Um mergulho

Nunca amei tanto a Itália como no período da adolescência até a entrada da juventude, quando descobri a MPB. Antes dos 15 anos, na trilha sonora de qualquer bailinho, no top 10 a metade tinha as vozes de Sérgio Endrigo, Domenico Modugno, Gino Paoli, Pepino di Capri, Gianni Morandi, Nico Fidenco, Pino Donaggio, Gigliola Cinquetti … entre outros tantos. Como éramos apaixonados por estas vozes, assim como por Ray Conniff e Metais em Brasa… A cultura italiana ainda trazia filmes maravilhosos e, com a carteira do colégio completamente falsificada que o porteiro sabia que era fake mas fazia vista grossa, assisti filmes inesquecíveis como “O Belo Antonio”, “8 e ½”, “Rocco e seus irmãos”, “Matrimônio a Italiana”, “O Homem que não sabia amar” e incluindo nesta trilha o americano “Candelabro Italiano com a icônica canção “Al di la” interpretada por Emilio Pericoli …

Tudo isso tinha cheiro de amor… Havia alguma coisa diferente que mexia por dentro e depois vim saber que se chamava hormônio. Este elemento pulava nas espinhas, na secura da garanta quando aquele garoto vinha tirar para dançar e não sabia como começar a conversa, com a mão que suava e um rubor enchia o rosto ao mesmo tempo que o coração acelerava com o simples toque de uma mão masculina.  Era uma semana de espera, dias pensando no que vestir, o que falar, como andar, para pouco mais de 3 horas para se viver tão intensamente tudo o que não se sabia o que era…

Tudo isso veio à memória quando mergulhei hoje e senti a água muito salgada. Começou a cantar em mim “Sapore di Sale”, não sei qual conexão fez o meu cérebro, há quanto tempo não escuto esta música… Incrível este sentimento pois o mar de Sto André nem sempre é salgado, um rio desagua na vila, mas com a maré baixa, em plena lua cheia, parecia um tapete, tranquilo, sem ondas e veio “Sapore di Sale”. Voltei pra casa atrás de uma gravação da canção que não ouvia há décadas e encontrei no Youtube um vídeo do autor Gino Paoli aos 84 anos interpretando sua obra. Ah!  Gino, que bom saber que o tempo também passou para você e como está firme, seguro, pleno de sua arte nas imagens de 2016… Espero que o Covid-19 não tenho feito um estrago, que você esteja bem, cantarolando em alguma sacada na Italia, esperando tudo passar e voltar aos palcos. Você continua vivo para mim como também os bailinhos da Tijuca… Todas essas lembranças me enchem de amor… Acho que os hormônios continuam vivos…

Nunca assisti tantos filmes…

“Nada Ortodoxa”, atriz Shira Haas

Nunca assisti tantos filmes na minha vida…. Praticamente um por dia e sou muito grata à Netflix e aos amigos que mandaram dicas. O mais estranho é perceber a relação que estou desenvolvendo com os filmes… Claro que converso com cães, plantas, roupas… mas o filme continuar vivo é novidade. Eles terminam e eu continuo convivendo com os personagens, conversando, andando por cenários e imaginando o que estariam fazendo enclausurados em tempos de convid-1.

Hoje, por exemplo estou firme com a Esther, Esty, (Shira Haas) da série “Nada Ortodoxa”. Foram apenas 4 episódios, indicação do Beto Leal, amigo que mora em NYork e está recluso em Connecticut, que não sai de mim. Acredito que em outra encarnação fui judia e o Adolpho Bloch foi o primeiro a dizer “você não é goy, tem cara, nome e pensa igual a uma jewish woman”. Esta série retrata uma jovem judia moradora numa comunidade super ortodoxa no Brooklyn e me revelou tanto da cultura judaica que já ouvira e nunca tinha visto como a refeição no shabat, a escolha dos casamentos, a preparação das noivas… Junto com Esty voltei à Jerusalém e vi as mulheres andando nos shoppings sofisticados usando perucas, lenço na cabeça, saias longas puxando carrinhos de bebê e muitos filhos.

No fim de semana voltei à década de 50, viajei para o interior da Inglaterra e quem passou o domingo comigo foi Emily Mortimer, a personagem do filme “A Livraria”. O filme é de 2017, tem uma avaliação de apenas 2 estrelas num desses sites de crítica cinematográfica, mas foi uma excelente companhia. Estou até agora lembrando do livro Lolita, grande sucesso na livraria da forasteira Emily e no final surpreendente.

Já passei dias com “Madam C. J. Walker”, indicação do Bruno Astuto, a primeira mulher negra a ficar milionária. Não me conformo por não ter conhecido a sua história quando morei nos Estados Unidos. O mesmo sentimento tive ao assistir a série do Bhagwan Shree Rajneesh, Osho, afinal eu morava lá quando tudo aconteceu e me lembro vagamente de ouvir nos telejornais, nada tão impactante como o documentário. Graças a Deus não soube muito sobre o guru naquela época, pois aos 30 anos certamente ficaria tentada a conhecer a comunidade no Oregon.

Passei dias com a Yuma Takada, personagem vivida por Mei Kayama, no filme “37 Segundos” o primeiro da diretora japonesa Hikari. Não lembro quem me indicou, mas fiquei mobilizada com a delicadeza da história da cadeirante. No início o filme traz um certo incômodo, mas logo superado. Que lindo o desafio da desenhista, quanta sutileza em temas tão duros. Yuma foi comigo à praia, fiquei imaginando como se movimentaria na areia… Quem assistiu ao filme pode entender…

Alguém sugeriu assistir “O Cidadão Ilustre”, de 2017, e quanto me parece real toda a trajetória do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, que volta ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade – um dos únicos prêmios que aceitou receber. Algumas vezes fiz matérias de artistas que ficaram famosos e voltavam à terra natal, confesso que vi cenas muito parecidas…Oscar Martinez, ou melhor, o escritor Daniel, também andou pela minha casa e acho que foi com ele que preparei o almoço segunda-feira.  

