Pensamentos em pedaços

Movimentos compassados, prá frente e prá atrás, vovó pedalava a máquina de costura. Nem sei se ainda sabem o que é máquina de costura com pedal, ou se acham que as roupas já “nascem” prontas… Mas quando criança eu ficava sentada no chão, ao pé da máquina, vendo vovó costurar as roupas da família enquanto assobiava… Nunca vi ninguém assobiar tão bem, interpretava valsas, canções populares e infantis, tinha um vasto repertório capaz de me deixar extasiada por longo tempo. No vai e vem do corte de tecidos às vezes ela deixava cair propositalmente uns pedacinhos de pano que eu emendava transformando em manto de rainha ou cobertor para as bonecas. E quando tudo parecia monótono, vovó abria uma gavetinha cheia de botões e me oferecia aquelas preciosidades como divertimento. Eram muitos, mas muitos botões, de todos os tamanhos, materiais e procedências… Eu podia brincar o quanto quisesse, mas depois tinha que devolver à caixinha intacta. Pelo bom comportamento, às vezes ganhava algum botão dourado que servia de medalha no manto de rainha…

Estas lembranças surgiram quando puxei um fio de memória para descobrir de onde vem o meu prazer em unir pedaços, a paixão por quebra cabeças, colchas de retalhos e mosaicos, uma alegria incomparável que me leva a passar anos fazendo centenas de quadradinhos de crochê numa interminável colcha colorida que um dia há de ficar pronta. Sempre gostei de tricotar qualquer coisa que tivesse listras, ou criar desenhos geométricos em casacos soltos e desestruturados…

A viagem dos pedacinhos de minha vida me levou nesta semana a fazer uma colcha. Tinha alguns retalhos,  comprei outros tecidos, cortei, misturei, juntei  e surgiu uma nova estampa… Um patchwork do meu jeito, e enquanto costuro minha mente ferve, vai e volta… Mostrei a colcha quase pronta à minha amiga Luciana Wis, psicanalista, figura singular que há quase um ano é minha vizinha em Vila de Santo André.  Comentei que acabara de descobrir que tenho ímpetos em juntar caquinhos e como isso me faz bem. Sinto que nesse exercício vou coordenando os pensamentos, encaixando as duvidas como quem combina o tecido xadrez com a estampa floral.

Sentada no pátio de casa, embaixo de um céu estrelado, numa noite em que a chuva deu folga, com o jeito manso que tem de falar as coisas mais profundas, Luciana disse que isso é coisa de quem tem um olhar menos rígido, múltiplo… Como resultado as cenas se tornam mais enriquecidas e o olhar ganha diversidade … Que alívio saber que é apenas isso…A minha loucura não é compacta, é fluida, móvel e sendo assim vou continuar juntando tecidos, linhas, caquinhos e pessoas…

Aprendizados

“Queime a lagarta antes que ela te queime…”

Dei um grito quando vi o Guinho que, com um galho seco na mão,  mexia na lagarta dourada que há mais de uma semana “cultivava” dentro de um grande vaso, alimentando diariamente com folhas tenras… A lagarta que apareceu no quintal, não era do tipo que se transformaria em borboleta. Era gorda, uma espécie diferente, parecia um pompom, mas nem por isso perigosa…

“Queime a lagarta antes que ela te queime”, me fez lembrar a mamãe. Tenho pensado nela com freqüência, e hoje podia até ouvi-la  fazendo essa recomendação quando aparecia no quintal muito menos que uma lagarta, mas uma simples taturana preta. E eu, curiosa, também ficava com um raminho de árvore virando a infeliz de cabeça prá baixo tentando contar quantas eram as perninhas que a faziam andar rápido. Memórias de criança, e quando penso em mamãe a primeira lembrança é da sua frase favorita, repetida centenas de vezes, geralmente servida antes das refeições:

“Vocês jamais vão poder dizer “a minha mãe cozinhava isso ou aquilo muito bem”, pois eu odeio cozinhar…”

Está certo mamãe, não importa se na memória do meu paladar ficou faltando seus temperos, mas reconheço que aprendi outras coisas de grande valia e que me acompanham até hoje, como fazer tricô. Confesso que faço pouco, também no calor da Bahia de pouco valeriam os suéteres, mas o prazer de ter sempre algum trabalho manual foi seu ensinamento. Crochê, ponto de cruz, vagonite, tapeçaria, costura, desde o primeiro paninho que fiz na escola com amostras de pontos para bordar você esteve ao meu lado zelando pelo capricho. Aprendi a fazer qualquer destes trabalhos manuais com o mesmo cuidado, tanto do lado direito como o avesso, a dar pequenos nós na linha para não deixar “um serviço sujo” e arrematar com zelo para o bordado ficar seguro, sem fios pendurados. Talvez você não saiba, mamãe, mas isso valeu para a vida toda. Saber ficar sozinha, me bastar no silencio enquanto a cabeça viaja em pensamentos e as mãos se ocupam foi de grande importância. Foi o início do aprendizado de aquietar a mente, o primeiro passo para a meditação. A estrutura do bordado – “o que está na frente tem que ser tão bom quanto o que está atrás” – é o exemplo de ética que você me deixou. Ser apenas uma pessoa, íntegra e transparente, em qualquer ângulo. Dar pequenos nós, é o que mais tenho feito. Unido e reunido pessoas, resgatado amigos, amarro com cuidado e deixo o fio curto para não fugirem…Era desnecessário mamãe, também deixar um sabor na lembrança. Seu legado foi muito maior.

