Carta para uma amiga

Minha loura querida,

Li sua crônica (link abaixo)… Feliz com seu passeio pela Lagoa… Não podemos nos privar destes pequenos prazeres, visto que em nossa idade os prazeres são bem outros… Uma brisa do mar, uma bela paisagem, um afago dos netos, uma atenção do filho, a vitória de um amigo frente a qualquer desafio, são alegrias que enchem nossos dias e muito mais verdadeiros do que aqueles quando acreditávamos que o grande barato eram as festas magistrais, muito divertidas, mas que passaram, assim como as ressacas e aquele gosto horrível de cinzeiro, pois fumávamos feito chaminé…

E nestes novos tempos, creio que devemos cuidar tanto da nossa saúde física como da mental. É isto que desejo do fundo do meu coração, para mim e para os que amo. E ter também uma casa confortável, uma família unida e amigos queridos… E ter sonhos muitos, sempre, projetos os mais variados para avivar a criatividade, mesmo que seja escrever um livro que está ainda no primeiro parágrafo, refazer a horta, aprender kabbala, ou uma colcha bordada ainda nas primeiras linhas…

Mas quero revelar um segredo, que pode parecer uma loucura:  abstraí da minha vida qualquer assunto que possa me tirar do sério, causar mau humor, dar engulhos, como as questões políticas… Não me dou ao direito de me sentir aviltada, ofendida ou invadida pelas loucuras do planeta, afinal o caos político é geral, e o nosso é apenas um quadrado da colcha de retalhos… Claro que a colcha está em cima da minha cama, mas posso virar de lado e não me alimentar deste pandemônio.  Na real, no frigir dos ovos, o que nos resta são nossos conhecimentos, as experiências do que já vivemos, vimos e aprendemos.  Isto sim vale ouro, um patrimônio que ninguém nos tira…

Loura, aprendi com a maturidade que só me tira o sono doença ou desemprego de alguém que quero bem, e se nada posso fazer rezo e procuro manter a mente sã.  Sem receita de meditação, apenas me manter no eixo, nas boas palavras, bons pensamentos e bons alimentos, como bordei em algum lugar… Querida, mantenha seu astral no alto, as boas risadas, ótimas conversas e isso aumentará também sua imunidade… Um terço na mão, a fé no coração e a pandemia vai passar sim, assim como algum dia a política ganhará outro rumo como vimos em todos estes anos… No que consta do efeito vírus, sou sincera, não creio que o mundo irá mudar como um toque de pirlimpimpim … Muitas pessoas tiveram oportunidade para refletir e quem sabe escolher outro caminho… Porém, políticos corruptos continuarão, maus caráteres sobreviverão, doenças permanecerão nos laboratórios em busca de cura… Ao mesmo tempo que os dias nascerão e morrerão sempre lindos, as flores continuarão alegrando os caminhos, amores existirão e nós vamos rir de tudo isso tomando um whisky duplo pois ninguém é de ferro…

Em tempo :

  1. esta foto é dos nossos 50 anos….
  2. esta foi a crônica Caminhando e cantando na Lagoas

Na redação

Eu e Lucia Ritto – Foto André Costa e Silva

Este tempo de pandemia tem me trazido momentos surpreendentes… Ainda não arrumei as caixas de fotos, nem o armário, mas o passado chega através do whatsapp e do messenger fazendo um rebuliço na memória. No fim de semana um amigo enviou um texto antigo que publiquei domingo, e também o original do musical “Ninguém é Loira Por Acaso”, que escrevi e produzi para a Vanusa em 1999. Sim, eu já escrevi um espetáculo para teatro e não coloquei no meu currículo. Não rejeito a obra, é bem legal, a estrutura bem construída e até então eu tinha zero conhecimento de carpintaria de teatro. Podia ter tido vida longa, mas foi um projeto que acabou se perdendo com a Vanusa morando em São Paulo, eu no Rio já engatando no Rock in Rio que veio a acontecer em 2001 e assim ficou…  

