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Uma carta

Final de tarde morna, céu azul lindo, voltava de Porto Seguro acompanhando meu amigo, poeta mineiro, que foi comprar uma bicicleta, quando começamos a falar sobre as obras de seus conterrâneos. Otto Lara Rezende, Fernando Sabino e caímos em Drummond. Lembrei de “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”, trecho do poema “Confidencia do Itabirano” que gosto tanto. E, de repente, assim do nada, veio uma outra foto na parede de um trecho de uma carta que Flávio Cavalcanti escreveu para seu neto Jarbas há 40 anos… Me surpreendi ao perceber que ainda lembrava de parágrafos inteiros desta carta que foi um grande desafio quando respondi sobre a vida do apresentador no programa “Sem Limite” na TV Manchete apresentado por Luiz Armando Queiróz… Fiz coisas na vida que as vezes olhando para trás nem acredito… Uma loucura que durante 10 semanas me levou a responder em cada programa 10 perguntas, sub divididas em três itens! Era muito conteúdo e foi estudando, decorando, que tive o sentimento que a memória é como um musculo, precisa de exercício para se manter firme. Durante este tempo, havia um tema que em algum momento ia surgir e sempre imaginei que seria a última pergunta, por ser uma carta longa que bem sintetizava a filosofia de vida do Flavio. Mas era difícil, eu chorava em determinados momentos. Com o tempo fui diluindo a dor, incorporando o texto e quando cheguei ao programa final estava segura. Mas como emoção é terra que não tem dono, ao repetir o texto sem errar qualquer palavra ou vírgula, fui me desmontando e aos prantos ouvi o esperado “Absolutamente certo !!” 25 anos se passaram e esta carta mais do que uma foto na parede é um registro na memória do meu coração…

lea e flavio

Petrópolis, 25 de outubro de 1975

Meu neto:

Pelo que você já me disse com o seu sotaque de anjo, percebo que você me… considera uma criança grandona e desajeitada, e me acha, mesmo assim, seu melhor companheiro de brinquedos.

Pena que tenhamos tão pouco tempo para brincar, tão pouco porque só sei brincar de passado, e você só sabe brincar de futuro. E ainda estarei brincando de recordação quando você começar a brincar de esperança.

Mas antes que termine o nosso recreio juntos, antes que eu me torne apenas um retrato na parede, uma referência do meu genro, ou quem sabe até uma lágrima de minha filha, quero lhe dizer meu neto, que vale a pena.

Vale a pena crescer e estudar. Vale a pena conhecer pessoas, ter namoradas, sofrer ingratidões, chorar algumas decepções. E, a despeito de tudo isso, ir renovando todos os dias a sua fé e a bondade essencial da criatura humana, e o seu deslumbramento diante da vida.

Vale a pena verificar que não há trabalho que não traga sua recompensa; que não há livro que não traga ensinamentos; que os amigos têm mais para dar que os inimigos para tirar; que se formos bons observadores, aprenderemos tanto com a obra do sábio quanto com a vida do ignorante.

Vale a pena casar e ter filhos. Filhos, que nos escravizaram com o seu amor.

Vale a pena viver nesses assombrosos tempos modernos, em que milagres acontecem ao virar de um botão; em que se pode telefonar da Terra para a Lua; lançar sondas espaciais, máquinas pensantes à fronteira de outros mundos, e descobrir na humildade que toda essa maravilha tecnológica não consegue, entretanto, atrasar ou adiantar um segundo sequer a chegada da primavera.

Vale a pena, meu neto, mesmo quando você descobrir que tudo isso que estou tentando ensinar é de pouca valia, porque a teoria não substitui a prática, e cada um tem que aprender por si mesmo que o fogo queima, que o vinagre amarga, que o espinho fere, e que o pessimismo não resolve rigorosamente nada.

Vale a pena, até mesmo, envelhecer como eu e ter um neto como você, que me devolveu a infância.

Vale a pena, ainda que eu parta cedo e a sua lembrança de mim se torne vaga. Mas, quando os outros disserem coisas boas de seus avós, quero que você diga de mim, simplesmente isso:

“Meu avô foi aquele que me disse que valia a pena. E não é que ele tinha razão?!”

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Mundinho digital

Conversando com um amigo me lembrei que tive o privilégio de, em alguns momentos, estar com pessoas especialíssimas, como num jantar na casa do Presidente Juscelino Kubitscheck em que ao servirem o café e o licor, na maior intimidade, ele tirou os sapatos e, com jeitão mineiro, como se estivesse em Diamantina, ficou só de meia cantando “Peixe Vivo” acompanhado do violão de Dilermando Reis. Ou em uma noite em Nova York na saída do Carlyle quando consegui trocar uma meia dúzia de palavras com Woody Allen e pedir um autógrafo. E o olhar encantado do Maestro Zubin Mehta ao avistar o cenário da enseada de Botafogo em dia ensolarado onde faria um concerto com a Orquestra Filarmônica de Israel. Mas lamentavelmente não tenho registro desses encontros. Era um tempo sem selfies e se fosse hoje certamente eu fotografaria as meias do presidente, o cineasta americano assinando no papel ou tocando clarinete… Até havia celular no evento do maestro indiano, mas sem câmera…