Na balsa

Ana Cristina, Marilia, Miqueias e Luan atravessando na balsa para estudar/estagiar no Resort Costa Brasilis. Uma nova geração nasce do outro lado do rio. Tem sol depois da chuva. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Viva São Pedro !

O barquinho enfeitado ... saindo do rio para o mar...

Santa Cruz Cabrália como cenário.

Dia de São Pedro em cidade de barqueiros e pescadores é festa. E lá foram os barquinhos enfeitados com a imagem do santo subindo o rio, entrando no mar até Vila de Santo André, com cânticos e preces… E por falar em prece, segue a do Santo do dia :

“Ó glorioso São Pedro , por causa de sua vibrante e generosa fé, sincera humildade e flamejante  amor Nosso Senhor o honrou com o singular privilegio e em especial a liderança de toda a Sua Igreja. Obtenha para nós a graça de viver na fé, um sincero amor e lealdade a Igreja , aceitando a todos os seus ensinamentos e obedecendo a todos os seus preceitos. Deixe-nos alegrar e conseguir um paz na terra e uma eterna felicidade no Paraíso.”

Fotos : Cláudia Schembri

O pote de ouro

Gosto da lenda do pote de ouro no pé do arco-íris. Singela e lúdica leva para vôos sem asas, pura imaginação. E o que eu faria com um pote de ouro? E como faço para chegar até lá? Sempre acho que encontrarei muito mato no caminho e me vejo debatendo em um capinzal que cobre a minha cabeça. Cobre sim a minha cabeça, mão não é o capinzal. São tolos os pensamentos que não deixam ver que o pote de ouro está dentro de mim, dentro de nós. As soluções estão aonde nascem os problemas, e não fora de deles… Lembrei disso quando Cláudia enviou esta seqüência linda de fotos feitas na travessia da balsa… Fez um sol lindo e depois veio uma grande chuva, prenúncio de arco-íris… E eis que surge o pote de ouro no momento em que entendemos que somos luz e sombra, o bom e o mau, a tristeza e alegria, e todos os inversos são um só. A alma humana é simultaneamente divina e diabólica, sagrada e profana, santa e pecadora. E se for prestar atenção ao que escreveu Hermes Trimegisto na Tábua da Esmeralda em 680 dC, “é verdade, certo e muito verdadeiro que o que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.” Ninguém é só sol nem só chuva…Mas todos somos arco-íris com pote de ouro… (Fotos : Cláudia Schembri)

Começa a surgir ...

Cabrália ainda distante

Chegando mais perto da cidade

Se derramando na cidades

Esplendoroso no barquinho pesqueiro

O tamanho do amor

Delicadeza ainda existe !

Lembrancinha do casamento de Vera e Denise feito pelas amigas do Consulado de Portugal no Rio de Janeiro. Pequeno terço de Fátima acompanha os corações perfumados.

Comecei a escrever este texto ontem enquanto aguardava o vôo de volta para casa. Dei um comando errado e quando ví ja estava postado. Tentei tirar e não consegui… Concluo agora o pensamento…

Vera Linhares foi uma herança que meu irmão deixou. Vera e Victor foram amigos por muitos anos, destes que chamamos amigo de toda a vida. Quando Victor ficou doente e voltou para o Rio, ficou algum tempo hospedado em sua casa e nos aproximamos. Victor foi e Nenô se tornou lembrança de boas historias.

E assim se passaram 9 anos, até há algumas semanas quando Vera me enviou um email convidando para ser madrinha do seu casamento. Não era um casamento padrão : aos 60 anos ela ia se casar pelas leis portuguesas com Denise, sua companheira há 17 …  Era um convite para ser testemunha de uma história de amor sem preconceitos. No auditório do Consulado de Portugal, um grupo de amigos ouviram a Chanceler Maria Jose Piedade Nunes lendo o documento que consolidava a união conforme lei aprovada recentemente. Vera passa a ter todos os direitos em Portugal por estar casada com Denise, que nascida no Brasil tem a cidadania portuguesa por ser funcionária de carreira no Consulado… E que os anjos digam amém para que a felicidade estampada no rosto das duas se perpetue.