Ainda acompanhei a saga da espiã do Tanger na longa série de “Em Tempos de Costura”… Creio que foram uns três dias de idas e vindas com Sira Quiroga, seus amores e desafios entre Madri, Lisboa e Tetouan, a cidade hispano-mourisca no norte da África. Na série que traz fatos históricos da Guerra Civil Espanhola de 1936 os quatro personagens inspirados em fatos reais realmente vivenciaram aqueles momentos em suas vidas, a qual foi baseado em relatos de documentários e livros de biografia existentes, cujos não são famosos a nível internacional. Essa série é uma adaptação do livro de Maria Dueñas. Viajei nos tecidos e nas costuras, um assunto que adoro. Acho que foi isso que me fez abrir os armários e voltar a costurar as máscaras que já ganharam o mundo.

E assim, estou entre filmes, panelas onde acredito que os tantos programas de culinária que assisti – sua bênção Rita Lobo, sua bênção Claude Troisgros – começaram a fluir e estou cozinhando cada vez melhor. Assim como os filmes, cada dia uma descoberta. E agora preciso dar um tempo. Estou mergulhando no estudo de “SEO – Search engine optimizer”. Quanta coisa para conhecer sobre o mundo Google… Esta quarentena tem que se prolongar, não vai dar tempo para tanta coisa, ainda mais que acabo de ler que “Casa de Papel” estreia a 4ª. temporada no fim de semana…  Estarei totalmente recolhida…

Grão de areia

E então descobri que me colocaram no segmento “idosa” de uma forma totalmente pejorativa. Enquanto estava na terceira idade, na melhor idade, ou outros rótulos criados para mostrar a delícia de passar dos 60 (ou quiçá dos 70, 80…) havia um certo glamour… Mas de repente soltaram um vírus no planeta com endereço certo, como se fosse crime ter conquistado uma vida longa e saudável… O idoso penalizado, diminuído, como algo que pudesse ser descartado, jogado no lixo e aí me lembro das sábias palavras da Dercy Gonçalves inseridas no texto de um espetáculo que estreou ao completar 78 anos. Dercy falava magistralmente bem sobre a condição de se sentir olhada com desprezo por conta da idade, isto em 1985. E como resposta mostrava as pernas em vestidos curtos e respondia com inúmeros palavrões. Esta foi a sua arma…

Mas nos tempos de hoje, sem Dercy que viveu até os 101 anos para me defender, declaro em alto e bom tom que me recuso a acreditar que perdeu a graça o charme dos cabelos brancos, o prazer do conhecimento para ser compartilhado, a experiência como assunto na conversa entre amigos mais jovens, as descobertas que tenho com as situações mais simples que me deparo… Não estou no fim da vida, cada dia vou entendendo a minha missão no planeta.

Ontem fui dar um mergulho, não levei nem celular, óculos, chapéu, cadeira. Apenas um mergulho às 11 da manhã e fiquei encantada ao ver a praia completamente vazia. Nenhuma pegada na areia, nenhuma alma viva… Jamais vi cena assim num dia de sol neste horário, mesmo em períodos de baixa estação. Até os cães sumiram.  Mirei o infinito, mar calmo, céu azul, poucas nuvens, na sequencia fechei os olhos e fiz uma prece. Foi neste momento que me senti envolvida por uma energia tão intensa, tudo tão puro e vibrante na natureza, que aos poucos senti como se meu corpo diminuísse de tamanho, fui encolhendo em câmera lenta, vagarosamente, até me sentir menor que um grão de areia diante do gigantesco universo. Sem medo fiquei curtindo aquele momento único e especial. Um presente.

Somos exatamente isso, um grão e areia de passagem pelo planeta. Mas a vida não pode ser só isso, me colocar frente ao tiro certeiro de um vírus. Tomo todas as precauções, mas me recuso morrer na praia. Continuo na quarentena que, a bem da verdade, já estou há tanto tempo, e lastimo muito pouco.  Não posso abrir mão dos sonhos que tenho, vocês não imaginam o tamanho da minha lista de desejos. Ainda não acabei de descobrir metade de mim, estou disposta e aberta à tantas novidades e aprendizados que virão… Alto lá! Sem chances de me aceitar no rol dos que estão no fim da vida…

E hoje conversando por whatsaap com uma amiga que passa por um processo de saúde e o peso do vírus faz se sentir mais insegura, mesmo sendo uma mulher forte, com longa atividade política e pouca familiaridade com assuntos da espiritualidade, escreveu “acho que estamos chegando ao fim do poço, do túnel. Depois disso, é só luz”. É exatamente isso que acredito, estamos mudando a rota e este tempo é para pensar… Vamos tirar nossos sonhos do caderninho, marcar tempo para realizar, desacelerar do que não vale a pena, dar gás ao que é fraterno, amoroso, colaborativo… Acredito que ser menor que um grão de areia é um enorme exercício para os novos caminhos…

Em tempo : para quem quiser saber um pouco mais da minha história com Dercy Gonçalves, segue o que escrevi no livro “A Verdade É A Melhor Noticia”.

Com palavrões

Walter Lacet, um dos diretores artísticos do Canecão e diretor da TV Globo, telefonou contando que Dercy Gonçalves faria uma temporada na casa num horário alternativo às 7 da noite. Fez questão de explicar que ela não era uma pessoa de fácil acesso, para relevar qualquer mal-estar e que ao conhecê-la pessoalmente eu iria me apaixonar. Seguindo a recomendação, na hora marcada telefonei para a casa da Dercy com a minha mais tranquila e aveludada voz. A própria atendeu ao telefone de maneira brusca e assim que comecei a explicar a razão da chamada, da vontade de fazer um belo trabalho para dignificar e promover ainda mais a sua arte, ela interrompeu avisando que não daria entrevistas por ter nada a dizer, nem fotos para divulgar e quem quisesse saber alguma coisa que fosse assistir. Num tempo sem Google para a pesquisa, recorri aos arquivos da Biblioteca Nacional, fiz um release enxuto com pinceladas de sua trajetória enaltecendo os seus 78 anos! Era essa a idade da atriz com quem eu iria trabalhar, considerada irreverente e obscena por dizer palavrões no palco sem o menor pudor. E ainda por cima bem mal criada.