Ainda não consegui reler “Ninguém é loira…”, preciso de fôlego, calma no coração e uma caixa de lenços de papel ao lado, pois vou chorar pelo tempo e amizade com que foi criada e como estamos agora. Mas antes de ter este fôlego, ontem, quando fui desligar o celular para dormir, vi uma foto que chegou no Messenger e me tirou o sono. Era eu aos 20 anos na Bloch, Rua do Russel, em 1969. As fotos foram feitas por André Costa e Silva, um jovem que estagiava na casa e fazia algumas matérias para a Revista Amiga.  Eu comecei em jornalismo como tudo em minha vida, muito por acaso. A convite do Moyses Fuks fui para a Bloch Editores que ia lançar uma revista sobre TV chamada Amiga. Estas fotos são da redação e quem trabalhou lá ou conheceu o prédio da rua do Russel vai se lembrar do cenário. Era um luxo de arquitetura e construção. Mármore, vidro, jacarandá, couro e tapetes por toda a parte, intercalados com obras de arte sem contar o visual para o parque do Flamengo. Tinha um restaurante com uma piscina, mesas redondas para 8 pessoas com toalha e guardanapos de linho branco, talheres de prata e copos bico de jaca.

Um desfile de lembranças nestas fotos. Muitas reflexões desde a alegria da juventude e dos amigos que partiram cedo como Lucia Ritto e Luiz Augusto Chabassus, rever Marco Antonio Gay, Alexandra Bertola, José Luiz Sombra, como a falta de preconceito ou pre julgamento em conviver pacificamente com o neto do ex-presidente da General Costa e Silva. Sim, André era neto do General Costa e Silva, o 2º presidente da época da ditadura militar que, dois anos antes, em sua posse, assinara o AI-5 que suspendia todos os direitos civis. Este mesmo general, naquele ano estava elaborando uma reforma política que incluiria a extinção do AI-5 e, segundo o jornalista Carlos Chagas, pretendia assinar essa emenda no dia 7 de setembro de 1969. Mas uma semana antes sofreu um derrame cerebral.  Como não havia nenhuma previsão constitucional para tal situação de emergência, foi sucedido por uma Junta Governativa Provisória, também conhecida como a Segunda Junta Militar. Morreu poucos meses depois. (Fonte Wikipedia)

Não me lembro, em nenhum momento, de que tanto eu como Lucia, Chabassus, Sombra, Marco Antonio, Alexandra, que nas fotos estamos sorrindo para as lentes do André e fomos às ruas como todos os outros jovens gritar contra a ditadura, termos rejeitado a sua companhia ou feito bullying. Eram tempos duros, difíceis, mas havia respeito.  E foi nestes pensamentos que perdi o sono, fazendo comparações com os tempos de hoje. Será que nestes 50 anos que se passaram, a delicadeza, o respeito, o amor ao próximo se esvaíram e em paralelo nasceu a cultura de que aceitar, doar, respeitar as diferenças é uma obrigação? 

Impossível ver o passado e não ter o coração repleto de orgulho da boa caminhada. Sinto o perfume, me lembro das risadas soltas, dos amores sem qualquer restrição… Não havia o medo da Aids nem de engravidar fora de hora. Senti até o calor do verão nas roupas com ombros de fora… Éramos felizes e sabíamos. Construímos uma bela história e somos setentões bem resolvidos… Esta pandemia tem me levado à viagens maravilhosas, às vezes rouba meu sono, me enche de lágrimas, e me faz ter cada vez mais certeza de que a vida está valendo a pena.

José Luiz Sombra, eu, Luiz Augusto Chabassus, Lucia Ritto e Alexandra Bertola

Do fundo do bau

Fecho mais uma caixa de arquivo morto. Colo uma etiqueta na tampa, outra na lateral com letras grandes, leitura fácil, posso ao longe, sem óculos, ver todas as caixinhas iguais, lado a lado, ocupando duas prateleiras da velha estante de ferro formando um desenho simétrico. Se não fosse a identificação nas etiquetas seria um arquivo morto como outro qualquer. Entretanto, este pode ter vida a qualquer momento. É só abrir e deixar fluir dos seus incontáveis papéis, fotos, recortes de jornais, documentos, histórias vividas e ouvidas ao longo de 50 anos nos bastidores.

