
Este texto faz parte do livro “A VERDADE É A MELHOR NOTICIA” que lancei em 2015 contendo “cases” de assessoria de imprensa…. O Axé e Luiz Caldas fazem parte, e compartilho uma das sementes que plantou o movimento levando a musica baiana ao seu maior patamar…
“A Polygram era uma das 5 maiores gravadoras do país e tinha em seu elenco artistas do prestígio de Maria Bethânia e Caetano Veloso. Eu tinha uma relação amigável com seus diretores, alguns conhecia há muito tempo, como era o caso de Armando Pittigliani, que um dia em 1986 me telefonou convidando para um café na gravadora na Barra da Tijuca. Estava de olho em um grande lançamento. A novidade era um rapaz da Bahia que estava fazendo o maior sucesso com um ritmo novo e uma música chamada “Fricote”, estourada nas rádios de Salvador e no interior do estado. A gravadora planejava fazer um show fechado do cantor no Canecão, apenas para convidados, reunindo o melhor da mídia nacional, trazendo jornalistas e radialistas de diversos estados, apostando todas as fichas neste movimento musical que vinha com uma dança contagiante. Armando apertou o botão do gravador e o espaço se encheu com o som de uma música original, um ritmo diferente, bem mexido, cuja letra, nos dias de hoje seria considerada politicamente incorreta pois dizia:
Nega do cabelo duro / Que não gosta de pentear / Quando passa na baixa do tubo / O negão começa a gritar / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De violeta / Na boca e na bochecha / Pega ela aí, pega ela aí / Pra que ? / Pra passar batom / De que cor? / De cor azul / Na boca e na porta do céu /
A letra fácil ficou cantando na cabeça. Para quem tem faro fino na descoberta de valores musicais, a gravadora estava no caminho certo. Pittigliani falou maravilhas do rapaz no trio elétrico, a multidão que o seguia no carnaval, uma verdadeira coqueluche. E ainda mostrou umas fotos do cantor bem magro, um cabelo longo no estilo de Michael Jackson no videoclipe “Thriller”, pés descalços e uma roupa largada. Ainda se falava que tinha uma dança acompanhando a música que era chamada de “deboche”.
Com este volume de informação carregado de cheiro e frescor da Bahia, eu não conseguia ver o cantor no palco do Canecão. Se tinha mesmo este sucesso todo por que não levar os convidados para um show em Salvador? Iam sentir na pele a energia e estariam compactuando com a chegada de um novo artista. É o que nos dias atuais chamam em marketing de “brand experience”. Lembrei que quando morei em Nova York trabalhei em uma agencia de viagens e uma das agentes tinha na sua carteira de clientes uma pequena gravadora que quando queria apresentar algum artista novo no mercado convidava os radialistas para um fim de semana em uma das 3000 ilhas das Bahamas. Na piscina, aproveitando o sol, os radialistas viviam imersão sobre os novos artistas e jantavam assistindo os pocket shows. Ali mesmo a gravadora sabia se o produto iria para frente ou não, se mereceria um investimento maior.
A gravadora contestou minha sugestão preocupados com o orçamento, mas eu só pensava no impacto que faria o artista em sua própria cidade, com uma plateia já conhecendo a sua música e isto seria um ponto muito forte neste lançamento. Voltei para o escritório, fiz o levantamento do custo de 50 passagens saindo do Rio e de São Paulo para levar alguns jornalistas, radialista e produtores de TV, e dias depois voltei a me reunir na gravadora mostrando que não seria tão mais caro e poderiam aproveitar estes dias para reforçar a relação com os jornalistas. Os 50 convidados se transformaram em quase 100. Vieram diretores da matriz na Holanda e o então Hotel Mediterranée em Salvador viveu dias de festa.
Num palco montado na Praça Castro Alves, com mais de 100 mil pessoas na plateia em total delírio, Luiz Caldas foi apresentado com todo seu tempero para a mídia nacional. Uma noite que ficou na história do rapaz e dos jornalistas, radialistas e produtores de TV que viram ali nascer o que veio depois ser o movimento do axé. Em poucas semanas o “Fricote” era sucesso absoluto e o cantor com seu jeito diferenciado de se apresentar descalço virou figurinha fácil em todos os programas de TV, páginas de revistas e jornais. No ano seguinte, aos 24 anos, ele se tornou rei absoluto do mais esfuziante carnaval de rua do país, Salvador bombava com o seu som do “deboche”. A música que trazia o batuque do negro da Bahia, o ritmo balançado da salsa e do merengue mais outras influências do caribé e as guitarras do rock, ele era a estrela máxima. Em 04 de março 1987 Luiz Caldas com seu melhor sorriso ganhou as bancas de revista de todo o país como capa da revista Veja. A gravadora teve um retorno financeiro e promocional muito maior do que o esperado com o lançamento no Canecão, impulsionando uma nova vertente musical.”
Parabéns @luizcaldas … este é um pedaço da sua historia…























