Voluntários do Rock in Rio Lisboa

Eu vi as fotos dos voluntários do Rock in Rio Lisboa na pagina do Miguel no FB e me transportei há 6 anos quando tive que resolver o que fazer com todos aqueles jovens que haviam se inscrito para serem voluntários na primeira edição do festival. Quando tomei conhecimento de que esta função estaria comigo, nas reuniões semanais de produção “oferecia” voluntários a todos os setores. Exceto a assessoria de imprensa que já teve esta experiência no Rock in Rio 2001, os demais produtores e responsáveis pelas áreas não tinham a menor idéia do que fazer com um voluntário. E eu insistia : voluntário é bom, é pau prá toda obra, é gente com boa vontade, jovens com preparo físico, e alguns me olhavam sem muita fé. Eu já tinha trabalhado com voluntários no Rock in Rio 1991 e 2001 e sabia o quanto era boa a experiência maravilhosa tanto para o festival como para os jovens.
Como selecionar 380 entre mais de 7 mil inscritos através do site do BCP ? Com um pouco de criatividade, ajuda da Luiza e do Luis que já estavam na equipe, mais o apoio da Cláudia Schembri, profissional em RH que, de Belo Horizonte (MG-Brasil), ajudou a preparar a prova para internet. E bastou uma questão para reduzirmos drásticamente e chegarmos a pouco mais de 800.
A pergunta: Pratica desporto ?
Quem respondeu negativamente estava fora. Precisávamos de gente com preparo físico para andar pela Cidade do Rock. Selecionamos 800, depois 380. Éramos um exercito Brancaleone !
Não sei se foi a minha insistência ou a necessidade, mas o projeto deu certo… Dos 380 voluntários do Rock in Rio Lisboa 2004 apenas 3 não se adaptaram ao ritmo do festival. Tenho as melhores recordações de todos os jovens que me ajudaram a mostrar que esta era uma proposta viável, saudável, divertida e vencedora. Com grande orgulho plantei esta árvore e fiquei imensamente feliz em ver que o Miguel, um dos voluntários de 2004, hoje está à frente do movimento. Talvez ele ainda se recorde que no primeiro encontro com todos voluntários num cinema em Lisboa citei a frase de Martin Luther King “podemos ter chegado em diferentes navios, mas hoje estamos todos no mesmo barco…”  Conseguimos ficar no mesmo barco até o final e desejo que o mesmo se repita este ano… Que o melhor sentimento fraterno e amigo envolva vocês nestes dias, vistam com orgulho a “camisola” Eu sou Volutário e boa sorte…

Houve um tempo…

Houve um tempo em as pessoas quando viajavam de avião vestiam suas melhores roupas. Vovó costurou uma saia de lãzinha xadrez cinza e azul que vesti com um conjuntinho de ban lon azul claro para viajar de São Paulo ao Rio por uma companhia aérea que se chamava Real. Era a primeira vez daquela série de coisas que nunca se esquece. As aeromoças eram elegantes, serviam almoço com talheres de metal e copos de vidro. No banheiro tinha sabonete miniatura, perfume e creme para as mãos. Hoje esperando o embarque na ponte aérea viajo no tempo e no comportamento. Sandalia havaiana fica até chic perto dos modelitos despojados que se misturam com os trajes dos executivos. Avião virou transporte de massa, o que é muito legal.

Houve um tempo em que fui criança e brincava de casinha desenhando com giz no cimento do jardim a planta baixa do que seria a minha casa. Entrava e saia apenas pelas “portas” determinadas, expiava pela “janela” o movimento da rua e quando ia “às compras” levava na bolsinha “dinheiro” que eram folhas de árvore. Pagava e pedia troco. Ontem no meio do almoço em homegem ao dia das mães na casa da Cacaia, a Bibi e a Lu brincavam do que a imaginação permitia em casa de adultos. Lá pelas tantas Bibi convidava a visitar “seu escritório” que nada mais era do que o da própria casa, mas ela falava dando ares de um negócio. Entro e vejo a pequena abrindo o notebook da casa  e pergunta em tom sério : “é cartão ?débito ou crédito ?” . Confirmei que era débito. Ela batucou alguma coisa no teclado, perguntou meu nome, fechou o notebook e com um jeito especial  começou a apresentar a estante de livros, apontando para as prateleiras: “Aqui são em japonês, ali em alemão, no alto livros da India, embaixo em chinês, pode escolher…” Fiquei encantada com a brincadeira de vender livros.