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Fotografei todos os terceiros dias de cada mês do primeiro ano de vida do meu filho. Se fosse hoje estaria com uma página no face, espaço no Instagram, mostrando cada espirro ! Fico pasma com as tantas imagens que antes eu ainda gravava em cds, dvds, e hoje estão em arquivos nas nuvens, dezenas de pastas digitais… É só dar uma “googada” em imagens de Vila de Santo André que qualquer pessoa tem à disposição dezenas de fotos que eu fiz… Ainda não sei muito bem o que fazer com tudo isso, conviver com este “mundinho digital” que me parece muito etéreo… Gosto de mexer nas caixas de fotos, folhear álbuns antigos, como fazíamos em casa nos dias de chuva. Era uma grande diversão! Hoje guardo em caixas de isopor para proteger da umidade no sul da Bahia e me espanto ao encontrar algumas fotos sem qualquer significado, mas morro de pena de jogar fora. Não tomam espaço, são poucas entre centenas e por alguma razão foram parar ali. Acho que estou em tempo de imprimir umas fotos, fazer novos álbuns, ter algo para tatear, ver com os dedos daqui uns 20 anos…

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Apesar do apego ao impresso, tenho fascínio pela tecnologia. Gosto sempre de lembrar que tive o primeiro escritório de assessoria de imprensa no Rio com computador, mailings segmentados e por isso foi notícia na página de informática no jornal O Globo. Ao mesmo tempo que adoro aplicativos inteligentes – encontrei um que emite um sinal que afasta mosquitos! – uma parte de mim quer manter o papel e o lápis, o porta retratos antigo, as colagens em quadros, a foto 3 X 4 na carteira.  Assisti outro dia a uma reportagem mostrando que em uma escola nos Estados Unidos as crianças estão sendo alfabetizadas diretamente no tablet, sem acesso a papel ou lápis. Aprendem a digitar como no passado fazíamos em aulas de datilografia. Pensei se vão saber desenhar na areia, mesmo que apenas um sol ou um coração. E nessa viagem me lembro que o homem levou algumas centenas de anos tentando deixar suas informações em desenhos nas pedras, depois escritas nos papiros, evoluindo até chegar a prensa que veio democratizar a sua história na forma de livros… E agora, em menos de meio século, a brincadeira é outra…. Nunca foi tão rápido, nem posso imaginar o que ainda vem à frente, mas estou dentro. Anotando tudo e imprimindo fotos…

A visita

Entrou pela janela, tomou conta da sala e não importa quantos anos ainda vou viver, jamais esquecerei o cheiro do fumo do cachimbo. Veio como uma baforada da memória, era Half & Half o tabaco favorito do meu pai. Fui ao jardim ver se alguém na rua fumava, mas só havia o cheiro da dama da noite que vem da casa ao lado e nas noites de lua cheia parece que perfumam ainda mais. Só pode ter vindo nos pensamentos que volta e meia tomam conta de algumas horas do meu dia quando tenho dúvidas, quando tenho alegrias, quando saboreio algo muito bom, me lembro nele.

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Meu pai era uma grande figura, um homem que valia a pena conhecer. Mesmo quando adolescente, no tempo que se tem vergonha dos pais, eu gostava de mostrá-lo às minhas amigas pois sabia da sua história, tinha orgulho da forma como conduzia a família e se importava especialmente comigo e esquecia que tinha quatro irmãos, pois quando falava comigo, falava apenas comigo, era inteiro. Dizem que as pessoas trazem consigo a alma de outras vidas. Só assim consigo entender como o garoto que cresceu à beira da estrada de ferro vendo o pai sinalizar a passagem dos trens se tornou um homem refinado. Família simples, contava que conheceu creme dental aos 10 anos, mas se sofisticou: jogava tênis, bebia whisky, saboreava pratos da gastronomia internacional (aprendi com ele a comer goulash, filet au poivre, eisbein…) e estudou marketing em uma das primeiras turmas da ESPM. Lembro ele dizendo “marketing nunca terá tradução para o português, aprenda esta palavrinha”.

Com seu modo tranquilo de falar, sem elevar o tom de voz, dizia que fumar cachimbo, entre uma baforada e outra, dava tempo para pensar o que responder em uma conversa. E quase todas as nossas conversas tinham um pouco de fumaça. Quando aos 15 anos eu não quis ser normalista, me tornar professora como toda garota da Tijuca e prestei prova para estudar Máquinas e Motores na Escola Técnica, mesmo sabendo que eu podia não aguentar a barra, ele deu a maior força. Fiz apenas o primeiro ano e seu comentário foi que eu tinha tido um importante ganho: experiência. Aos 17 me apaixonei pelo professor de português que era comunista e o tom da pele beirava o mulato. Ele fez minha irmã se calar com comentários racistas e apesar de apoiar os militares que estavam no governo, recebia o revolucionário com sorriso sem falar em política.