Lembro que na minha infância, uma vez por mês meus pais iam ao teatro e quando Dercy estava em cena com alguma comédia, era certa a presença deles, apesar do rubor de mamãe com os trechos mais picantes. Dercy era um mito, mas creio que não sabia disso. Até então nunca tinha se apresentado para uma plateia deste tamanho e num local com tantas referências importantes para o mundo dos espetáculos. A princípio o release caiu nas redações como pássaro sem ninho. Olhar enviesado dos editores que não sabiam aonde encaixar a informação. Não podia entrar na “retranca” teatro nem show. Era o que? Um espetáculo, dizia eu. Mas no fundo eu percebia que havia um sub texto que dizia “como no palco do Tom, do Vinicius, da Bethânia, do Caetano, do RPM vai se apresentar Dercy?”. Ela não era considerada nem atriz pela maioria da imprensa, mas uma velha vedete do teatro de revista.

Conheci Dercy um dia antes da estreia durante o ensaio. O espetáculo escrito por Mario Wilson tinha o ator Luiz Carlos como “escada” para suas piadas e também como partner num número de dança. Diante da forma seca como me recebeu eu poderia ter desistido, mas percebi que era gentil à sua maneira. Em pouco tempo nos tornamos grandes amigas. Dercy chegava ao Canecão antes das 5 da tarde. Era o hábito antigo de quem praticamente viveu nos bastidores dos circos e mambembeava pelo país. Usava seu camarim como casa. Na antessala aguardava o horário do espetáculo assistindo TV, comendo salgadinhos e bordando suas sapatilhas com pequenas lantejoulas, paetês e canutilhos e não usava óculos. Nos primeiros dias eu chegava cedo, bom estar ao lado de alguém com tanta história. Mas por alguma razão de trabalho, certo dia cheguei na hora do show e ela reclamou da minha ausência. Confesso que me senti valorizada pela companhia e durante toda a temporada eu levava algum bordado ou tricô, para ficarmos juntas. Às vezes ela conversava, contava altas historias, outras ficava em silencio e eu acompanhava seu humor.

O espetáculo se transformou num grande sucesso de público e um dos fatores que alavancou a procura de ingressos foram os comerciais e reportagens da TV Globo, pois na mídia impressa somente esparsas notícias. Nenhum perfil, nenhuma crítica, nenhum destaque. Ela estava fora do padrão de artista naqueles tempos, creio que sua genialidade sempre esteve fora de qualquer parâmetro.

Acontece que este suporte das chamadas para o show e do jornalismo da TV Globo acontecia em função da comediante ter sido contratada da emissora nos seus primórdios, que levantara a audiência com um programa popular e muito divertido. Boni, então todo poderoso diretor geral, não escondia a sua amizade e carinho pela mulher que tinha história, passado e respeito, por mais controverso que isso pudesse parecer. Sem crítica ou fotos nas colunas, bastava seu nome gigantesco na porta do Canecão para atrair um público de todas as idades. Assisti todos aos seus shows e sabia o espetáculo de cor. Tirei deste espetáculo um trecho que carrego como aprendizado de vida. Dercy dizia “Deus fez esta porra mui to bem feita. Deu um pacotinho de felicidade pra cada um, mas tem gente que não olha o seu saquinho, fica olhando o do vizinho e não consegue ser feliz”. Esta era Dercy. Soube cuidar bem do seu saquinho, viveu 101 anos.

Rosas e tomates

Quando começaram a dizer que eu deveria ficar em quarentena, respondi que assim já estou desde que escolhi morar longe dos grandes centros. Pouco mudou a rotina. Ida ao centro de Cabrália ou Porto Seguro para supermercados, banco, comércio, correio, há algum tempo restringi para uma vez por semana.  Muitas vezes chego a ficar 15 dias, resolvo na vizinhança sem atravessar a balsa… Diante do Covid-19 criamos um grupo entre amigas para compras solidárias e buscar correspondência no correio. Só vai à cidade quem realmente tem necessidade, e assim vamos nos “quarentenando”.

Solidão não me assusta pois entre as constatações destes últimos anos com uma vida mais quieta, mas não reclusa, estão a de que sempre soube brincar sozinha. Devido a diferença de idade entre os meus irmãos – o mais próximo 4 anos, o mais novo quase 9 – bonecas, panelinhas, costurinhas, revistinhas, fizeram parte de um mundo particular. Na infância eu vivia escondida embaixo da escada. Morávamos num sobrado no Brooklin (São Paulo) e junto da escada havia uma saleta onde ficava o telefone e um pequeno sofá. O meu paraíso ficava exatamente ali, embaixo dos degraus, um lugar só meu. Era um espaço reduzido onde eu cabia direitinho com brinquedos, pensamentos, viagens e sonhos. Uma vez por semana a Rosalina vinha com a vassoura e, apesar dos meus protestos, desmontava o reino geralmente no horário em que eu estava na escola. Quantas vezes esqueceram de mim ali quieta, brincando com as bonecas de papelão ou fazendo roupa para as bonecas de louça, montando casinhas com blocos de madeira, jogando cinco marias com saquinhos de arroz ou apenas olhando para o teto e contando os degraus. Não me lembro mais quantos eram, mas contava debaixo prá cima, de cima prá baixo, quase que num transe hipnótico até dormir… Acordava com o telefone tocando ou minha mãe chamando para tomar banho e jantar…

Hoje o meu “reino” é um pouco maior. Tem uma área de 2.130m2, me sinto acolhida como no tempo em que ficava embaixo da escada e tenho muito com o que brincar. Uma querida amiga passou uma semana comigo e atacou de “me ajuda decora” dando um up nos chalés. Trocamos luminárias, interruptores, até uma parede foi pintada…Também aproveitei a chuva e replantei a horta. Beterraba, cenoura, salsa, cebolinha, alface e rúcula estão por vir. Há algumas semanas plantei em um grande vaso uma muda de pequenas rosas e qual não foi a surpresa ao ver um mato surgir no entorno. Com o cheiro que vinha quando molhava descobri que cresciam tomateiros.  A terra é produzida no quintal através de compostagem e às vezes acontece…. Com isso, estou acompanhando um tomateiro em flor com uma rosa envergonhada embaixo dos longos galhos.

