O tamanho do sonho

27 milhões acumulados na Megasena é o que basta para muitos apostarem na “compra” do sonho. Mas sonho se constrói, se for possível ter um empurrão milionário melhor ainda, mas se a aposta não vingar a vida segue… Tenho um amigo que quando criança ia para uma fazenda no interior de Minas onde pegava carona num caminhão que transportava leite e passava noites imaginando o dia que teria um latão com suas iniciais JAR. Não um latão simplesmente decorativo, mas um latão com leite tirado de vacas de sua fazenda. O caminho profissional do meu amigo deu muitas voltas pelo mundo do showbiz. Continua viajando com shows pelo Brasil e pelo mundo, foi juntando economias e há 3 anos comprou uma fazenda em Minas… Uma terra distante, estrada de chão batido e começou com 12 novilhas. Hoje tem mais de 100…Voltou esta semana de férias com as mãos calejadas e encardidas da vida rural. Com orgulho mostrou as fotos dos bois, vacas e novilhas, das jandaias ciscando no quintal, abraçado com o caseiro, o riozinho que corta suas terras e quando chegou na foto  onde aparece sentado nos latões respirou fundo e comentou : “como sonhei ver minhas iniciais num latão de leite” …. Já são 285 litros de leite dia, e lá vai o Guto com suas terras, uma vida rústica em casa com fogão de lenha e feliz da vida… Um sonho não tem tamanho, é só começar a desejar com carinho…

Guto e seu sonho...

Minha amiga Vanusa

A primeira vez que a vi foi na Serra da Cantareira (São Paulo) em uma casa linda onde vivia em clima de família feliz com Antônio Marcos, as filhas Amanda, bem pequena e Aretha ainda no colo… Vanusa e Antônio Marcos formavam o casal perfeito da música jovem no início dos anos 70. Ele moreno, cantor, poeta, compositor de sucesso; ela loura, rebelde, cantora, compositora e mãe dedicada. O casamento durou mais algum tempo, o amor entre os dois a vida afora e a nossa amizade, manteve-se firme.  Antônio Marcos morreu muito cedo (1945-1992), tinha pressa de viver, voracidade e uma intranqüilidade digna dos poetas. Vanusa casou e descasou muitas vezes e estive ao seu lado em momentos marcantes como no nascimento de Rafael (filho de Augusto César Vanucci) e em algumas gravações incríveis como um disco produzido por Paulo Coelho onde, entre outras músicas, gravou a versão em português de “I Will Survive”, hit de Gloria Gaynor, feita pelo próprio produtor.  Em 1999 eu escrevi e co-produzi o musical autobiográfico “Ninguém é Loura por Acaso” .  Ficamos 3 meses em cartaz, a proposta era viajar o país e dar continuidade em outras edições Ninguém é loura 1, 2, 3… Havia muito para contar … Mas Vanusa ao mesmo tempo em que é divertida, encara uma cozinha com qualidade para receber os amigos, sensível para a poesia e pintura, tem seus jeitos às vezes um pouco estranhos em se relacionar com os amigos. Com isso o espetáculo ficou apenas como referências em nossos currículos e 11 anos se passaram. Ontem nos reencontramos e foi como voltar na Serra da Cantareira quando tínhamos muitos sonhos, achávamos que podíamos tudo e não tínhamos idéia do que faríamos quando chegássemos aos 60 anos…

Vanusa querida, quem diria, apesar das nossas loucuras chegamos lá! Cheguei com as minhas cicatrizes, uma safena a menos, e você com um grande golpe que ficou marcado no seu ombro ao quebrar a clavícula. Sei que os últimos meses foram complicados para você, mas lembre-se que já passamos por situações ainda mais difíceis quando tínhamos menos experiência e hoje rimos de tudo isso… E ainda vamos rir mais da sua memória curta, esquecendo da letra das músicas que você canta há anos, e da versão cult dada ao Hino Nacional num momento em que você simplesmente estava fora de si… A mesma internet que fez com que nos reencontrássemos nos últimos anos jogou você na mídia num dos momentos mais constrangedores de sua trajetória… Não pouparam o seu desconforto, a sua carência, a sua doença, os seus remédios, as suas neuroses, os seus vício, seja lá o que for, mas sem dó nem piedade você virou piada… Quem te conhece sabe que você estava distante dos seus princípios, das mineirices de boa moça que sempre casou, pois não podia simplesmente “ficar com alguém” … Afinal, o que os outros iriam dizer ?