A sua posição mais tocante aconteceu quando me separei. Pouco mais de 20 anos, um filho com 9 meses, voltei para casa dos pais e fui recebida com carinho. Depois de um mês, bem instalada, trabalhando e voltando à vida social, uma noite ele me chamou e perguntou o que eu pensava do futuro. Eu nem sabia o que pensar, mas achava ótimo estar com eles, protegida, amparada… Foi aí que ouvi a pior frase que com o tempo se transformou no melhor ensinamento. Em tom baixo, suave, apesar da força das palavras, ele disse: “quem pariu Mateus que o embale… Você casou, teve um filho, está na hora de recomeçar… Posso ser o fiador no aluguel de um apartamento e sempre estaremos aqui para apoiar”. Agradeço esta chacoalhada, se não fosse isso teria seguido a vidinha familiar e não teria feito o meu caminho.

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Ele nunca impôs aos filhos uma religião. Era kardecista, assim como seus pais, mas ajudou os padres a conseguir recursos para construir uma igreja no bairro onde morávamos em São Paulo e cobrava a nossa presença na missa. Dizia que quando adultos podíamos escolher uma crença, enquanto isso ir à igreja era bom…. Aos 84 anos ele estava num processo de esclerose senil, com momentos de lucidez, outros viajando nos pensamentos, e uma noite me telefonou dizendo que queria reunir os filhos e pedia para convidar um certo amigo espírita. Aquele era meu pai, determinado e lúcido. No encontro fez uma oração agradecendo pela vida e em particular pediu ao amigo que cuidasse espiritualmente da família. Sabia que não ia demorar para a grande partida. E estava certo…Por esta relação tão próxima e a sutileza na forma como hoje percebo a espiritualidade, quando senti o que para uns pode ser um cheiro estranho de tabaco e para mim é como um perfume, percebo ele por perto… Ao menos no meu coração… Obrigada pela visita, meu pai!

Saberes

Na balsa, no meio da travessia do rio João de Tiba, meu filho que me visita por uma semana pergunta se tenho mesmo certeza em não querer voltar a morar no Rio ou em São Paulo. Aponto a paisagem a nossa volta. De um lado a pequena Santa Cruz Cabrália, a igreja matriz de 300 anos encarapitada no alto do morro; embaixo os barquinhos pesqueiros no rio que uma parte desagua no mar, outra sobe para as áreas rurais. Um céu azul de brigadeiro, o sol morno de inverno. Tudo isso fala mais alto do que qualquer negativa. Sei que não é simples entender que optei por uma outra vida, cultura, valores e o quanto agradeço a oportunidade de estar conhecendo tudo isso nesta “encadernação”.

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Atenta, cada dia uma novidade aparece, um saber que se revela. No momento estou fazendo uma pequena obra no meu jardim, transformando um simpático chalé em uma casinha com cozinha e varanda. Além da excitação em definir sobre a construção de alguma coisa concreta, o que não é fácil para quem atua no campo do imaterial, estou fascinada com a habilidade do pedreiro. Um trabalho cuidadoso, criativo, olhar estético. Sugestões e comentários assertivos de quem deve mal ter concluído o ensino fundamental mas sabe do seu ofício. A vida foi ensinando, a prática foi apurando o conhecimento e o resultado terei pronto na próxima semana com um acabamento primoroso.

Estes saberes conquistados fora dos padrões acadêmicos, fez parte de uma boa conversa que tive há poucos dias com um antropólogo e uma bailarina que pela primeira vez visitaram a região. Embaixo da grande tenda no jardim, depois do café da manhã, encantados eles comentavam sobre quantas artes e ofícios criativos perceberam andando ao redor. Sem a necessidade de seguir um padrão rígido, utilizando o que se tem numa relação direta com a natureza, apreciaram construções mais orgânicas e harmônicas. Se apaixonaram pela habilidade como “tecem” telhados de piaçava, transformam troncos em canoas, fazem grandes colheres e conchas de coco.

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Vejo isso por todos os cantos não como obvio. Admiro quem faz. Do simples artesão que transforma galhos em luminárias, até a amiga doutora, com vasta experiência profissional, que se dedica a pintar lindas gamelas e fotografar para o Instagram o que de belo surge à sua frente. Recentemente uma amiga construiu um grande espaço para dar aulas de yoga, uma shala em madeira com telhado de piaçava. Ela desenhou o marceneiro local construiu, e quem vê não se contêm em perguntar quem foi o arquiteto. Dá até vontade de colocar a mão na massa, e por falar nisso, sonho em ir mais longe que os mosaicos que produzo com caquinhos de azulejos coloridos vindos de São Paulo. Quero colocar a mão na argila, trabalhar no barro, nem que seja para desenferrujar os dedos, afugentar a artrite.

Caixa Postal 68

Na fila aguardando para receber uma encomenda no correio, fiquei observando a moça do outro lado do balcão. Tinha uma pilha de correspondências na mão e com exímia habilidade, as colocava em alguma ordem. Atenta, absorta em sua função, nem olhava as pessoas na fila que esperavam o atendimento. Magra, cabelos um pouco ondulados com fios dourados, ainda não chegou aos 40 anos e conduz o seu trabalho com dedicação extrema. Como se sabe de tudo em uma cidade pequena, jamais ouvi falar se era casada ou tinha filhos. A cena parecia como a de um filme que só era exibido na minha cabeça. As demais pessoas na agencia, preocupadas em despachar ou receber cartas, nem percebiam. Fiquei pensando sobre os ofícios como aquele, que para alguns poderiam parecer monótonos, tediosos, mas para ela tinha um sabor de prazer. De segunda a sexta-feira, das 8 às 17hs, entre o balcão e um depósito, lá está a moça com voz delicada e um sorriso discreto.  Talvez quem leia esta crônica não vá ao correio há muitos anos e só receba a correspondência que o porteiro joga embaixo da porta ou nas caixinhas na entrada do prédio. Onde eu moro o carteiro não passa, tenho caixa postal na única agencia de correio da cidade e algumas vezes por semana passo para ver o que me espera.