Talvez mais do que 50 anos, cresci vendo o show do outro lado do palco. Fecha a cortina, corro no tempo e lá está a menina sentada no banco da cozinha, pernas balançando no ar, cheiro do feijão borbulhando na panela e a cebola fritando com o bife. A trilha sonora vem do rádio de madeira clara, com enormes válvulas, trama de tecido marrom no alto-falante bem em cima do dial, num lamento caipira acompanhado pelo violão. Rosalina enxuga as mãos no avental, passa nos olhos enrugados, limpa uma lágrima e me põe para correr. Atrás da porta continuo ouvindo a cantiga que fala de um amor infeliz, a própria história de Rosalina.

Miúda, ágil, poucas palavras, mãos especiais para a cozinha e costura, chegou em casa quando eu ainda nem andava. Trouxe junto com suas agulhas a filha, resultado de um casamento que acabara quando o companheiro foi ser cantor. Trajano Militão tocava violão e cantava. Abandonou a família para ser artista, queria ser famoso, correr o mundo…. Este mundo, na verdade, cabia todo em alguns bordéis a beira das estradas ou nas rádios do sul do país que Rosalina procurava sintonizar nas ondas médias e curtas.

O pequeno rádio de madeira acompanhava Rosalina por toda a casa. Mas a noite, em seu pequeno quarto, com a luz amarelada caindo do teto pendurada num longo fio com bocal marrom, aconteciam os momentos inesquecíveis. Enquanto passava roupa, gesto que eu imitava com um pequeno ferro a carvão, esperávamos o momento supremo do locutor anunciar: “Trajano Militão, o rei do violão! ” Num código só nosso, parávamos os movimentos, como que estivéssemos brincando de estátua. Silêncio total. Cúmplice respeitosa, eu ficava olhando aquela figura agachada num canto, mãos abraçando as pernas cobertas com uma longa saia, o corpo encolhido, apertado, dolorido como o coração ao ouvir aquele cantar.

A minha cabecinha viajava no sonho de como era fascinante a vida do artista que corria o mundo fazendo sucesso. Em que cidade estaria? Como seria a rádio, um prédio grande? E o microfone? Quem aplaudiria na plateia? E em quantas outras casas estariam ouvindo a mesma canção? E por que ele não tinha um disco de 78 rotações, aqueles com capa de papel pardo, com um furo no meio para se ver o rótulo, igual ao que papai colocava para tocar na vitrola com som hi-fi nos domingos de manhã?

Esta é minha mais remota lembrança sobre bastidores e, inconscientemente, creio ter sido o despertar da curiosidade em viver e ouvir histórias.

Mas este texto não terminava no parágrafo acima. Há quase 20 anos escrevi como introdução para um livro sobre showbusiness que acabou ficando no tempo e reapareceu neste fim de semana diretamente dos arquivos muito bem cuidados do meu amigo Macgyver Zitto… Só mesmo um “macgyver” para descobrir textos perdidos…

Meu amigo negro

nos anos 80 em NYC

Cada vez que vejo as imagens dos protestos nos Estados Unidos pela morte brutal de George Floyd lembro de um outro George, o Goodman, que conheci no início dos anos 80 quando morei em NYC. Fomos apresentados por amigos, ele era jornalista do New York Times e conhecera o Rio de Janeiro a convite do Alfredo Machado, da Editora Record, num grupo de formadores de opinião que fora ver o carnaval. Ficou alucinado com a cidade, amou tanto a Portela que em sua casa a bandeira da escola de samba de Oswaldo Cruz tinha destaque cobrindo o encosto de uma cadeira de espaldar alta na sala. Ficamos amigos, vamos dizer que um pouco mais do que amigos. Ele um negro com mais de 1m80 de altura, com quem eu andava por todos os cantos de Manhattan sem qualquer problema de racismo. Entrávamos e saíamos de restaurante, bares, teatros, livrarias, vernissages, sozinhos ou com seus amigos incríveis coreógrafos, bailarinos, pintores, escritores e também advogados, engenheiro, médicos…Todos negros. Talvez por eu ser latina, falar inglês com sotaque, não tinham restrições…