Cancelei o agendamento na Policia Federal para um novo passaporte, assim como o projeto de ir à Andorra visitar as amigas Nenô e Denise. Seguindo a sugestão de uma amiga médica vou suspender o Pilates até o final do mês. Alongamentos em casa na medida do possível, caminhar na praia e na rua que, dependendo do horário, não encontrarei uma viva alma.  Aproveitei e desmontei a lavandeira provocando um desapego nas roupas de cama e banho que estavam mais usadas. Também doei as primeiras colchas de retalho, estavam um pouco desbotadas, mas um amigo gostou tanto que levou uma. É sempre assim, o que não serve para um é ótimo para outros. Muitos tecidos me esperam para serem cortados e surgirão novas colchas para enfeitar os chalés redecorados. Mas antes tenho a encomenda de duas bonecas de pano, pedido de uma amiga que disse ter sonhado com elas… E tantos anos se passaram e continuo brincando de bonecas.

…nem lembrava destes escritos…

Num movimento de mudanças e desapego, retirei todos os livros das estantes e armários, fiz uma seleção dos quais quero manter, e no meio encontrei algumas folhas arrancadas de um caderno com o texto que segue…É um curto diário escrito em novembro 2001, quando trouxe o meu irmão do Rio para Santo André depois de ter passado por um processo de radioterapia … Incrível ver quase 20 anos depois o que aconteceu com este lugar e a minha vida…

27 de novembro de 2001 – Sto Andre (BA)

Quando voltar ao Rio vou ver no meu mapa astral o que este dia representa, qual a quadratura do planeta, influências…. Talvez não tenha nada especial e, por não haver nenhuma expectativa, representou muito. No meio do voo para Porto Seguro, a não sei quantos pés de altura, entendi a vida. Nada a explicar muito teoricamente, mas de sentir profundamente. Só agora entendi onde estou e porque estou aqui cumprindo mais uma trilha. Estou perfeitamente integrada no universo e o que tenho que fazer me vai sendo mostrado passo a passo.

Quase 6 da tarde, o sol ainda morno, saio a caminhar na praia. Só eu e a natureza. Fiz uma prece linda, falei alto com o mar, as ondinas, as nuvens, os céus, os peixes, os pássaros, as árvores. Agradeci por estas descobertas. Antes tarde do que nunca. Agradeço pela graça dos meus 52 anos, ainda me é dada a chance de aprender tanto. Este 2001 tem sido revelador e transmutador. Quantas revelações profundas e íntimas.

Agradeci pela família em que estou e os desafios que me foram dados, aos que passaram e passam por meu caminho em todos os momentos e, se não consegui antes, que possa dar-lhes o meu amor.

Mergulhei no mar em oração num encontro pleno de energização, limpando cada célula do meu corpo e lavando a alma.

“Senhor, seja feita a sua vontade e não a minha”, repeti diversas vezes…

Enquanto escrevo uma sinfonia de pássaros executa a trilha sonora. Penso em meu irmão e penso em mim, em todo esse novo processo que apesar da dor me faz melhor, mais inteira e integrada. Sinto que estes dias serão plenos de descobertas.

….

Ontem quando o avião parou em São Paulo, deixei o Victor na sala de embarque e saí para chorar. Dói vê-lo tão debilitado em uma cadeira de rodas. Imagino o que ele pensa, sente…. Percebo seus sentimentos, medos e duvidas. Porto Seguro é próximo ao seu porto seguro sto andre. Choro quieta no saguão, dezenas de pessoas passam e as lágrimas correm velozes no meu rosto.  Engulo seco, olho para o teto, tento todas as técnicas para cessar o choro e nada funciona. Mordo a língua, respiro fundo e levo um tempo para segurar. Fico lembrando de quantos conhecidos estavam no mesmo voo: Kassu, Emilio Santiago, Lula Vieira, Rodolfo Medina. Pessoas que estão constantemente em minha vida. Vão e voltam. E estavam ali de expectadoras deste momento tão delicado. Emilio foi generoso, veio até nós, conversou com Victor como se nada estivesse acontecendo. Não fez cara de piedade.

Saio pelo aeroporto, entro na livraria e não escolho, sou escolhida por um livro do Brian Weiss. Acabo de ler na pag 85 algo genial referente ao desapego do medo abrindo a mente.
Você mantem um relacionamento tanto consigo quanto com outras pessoas. E você já viveu em muitos corpos e em muitos momentos. Por isso pergunte a si mesmo por que tem tanto medo? Por que tem medo de assumir riscos razoáveis? Teme por sua reputação, pelo o que os outros possam vir a pensar? Esses medos foram condicionados na sua infância, ou mesmo antes disso. Faça a si mesmo estas perguntas: o que posso perder? O que pode acontecer de pior? Sinto-me contente com a possibilidade de viver o resto da minha vida desse modo? Se a morte é uma realidade inevitável, isso será “tão arriscado”?

Apago a tv, a luz do abajur e são tantas as lembranças que voltam à minha mente que volto a escrever.  A emoção do Victor ao ver o mar enquanto o taxi fazia o percurso até Cabrália será inesquecível. Não sei se proposital ou ao acaso ele se sentou na janela que dava visão plena do mar. Fungou, passou as mãos nos olhos, mas não mostrou as lágrimas. O dia quente e lindo. Meia hora em Cabrália esperando a balsa. Aqui temos todo o tempo para esperar, estamos voltando para casa, estou cumprindo o que prometi.  

A brisa na balsa, janela aberta e Sto André vai se aproximando. A chegada na pousada, o reencontro com a casa. Victor está exausto. Branca e Fio vem ajudar com as malas. Victor fala pouco e vai deitar. Sobe devagar a escada e quando desaparece pego a Branca enxugando os olhos. Ugo vem, mas não chega a alcança-lo, já está deitado. Choramos juntos. Muito difícil. Não há como não se tocar com o estado que ele se encontra. Frágil, magro, sem músculos, nem parece o homem forte que deixou Sto. André há 6 meses. Chega de chorar. Apago a luz e vou dormir.

28 novembro 2001 quarta-feira

O banho de mar, o pedido para a limpeza do meu corpo, libertando de todas as energias negativas, atuou durante a madrugada limpando o intestino. Acordei aliviada…

8 da manhã café com Victor que veio de noite mal dormida com problemas no estomago. Dor e enjoo e o remédio está na mala que vem no carro com o Alceu. Victor está de poucas palavras, volta para a cama e saio para caminhar.