cartas

Receber cartas é fascinante. Recentemente fui surpreendida por uma, manuscrita, enviada por um pediatra gaúcho, meu hospede por alguns dias.  Nos anos 80, quando morei em Nova York, escrever e receber cartas durante um período foi uma compulsão.  A escolha de sair do país foi minha, mas alguma coisa insistia em manter os vínculos. Eu escrevia muitas cartas, alguns amigos respondiam, outros desapareceram. As que enviei não sei se ainda existem, as que recebi tenho todas guardadas… Lindas cartas datilografadas de Edna Savaget, algumas em papel rosa, uma em delicado papel de seda. Cartas tão afetuosas que me faziam sentir como se ela estivesse ao meu lado conversando, como fizemos tantas vezes. “Amiga, íssima, ississíssima…” ou “Leoca querida do meu coração”, e lá vinham confidências, reflexões sobre o país como “Resolveram (os home do governo) acabar com os últimos redutos culturais da nossa terra: fecharam as duas revistas (maravilhosas por sinal) editadas pelo MEC….” , a alta do custo do vida – “o café passou a mil e 700 o kilo e a gasolina vai à 400” –  sua atividade profissional “estou há um ano e meio fora de circulação, sem frente de trabalho, sem trincheira, entretanto, os colegas não deixam que me esqueçam! Não há uma semana que passe que eu não seja convidada a participar de um programa…”  e a família com boas notícias do Leopoldo, da Andrea e do casamento da Luciana…

Carta manuscrita e cartões postais de Edney Silvestre contando que estava sentindo que o ano de 82 seria muito bom profissionalmente; as divertidas correspondências do Flávio Cavalcanti que vinham em envelopes geralmente grandes e me davam a impressão que colocava tudo o que estava na sua mesa: cartões, recortes de jornais, fotos… Sempre otimista, posso ouvir ele afirmando “as amargas não”, repetindo a frase título do livro de memórias de Alvaro Moreyra que ele tanto admirava. Certa vez Flavio enviou um pacote com camisetas onde mandou estampar o meu nome! Uma ode ao ego.

Uma linda carta da Janete Clair onde num trecho confessava que jamais escreveria outra novela sozinha. Tinha acabado de colocar o ponto final em “Sétimo Sentido”, não podia viajar “ …pois Dias ainda está escrevendo O Bem Amado até dezembro”… E Janete contou que “ …de tudo o que aconteceu esse ano, durante esse trabalho, tirei minhas conclusões. Jamais farei outra novela, sozinha, me matando numa máquina durante tanto tempo. Já dei muito de mim para o trabalho. (….) Só farei outra novela dando ideias e uma equipe escrevendo”

Cartas dos amigos do jornal, a letrinha bem desenhada da Sonia Biondo, outras datilografas em laudas. Cartas com desenhos feitos pelo filho que me faziam debulhar em lágrimas, conselhos do papai e um foi fundamental: “minha filha, não fique como Fernão Dias acreditando que encontrou esmeraldas e depois perceber que são simples turmalinas…”. Todas faziam meu coração bater acelerado, um alimento que manteria as minhas baterias carregadas na loucura que fizera em deixar a vida profissional bem estabelecida, um filho na casa dos pais e aos 30 anos começar do zero, sendo apenas um número a mais no Social Security.

Assim como Piaf, “je ne regrette rien”, nada a me arrepender… Nem consigo pensar quem eu seria hoje sem aqueles três anos na América… Além de todos os aprendizados, a oportunidade de experimentar uma outra cultura, o “american way of life”, criei um vínculo afetivo com as correspondências, me apaixonei por selos e postais. E nos dias atuais, mesmo sabendo muito dos amigos através do telefone, e-mails, whatSaap, Skype, redes sociais, cada vez que coloco a chave para abrir a caixa postal, por alguns segundos penso que alguém pode ter me enviado uma carta. Como aquelas que recebi e ainda guardo em envelopes com listinhas verdes e amarelas para que eu sempre lembre como é bom ter amigos!

Noite mágica

dante

Acabou a luz.  Estava almoçando, passava das 13hs quando um sinal, quase um apito, soou na caixa que distribui energia elétrica de casa avisando. A geladeira que faz um barulho quase imperceptível se calou e o silencio dos elétricos eletrônicos se fez. Isto tem acontecido com certa frequência. Vida rural, repito sempre. Fiz o procedimento padrão destes momentos: troquei o telefone sem fio por um convencional. Telefonei para a Coelba, empresa de energia elétrica da Bahia, registrando a ocorrência e fiquei esperando voltar a vida normal a qualquer momento, como avisou a atendente. Pensei em costurar mas faltava a máquina; bordar, mas a luz era pouca; ler, mas o vazio do dia me tirou a atenção. Desliguei o celular para economizar a bateria, fui varrer o pátio e admirar a bela luz da tarde nas plantas do jardim…. Preparei as velas e lanternas, o dia acabou e a vila virou um breu.