Houve um tempo em que pessoas da minha idade só contavam histórias, não escreviam nem postavam via blackberry enquanto aguardavam embarque na ponte aérea…Sempre bons tempos.

Léa Penteado enviado do meu Blackberry

Mudança

Preparo para mais uma mudança de casa, perdi as contas de quantas já fiz. Quando o Bernardo tinha 24 anos fiz os cálculos e cheguei ao número de 26 mudanças neste período. Na matemática exata chegaria a mais de uma por ano, mas na verdade em alguns lugares morei muitos anos e em outros, como em Nova York, tive 3 endereços em 1 ano… Nunca me torturei com o que ficou para trás. Às vezes vejo em fotos móveis, objetos, quadros e fico remontando a historinha de quando saíram de minha vida. Alguns eu perdi no tempo mas ficaram na memória. Como a estante da sala, talvez o mais antigo mobiliário companheiro, que um dia foi um elegante móvel inglês envernizado que recebi de herança de uma amiga decoradora e com o passar dos anos foi ganhando cores e mudou de casas.Tínhamos o habito familiar de “emprestar” móveis por temporada, e este passou um bom tempo com meu irmão. Quando voltou prá mim foi vermelho escuro num clima romano, depois verde claro, quase pastel, e a ultima lembrança que tenho era quase areia… Ali guardei LPs e toca-discos, depois CDs e CD player. Foi bar, foi estante para livros, espaço para coleção de porta retratos. Foi um amigo silencioso que ficava me olhando enquanto sentada no sofá eu pensava na vida, fazia planos, mudava trajetória, ampliava os sonhos e saía para novos caminhos… Exatamente como faço agora. Volto de onde vim, da minha casinha na Bahia. Volto para onde está a minha raiz, documentos, fotos, livros enfim, o meu mundo. Na mudança já não levo mais moveis. Cada vez tenho menos o que carregar por fora, vai tudo no coração. Em algumas malas vão as roupas,livros e discos. Comigo a deliciosa sensação de ter cumprido ao que me propus nestes 20 meses em São Paulo. Um novo tempo começa…

O barato do Pilates

Um dia saindo do supermercado perto de casa, vi ao lado uma porta com o cartaz de um curso de Pilates que devia estar começando. Subi a escada branca em formato caracol e me deparei com um espaço novo, claro, com uns aparelhos interessantes distribuídos em uma sala envidraça. Conversei não mais do que 5 minutos com a professora uma gaúcha magrinha, simpática, e garanti que no dia seguinte às 7 da manhã lá estaria. E assim foi. Eu não entendia nada de Pilates, nem sabia quem era o alemão que desenvolveu a técnica, mas aqueles aparelhos me seduziram. Durante muitos meses fui uma boa aluna. No inverno pulava da cama com uma incrível disposição, o dia começando a clarear e nem a professora Luana soube quanto me fazia bem. Não estou considerando o quanto ganhei de elasticidade, postura, músculo nos braços e pernas. Descobri outro mundo, quase próximo ao que conheci em meditação. Quanto mais eu me esticava e respirava compassadamente, mais entrava em uma deliciosa viagem interior. Eu me senti roupa pendurada no varal, acrobata voando pelos ares, bailarina de circo equilibrando em cima do arame.  Luana querida, as manhãs frias com fundo musical suave me traziam um sentimento de sagrado, como se cada movimento fosse uma oração. E agora quando começo a fechar uma parte de 20 meses em São Paulo, sou imensamente feliz por ter vivido esta experiência e queria que todos pudessem provar este barato. Podemos muito mais do que imaginamos, podemos nos superar até em coisas simples como esticar braços e pernas delicadamente… E sei também que se algum dia me sentir down, é só olhar a foto e acreditar que eu posso…

Lembrando a Bloch

Renata Sorrah, Tarcisio Meira e Betty Faria na capa de Sétimo Céu.