George morava bem em frente ao Central Park na entrada do Harlem, um apartamento com um visual incrível, onde ele preparava o jantar e eu lavava a louça… Certa vez me levou para conhecer a redação do New York Times e contou por que escrevia no caderno de real state.  Naqueles tempos os jornais no Brasil só tinham cadernos com anúncios de vendas e aluguel de imóveis, enquanto o New York Times tinha uma vez por semana um caderno maravilhoso, com análises econômicas, culturais, antropológicas, esportivas, sociais, das regiões que compõe o estado de Nova York. “Para escrever sobre real state tenho que saber um pouco de tudo, o que é uma grande oportunidade para um negro, pois os primeiros convites que recebi eram para escrever sobre música, artes e esportes. ”   

Sempre tenho que contar um fato interessante que aconteceu quando, no auge do nosso namorico, eu ia ao Rio passar 15 dias e perguntei se não queria ir comigo. Ele contrapôs o convite com uma pergunta: “o que sua família e amigos vão dizer ao verem você chegar com um negro? ” Respondi que a princípio alguém diria “a Léa enlouqueceu”. Mas quando comentassem que era americano amenizaria a conversa com um “até que é simpático” e quando soubessem que era jornalista do The New York Times diriam que era louro de olhos azuis. Ele riu muito e sempre contava para os amigos esse diálogo…George tinha total consciência do que significava um negro e uma branca juntos no Brasil.

Pois bem, a última vez que nos encontramos eu já tinha voltado a morar no Brasil, fui a passeio à NYC, ele me convidou para jantar e contou que estava se preparando para dar uma grande virada na vida. Foi contundente : “sei que você vai entender”.  Acontece que a primeira vez que fui à sua casa, mais do que a bandeira da Portela, me chamou a atenção um quadro com a foto de um menino negro segurando a mão de um homem branco que me apresentou como sendo seu avô. Contou que o avô fora professor em Harvard e se casara com uma negra gerando um enorme problema familiar. E nada mais disse. E a grande novidade que queria compartilhar era que decidira pedir demissão do jornal e morar um tempo com a mãe na Califórnia para ouvir a história das raízes de sua família “enquanto minha mãe está lucida”… E assim o fez e sabia que se eu estivesse no seu lugar faria exatamente o mesmo.

Nos perdemos na vida e, há alguns anos, depois de muito procurar na internet, encontrei George que respondeu o meu alô com um email comovente … Memórias dos anos 80 reavivadas, sempre ficam só as boas histórias… Contou que casara, tinha filhos e netos, era professor, queria muito que eu fosse visitar sua casa e conhecer a família… Tinha escrito um livro, ia enviar mas nunca chegou… Também nos conectamos no facebook, às vezes comentava as minhas fotos e de uns tempos pra cá sumiu… Já vasculhei diversas vezes e não o achei… Hoje enviei um email. Não sei por onde anda George Goodman em tempos de covid 19…. Mas sei que cada vez que vejo, escuto ou leio sobre racismo a sua imagem está junto…

Memórias de mãe

Tentando montar um quebra cabeça com datas e viagens, fui buscar informações no blogspot onde fiz anotações durante 2 anos até migrar para o wordpress e tive surpresas ao reencontrar registros de momentos tão significativos. Entre 2008 e 2009 vivi na ponte aérea Bahia – SP, onde tive grandes aprendizados, muitas reflexões e, o mais comovente foi encontrar os relatos dos últimos encontros com minha mãe. Reuniu todos neste post… Maio era aniversário dela, mês da mães.

