Quando fechei a porta do elevador e vi a luz desaparecendo nos andares abaixo, voltei para o apartamento refletindo sobre irmãos. Acabara de despedir da minha irmã que viera passar um fim de semana paulistano e nesse momento entendi um pouco mais prá que servem os irmãos. Eles são bons prá lembrar que um dia eu tive catapora, dos detalhes do casamento de outro irmão, dos nomes de toda a família, de quem casou com quem, de quem morreu e nasceu, na verdade, aonde está a minha raiz. Irmãos lembram a essência da família, a educação, ética e moral passada pelos pais. Fazem refletir por que razão nascemos desta familia, o que mais profundo existe nesta relação. Irmãos repetem a oração do “Santo Anjo do Senhor meu zeloso guardador” e remetem a um tempo que só nós vivemos juntos, que nenhum marido nem filho nem o amante nem o amigo mais próximo pode conhecer : a infância. Mesmo que não tenha mais picolé de groselha na padaria da esquina e o sorvete agora seja de iogurte, irmãos fazem lembrar o sabor daquele pedacinho de gelo avermelhado e doce espetado em um palito, que nas primeiras lambidas ficava branco e se comprava por dois tostões. Quase nada é preciso dizer aos irmãos, e por mais que se cresça eles conhecem nosso jeito até em mudar de assunto quando o que está sendo falado não deve ser revelado. Irmão tem intimidade, mas não são invasivos. Respeitam o espaço, sabem que o tempo passou, e por mais que tenhamos seguido outros caminhos estamos ligados por uma linha invisível e eterna da vida. Irmãos lembram gargalhadas infantis, pegar a bicicleta sem pedir licença, o primeiro porre, o namoro escondido, o roubo da lata de leite condensado para tomar escondido na hora de dormir, embaixo do cobertor, como uma mamadeira. Irmãos têm a cumplicidade ao dividir um bife acebolado quando a fome é muita e a comida é pouca, emprestar aquela roupa nova, o perfume favorito e jamais contar para os pais o horário que chegou na madrugada. Mesmo que os irmãos estejam afastados, brigados por alguma razão que jamais considera tola, por conhecermos seu caráter somos até complacentes com seus erros, afinal somos grãos da mesma espiga. Os irmãos servem prá lembrar que por mais que o tempo passe quando estamos juntos somos eternas crianças.
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