Acontece amiga, que não podemos perder a nossa essência, pois muito já se foi… Se foi a nossa juventude, mas não os nossos sonhos… Se foi a elasticidade de nossa pele, a agilidade do nosso corpo, a vista ficou cansada, aparece um pouco de artrite nos dedos, rugas em torno dos olhos e dos lábios, uma pelanquinha embaixo do braço e por aí vai… Pode tudo cair, menos a nossa integridade e a alegria de viver…  Ainda temos uns 20 ou 30 anos à frente para fazer outra história com a sabedoria conquistada com o que já passamos… Mas vamos construir este novo tempo sem arrogância, com humildade e  paciência, como se todos estes 60 anos rodados fossem apenas o ensaio para o grande show …

Foi fazendo a foto da capa desta revista que conheci Vanusa.

Encontrando na rede

Simplesmente ADORO os encontros e reencontros que o mundo virtual oferece. Li no twitter do @bmazzeo um comentário sobre a saúde do seu pai com o link para o blog http://bloglog.globo.com/chicoanysio/. Generoso e genial, Chico responde as críticas, algumas até ofensivas, de forma carinhosa e muito elegante. Um sábio ! Não poderia ser de outra forma, sempre foi um homem íntegro, correto e com caráter acima de qualquer suspeita. Encantada com seu texto, dando uma olhada geral na pagina do blog, encontro na relação dos outro bloglogs o da Rosana Ferrão, http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=189&mes=7&ano=2010 com quem convivi quase um ano nos preparativos do Rock in Rio 2001… E o tema do post é DIA DO ROCK com historias do rock em sua vida e no meio de tantas fotos eu me encontro nesta aqui abaixo…

Rock in Rio Café, ano 2000, em uma das seleções da Escalada do Rock... Jamari França, Tom Capone, Alexandre Hovoruski, Tony Platão.... e mais e mais... ótimas lembranças

Reencontrei uma figura incrível, em poucos minutos este sábado friorento em São Paulo ficou quentinho com as lembranças do Rock 3 e na minha cabeça começou a tocar “se a vida começasse agora e o mundo fosse nosso outra vez, e a gente não parasse mais de cantar, de sonhar…ô ô ô ô ô ô ô ô Rock in Rio….”

Preciso escrever mais sobre isso…

O meu vizinho do lado…

Quando alguma coisa me toca o assunto fica rondando minha cabeça como numa centrifuga de idéias ate que espremidas, peneiradas e coadas se transformam em textos. Acho que foi na semana passada que assisti no Jornal Nacional uma reportagem feita pelo Roberto Kowalick de que o governo do Japão está preocupado com  dezenas de idosos com mais de cem anos de idade desaparecidos. E o caso que chocou o país aconteceu numa casa em Tóquio onde morava o homem supostamente mais velho da capital, Sogen Kato, de 111 anos. A polícia descobriu o corpo dele mumificado no segundo andar. Tinha morrido há mais de 30 anos e nenhum vizinho se deu conta. Que dor !!

Eu não tenho problema em ficar sozinha, passei um grande desafio morando em Nova York quando no inverno, muitas vezes, ficava o fim de semana quase sem falar. Não era promessa, mas circunstâncias. O recesso era interrompido no domingo às 6 da tarde quando telefonava para falar com meu filho no Brasil. Mas penso na tristeza no fim da vida do velho Kato, na decepção de que ninguém se importava com ele. Ou não? Pode até ser normal à cultura oriental de cada um no seu quadrado. Distantes e frios, ao mesmo tempo em que exercitam com perfeição a contemplação, o olhar a distancia, mas não ao próximo…

A questão do velho Kato é um pouco dúbia já que a aposentadoria continuou sendo paga e os parentes estão sendo investigados, mas será que ele tinha a consciência de que não fazia a menor diferença?