A programação, como em todas as noites em que isso acontece, seria ouvir o silencio da noite contando estrelas, pensar na vida e dormir cedo. Ocorreria se não tivesse como hóspede Dante, um menino de 4 anos, esperto, inteligente e com criança tudo pode virar brincadeira. Foi assim que a grande atração a luz de velas foi a minha coleção de caixas de música. Há quanto tempo eu não as ouvia! Como fazem bem à minha alma. E foram saindo, uma a uma, do pequeno armário de vidro e postas na mesa de centro da sala. Não contei a ele que quando criança quis muito ter uma caixinha de música. Pedi ao Papai Noel, depois aos namorados, aos maridos, mas creio que meus pedidos não foram tão relevantes pois jamais ganhei. Até que ao chegar na casa dos 40, participando de um grupo de estudos de neolinguística, quase uma terapia em conjunto, surgiu o assunto de desejos simples não realizados e alguém perguntou: onde ficou a sua criança?

Bem, encontrei a minha no dia seguinte ao passar por uma loja num shopping e avistar na vitrine uma caixinha de música. Estava eu ali, cabelos claros e encaracolados, as mãos segurando o vestido, sapatos de pulseirinha, bem colocada em cima de um coração cor de rosa. Comprei, pedi para embrulhar para presente e ao chegar em casa abrir e pus a tocar e a menina a dançar como eu fazia quando criança ao som de Hi-Lilly, Hi-Lilly, Hi-lo  do filme “Lilli” com Leslie Caron, Mel Ferrer e Jean Pierre Aumont, paixão da minha infância.

Depois dessas surgiram outras… Presentes de amigos, lembranças de viagem. “Pour Elise” na caixinha que trouxe de Geneve, “I Left my Heart in San Francisco” tocado num bondinho da cidade na Califórnia, a engrenagem antiga exposta em uma caixinha de acrílico com uma canção medieval que encontrei no Mosteiro de Montserrat na Espanha . Também tem “Lago dos Cisnes”, “Hino ao Amor”, cantigas folclóricas, “Let it be”, “New York, New York”, enfim um repertório diverso que enche meus olhos e meu coração.

E assim ficamos, eu e Dante, colocando todas as caixas para tocar ao mesmo tempo, levantando tampas e deixando a bailarina dançar, os patinhos rodar num lago de espelhos, o piano a disparar Bethoven ! Uma noite mágica para mim e para ele. Nunca foi tão boa a falta de luz…

Foto : Cláudia Schembri

Vale tudo

Eu não sei qual a música tocava quando nasci, mas cresci com uma profusão de sons, estilos e tendências diversas.  Tenho o sentimento que a minha infância acabou quando vi Maysa cantando na TV. Por conta de um acidente doméstico naquela noite fiquei acordada até mais tarde e para me distrair papai deixou a TV ligada. Num estúdio enfumaçado, com pilastras greco romanas, Maysa caminhava em direção à câmera segurando uma taça que continha algum líquido, o cabelo caindo no rosto, um vestido drapeado no ombro e cantava “Meu mundo caiu”.  Naquele momento o meu mundo também caiu.  Constatei que havia uma outra essência de arte que nem meus pais, irmãos, as freiras do colégio, os amigos da rua haviam me revelado. Abria-se um novo caminho em minha vida através da música. Não a música de fossa, o samba-canção pré-bossa nova que Maysa compunha e interpretava, mas a música como algo vital.

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Não tive formação musical acadêmica. Quis aprender piano, acordeão, mas estava fora da “cultura da família” e do orçamento. Papai tinha uma visão interessante sobre os outros assuntos que estavam fora do padrão básico de educação e saúde. Jamais falamos sobre isso, mas com o passar do tempo concluí que ele acreditava que sua responsabilidade era oferecer aos 5 filhos, sem privilégios, tudo o que podia. Associou-se a um clube perto de casa onde todos podiam usufruir dos esportes. Comprou TV, vitrola, discos, livros e fez uma assinatura da revista Seleções. Informação para todos. Da coleção Tesouro da Juventude à obra de Monteiro Lobato, além de dicionários e livros diversos que se enfileiravam na estante do corredor. Lia-se com constância, por hábito, não por obrigação.

Musicalmente o seu gosto era eclético. Nos domingos e feriados, antes do almoço, ele colocava para rodar na vitrola LPs e discos de 98 rotações que variavam de Noel Rosa cantando com Aracy de Almeida à ópera Carmen. Não sei o que regia a seleção musical que ainda tinha Inezita Barroso, Glenn Miller, Tonico e Tinoco, Waldir Calmon feito para dançar, “Continental” (orquestrado com “standards” americanos), Agostinho dos Santos e por aí seguia… nenhum disco da Maysa, era um estilo novo demais. E foi esta falta de preconceito que estruturou minha vida muito mais do que papai podia imaginar. Qualquer som era bem-vindo, só havia o bom ou o ruim, sem julgamento, apenas sentimento….