Em 05 dezembro de 2008, quando saí de São Paulo para a Bahia aonde passaria as festas de fim de ano parei no Rio para ver mamãe. O texto abaixo é deste encontro, publiquei em maio de 2009.

Encontro mamãe sentadinha na cadeira de lona preta na sala de televisão reclamando do Natal que se aproxima. Minha irmã Déa no sofá, eu puxo um banquinho a seus pés para ouvir as lamúrias sobre a festa que se prenuncia. Papai gostava de Natal e festas, mamãe fazia a sua vontade. Se dependesse dela nenhuma palha se moveria no presépio com figuras antigas de cerâmica que todo ano montava embaixo da árvore prata com bolas azuis. Nada de presentes, comilanças, nem o desafinado coral familiar puxado por papai cantando Noite Feliz antes da ceia. Mas na hora da festa ela parecia feliz. Nunca soube se realmente era. Mas naquela tarde de novembro enquanto falávamos do Natal ela disse num tom muito familiar que não queria festa, estava velha e cansada. Aleguei que a festa poderia ser suspensa, mas com um jeito de olhar e falar que conhecíamos tão bem, disse que não podia contrariar o desejo do Alceu. Não mais o Alceu marido, mas agora o Alceu Filho, ” o meu tudo” como gostava de afirmar. Sugeri que ficasse quietinha no quarto enquanto a festa durasse. No máximo 4 horas e tudo teria acabado, e ela disse que também não podia. E foi diante deste dilema que também com seu jeito tão particular levantou os braços para o alto e disse: “mas Deus vai me ajudar, eu vou morrer antes do Natal e não vai ter festa!

Até agora nem sei como num impulso retruquei:

Ora mamãe, quanta pretensão achar que só por que a senhora vai morrer não vai ter Natal. O Natal acontece com ou sem a senhora.

Nem ela nem a Déa imaginavam este meu ataque. Falta de educação contestar a mãe, mas quase aos 60 me achava no direito.

Ela me encarou bem com seus olhos pequenos e determinou:

Então eu vou morrer no início de janeiro. Começava assim o mais louco diálogo de minha vida.

Não vai não mamãe, em janeiro eu faço 60 anos e como vai estragar minha festa?

Então eu morro em fevereiro.

Ora mamãe, fevereiro também não dá. Vou estar trabalhando no navio do Roberto e ja imaginou ter que parar o navio para vir ao seu enterro? Vamos combinar o seguinte: a senhora fica bem boazinha até maio, seu aniversário de 90 anos, depois disso a gente conversa de novo.

Mamãe aceitou a proposta e ficou boazinha até o dia do seu aniversário. Como sempre não queria festa, com insistentes apelos acabou concordando em fazer um almoço para reunir os filhos e netos. Mas na madrugada do dia da festa caiu no caminho para o banheiro. A osteoporose silenciosa quebrou a cabeça do fêmur. Foi para o hospital, dias depois a cirurgia para colocação de uma prótese e mamãe não mais se levantou. Foi se definhando e acho que está em vias de realizar seu desejo com um ano de atraso. Este ano não vai ter Natal. Ao menos na minha família.

Quarta-Feira, 20 de Maio de 2009

Conversa com mamãe

Mamãe não chora… Vamos falar das coisas boas da vida… Lembra da viagem à Disney quando entramos num trenzinho pensando que era só um passeio numa antiga mina de ouro do velho oeste e quando vimos estávamos no alto de uma montanha russa? Lembra o quanto gritamos e rimos depois com essa história? Sorri um pouco, mamãe, não chora… Lembra do cachorro quente que comíamos nas esquinas de Nova York e você dizia que era o melhor do mundo? E a neve que vimos em Mont Vernon, aquele campo enorme, todo branquinho e nós, feito crianças, tiramos fotos pra mostrar no Brasil… Mamãe, quanta vida pra recordar… 90 anos de construção de alegrias… Que graça ter só vivido bons momentos…Quantos irmãos, parentes e amigos… Que maridão você teve por quase 60 anos que lhe cobriu de dengos, e de sapatos e carinhos…Não faltaram viagens, passeios, nem pêssegos escondidos no armário só para você comer … Bombons nas gavetas, roupa nova no cabide… Nada faltou mamãe, não chora, a nossa vida foi muito feliz…