O abandono e a solidão me tocam… Em algum momento de alguma “encadernação” acho que fui peregrina mundo a fora…  Para refletir sobre nossos vizinhos, fui buscar a poesia do Vinicius de Moraes que tem musica do Toquinho e fala sobre isso…

Um homem chamado Alfredo

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão.
Abriu o gás, o coitado,
O último gás do bujão.

Porque ninguém o queria,
Ninguém lhe dava atenção.
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração.
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação.

Ah! Quanta gente sozinha,
Que a gente mal adivinha.
Gente sem vez para amar,
Gente sem mão para dar,
Gente que basta um olhar, quase nada…

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão.
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada.

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom.
Um homem por trás dos óculos,
Como diria Drummond.

Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver.
Embaixo, assinado Alfredo,
Mas ninguém sabe de quê.

Isto é Brasil

Entre as muitas regras que havia na casa dos meus pais, a que mais me incomodava era que “política e religião não se discute”. Perdemos bons momentos em família para conversar sobre estes temas e até nos conhecermos melhor.  Penso que cidadania é um ato político e religião é essência.  Esta regra imposta por mamãe, hoje me faz refletir que foi criada como uma artimanha para calar papai. Ele era alegre, conversador, contador de historias e estes assuntos eram um prato cheio para longos encontros, coisa que ela não gostava muito. Mas apesar da linha dura, mamãe não conseguiu dispersar minha curiosidade sobre ambos os assuntos. Pós 1964 me uni a um grupo que papai chamava com bom humor de “os seus amigos comunistas” e na seqüência sai em busca da fé em várias religiões e seitas…

Acertei e errei algumas vezes em ambos os assuntos, mas esta semana assistindo ao debate na Band fiquei perplexa com a quantidade de marketing e a falta de conteúdo dos candidatos a presidência. Só foi deixar falar “ao vivo” para as fragilidades apareceram. Eles crescem quando estão nos programas políticos bem editados, com boa luz e melhores ângulos, como uma novelinha feita pelos melhores diretores, mas soltos num debate é assustador.  Chega a ser inacreditável se pensarmos que estamos ouvindo aqueles que se propõe administrar o quinto maior país do mundo em área territorial e também na mesma colocação como contingência populacional!

Não sou analista política, mas tenho em minha volta o panorama de um Brasil carente de educação, saúde, emprego e oportunidades. Eu vivo num lugar onde não há saneamento básico, onde existem várias casas que ainda não tem banheiro (!!!)  e é surreal sermos a nona maior potência do planeta e a maioria dos trabalhadores nesta área rural não quer emprego com carteira assinada para não perder a Bolsa Família. Isto é Brasil ! Chego pensar que o meu nível de exigência é fora da realidade, pois não consigo ver nenhum dos candidatos com capacidade para resolver esta questão. Será que a vida é assim mesmo, que Deus é brasileiro e no final tudo vai dar certo?

6 anos na Bahia

Amanhã fazem 6 anos que saí do Rio de Janeiro, percorri 1150km até chegar a Vila de Santo André para um ano sabático que não aconteceu. No carro a mudança quase completa. Acredito que o meu coração já sabia que eu ia ficar aqui e por isso me lembrou de trazer muitas tralhas. Não tenho planos de viver em outro lugar. Vou e volto sempre. Mas isso não me impede de perceber nas conversas entre alguns dos quase mil moradores desta vila, que muitos sonham em viver numa cidade grande, conhecer outros lugares, mas nem sabem por onde começar esta mudança…