Hoje  cedo ao ler no twitter do Ancelmo Góis a noticia do leilão dos arquivos de fotos da Bloch Editores o assunto ficou  martelando a minha cabeça. As fotos vêm e voltam, como num show de slides. Lembro dos cromos espalhados na mesa de vidro para escolha de capa das revistas, lembro do Nilton Ricardo entusiasmado mostrando as seqüências das cenas das fotonovelas… Alguém ainda sabe o que é fotonovela ? Era um trabalho primoroso de autor, roteiro, direção, elenco e claro, fotografias que contavam uma historinha…Até Roberto Carlos fez uma fotonovela, e até eu !!! Os atores de novela faziam fotonovelas e garantiam um cachê. Tinham atores exclusivos de fotonovelas, figurantes, só não tinha merchandising… Creio que muitas destas fotos estão neste pacote, assim como as fotos do nascimento do meu filho, reportagem na revista Amiga; fotos minha, recém casada, reportagem na Manchete, e outras tantas…

Este leilão traz também uma memória triste : dos funcionários da Bloch que ficaram sem pagamento. Não sei se a dor maior é do calote ou acompanhar a falência de uma empresa que se ajudou a construir. Esta parte triste eu não vi, só ouvi contar. Saí nos áureos tempos quando se almoçava num restaurante a beira da piscina, comia-se com talheres de prata, bebia-se em copos de cristal bico de jaca, usava-se guardanapo de linho e o serviço era a francesa. Nos corredores obras de arte, na redação mesas de jacarandá, cadeiras estofadas em couro… Uma vez eu vi o Sr.Adolpho entrar na redação, tirar um casaco que estava pendurado em uma cadeira e jogar no chão. Saiu resmungando que cadeira não era lugar para pendurar casaco, que guardassem no armário. E tudo isso acontecia com o mais belo visual da Baia da Guanabara. Não podia ser mais bonito.

Aprendi a ser jornalista na Bloch. Meu primeiro emprego como repórter foi na revista Sétimo Céu, levada por Moyses Fuks, enquanto não era lançada a revista Amiga. Fui a primeira repórter contratada da revista Amiga, numa época em que ainda olhavam estas publicações como sub-jornalismo, coisa menor, revista para empregadinhas  que querem saber de fofocas… Mas em nenhum momento isto me abateu. Eu estava simplesmente deslumbrada em ser repórter, e hoje todo mundo quer só ser jornalista… Pesquisando no Google sobre o leilão, encontrei um site que conta a historia da TV Manchete www.redemanchete.net. Uma frase do Sr. Adolpho se destaca : “ A vida só é digna de ser vivida quando se faz algo pela vida em vida”. Ele fez pela vida de muitos, mas nem sempre o final foi feliz.