Quinta-Feira, 28 de Maio de 2009

Mamãe…

Mamãe, a vida é transformação, é aprendizado…. Não mamãe, impossível que nada mais exista quando a gente morre, quando este coração para de bater, quando a respiração acaba…

Ufa! Mamãe, respira comigo, presta atenção e me diz: você acha que somos como pequenas formiguinhas que acabamos como se a unha do polegar nos espremesse em cima da mesa, assim como você está fazendo? Mamãe, a vida não pode ser só isso… E todo esse equipamento que temos, esta sofisticação de neurônios e sistemas que nenhuma tecnologia conseguiu clonar e nos faz ser matéria vai acabar assim, espremido entre a unha e a madeira da mesa da cozinha, como você me mostra agora?

Ah! mamãe, você nunca me falou de morte, nunca me falou de outras vidas, nem mesmo apenas desta vida… Mas eu andei olhando pelo mundo e aprendi, li e ouvi que somos muito mais do que isto.. Somos elementos em movimento como a vegetação…. Você compreende mamãe que as folhas nascem, caem se transformam em sementes, também em adubo e voltam outras árvores e flores? Lembra mamãe…. Nós também somos assim… Escuta mamãe, sem medo, vivemos em movimento…. Não dói, é a vida mamãe…

Quarta-Feira, 17 de Junho de 2009

Mamãe você está linda, sentada sozinha na cama! Que sucesso heim, mamãe ? Cada dia melhor… Não faz esta carinha de pouco caso, você está dando a volta na vida… Como passar pelo Rio e não vir te ver nem que seja um pouquinho… Mamãe, acho que aos 90 você está começando a gostar dessa briga pela vida… Vamos firme mamãe, não tenha pressa de sair correndo pela casa com o andador, nem comprar uma cadeira de rodas… Qualquer dia você vai estar novamente andando sozinha… Esta mulheres da família Vianna tem estofo, são forte… Vovó chegou aos 97 mamãe, vamos lá…

Quarta-Feira, 23 de dezembro de 2009

Vi o dia nascer no aeroporto de Confins, vejo o dia acabar a caminho do aeroporto do Galeão. Um risco rosado no céu azul de verão avisto enquanto o carro vai pela Linha Vermelha e sinto o indefectível cheiro de enxofre, ou de podre, mas que tanto marcaram minha saídas e chegadas do Rio.

Não sei expressar como estou. Ou sou muito forte ou tão frágil que me escondo em um personagem. Talvez em algum momento eu desabe. Estou exausta. Sai de casa para pegar a balsa de 1 da manhã, um voô às 3h30 para BH, depois outro às 7h40 para o Rio e fiquei esperando com minha irmã até às 14hs para a visita na UTI e encontrar mamãe dormindo.

Não mamãe isso não. Acorde só um pouquinho para me ver. O corpo magrinho coberto por aventais. Onde estão as lindas camisolas que papai presenteava e sempre repetia a mesma piada: “pedi para a vendedora experimentar para ver se ficava bem”. Esse era o máximo de insinuação de sensualidade que ouvi em casa. E hoje mamãe está envolta em panos. Os braços presos a cama transpiram muito. Estranho, só os braços, como se um liquido em forma de suor fosse saindo do corpo apesar do frio do ar condicionado. As mãos estão inchadas de tantas picadas para injetar soro. Penalizada com a cena rezo em silêncio implorando para mamãe acordar. Ela não escuta. Insisto mais um pouco, agora chamando quase que em seu ouvido e aos poucos vai despertando. Vejo na máquina sob a cama que os números marcando o batimento cardíaco aumentam muito ao me ver. Desculpe interromper seu sono, mas filhos querem sempre atenção e eu não poderia voltar pra casa sem falar algumas coisas. Lucida presta atenção às graças que falo. Posso até ouvir sua voz dizendo ” uma palhaça” seguido de um risinho curto. Mamãe nunca foi de exteriorizar sentimentos. Continuo falando, meus irmãos falam também, fazem sinais e ela se mexe na cama querendo sentar. Ainda não dá mamãe. O enfermeiro avisa que o tempo da visita está acabando. Ainda faço uma prece em voz alta. Dou um beijo e ela balbucia: Deus te abençoe. Eu respondo: Deus te abençoe também, eu te amo.