Penso na busca do homem em melhores lugares. Aprendi vivendo no meio de tantas pessoas que querem conhecer outros mundos que o melhor lugar está dentro de mim. Não há mundo mais rico, mais belo nem mais aberto para explorações do que o meu interior… Mas não espero isso para todos, pois as descobertas são individuais e únicas. Por isso quando a vila fica repleta de turistas no verão, ou como esta semana com os velejadores do cruzeiro Costa Lestes que alegram as ruas, bares e restaurantes, imagino por onde viajam os sonhos dos nativos diante tantos que chegam e partem… Fica sempre um olhar comprido para um barco que pode levar sei lá prá onde, ou trazer algo novo e inusitado… E lembro de um povoado que ficava longe de tudo, até que uma fábrica de celulose surgiu bem próxima e para descarregar a produção iam construir uma estrada que ligaria a um porto.  Para manter a tranqüilidade do local, os engenheiros traçaram a estrada fora do povoado e os moradores protestaram. Queriam a estrada cortando a rua principal para o progresso chegar mais rápido. Conversei com a balconista de um bar que disse que com os caminhões indo e vindo a sua porta, quem sabe teria chance de ir embora…

Não preciso mais ir nem vir, me basta ficar por aqui com o cheiro da almescla, a gritaria das maritacas no fim do dia e os sabiás nas manhãs, o barulho do mar, a primeira estrela no céu, caminhar na areia, as coisas bem simples desta vida…

Esqueci…

Depois que reli o texto postado ontem sobre amigos à distancia, dei conta que desde agosto de 2004 quando vim morar em Vila de Santo André os amigos ficaram cada vez mais distantes literalmente e tive que fazer novos. Estou a 1150 km do Rio de Janeiro, minha base de quase toda vida, e nestes anos apesar de tentar seduzir amigos e familiares com fotos e historias exóticas poucos chegaram aqui. Nem meu irmão caçula ainda veio me visitar…  Mas entre os que chegaram aqui,  seria injusto não incluir neste texto Roberto Abramson.

Somos amigos do tempo do cursinho para o vestibular, podemos nos perder por alguns anos, mas sempre acabamos nos achando… Há uns 2 ou 3 anos estava em Trancoso e veio com a família almoçar comigo. Foi inesquecível! Imagino que daqui a 20 anos não sei se vamos conseguir sair andando de um lado para o outro em visitas, mas ainda estaremos nos falando com o meio de comunicação que tiverem inventado. Enquanto não nos encontramos de novo, ele  mandou por email uma música que fez em homenagem a Cataguazes onde está há alguns anos. Jamais imaginei que ele fosse trocar a Av. Atlântica no Rio pelo Rio Pomba na Zona da Mata de Minas Gerais, mas o amor faz dessas coisas… E o samba é tão gostoso que divido com vocês…

https://leapenteado.com/wp-content/uploads/2010/08/sba-cataguases1.mp3

Sba Cataguases

Meus amigos à distância

Tenho amigos que só encontro virtualmente e nem sei há quanto tempo não nos vemos. Tenho amigos alemães e libaneses que colocam mensagens no Facebook em seu idioma, eu não entendo, mas me sinto participante do grupo. Tenho amigos de infância que perdi em tantas viagens e me reencontraram no Orkut. Entre eles uma amiga que mora em Berlim e o ano passado, depois de quase 30 anos, estivemos juntas em São Paulo num jantar emocionado. Às vezes sinto que estou numa redação virtual com tantos amigos jornalistas trocando comentários no FB.

Hoje passei no correio – o carteiro não atravessa o rio – e encontrei na caixa postal um livro do poeta Francisco Perna Filho, cujo blog descobri fazendo uma pesquisa na internet. Trocamos emails e gentilmente ele enviou o “Visgo Ilusório” seu 4º livro que faz parte da Coleção Goiânia em Prosa e Verso, publicado pela Secretaria de Cultura de Goiânia. Morador de Tocantins, Chico que é Mestre em Letras e Lingüística é uma figura interessantíssima, um poeta que escreve de forma tão leve que até me fez acreditar que é fácil escrever poesias…

Sou imensamente feliz em saber dos meus amigos, novo e antigos, mesmo que a milhas de distancia via email ou qualquer outro tipo de comunicação virtual. Comecei este texto para falar de Marília Barbosa cantora e atriz de enorme talento, boa de andanças e mudanças como eu. Morou em muitos lugares, hoje vive em Poços de Caldas perto do filho e das netas, e as vezes nós dá o prazer de mostrar seu trabalho no teatro ou na TV. A Marília mandou um email onde comenta sobre perdas familiares e o quanto a dor de Cissa Gumarães está tocando seu coração. E tocou em mim a frase final de seu email, que peço licença para publicar um trecho….