Sol gostoso, vou pela areia até a ponta da praia onde a maré está baixa. Sento num banco de areia e faço o exercício de respiração, me entrego neste reencontro com o universo.  Agora uma oração, peço aos santos e guias, leio a meditação do Serapis Bey e me sinto plena com a luz. Volto caminhando e o mar deixou na areia uma boneca pequena de plástico, parece uma guerreira. A vida e seus simbolismos e a minha cabeça viaja.

….

O sol está fugindo de mim. Quando quero ele desaparece, quando mal posso tê-lo chega forte. Um sol incrível me acompanha em Cabrália durante as compras, mas no retorno, na travessia da balsa, o céu fica nublado.  Ameaça uma chuvinha, vou para a rede e sinto o vento, os passarinhos, adormeço e acordo com o sol já no fim do dia. Victor dorme na cama que foi colocada na sala. Poucas palavras. Está com um ferimento no cotovelo e tenho trocado o curativo. Vou caminhar num fim de tarde magnifico. Sinto o calor na minha pele que está tão branca e não penso mais nada a não ser viver este momento. Ouvir o mar, sentir o sol.

“Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.

Estou sozinha neste universo em total contemplação. Silencio em mim. Escuto os sons da natureza e do meu corpo. Deito na areia e meu corpo vai sentindo os grãos tocando suavemente. Abro as pernas e os braços, tenho a sensação de que posso flutuar. Sozinha, percebo a natureza em um momento único e mágico, exclusivo para mim. Fico em silencio, mente vazia e desperto para mergulhar num encontro de vigor e vida resplandecente. Grito graças à vida. Obrigada Senhor…. Em um outro canto, ali bem perto, meu irmão está morrendo.

….

A Edoarda fez uma massa maravilhosa, com um molho mais incrível ainda. Mãos de mestra italiana. Trouxe suas panelas para jantarmos. Ugo veio também. Saboreamos o manjar dos deuses, tomamos vinho, demos boas risadas e Victor em silencio. Comeu pouco e foi deitar. Continuamos no papo e às 10horas fechei a casa. Não gosto de deixa-lo dormindo sozinho, mas ele não quer companhia. Estou muito bem instalada no chalé, mas queria estar mais perto. Aviso que meu celular vai ficar ligado durante a noite por conta das ligações do Bê as vezes na madrugada. Inventei esta historia e me recolho preocupada. O ferimento não cicatriza, talvez seja necessário um outro procedimento.

Senhor dai-lhe forças para mais esta noite…

Complementando o pequeno diário :

No fim de semana, 1 e 2 de dezembro, Victor foi internado em Belmonte, para tomar soro e tratar do ferimento no braço. Retornamos dia 3, segunda-feira

O meu irmão Alceu trouxe o carro, sinto que não vai dar para ficar. Converso com a médica sem o Victor saber. Ela recomenda o retorno para o Rio.

Dia 8, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cabrália, rezo e peço que nos mostre o melhor caminho.

Dia 9 Victor acorda e me diz que devemos voltar.

Dia 10 de dezembro descemos no aeroporto de Congonhas e fomos direto para o hospital.

Dia 21 de dezembro Victor morreu.

Dia 23 de dezembro, atendendo seu pedido, deixei seu corpo no pequeno cemitério à beira da estrada em Mogiquiçaba, na divisa entre Cabrália e Belmonte.  

Só para mulheres experientes

Saíram do meu corpo 10 quilos e começo a me descobrir uma outra mulher. Não a mais magra que já fui e usou tantas roupas que ficaram guardadas como querendo provar que tinha sido mais leve … Mas uma mulher de 70 anos que voltou a olhar o seu corpo com prazer. Um assunto muito feminino que só quem voltou a vestir a velha calça jeans desbotada com folga pode avaliar… A sensação do vestido estar solto no corpo, de tudo cair melhor, de comer menos, não mais devorar uma caixa de bis e ficar feliz com 2 figos desidratados.  Não foi uma dieta, mas uma forma diferente de encarar a vida ao constatar que ainda tenho muito a construir e realizar. Pode parecer piração, mas tenho a sensação que o estômago diminuiu sem bariátrica. A gula foi controlada, aprendi a tomar café sem açúcar, retirei o trigo e o leite da mesa… Nada radical… Se der vontade como uma boa massa caseira ou um sorvete italiano que adoro… Neste novo movimento, entrou também o desapego aos livros e DVDs – os CDs já foram –, a organização das fotos que estão em diversas caixas, escrever mais (talvez um livro!), entender a razão da vida (se possível!), ser mais colaborativa, compreender o que é néctar e compaixão, refazer a horta e comer o que pode ser plantado no quintal. Tudo isso e muito mais, não necessariamente nesta ordem…

E foi neste novo estilo que viajei para São Paulo à trabalho aonde, invariavelmente, arrumo um tempo para me dar ao luxo de cortar o cabelo com o Jassa e passar na rua João Cachoeira que fica próxima a endereços que morei muitas vezes no Itaim Bibi. Tem o podólogo, a farmácia, a loja de camisetas, a das roupas sociais, a dos sapatos e a de lingerie. Foi exatamente nesta última que me surpreendi. Desculpe a intimidade, mas como estou falando entre amigas, confesso que há muitos anos uso um determinado tipo de calcinha de microfibra super prática e confortável, de uma marca bem conhecida e sem qualquer glamour.  É entrar na loja, olhar na prateleira, separar meia dúzia de beges e pretas, colocar na sacola e levar prá casa. Nem preciso experimentar. Estava exatamente no gesto de pegar as calcinhas quando me dei conta que não importava a cor, o estilo, era só algo para cobrir o corpo. Neste momento perguntei ao coração aonde eu tinha esquecido a minha alma feminina. Onde foi parar o sexy appeal, o cuidado em escolher lingerie para ocasiões especiais, as camisolas sedutoras…. Por um instante me remeti aos 19 anos quando, com o primeiro salário, comprei um conjunto de calcinha e sutiã importados. Tecido sintético delicado, novidade na época, com estampa clara num xadrez azul e branco, enfeite de rendas, estilo Brigite Bardot dos anos 60.  Foi a partir desta aquisição que descobri a graça do bem vestir na intimidade, mesmo que fosse apenas para mim. Mas naqueles tempos havia muita liberdade conquistada através da pílula anticoncepcional que veio mudar o comportamento das mulheres, a forma de encarar o mundo e fazer escolhas. Ser dona do próprio corpo, permitir seus desejos com total consciência …  Em plena maturidade, como num filme, me veio à memória os lençóis de seda, quartos floridos e perfumados, coleções de lingerie, meias de seda, colares de pérola, jogos de sedução, uma rica vida de muitas emoções. Em que momento tudo isso acabou? Ainda estou buscando a resposta, reconstruindo a trajetória e para começar devolvi as calcinhas comportadas para a vendedora e levei um conjunto de renda preta. Vou ser feliz…    

Foto : Cláudia Schembri

Maysa

Conheci Maysa quando fui trabalhar com Flávio Cavalcanti no final dos anos 60. Ela era meu ídolo. Descobri Maysa com pouco mais de dez anos assistindo um programa de TV . Morávamos em São Paulo, era tarde da noite e não era programação para criança. Não sei bem porquê, mas naquela noite meu pai me deixou acordada e fiquei deslumbrada ao vê-Ia entrar no estúdio. Ela estava um pouco gorda, usava um vestido de chjffon drapeado preso num ombro só, os cabelos meio curtos caindo em desalinho pelo rosto e cantava Meu Mundo Caiu. Esta cena em preto e branco tinha um impacto ainda maior. Maysa era diferente de tudo o que eu vira e ouvira sobre música. Não tinha a doçura de Cely Campelo com seus lacinhos cor-de-rosa nem a voz grave e o violão de Inezita Barroso como o disco que tínhamos em casa. Era uma mulher com um olhar profundamente triste que caminhava por um estúdio esfumaçado, taça de champanhe na mão, apoiando-se em colunas de estilo romano e falava de um amor sofrido. Nos dias de hoje seria dark. Passei a acompanhar o trabalho de Maysa, rompendo com todos os paradigmas de mito para uma garota da minha idade.

Maysa foi compositora e cantora de grande carisma. Nasceu numa família rica, casou com um herdeiro dos Matarazzo, de São Paulo, e abandonou tudo pela música. Nos anos 70, continuava uma mulher muito bonita, cabelos castanhos caindo no rosto, olhos verdes profundos e um ar muito chique. Suas canções eram tristes, a chamada “música de fossa”, e seus sucessos eram Ouça e Meu Mundo Caiu. Em meados de 60, casou com um espanhol e foi morar na Europa. Estava lá há alguns anos quando, em 68, Flávio foi a Portugal para fazer o programa A Grande Chance a convite da TV portuguesa, transmitido pela Eurovisão. Hospedado no Hotel São Carlos, em Lisboa, Flávio reencontrou Maysa. Um encontro mais do que agradável, sincero, amigo e saudoso. A cantora acabou aceitando o convite do apresentador de voltar ao Brasil. Foi integrar o júri do programa Um Instante, Maestro!, fez um show inesquecível no Canecão, dirigido por Ronaldo Bôscoli e permaneceu fixa no Programa Flávio Cavalcanti.

Sincera, às vezes enfossada, mas grande amiga. Em 73, eu ainda trabalhava com Flávio, mas comecei a fazer reportagens como freelancer para uma revista. Um dia chegou a oportunidade de fazer uma entrevista com Maysa. Eu estava separada há pouco tempo, vivia pela primeira vez a experiência de morar sozinha com um filho pequeno, e não foi preciso muito para que Maysa percebesse minhas dificuldades naquele momento. Não perguntou muito sobre a minha vida, mas no meio da entrevista pegou o telefone e fez uma ligação. Começou a falar com alguém e lá pelas tantas pediu o endereço da minha casa. Quando desligou disse que eu deveria estar pronta às nove horas da noite, na porta do prédio, porque seu ex-marido, e amigo, iria me levar para jantar. Recomendara a ele que me desse uma noite inesquecível, pois eu estava precisando me divertir.

E tudo aconteceu conforme ela organizou. No dia seguinte, Maysa me telefonou para saber se o ex-marido havia se portado bem. Contou que fizera algumas anotações para ajudar na minha reportagem e que mandaria entregar. No mesmo dia chegou um envelope; quando abri, encontrei quatro folhas de papel-ofício dobradas ao meio, com uma pequena biografia manuscrita. Como toda fã, fui egoísta, guardei só para mim. Em 1977, quando Maysa morreu num acidente de carro na ponte Rio—Niterói, eu estava no Festival de Cinema de Gramado. Era um sábado, 22 de janeiro, e eu me preparava para a festa da entrega de prêmios do festival quando vi a notícia no Jornal Nacional. Chorei muito, e mais uma vez lembrei das quatro folhinhas dobradas, aqui transcritas.

 “Nasci no Rio, sou de Gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde Silva. Hoje em dia é uma clínica. Tenho imensa saudade daquela casa e sempre sonho com ela.  Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e que tem uma filha linda chamada Maysa, como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais. A música sempre foi importante pra mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente, e, quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano, mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora; assim, nunca pude levar a sério uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho, hoje com dezessete anos, numa festinha em casa toquei algumas das músicas que compunha desde os treze anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o baby nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Sílvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth, aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional. Para poder seguir essa profissão, tive que abrir mão de muitas coisas e, por fim, não podendo mais, larguei até o meu casamento, minha casa, enfim, a minha vida de moça de sociedade, para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs, muitos feitos no Brasil e dois nos States, Itália, Espanha, Argentina etc. Compus muitas músicas e devo ter gravado umas cinquenta. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre. Fora do Brasil estive sete anos. As razões foram várias, mas a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol, e todos os seus negócios estavam na Espanha. Segundo foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse somente Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo que ele é, e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei o Jayminho para a Espanha e hoje não me arrependo. Atualmente minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total. Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muita coisa em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo que sou agora é uma consequência lógica do que passou. Só que procuro tirar o que de bom ficou e jogar fora o que não interessa. Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há dezesseis anos, onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada. Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, com os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim há algum tempo que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei um cavalete, meus discos e levei a minha paz que, juntamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem dezessete anos, é bonito, rico, canta, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, mas não mais fervendo.”