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O rádio da Rosalina foi outro elemento importante. Ela era a empregada da família, viera do Paraná. Pequena e magra, tinha como relíquia um pequeno rádio que a acompanhava por toda a casa. Era uma caixa de madeira laqueada em tom marfim com uma telinha de tecido na frente por onde saía o som, próximo ao dial de plástico com os números das estações em AM. Na cozinha o rádio tinha lugar de destaque, quase um oratório sob a pia, de onde ela ouvia programas de auditório, novelas e muita música caipira. Não sei quantas vezes fiquei sentada num banquinho vendo a Rosalina fazer o melhor feijão com arroz e bife acebolado que comi na minha vida, ouvindo rádio…

Por isso aos 16 anos quando na casa da Ângela (naquele tempo era “da Cunha Porto Carreiro de Miranda” e depois casada com Gonzaguinha passou a assinar Ângela Gonzaga) vi uma roda de samba com uma porção de jovens cantando e compondo em pleno período de repressão política, a música pela segunda vez mudou a minha vida…  E assim o jornalismo e a música caminharam paralelo ao longo de mais de 40 anos.

Percebo e recebo qualquer estilo musical sem preconceito. Posso dizer não gosto, não quero ouvir em casa, mas respeito a forma de expressão sem gerar qualquer sentimento de raiva, revolta, ódio ou inveja…. Apenas um virar de página, mudar de canal. Esta reflexão vem por conta dos muitos comentários que li nos últimos dias com relação a morte do cantor e compositor Cristiano Araujo. Como dizia Tom Jobim, “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”, ainda mais quando vem de alguém que parecia ser desconhecido para um número enorme de formadores de opinião. Não ouvi “Bará bará bará berê berê berê” a composição que lançou o rapaz de Goiás, mas também não causaria qualquer dano à minha integridade intelectual. Porque como se dizia quando eu era criança, “entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Vale sim pensar que “O Brasil não conhece o Brasil”, como tão bem escreveu Aldir Blanc.

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Um painel com fotos que quase se perdeu no tempo, foi recuperado e enfeita a varanda da minha casa. Para quem não me conhece é um cartão de visitas. Um currículo resumido, um pedaço da minha história e dos amigos, tão marcante que usei para a capa do meu livro “A Verdade é a Melhor Notícia”. Entre tantas fotos, uma sempre atrai olhares. Talvez por estar no alto, por ter sido feita por um bom profissional que nem recordo o nome, mas com referências importantes da cultura nacional. Esta foi a tônica da conversa de hoje no café da manhã com meu hóspede poeta mineiro, sobre quantas historias apenas em uma imagem. Acontece que quando vejo este retrato a memória se aviva de tal forma que sou capaz de sentir a temperatura daquela noite de verão de 1974.

Da esq para a direita: Chico Anysio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos e Juca de Oliveira. Embaixo Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré, eu, Cidinha Campos e Eva Wilma.

Da esq para a direita: Chico Anysio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos e Juca de Oliveira. Embaixo Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré, eu, Cidinha Campos e Eva Wilma.

Eu tinha 25 anos, um filho com pouco mais de 1 ano e uma separação recente. Muitas responsabilidades e a vontade de viver todas as irresponsabilidades, pesando na mesma balança. O vestido vermelho era novo, comprado para a festa de aniversário algumas semanas antes. Na verdade, uma festa onde eu e minha prima C produzimos para celebrar um novo ano e um futuro que nem sabíamos por onde ia andar. Tínhamos filhos para criar e todos os desejos de jovens mulheres abandonadas pós maternidade.  Queríamos muito nos festejar e resolvemos comemorar nosso aniversário com uma festa na véspera do ano novo.  Compramos vestidos iguais, o meu vermelho o dela roxo, e sandálias com saltos altíssimos em prata e dourado. Não existia cartão de crédito, pagamos em prestações em uma loja super chic pois nosso cacife era pequeno. Apesar da falta de prática em produção, os moveis do meu apartamento recém alugado na Voluntários da Pátria foram desmontados e guardados no quarto de empregada.  Sala e dois quartos para os muitos convidados que podiam se espalhar em almofadas enormes e alguns estrados com colchão substituindo o que seria um sofá.  Publicitários, jornalistas, poetas, empresários, enfim, um grupo de peso. Whisky a rodo, um espaguete na madrugada, e antes de me recolher anunciei: o último que sair fecha a porta e joga a chave por baixo. Surpresa ao amanhecer e encontrar dois casais que por lá dormiram e civilizadamente conversavam no preparo do café da manhã como se tudo fosse muito normal, apesar de sabermos que tinham chegado à festa com outros pares. Os tempos eram assim…

E foi neste clima do meu primeiro verão como mãe e sem marido, me reinventando para um futuro que não tinha ideia como seria, que Carlos Imperial telefonou convidando para a grande noite do “Plá do Imperial”. Um parêntese sobre o Imperial:  eu o conheci na TV Continental onde era secretária do Eli Halfoun, assessor de imprensa da emissora que estava com nova direção. Havia um programa de entrevistas no fim da noite apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa, e eu adorava ficar até tarde ajudando na produção, e Imperial foi um dos entrevistados. Da Continental convidada por Moyses Fuks, fui trabalhar na Bloch Editores onde preparavam equipe para uma revista sobre TV, celebridades e ainda tinha fotonovela! Antes da revista Amiga existir eu já estava lá acompanhando a criação do projeto editorialmente novo inspirada em uma publicação italiana. Até o nome era igual.  A revista foi para as bancas e com alguns meses na estrada, creio que foi o Moyses Weltman, diretor da revista, ou foi o Fuks , que convidou o Imperial para assinar uma coluna. Produtor, compositor, criativo, mas vamos combinar que não era jornalista… E me lembro perfeitamente das primeiras colunas onde muitos palpitavam, incluindo eu…. Passávamos noites deliciosas rindo com as loucuras do Imperial.