“ Ontem li nas bancas a frase lapidar de uma das capas de revista:

– “Meu filho está mais vivo do que nunca, eu é que morri”.

Não tem remédio, a gente morre mesmo, não há como tentar levantar a cabeça e tocar a vida pra frente.

Ela deverá encontrar um jeito de renascer outra pessoa, caso contrário ficará definitivamente louca, pois essa dor não cabe em nós. Não cabe, não cabe, não cabe.

Foi por isso que fui para o meio do mato em 1985, sem luz, sem água corrente, sem telefone, sem vizinhos e sem nenhum vestígio de vida moderna num raio de 10 km, no meio da Mata Atlântica.

Começamos do zero, meu filho e eu e renascemos juntos para um mundo que começou a crescer conosco, do modo que conseguimos encará-lo e superarmos as suas dificuldades.

E a dor foi sendo superada pela vida nova bem difícil que se nos apresentava, e assim fomos renascendo pouco a pouco e voltamos a sorrir.

Um sorriso para sempre, amarelo…

Marília querida, luto para não ter este sorriso amarelo. Não seria justo aos que se foram e me fizeram tantas vezes sorrir com todas as cores… Reflita… Um enorme beijo e não se esqueça do livro prometido… Aguardo ansiosa suas historias…

O Dia do Padre

A Igreja de Santo André hoje, antes da missa.

No fim da missa, entre os avisos da comunidade e a bênção final, o Padre lembrou que este domingo é o Dia do Padre.  No mesmo instante lembrei do meu pai. Nenhuma analogia pai = padre, mas por ser um sujeito sempre participativo, um dia juntou-se a um grupo para levantar fundos e ajudar a construir a Igreja na Av. Morumbi, no bairro do Brooklin, em São Paulo, onde morávamos. Com seu jeito simpático, ficou amigo de todos os padres que jamais souberam ser ele espiritualista, estudioso de Kardec e preferia receber um passe a uma hóstia. Quando mudamos de São Paulo para o Rio a amizade de papai com o clero do Brooklin permaneceu. Um dia Padre Vicente, pároco da Igreja, telefonou consultando se podíamos hospedá-lo num fim de semana.  Ia à Roma atendendo um convite do Papa, e como naquele tempo os vôos internacionais só saiam do Galeão no Rio de Janeiro, aproveitaria a oportunidade para nos visitar.

Nossa casa era grande, com um entra e sai de hóspedes que até parecia uma pensão. Preocupados com a inusitada visita, papai e mamãe não pouparam recomendações: eu estava proibida de usar shorts, os meninos de circularem sem camisa e a minha irmã mais velha deveria reduzir a maquiagem e não abusar dos decotes. Se o Padre quisesse rezar antes das refeições nós deveríamos seguir a ladainha. E se fôssemos convidados para um terço na hora da Ave Maria deveríamos acompanhar. Nada de brigas, discussões ou palavrões. Imbuídos deste espírito recebemos Padre Vicente.

Ele chegou num fim de tarde, jantou e ficou na varanda do quintal, embaixo da grande mangueira, conversando com papai e tomando vinho. Fomos autorizados a ligar a TV com o volume baixo para não incomodar… O Padre Vicente era um italiano muito culto e politizado, e para papai que era conversador, uma agradável visita. Antes de dormir papai combinou com o padre a programação do dia seguinte: depois do café iríamos passear de carro pela cidade, conhecer as praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, encerrando na Barra da Tijuca para comer milho verde e beber água de côco. Avisou aos filhos para vestirem roupas comuns, nada de banho de mar. Mas qual não foi a nossa surpresa na manhã seguinte ao ver o padre chegar na sala de shorts, camisa de mangas curtas, sandálias franciscanas e óculos escuros RayBan. A partir deste momento todas as recomendações foram água abaixo.  O padre sem a batina era muito mais divertido, nem parecia o pároco que temíamos quando crianças. Hoje quando lembrei desse caso, refleti que a vida eclesiástica seria mais divertida se todos fizessem como o Padre Vicente, algumas vezes usassem  shorts e óculos escuros…

……….