Como fui parar na Bahia

Um pedaço do quintal de casa

Nos anos 80 meu irmão descobriu Vila de Santo Andre por acaso, assim como Cabral chegou bem alí perto…Estava de férias em Porto Seguro, pegou um carro, foi subindo litoral norte, estrada no mais puro areal e chegou a beira de um rio. Atravessar para o outro lado só com a ajuda de um barqueiro e depois de caminhar no meio do mangue, por estrada de areia embaixo de sol, chegou a uma vila pequena sem luz elétrica nem telefone… Paixão a primeira vista. Com um amigo italiano comprou um terreno, construiu primeiro uma meia água, depois uma casa e mais adiante, pensando em se aposentar (era gerente de banco), fizeram uma sociedade e compraram um terreno para construir uma pousada. Conheci Vila de Santo André em 1993. Meu irmão já tinha a casa e construía a pousada. O progresso chegara com luz elétrica e balsa improvisada. Em dezembro de 94 a Pousada Victor Hugo foi inaugurada com apenas 2 apartamentos e o mais lindo deck debruçado sobre o mar. Eu estava lá testando os serviços num primeiro reveillon acompanhada de 4 amigas. Vida linda e leve até abril de 2001 quando meu irmão descobriu um câncer no pulmão e bastaram apenas 8 meses para tudo mudar. A casa que meu irmão construiu no fundo da pousada ficou como herança para minha mãe, a pousada ficou com o sócio italiano, e durante 3 anos administramos a ausência do Victor e a casa a distância. Em agosto de 2004 depois de quase 1 ano morando em Lisboa trabalhando na equipe do Rock in Rio Lisboa, voltei para o Rio e resolvi me dar como presente um semestre sabático. Fui fazer nada na Bahia, escrever um livro, cuidar da casa que estava abandonada, quem sabe encontrar um comprador já que o uso era esporádico e acabei ficando. Não escrevi ainda o livro, comprei a casa  e consegui montar um esquema de trabalho a distância. Escrevo a metro, faço consultoria por telefone e vivo num outro mundo. Estou a 24km de Porto Seguro com a oferta de 5 vôos diários para São Paulo. Apenas a 1h50 estou na maior cidade da América do Sul mesmo que traga na sola do sapato areia do quintal… A vida em Vila de Santo André na baixa estação é a paz ! Ando na praia, leio, escrevo, tomo café da manhã olhando os passarinhos, mexo nas plantas, vejo as rosas no jardim, um urutau que aparece encarapitado numa árvore, converso com os moradores, dou carona até a balsa (2km), visito e recebo amigos, e o melhor de tudo, sou imensamente feliz…
Ah! Dalce, e tudo isso só por que você perguntou como eu cheguei na Bahia… nos posts abaixo você pode saber mais como ando… Segundo o registro de nascimento com 61 anos mas continuo me sentindo com 30… Fazer o que ?
Em tempo : Vila de Santo André na verdade é um povoado, tem menos de 800 habitantes, e fica no município de Santa Cruz Cabrália.

Dolores

Pedro
“ Ah! Vc está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou…” depois que li seu texto sobre Dolores… Preciso digitalizar o meu livro “Um Instante Maestro” para ter mais referencia e responder sua provocação. Como não conhecer Dolores ? Já contei que era alucinada pela Maysa e uma vez por semana ia dormir “com a bunda quente”, pois fiz um trato com meu pai para assistir ao programa de TV que ela apresentava num canal que não lembro qual ? E se era este encanto por Maysa como não gostar de Dolores?
A vida junta pedaços que tem afeições e com isso através de Flavio Cavalcanti conheci um pouco mais de Dolores. Eram muito amigos. Dolores acabou de escrever “A Noite do Meu Bem” na casa do Flávio. Ele pegou um papel para que ela passasse a limpo numa folha de papel que nós chamamos hoje de A4 e colocou num quadrinho que esta na parede da casa de um dos seus filhos. Olhei muitas vezes aquele quadrinho e imaginava Dolores acabando de compor na madrugada. Como Flávio contava, ela chegava depois de cantar na noite, fazendo algazarra e trazendo uma grande alegria. Contava que ela era muito alegre, apesar do tom triste de suas composições. Muitos e muitos anos depois morando num apartamento em Ipanema, na Rua Gomes Carneiro 149, encontrei com Paulo Alberto (Monteiro de Barros – Artur da Távola) que também conheci trabalhando com Flávio, e quando soube do endereço contou que era o mesmo de Dolores, também sua amiga.
E aí vem você com esta cutucada… Não tenho saudades, tenho prazer destas historias e ter ouvido e visto tanta coisa…
o primoroso texto do Pedro
http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/04/ai-solidao-vai-acabar-comigo.html