E isso aí, bicho!

Rio, novembro de 73″

Parte do livro “Um Instante, Maestro!”

1994

World Economic Forum em Davos? Eu fui em 1994…

Não para ver Shimon Peres e YasserArafat subindo de mãos dados no palco do Congresso nem para discussões dos foruns econômicos e políticos. Naquele ano Davos se transformara na “Cúpula das Cúpulas”, com encontros paralelos informais entre líderes de organização de negócios, líderes regionais, mídia líderes, personalidades culturais, prefeitos globais e líderes globais para amanhã, reunindo mais de 1000 pessoas, o que fez com que estabelecessem que este fato não mais se repetiria…

Cesar Maia, então prefeito do Rio de Janeiro, fora convidado a participar do encontro dos prefeitos globais  que reuniria 20 cidades dispostas a apresentar projetos de um evento para celebrar a virada do milênio, que aconteceria a partir de 1996…O Rio fora a única cidade brasileira a participar e, se não me falha a memória, a única da América do Sul.  Um juri formado por técnicos mundiais capitaneados por Quincy Jones, escolheria 5 cidades que teriam os eventos patrocinados pelo Banco Mundial.  Como Assessora de Eventos da prefeitura, quando o convite chegou ao prefeito, fui chamada para criar este projeto e premiada com o reforço luxuoso do jornalista, diretor de TV e multi mídia Macedo Miranda Filho, que havia participado da campanha do prefeito e era um show de criatividade… Fizemos uma dupla e tanto, criamos uma série de eventos que aconteceriam em toda a cidade durante 30 dias precedendo a virada para o ano 2000. Todas as regiões ganhariam destaque, o projeto ganhou um vídeo e uma revista em inglês apresentando a cidade e a proposta.

Duas semanas antes viagem para Davos o prefeito avisou que estava com outros compromissos e a apresentação ficaria por minha conta.  Pânico total. Eu conhecia o projeto em todos os detalhes, afinal tinha construído com o Macedinho, mas daí fazer apresentação em inglês havia uma certa distância… Contratei um professor e todos os dias praticava inglês com foco na apresentação que teria duração de 30 minutos. Os ouvintes seriam um um juri de notáveis e os representantes de 19 cidades que também disputavam a primazia de ter um evento patrocinado pelo Banco Mundial e com a assinatura do World Economic Forum… Como companheiro de viagem me foi designado o ex-Ministro Marcílio Marques Moreira, sub-secretário para Políticas Públicas da Prefeitura, um diplomata de carreira, um gentleman. Como sabia da admiração do super maestro e compositor Quincy Jones por alguns artistas brasileiros, coloquei na mala cds para agradar a fera.

Chegamos em Zurique na manhã de sábado e o carro que nos levaria a percorrer menos de 150 kms até Davos era blindado. Não tínhamos tanto prestigio, mas como Yasser Arafat por questões de segurança preferiu ir de helicóptero, nos foi cedido o que fora reservado para ele. Um belo caminho entre montanhas branquinhas. Três invernos morando em Nova York vi muita neve, mas nada se comparava…  Nesta noite assisti ao emocionante encontro Arafat com Perez frente uma plateia em delírio. Na agenda de domingo tinha o dia livre e um jantar de gala com os participantes do encontro de prefeitos. Na segunda-feira pela manhã seria a apresentação do projeto. Voltei do jantar me sentindo mal, e o estado piorou durante a madrugada. Certamente o camarão do vol-au-vent servido como entrada estava com defeito. Uma noite trágica, às 8 da manhã já estava andando na rua repleta de neve em busca de uma farmácia. Cheguei para a apresentação medicada e à base de chá de erva doce…

Não sei de onde tirei forças, mas eu não tinha viajado mais de 9 mil quilômetros para ficar passando mal num quarto de hotel. Fiz o melhor que pude! Os astros colaboraram, os anjos disseram amém, o inglês soou perfeito, distribuí a revista sobre o Rio de Janeiro e os cds para o maestro que ficou encantado. Voltei para o quarto do hotel com febre e passei a noite suando e delirando. No dia seguinte retornei para Zurique aonde tomaria o voo para o Rio e estava passando muito mal. Não perdi a pose, não deixei o ex-ministro Marcílio perceber, e ainda conheci a cidade, almocei talharim na manteiga num restaurante superelegante e ao embarcar, senti o quanto estava fraca… Viajei sozinha e desmaiei à bordo. Desci no Rio e uma ambulância me levou direto para o hospital onde foi diagnosticado um processo de envenenamento alimentar. O remédio que eu tinha tomado em lugar de liberar o alimento ruim, simplesmente estancou. Um susto…. Recuperada, semanas depois chegou o resultado: Rio de Janeiro ficara entre as cinco escolhidas… 

Valeu o esforço!

Em tempo: os eventos não aconteceram por falta de patrocínio…

Sobre meu parceiro de projeto Macedo Miranda Jr, um pouco da sua trajetória,  numa homenagem póstuma:

Filho do escritor Macedo Miranda, foi o mais jovem repórter especial do Jornal do Brasil, promoção que conseguiu antes de completar 20 anos de idade. Com passagens pela Editora Abril e Bloch , criou e dirigiu diversos programas na Rede Globo como o Fantástico e o Globo Repórter.

Foi responsável por dirigir o primeiro Rock in Rio em 1985. Através de sua produtora – Arte & Fato – inovou, não somente na narrativa e linguagem, mas também na estética de diversos programas de televisão.

Construiu no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, a sede para sua empresa que trazia para a época a mais avançada tecnologia e condições inigualáveis para produção independente audiovisual.