Volto para casa e já não sei quando nos veremos de novo. Por enquanto mamãe ficamos combinado que vamos nos ver qualquer dia.

Domingo, 10 de Janeiro 2010

Nublou

60 dias sem chuva, quase 30 dias com mamãe vagando do quarto do hospital para UTI, o tempo nublou. Um verão de muito sol, mas dentro de mim nuvens negras e pesadas, prenúncio de tempestade. Total incoerência nestas férias entre desejos e realidades. Senhor seja feita a vossa vontade de sol ou de chuva. A natureza mostra que tudo se transforma e tem seu ciclo. Vou me ater a este pensamento e acreditar na plena transmutação.

Domingo, 17 de Janeiro de 2010

No leito do hospital, liberada da UTI há menos de 24hs, fraquinha, respirando com dificuldade ela percebe os 4 filhos reunidos a sua volta. Quero muito que tenha tido essa percepção, mesmo sem emitir um som diferenciado que não seja seus curtos gemidos, nem fazer um gesto com a mão caída sobre o colchão e inerte. Os meninos repetem o que os médicos falaram, as meninas rezam baixinho. Saem juntos os 4 irmãos para a pizza. Riem, conversam, declaram amor, lagrimas, discussão, briga, raivas escondidas, perdão, apaziguamentos. Cada um vai para seu canto sabendo de sua dor. Na madrugada o telefone toca e avisa: ela voltou para UTI. Há poucos minutos mais um telefonema: ela se foi.

Ficam só os 4 irmãos cada um com sua história. Descanse em paz.

Entre panos

Antes do mundo parar, ainda no verão, comprei tecidos para uma colcha de retalhos. Não sei onde estava com a cabeça para escolher estampas tão fora do padrão do que costumo utilizar. Gosto de cores solares, chitão, cara de Bahia, que misturo com bordados, aplicações, às vezes coloco uma renda e vou juntando sem o critério do patchwork, que acho lindo, mas por formar um desenho estático, repetitivo, comportado, foge da minha criatividade. Gosto de desestruturar, ir juntando os tecidos pensando em qual cama irá deitar… Geralmente enfeitam os chalés dos hóspedes e tenho uma amiga que passou uns dias aqui pensando na vida, criou uma relação de afeto com a colcha que tinha bordados e textos, que acabou levando. Gosto de trabalhar em tons, certa vez fiz só em azuis para presentear uma amiga nos 60 anos… Ou simplesmente vou juntando estampas para no final jogar num caldeirão de tintura e igualar num só tom. Se minha brincadeira de costurar anda neste caminho é possível imaginar o desapontamento quando percebi que os tecidos do verão eram caretas, um pouco infantis, listras e estampas miúdas que até pareciam camisas que usei nos tempos em que fui executiva. Diante dessa cena desativei temporariamente a produção.

Até que o mundo se fechou e no povoado onde vivo começamos uma campanha para levantar recursos, montar cestas básicas e doar para os trabalhadores desempregados e alguém teve o bom senso de perguntar: não vamos doar máscaras? Foi então que levantei a mão, retirei os tecidos guardados sem função e o que era colcha virou proteção em tempos de vírus. Parece que tinham sido comprados por encomenda e, com o auxílio luxuoso e totalmente voluntário do Pedro Paulista, que costura divinamente colchonetes para praia, ombrelones, almofadas, mosquiteiros, as máscaras estão ganhando as ruas. Ah! como eu adoraria estar fora do isolamento para ver pedaços do que seria uma colcha nos rostos do moradores. Por minha vez, continuo costurando máscaras, mas para alimentar a minha estrutura psíquica, faço com pedaços de pano que sobraram de colchas e assim, não caio na monotonia das estampas caretas…