Visto assim do alto…

Beto no coqueiro, foto Cláudia Schembri

Já ouviu falar em jupati e urutau ? Eu também nunca tinha ouvido falar até mudar para a Bahia em agosto de 2004. Confesso que um novo mundo se abriu com a vida rural. Jamais tive casa na serra ou na praia, na verdade a experiência de viver em casa foi pequena, sempre bati a porta do apartamento e a vida ficava lá dentro. Um domingo andando pelo quintal às 6 da manhã ouvi o barulho como de uma serra elétrica. Não acreditava que alguém pudesse estar cortando árvore a esta hora… Procurando de onde vinha o som me deparei com o Murtinho florido e coberto por abelhas…Um dia o Guinho, meu assessor para assuntos rurais, mostrou um urutau no topo de uma árvore. Demorei para identificar a ave que usa muito bem a sua plumagem para se camuflar, se passando por um pedaço de madeira ou um galho de árvore ou mesmo troncos partidos. Fica estática, não se assusta facilmente e só voa a noite onde sai para caçar insetos ou outros animais de pequeno porte. Tem muitas lendas sobre o urutau, é chamada de mãe-lua e em tupi guarani é chamada de ave fantasma. O urutau ficou meses morando lá em casa e um dia sumiu… Demorou mais algumas semanas, voltou e se instalou no mesmo toco em uma parte já seca da árvore, até que um dia percebemos que era A urutau, havia voltado para chocar ovos. Nasceu no quintal uma família de urutaus, que vão e voltam e trazem bom astral.
Os jupatis não os recebo com a mesma alegria. São da espécie marsupial, carregam os filhotes na barriga como os cangurus, um tipo de rato que tem um rabo comprido, o pelo curto e uma espécie de máscara em volta dos olhos…O primeiro verão que passei em Vila de Santo Andre certa noite acordei com um barulho no telhado e meu irmão contou que era jupati. Conheço muitas historias, entram nas casas, se tiver comida na cozinha fazem a festa e acho horrorosos.. Contando tudo isso pois hoje recebi uma foto lá de casa. O Beto, subidor oficial de coqueiros, foi limpar umas palhas e catar côcos e encontrou um jupati no meio das folhas. O jupati se assustou, caiu no chão e o Guinho cráu, sem dó nem piedade acabou com o bicho na paulada… Enquanto o Beto admirava o jardim do alto viu o, ou a, urutau belamente instalado (a)… E aí está a foto do Beto e minhas lembranças com saudades de casa…

Portugal…

Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa 2004

As minhas melhores lembranças são repletas de perfumes, sabores e sonoridades. Do sabor do café com leite servido em grandes bules de alumínio no lanche da escola das freiras na minha infância, a primeira vez que bebi champagne e percebi o que era “sorver estrelas”, tudo isso esta presente nos meus dias. Lembro do cheiro do sabonete Phebo rosas no banheiro do pequeno apartamento que morei em Nova York e me remetiam ao Brasil; o perfume que vinha da pequena arvore de dama da noite do jardim da casa na Tijuca e me acompanhava enquanto esperava no portão a chegada do namorado na adolescência. O cheiro de cigarro Gauloise das ruas Paris, e o bife frito acebolado, cuja fumaça fumegava a cozinha de casa.
O que tem em comum Noel Rosa, Tinoco e Tinoco, Glen Miller e a ópera Carmen, de Bizet ? Nas minhas lembranças é uma única sonoridade que saía dos LPs tocados na vitrola aos domingos de manhã. Era um luxo para o papai esperar o almoço ouvindo seus LPs, e tempos depois percebi que esta era a sua essência, um homem aberto às informações sem o menor preconceito. Aprendi bem esta lição e hoje quando passo um fim de semana a ouvir “Marilea in concert”, uma seleção de canções portuguesas que gravei em um cd enquanto morava em Lisboa e dei uma cópia para minha amiga Mariangela Sedrez, percebo que ouvir Amalia Rodrigues é o mesmo prazer que ouvir Cesárea Évora ou os roqueiros Chutos e Pontapés. Um fim de semana onde viajo nos dias de Lisboa, nas viagens pelo interior do país tão lindinho. Vem junto o aroma do pão com lingüiça assado em fornos artesanais nas feiras de Sintra, o sabor do bacalhau ao murro na tasquinha em frente ao El Corte Inglês onde almoçava quase todos os dias, a sardinha frita na subida da Alfama na festa de Santo Antonio e a delicia dos pastéis de Belém. O sabor dos vinhos, todos, dos verdes aos tintos, o meu querido Porto, e me alimento com estas lembranças.

Em casa

Sexta de Paixão.
Paixão da dor de Cristo.
Paixão de amor à vida.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry