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A visita

2016-12-21 13.26.50

Estava entretida costurando bandeirinhas para enfeitar o verão quando o celular avisou que tinha mensagem. Era uma amiga que não vejo há séculos, está de férias em Arraial e com dia chuvoso saiu de carro sem destino. Chegou em Cabrália, pegou a balsa e no meio da travessia mandou o whatsapp “se você estiver de bobeira passo aí para dar um beijo”. Sempre estou de bobeira para receber beijo e, enquanto enviava as informações de como chegar até minha casa e prendia os cães, lembrei do seu irmão, um grande amor que passou no meu caminho e foi embora muito cedo… Um amor que durou pouco, mas nem por isso foi raso. Um dos homens mais brilhantes que conheci, com senso de humor refinado, jeito de intelectual desprotegido, ideias aos borbotões, grande figura. Certa noite, no final de um jantar,  ele confessou estar com a vida confusa demais para entrar num relacionamento mais sério. Dei o maior vexame ao chorar na mesa do restaurante. Como eu ia perder alguém tão legal ?

Ah! o amor, “o ridículo da vida” como escreveu Herivelto Martins, fez desmoronar uma mulher que chegava aos 40 anos, com muitas experiências e ainda com sonhos de ter um bom companheiro… Ficaram as boas memórias, o  livro de fotos do Salvador Salgado que ganhei no aniversário, a trilha sonora no CD da Bethânia cantando Roberto Carlos que ouvimos muito e um par de brincos de lápis-lazuli comprados no Chile.  Não fui ao Chile com ele, mas comprei quando lá estive, pensando que iria de gostar de ver nas minhas orelhas.

Tudo isso passou na minha cabeça “como se fosse um filme”, diria o Faustão, em menos de 10 minutos, tempo de a balsa chegar em Santo André e ela tocar a campainha do portão. Entrou pelo jardim tão linda, a maturidade está lhe fazendo bem, acompanhada de um casal de amigos. Dia chuvoso, muitas árvores no jardim, sinto que a casa fica triste, mas se alegrou com as visitas. Sentamos na varanda e, como sempre, conto a minha saga de 13 anos longe da “civilização” e o quanto faço e produzo, que meus dias nunca são iguais e nem monótonos. Nas entrelinhas sempre estou dizendo “fiquem tranquilos, estou feliz nesta reencadernação“. Trocamos pensamentos de vida, fui mostrar o mar, puderam perceber como tudo pode ser mais lindo com o sol e, meia hora depois, já nas despedidas, me perguntam se não sentia solidão. Devem ter achado que o tempo cinza, temperatura mais fria, morando sozinha com dois cães pudesse bater uma vontade de ir embora.

Mas cada dia tenho mais certeza que não poderia estar em lugar melhor para ver meus cabelos embranquecerem. Encaro sem subterfúgios os prazeres e as mazelas que aparecem…. Posso ser o que quero, bem boazinha e bem mazinha, é só escolher em que sintonia vou navegar…. Tenho uma casa que me permite o privilégio de receber amigos o ano inteiro. Conversas que entram e saem, como as que virão no início de outubro, quando cinco pessoas que não se conhecem, mas circulam nas mesmas áreas, vão se tornar amigas aqui…. Tenho certeza…. Nada combinado, tudo por conta do universo que sabe o quanto eu gosto de juntar pessoas e dá uma mãozinha.  E aí rolam altos papos, um bom peixe na mesa grande do jardim e a alegria do momento. Depois os visitantes partem,  mais alguns dias ficam silenciosos, até que chegam outros amigos, novos assuntos…

Estou conectada 24 horas para atender um cliente de são paulo que pode nem precisar de mim em um dia, mas quando chama estou tão perto como se fosse na mesa ao lado no seu escritório… Nas horas de folga me entretenho com costuras, leio o que aparece no papel e jornais na tela do Ipad, sem compromisso faço clipping de assuntos que podem interessar aos amigos, invento projetos, sou cidadã aonde moro, estudo redes sociais, refaço o site de turismo da vila, me alongo no pilates, ando na praia, assisto novelas e, sinceramente, não tenho tempo para pensar em solidão. Como postou no facebook minha prima Livia Garcia-Roza “A solidão pode ser cheia de encantos para certas pessoas. Me incluo entre elas.”

 

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Fátima

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Com Juliana Braga, num retorno à Fátima, embaixo de muita chuva, dia 31 de janeiro de 2004. A foto é da Denise Chaer.