E por falar em missa, as que acontecem na Igreja de Santo André são incríveis. Hoje Walli Bush, alemã, que faz uma porção de ações voluntárias na comunidade, com bela voz de soprano, interpretou em seu idioma os cânticos de entrada e ofertório. Não é o máximo !!

………

A foto foi feita hoje antes da missa começar. Decoração com plantas nativas…

Outra “encadernação”

A simplicidade, ou melhor, a precariedade de onde eu moro é tal que hoje no café da manhã a Helenita avisou que não tinha pão francês, pois o único padeiro estava com dor de dente e não colocou a mão na massa. Pra mim não faz diferença, se não tem pão vou de brioches, como recomendou a Maria Antonieta, Rainha de França, esposa de Luiz XVI, às vésperas da Queda da Bastilha! Não é a queda da monarquia, mas estamos vivendo um clima surreal em Santa Cruz Cabrália. Em pouco menos de 20 dias, a prefeitura já teve seu representante principal trocado quatro vezes. Duas vezes assumido o prefeito cassado, Jorge Pontes (PT) e as outras duas, a prefeita Maria Ozélia. Hoje é ele que está no poder, a semana que vem pode ser ela. E só não é o assunto mais importante na balsa, por que os buracos na rua da Vila de Santo André estão horríveis.

Ontem  a 3ª. aula de blog para a turma Impacto Jovem que faz uma web rádio e tv do IASA (Instituto Amigos de Santo André) dei no pátio da minha casa, pois o sinal para internet é muito melhor. Escolheram o assunto, construíram o texto, colocaram a foto, fizeram a primeira postagem sozinhos. Ficou ótimo, para conferir http://ijsantoandre.wordpress.com

E num experimento de vida que chego a considerar como outra “encadernação”, tão diferente dos universos que conheci, ganho no final de tarde uma cena preciosa. Não foi um por do sol, nem uma nova árvore florindo, nem um ninho de um pássaro exótico. Uma cena que poderia ser corriqueira se não tivesse invadido meu coração.

Eu já comentei que do outro lado da minha rua, numa casa muito simples, mora a Nalanda com sua mãe, Tiana, uma cozinheira de mão cheia. A menina está mal na escola e tem aula de reforço com a Claudia que usa um método de alfabetização com base na pedagogia Waldorf.  Hoje Nalanda entrou em minha sala e ficou encantada com a antiga cristaleira onde guardo pequenos objetos recebidos de amigos, lembranças de viagens e uma coleção de caixinhas de música. Comecei esta coleção quando constatei que este era o meu sonho de criança jamais concretizado. Não fui convincente o bastante para que Papai Noel, ou meu pai ou os namorados e por fim os maridos me presenteassem com uma. No dia em que caiu a ficha  entrei numa loja e comprei a caixinha delicada, feita em porcelana, com uma menina de cabelos cacheados que roda sobre um tamborete enquanto toca Pour Elise, muito semelhante comigo. Outras tantas chegaram. Ganhei de amigos e comprei mundo a fora com trilhas de I left my heart in San Francisco, Le Lac de Comme, New York, NewYork, Lago dos Cisnes …

Mostrei uma a uma à Nalanda a medida em que ia colocando para tocar. A menina olhava com o mesmo encantamento que eu teria caso tivesse uma caixinha de música na sua idade. Ficou fascinada com uma em especial, ligeiramente brega, um porta jóias com um espelho e uma bailarina rodopiando. E olhando Nalanda eu percebi que ainda tenho esse olhar alguns dias quando acordo blue e coloco todas para tocar ao mesmo tempo. Saio do chão, não estou em Santo André, nem São Paulo, ou qualquer outro lugar no mundo. Apenas flutuo nos meus sonhos…