E aí a coluna fez um grande sucesso… Provocador, debochado, engraçado foi conquistando admiradores e claro que criando também inimizades. Sem meias-palavras, colocando apelidos em muitos artistas e muito bem informado, para pontuar ainda mais seu espaço na mídia, criou um prêmio: o “Plá do Imperial”. Um medalhão dourado que anualmente entregava às pessoas que considerava terem bom humor para conduzir a vida e a arte. Assim como ele….

Não tinha como perder a festa que prometia ser a mais animada daquele verão e ainda por cima acontecendo no bar e restaurante Berro D´Agua, um dos visuais mais lindos da cidade, apesar de instalado nas obras inacabadas do Panorama Palace Hotel, entre os morros do Cantagalo e Pavão. Com o capricho do cabelo e maquiagem, vestido vermelho, fui sem imaginar que seria homenageada. Fui pela noite que prometia ser divertida, convites disputados aos tapas e a presença da fina flor do mundo artístico. E, surpreendentemente, quando Imperial anunciou os premiados lá estava eu…. Não sei se fiz algo tão importante naquele ano para merecer o prêmio, mas ele sabia dos meus desafios e resolveu levantar a minha moral.  E cada vez que vejo esta foto e os que me cercam, tenho orgulho de ter participado desta geração com Chico Anisio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos, Juca de Oliveira, Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré e Cidinha Campos a caminhada não tem sido em vão. Valeu Imperial….

Na foto abaixo, boas memorias do meu gordo amigo, cercada por Ana Maria Farias, Ewaldo Lemos, Leda Nagle, Jalusa Barcelos e Tetê Nahaz.

Esq p dir AnaMariaFaria_EvaldoLemos_LedaNagle_CarlosImperial_JalusaBarcelos_TetêNahaz

Tempero bom

Conheci a Aroeira quando vim morar na Bahia. Uma árvore frágil com galhos finos que se quebram com o vento mais forte. Dizem que sua casca tem poderes curativos (*) mas o que me encanta é o seu fruto, uma pequena e delicada pimenta vermelhinha, conhecida no exterior e vendida a preço bem salgado como pimenta rosa. Uma vez ao ano as aroeiras dão frutos. O jardim da minha casa e as ruas da vila são tomados pelo perfume delicado da pimenta, é quando retiro os galhos e começo um exercício de paciência, uma terapia tão boa como juntar tecidos em colchas de retalhos ou caquinhos de cerâmica em mosaicos.

Este é o processo da melhor terapia de outono. Neste período, nos momentos livres, me acomodo no sofá em frente à mesa ocupada com potes e bacias. Uma bacia com os cachos de pimenta, um prato para os pequenos galhos e outro onde vou colocando cada bolinha vermelha retirada com a tesourinha. Meus pensamentos voam. Manhã tarde noite, chuva ou sol, às vezes em silencio, outras com música, assistindo tv, faço render estes momentos de reflexão. Assisti ao longo da tarde e vi entrar a noite o julgamento no STF sobre as biografias. “Cala boca já morreu quem manda na minha boca sou eu” na voz da Ministra Carmem Lúcia ficou ecoando nos meus pensamentos lembrando o jeito malcriado de responder às brincadeiras. Falar assim em casa nem pensar. E quem me fez calar? Enquanto os ministros do STF apresentavam seus votos eu dividia meus pensamentos entre o julgamento e a censura interior. Até que ponto me censurei, me calei, me submeti… A reflexão continuou até a madrugada.

Num fim de semana revisitei a Europa em pensamentos na companhia de Gilda Muller. Seu humor sofisticado e elegância estavam no cenário da minha primeira viagem por Lisboa, Roma, Londres e Paris. Inesquecível. Eu e as pimentas, uma enorme intimidade e cumplicidade. Uma noite quase furei o dedo com a imagem do “derrière” do belo Rodrigo Lombardi. Belo Lombardi ou belo derrière? Não importa, mas sim as elucubrações do que pode ou não na TV numa falsa moral.

Nestes últimos tempos descobri no Youtube umas aulas/palestras do historiador Leandro Karnal. Gaúcho, professor da Unicamp, é uma estrela de encontros literários e acadêmicos, palestra na Casa do Saber e no Café Filosófico da CPFL. Cortando pimentinhas tenho me deliciado com seu conhecimento mesclado com muito humor em temas como “Hamlet de Shakeaspeare tendo o mundo como palco”, “A inveja e a tristeza sobre a felicidade alheia”, “O ódio no Brasil”, “O orgulho nosso de cada dia” e uma série de temas interessantíssimos. E confesso que jamais imaginei, nem nos sonhos mais tresloucados, que um dia iria debulhar pimenta filosofando… Que fantástico estes novos tempos onde apesar de tão longe, numa tarefa rural, estou tão perto do que se discute de forma inteligente neste mundo…

* Um pouco sobre Aroeira

Aroeira é uma planta medicinal, também conhecida como aroeira vermelha, aroeira-da-praia, aroeira mansa ou corneíba, que pode ser utilizada como remédio caseiro para tratar doenças sexualmente transmissíveis.