Neste 13 de maio em que se celebra 100 anos da aparição de N.Sa.de Fatima aos pastorinhos, lembrei de 2003 quando fui morar em Lisboa integrando a equipe de produção daquele que, no ano seguinte, se tornaria o maior sucesso dos festivais de música em Portugal: o Rock in Rio-Lisboa. Fiquei imensamente feliz ao ser convidada a fazer parte do grupo que iria implantar este mega evento na Europa levando know how brasileiro.  Afinal aquele seria o meu 4º Rock. Mas as primeiras semanas na “terrinha” foram difíceis. A produção luso brasileira ainda se formava. Linguagens e culturas distintas. O escritório não estava pronto e improvisadamente ocupávamos uma suíte no 5 estrelas Hotel da Lapa. O apartamento que dividiria com outras brasileiras estava em fase de montagem, sem tv nem internet. Há muitos anos não sabia o que era compartilhar uma casa e me sentia sem chão. O assunto referente ao trabalho eu conhecia profundamente mas havia algo muito estranho naquele começo, eu era um peixe fora d´água. Estava quase arrependida de ter aceito a proposta, quando duas semanas após a chegada, num fim de semana, fui convidada a visitar Fátima. Com duas brasileiras peguei o ônibus e percorri pouco mais de 120km até chegar na cidade que respira turismo religioso. Todo o comercio vive do milagre das 3 crianças que tiveram a visão da Santa. Dos hotéis aos restaurantes, é só esse o tema. Chegamos ao Santuário e na pequena capela onde consta ter acontecido o milagre procurei um lugarzinho para fazer as minhas orações. Abri meu coração e travei uma conversa franca com N.Sa. de Fátima. Mesmo sem ter grande intimidade com a Santa, a não ser pela lembrança da infância quando, na escola das freiras, fazíamos procissão e cantávamos “A treze de maio na Cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria…”, fui sincera. Coloquei as dúvidas e incertezas sobre o rumo que havia dado à minha vida, o compromisso de morar quase um ano em Portugal, o desafio em construir um projeto tão inovador num país desconhecido, o começo confuso e perguntei “o que estou fazendo aqui, o que tenho que aprender? ”.  Foi neste momento que o telefone, que eu retirara o som, se mexeu na bolsa encostada ao corpo. Olhei na tela e a chamada era da Roberta Medina. Atendi discretamente, ela perguntava se eu estava bem… O telefonema naquele momento serviu como resposta imediata à minha pergunta. Como se uma luz tivesse acendido na minha cabeça, dissipado qualquer dúvida, eliminado todos os problemas. Eu estava ali para fazer o meu trabalho de promover e trazer a memória do festival para outras terras. A família Medina confiava em meu trabalho e, como fiel seguidora do Don “Roberto” Quixote, iria às batalhas contra os moinhos de vento. Obrigada N.Sa. de Fátima por esse telefonema que sinalizou sua milagrosa presença e mudou meus pensamentos transformando minha estada em Portugal em uma experiência inesquecível.

Feliz 2017

murta

A Murta com seus frutos

Acordei e vi a árvore de Ingá florindo de um lado da casa e a de Murta cheia de frutos do outro. Para quem vive em um grande centro esses fatos nada representam, mas para quem tem uma exuberante natureza a sua volta são sinais, nem que seja a promessa da chegada de muitas abelhas que passarão a rodear com um zumbido tão alto que me levam a crer que tem uma serra elétrica nas proximidades… Ah! prazeres de uma outra qualidade de vida… Neste tempo de verão vejo a alegria com que os turistas por aqui passam e se encantam… É uma vila muito simples, por isso a cada dia mais raro em meio a tanta tecnologia, tragédia, violência urbana, pressão, caos, medo…

Todos os meus amigos e também os amigos dos meus amigos deveriam ter o direito de passar uma semana por ano em um local como Vila de Santo André, onde as ruas são de terra, onde espontaneamente acontecem pequenos eventos a beira do rio para alegrar os visitantes, onde a gastronomia vai do PF básico ao restaurante de luxo, onde chove nas madrugadas e tem sempre estrelas e uma lua desenhada no céu, onde se toma banho de mar pois até as ondas são tranquilas.

O meu prognostico é que este será meu ano azul…. Não são previsões da astrologia, do tarô ou da bola de cristal, mas assim defini com dias tão azuis e por ter ganho uma bolsa, um colar, uma agenda e uma luminária da mesma cor.  Basta muito pouco para se colorir um ano e se reposicionar diante de um futuro que começo a desenhar nestes primeiros dias… Se o azul ficar marinho vou dar um jeito de clarear… Feliz 2017 em seu 7º dia…

inga

O Ingá com suas flores