Comandou diversas campanhas políticas, reconhecidas como inovadoras na área de marketing político televisivo, sendo responsável por inúmeras campanhas, entre outras, de Aureliano Chaves para a Presidência da República, de César Maia e Conde para prefeitura da cidade do Rio de Janeiro (estas últimas vitoriosas)

Strangers in the Night

Outubro de 1979 – Depois de 6 anos entre namoro e “juntamento” numa segunda-feira o caminhão do primo Joãozinho parou na garagem do prédio e levou a mudança. Para trás ficava uma longa história e todos os moveis, utensílios, aparelhos, discos, quadros, lençóis de seda, aparelho completo de louça portuguesa, enfim, uma vidinha que fora bem legal. A relação chegara ao fim na noite de domingo com a presença da contadora para resolver a burocracia da empresa que tínhamos em comum. Deixava um apartamento duplex com piscina no Posto 3 para um simpático sala e dois quartos na rua Djalma Ulrich, Posto 6, na mesma velha e boa Copacabana. Em uma semana a casa estava montada, um fusca azul na garagem e o desejo de começar de novo…

No “treding topics” daquele final de ano estava a vinda de Frank Sinatra em janeiro para inaugurar o Hotel Rio Palace com três shows e um no Maracanã para mais de 60 mil pessoas.  Contrariando todas as previsões de uma cigana de que morreria ao vir à América do Sul, Sinatra estava fechadíssimo com o publicitário Roberto Medina e não se falava em outra coisa… Eu não iria perder esta oportunidade de assistir ao vivo “the old blues eyes” e logo que os ingressos foram postos à venda garanti dois para o Maracanã, nas cadeiras em torno do palco, local mais nobre do estádio e apesar de salgado o preço se encaixava no meu orçamento de jornalista.

O fim de ano fora tranquilo, Natal na casa dos meus pais, ano novo com amigos e sobre o ex o que sabia é que tinha viajado para ver a família no Rio Grande do Sul e estava choroso com a separação. Minha vida ia muito bem obrigado. Não era a primeira nem a última vez que daria a volta por cima… Trabalho e filho pra criar eram meu foco… Qualquer referência amorosa estava fora dos meus planos, afinal antes dos 30 anos estava na segunda separação e casamento não podia ser algo tão fugaz como trocar de camisola…

No dia 3 de janeiro, meu aniversário, convidei uns amigos para um brinde no novo apt e estava acabando de me arrumar quando a campainha tocou. Era o porteiro entregando uma caixa enorme que haviam deixado em meu nome. A caixa era leve, amarrada com um belo laço de fita vermelha e ao abrir encontrei embrulhado em papel de seda um longo vestido preto com alças finas, tecido leve esvoaçante salpicado de pequenos bordados em lantejoulas foscas…. Acompanhava uma sandália preta de salto 12, delicadíssima, uma pequena trousse e um envelope com um cartão “Aceita assistir comigo ao show do Sinatra no Rio Pálace ?” …. A assinatura eu reconheceria até usando simplesmente o tato… Era de um homem 15 anos mais velho e que um dia ao vê-lo entrar num teatro comentei com uma amiga: ainda caso com ele…. Cuidado com o que você pede, um dia acontece. Alguns meses depois fomos apresentados e engatamos um romance incrível, com altos e baixos, crises de ciúme dignas de cenas de novelas como as que ele dirigia na Globo… A proposta do bilhete era irresistível e algumas semanas depois ele veio me buscar para a noite encantada … Assistindo Sinatra numa mesa frente ao palco, cercada de amigos, brindamos o retorno ao grande amor … Compartilhei com ele o ingresso para o show no Maracanã, e, na semana seguinte, a mudança saiu do Posto 9 e retornou ao Posto 3.

Estas lembranças vieram hoje ao ler no Segundo Caderno de O Globo a reportagem sobre os 40 anos do show do Sinatra no Rio…. Não tenho fotos, mas lembro de todos os detalhes, e até algum momento em que acreditei que Sinatra passou os olhos por mim… A vida é boa, eu sei…

Em tempo: creio que alguma foto foi feita pelos tantos profissionais que cobriam a noite no Rio Palace, afinal dividíamos a mesa com Carlos Manga, Chico Anysio e Boni….

As mães

As amigas astrólogas sempre falam sobre o meu inferno astral que vem na aba das festas de fim de ano. Capricorniana de 3 de janeiro, sempre foi difícil conviver com a miscelânea entre Natal e Ano Novo. Para culminar a conjunção astrológica, foi numa antevéspera de Natal que enterrei meu irmão há 18 anos. Enterrei literalmente: caixão em cova rasa num pequeno cemitério à beira da rodovia BA-001 seguindo seu desejo. Nos tempos em que me debatia nas celebrações, insistindo em fazer uma grande árvore, comprar presentes e fingir que estava tudo bacana, havia o reforço do Natal na casa dos meus pais. Mamãe primava na organização. Algumas semanas antes, enquanto arrumava a árvore e espalhava a decoração pela casa, tirava as toalhas bordadas do armário que seriam exibidas na ceia do dia 24 quando toda a família se reunia.  Mamãe fazia a festa para a família, presentes para todos aos pés da árvore, ceia atendendo os desejos : torta de nozes para um, bacalhau para outro, tender para um terceiro, e assim ia o cardápio. Esta semana lembrei muito dela ao pensar na noite de Natal que se aproxima quando estarei com meu filho e ao ver Lurdes, a personagem da Regina Casé na novela “Amor de Mãe”, preparando no capricho o almoço de domingo para receber o rico namorada da filha. Minha mãe faria igual, mesmo sem saber cozinhar daria um show de ordens na cozinha e provavelmente serviria o mesmo chester e salada de maionese. Um parêntese: esta mãe que Regina construiu é perfeita, tem gestos de enorme força como as mãos que espalma nas costas de quem abraça, quando olha nos olhos e diz “você agora tem mãe”… Apesar da minha não ser nordestina, era muito parecida. Era capaz de qualquer loucura pelos filhos, menos vender a casa pois meu pai não permitiria… Mas a verdade é que este ano, particularmente, minha mãe tem me feito muita falta nestes dias e, junto com este sentimento, me veio a lembrança de duas grandes mães que protagonizaram 2019: Mercedes, a mãe do querido Ricardo Boechat, e Maria do Céu, a mãe do Gugu Liberato.  Quanta dignidade que estas mulheres com muitos anos de vida passaram num momento que nenhuma mãe espera: enterrar o próprio filho. Não eram personagens de novela, era dor na carne, no sangue, na alma. Assim como elas, centenas de mães choraram a perda dos seus filhos na violência urbana destes país… Meu desejo para 2020 é que as mães sofredoras fiquem apenas nas novelas, no talento da Regina Casé , Tais Araujo e Adriana Esteves. E de resto, a vida segue…