Corrigindo

Falha nossa na apuração:o Prefeito de Santa Cruz Cabrália Jorge Pontes foi afastado sim, mas foram 6 vereadores que votaram contra e 3 estavam a favor…
De qualquer maneira este assunto ainda vai dar pano prá manga como diria minha avó…

Pensar Santa Cruz Cabrália

Esta madrugada foi cassado o Prefeito Jorge Pontes (PT) de Santa Cruz Cabrália, cidade onde fica a deliciosa Vila de Santo André onde moro… Motivo : má gestão administrativa… 9 vereadores, sendo 1 índio Pataxó, cassaram o prefeito depois de denúncias ao Ministério Público. Moral da história : é preciso ter formação e experiência para ser gestor público…querer e ter votos não basta….Lastimo pela esperança dos eleitores, pelo interferência no exercício da democracia, pelo desgaste que esse processo vai gerar na cidade… Em localidade próxima já aconteceu fato parecido e o prefeito fica num entra e saí do poder e, com isso, tudo para… Vá lá que não temos assim tanto movimento, mas estagnar e deixar a energia fugir acabando com o pouco de ânimo que ainda existe é terrível… A oposição exulta, mas o melhor seria todos aprenderem a grande lição : “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente.” Assim pontificou Jung, e vale a reflexão para um trabalho mais comunitário e participativo… Pobre Santa Cruz Cabrália,tão linda e tão mal administrada…

Santa Cruz Cabrália vista da balsa...

Convicção

Foto: Cláudia Schembri

Não lembro se foi para assistir Morangos Silvestres, de Bergman ou A Faca na Água, de Polanski, que falsifiquei minha caderneta escolar. Uma falsificação meio grosseira, mas aos 17 anos precisava provar que tinha 18 para entrar no cinema. Enquanto esperava a minha amiga Ângela na frente do Cinema Carioca na Praça Sans Peña olhei uma dezena de vezes para caderneta e tentei provar a mim mesma que tinha feito um trabalho de primeira ao transformar o 9 pelo 7. Apesar do temor, na hora da entrada Ângela falou baixinho: convicção, olhe firme para o porteiro e vamos em frente. E assim entramos achando que éramos o máximo. Hoje, tantos anos depois, percebo que naquele dia aprendi sobre “convicção” e isto se tornou minha atitude de vida… Acredito em tudo o que faço, não consigo ser metade… Tanto nos quadradinhos de crochê que vou tecendo há séculos e um dia irão compor uma colcha enorme, como escrevendo algum projeto super híper importante. Onde me coloco estou inteira e com a convicção de que estou fazendo o melhor… Esses pensamentos rodearam a minha cabeça, como o vento sul que entrou pela manhã sem trazer chuva, mas fazendo muita sujeira no quintal. Um turbilhão de lembranças de situações em que encarei a vida assim como o porteiro no cinema: olho no olho, vamos em frente… Foram muitas as convicções e atitudes que tomei de forma instintiva, uma estratégia para sobrevivência… Mas neste fim de dia colocando os pensamentos para dormir, concluo mais uma vez o quanto viver é fugaz. Passa tudo muito rápido, nem sei se era Morangos Silvestres ou Faca na Água, este detalhe não importa, mas sim ter convicção do que se quer da vida para não ser jogado de um lado para o outro como as folhas com o vento no quintal.

E as mulheres…

O tailleur cor de rosa, não é das melhores coisas...

Leio no jornal que o tailleur rosa usado no filme “Sex and the City 2”, que estreou há duas semanas, esgotou na filial paulistana da Dior. Eram apenas três exemplares iguais à venda, ao preço de R$ 5.172. O modelo foi usado pela personagem Charlotte York (Kristin Davis) e tudo leva crer que em poucas semanas estará clonado em diversas vitrines na Rua José Paulino… A vida é um espelho, em todos os sentidos… O gesto que você faz, retorna… E creio que tem muita gente acreditando que nesta linha de pensamento se você se vestir igual a uma estrela alcançará o mesmo sucesso… Doce ilusão !!

Mas como a cabeça da gente é tão doida, não sei por que quando li a noticia, lembrei Brigitte Bardot. Em 1964 quando chegou ao Rio de Janeiro a bordo de um avião Caravelle da Panair acompanhada do namorado Bob Zaguri, sua forma de vestir virou referencia… Do cabelo em cascatas, passando pelo biquíni a camiseta listrada usada com calça de jeans e o vestido que aparece nesta foto, tudo virou moda no verão pré revolução… Este vestido com golinha dobrada e uma penca de flores e frutos fazendo o gênero super feminina “bombou”… Foi assim que se deixou fotografar no terraço do Copacabana Palace e saiu nas páginas de muita revistas… E meu Deus, quantas amigas vestiram igual, quantas Brigittes nasceram neste verão para se transformarem em revolucionárias a partir de março … Passam os anos, e as mulheres continuam as mesmas…

Com Bob Zaguri, em Búzios, vestindo camiseta regata listrada e jeans

O vestido amarelo queimado.