O seu nome científico é Schinus terebinthifolius Raddie pode ser comprada em algumas lojas de produtos naturais e em farmácias de manipulação.

Para que serve a Aroeira

A aroeira serve para tratar febre, reumatismo, sífilis, úlceras, azia, gastrite, tosse, bronquite, íngua, diarreia, cistite, dor de dente, artrite, distensão dos tendões e infecções da região íntima.

Propriedades da Aroeira

As propriedades da aroeira incluem sua ação adstringente, balsâmica, diurética, anti-inflamatória, antifúngica, antibactericida, tônica e cicatrizante ginecológico.

Modo de uso da Aroeira

Para fins terapêuticos são utilizadas as cascas, especialmente para fazer chá, e as outras partes da planta, para preparar banhos.

Infusão de aroeira para problemas de estômago: Adicionar 100 gramas do pó da casca de Aroeira em 1 litro de água fervente. Tomar 3 colheres de sopa ao dia.

Banhos de aroeira para reumatismo e problemas de pele: Colocar 20 g de cascas de aroeira em 1 litro de água e deixar ferver por 5 minutos. Coar e tomar banho com a infusão morna.

Efeitos colaterais da Aroeira

Os efeitos colaterais da aroeira incluem reações alérgicas na pele e mucosas.

Contraindicações da Aroeira

A aroeira está contraindicada para indivíduos com pele muito sensível.

Referencia : http://www.tuasaude.com

As Marcas

Uma amiga postou numa rede social uma foto da tatuagem que está alterando no pulso. O símbolo do infinito com as iniciais dela e do marido, uma prova do amor eterno, está desaparecendo… A letra inicial do nome dele foi apagada, assim como a relação que quase chegou aos 40 anos. Fiquei pensando que quando o amor acaba ficam marcas muito mais profundas que não tem laser ou tinta que remova. Como no poema de Drummond “de tudo fica um pouco”. Lembro de cheiros, roupas, sabores que ficaram no fim de relações. Manias, palavras, músicas, apelidos, algumas lembranças me acompanham até hoje.

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Qualquer um é capaz de fazer uma lista com detalhes, como diria Roberto “tão pequenos de nós dois”, de um amor que ficou no passado… Ou mesmo um amor que tenha sido curto mas muito intenso, pois o amor não tem tempo nem hora, tem fôlego… Vivi paixões profundamente, loucamente, algumas erradamente, mas sem qualquer julgamento, deixando seguir apenas o sentimento respirado, palpitado, suspirado… Mas nenhum desses amores senti vontade de tatuar o nome, uma inicial, um símbolo, uma lembrança… Era sair muito da casinha e, por mais loucuras que tenha feito, meu sentimento interior é bem comportado. Não era medo da pele envelhecer e a borboleta perder a cor, mas a incerteza de carregar no corpo, para sempre, alguma coisa que perdera o significado. Mas confesso que muitas vezes quis “ficar em seu corpo feito tatuagem” como Chico escreveu, e uma noite, no velho e bom bar do restaurante Flag, em Copacabana, fui cantada literalmente com esta canção. E é claro que “virei tatuagem” por uma noite! Memórias divertidas…
Há alguns verões, enquanto conversava na praia com a psicanalista Ana Veronica Mautner, passaram em nossa frente duas moças muito tatuadas. Nos entreolhamos e ela comentou que isso era falta de cueiro. Cueiro ? Talvez muitos não saibam o que é cueiro, aquele pano que embrulhava bebês deixando-os amarradinhos só com os bracinhos pra fora… Isto é coisa de mais de 40 anos…Segundo Ana, que pertence à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, autora de livros e que escreve na Folha e em algumas revistas, a pele, nosso maior órgão dos sentidos, é para sentir, é ali que reside o tato. O desenvolvimento começa no nascimento com o contato com a mãe, o sentir da fralda, da roupa, do travesseiro e, segundo ela, “a partir dessas imagens que formulamos nossas primeiras vontades – de alcançar, de conseguir, de empurrar, de ter força”. Como os bebês destes novos tempos são vestidos com roupas largas ou até nenhuma, nada impede o seu movimento, com isso seu tato através do corpo é muito pouco estimulado….
E assim, lá na frente, a tatuagem vem cobrir seu corpo, uma relação de tato que ficou esquecida, comprometendo o fluxo de tomada de decisões pela vida afora e acaba sendo um elemento de interface entre o ser e o mundo. Faz sentido esta conversa, se pensar que os bebes já nascem tão livres, praticamente com um controle remoto na mão, completamente independentes e donos de suas vontades. Mas apesar de admirar tatoos de amigos, alguns com verdadeiras obras de arte no corpo, não me inspiro a fazer qualquer desenho. Nem uma borboletinha na perna, um coração no pulso, uma flor de lótus nas costas, um pássaro no braço, uma estrelinha no bumbum, um símbolo do OM no seio…. As marcas da minha vida estão todas na memória, e que Deus as conserve para sempre…