de rumo. De trem seguia para Hoboken, fazia o traslado para o Path que atravessa as águas do rio Hudson e me levava até Manhattan onde um metrô me deixava próximo ao escritório. Pode parecer dureza, mas era muito divertido este novo mundo “9 to 5” no “american way of life”. Assim era de 2ª a 6ª e no sábado havia um turbilhão de coisas para fazer como retirar as folhas do jardim, pois no fim de semana que não fizemos, quase fomos multados… A casa da Oakland Road durou exatamente um outono. A amiga voltou para o Rio, eu cansei da longa distância para o trabalho e mudei para Larchmont, uma vila no Condado de Westchester, Nova York, um encantamento:  o apartamento estava há duas quadras da estação e em 32 minutos, num único trem, chegava na Grand Central, no coração de NYC, bem perto do escritório. Vi todas as estações de forma intensa nestes anos na América, mas a melhor de todas foi um outono em Boston quando visitei um amigo que estudava em Harward. Andei nos parques, sobrevoei a cidade de helicóptero e vi o espetáculo de folhas coloridas, variando do amarelo e marrom, passando pelo vermelho e laranja. Fecho os olhos e ainda tenho essas imagens, como se todos os outonos continuassem em mim, eternizados na folha de Oak colhida do meu jardim, guardada num livro muito especial, que me acompanha na cabeceira.  

Em referencia a árvore Oak, o carvalho em português, é forte e poderosa. Possui uma copa frondosa, não se deixa dobrar ao vento forte. É usada na composição do floral Oak do Dr. Bach e atua nos sentimentos de desânimo e desespero. Segundo Dr. Bach “é para aqueles que se esforçam e lutam para melhorar, tanto no que se refere à vida diária quanto aos assuntos profissionais. Continuam tentando uma coisa depois da outra, mesmo sem esperança.”

Uma folha de oak não entrou em minha vida por acaso… E quando me sinto frágil abro o livro e converso com ela…