Entre uma costura e outra, chego a delirar que seria muito legal depois que tudo terminar, recolher todas as máscaras e construir um enorme painel memória de um tempo triste que passou…

Um mergulho

Nunca amei tanto a Itália como no período da adolescência até a entrada da juventude, quando descobri a MPB. Antes dos 15 anos, na trilha sonora de qualquer bailinho, no top 10 a metade tinha as vozes de Sérgio Endrigo, Domenico Modugno, Gino Paoli, Pepino di Capri, Gianni Morandi, Nico Fidenco, Pino Donaggio, Gigliola Cinquetti … entre outros tantos. Como éramos apaixonados por estas vozes, assim como por Ray Conniff e Metais em Brasa… A cultura italiana ainda trazia filmes maravilhosos e, com a carteira do colégio completamente falsificada que o porteiro sabia que era fake mas fazia vista grossa, assisti filmes inesquecíveis como “O Belo Antonio”, “8 e ½”, “Rocco e seus irmãos”, “Matrimônio a Italiana”, “O Homem que não sabia amar” e incluindo nesta trilha o americano “Candelabro Italiano com a icônica canção “Al di la” interpretada por Emilio Pericoli …

Tudo isso tinha cheiro de amor… Havia alguma coisa diferente que mexia por dentro e depois vim saber que se chamava hormônio. Este elemento pulava nas espinhas, na secura da garanta quando aquele garoto vinha tirar para dançar e não sabia como começar a conversa, com a mão que suava e um rubor enchia o rosto ao mesmo tempo que o coração acelerava com o simples toque de uma mão masculina.  Era uma semana de espera, dias pensando no que vestir, o que falar, como andar, para pouco mais de 3 horas para se viver tão intensamente tudo o que não se sabia o que era…

Tudo isso veio à memória quando mergulhei hoje e senti a água muito salgada. Começou a cantar em mim “Sapore di Sale”, não sei qual conexão fez o meu cérebro, há quanto tempo não escuto esta música… Incrível este sentimento pois o mar de Sto André nem sempre é salgado, um rio desagua na vila, mas com a maré baixa, em plena lua cheia, parecia um tapete, tranquilo, sem ondas e veio “Sapore di Sale”. Voltei pra casa atrás de uma gravação da canção que não ouvia há décadas e encontrei no Youtube um vídeo do autor Gino Paoli aos 84 anos interpretando sua obra. Ah!  Gino, que bom saber que o tempo também passou para você e como está firme, seguro, pleno de sua arte nas imagens de 2016… Espero que o Covid-19 não tenho feito um estrago, que você esteja bem, cantarolando em alguma sacada na Italia, esperando tudo passar e voltar aos palcos. Você continua vivo para mim como também os bailinhos da Tijuca… Todas essas lembranças me enchem de amor… Acho que os hormônios continuam vivos…

Nunca assisti tantos filmes…

“Nada Ortodoxa”, atriz Shira Haas

Nunca assisti tantos filmes na minha vida…. Praticamente um por dia e sou muito grata à Netflix e aos amigos que mandaram dicas. O mais estranho é perceber a relação que estou desenvolvendo com os filmes… Claro que converso com cães, plantas, roupas… mas o filme continuar vivo é novidade. Eles terminam e eu continuo convivendo com os personagens, conversando, andando por cenários e imaginando o que estariam fazendo enclausurados em tempos de convid-1.

Hoje, por exemplo estou firme com a Esther, Esty, (Shira Haas) da série “Nada Ortodoxa”. Foram apenas 4 episódios, indicação do Beto Leal, amigo que mora em NYork e está recluso em Connecticut, que não sai de mim. Acredito que em outra encarnação fui judia e o Adolpho Bloch foi o primeiro a dizer “você não é goy, tem cara, nome e pensa igual a uma jewish woman”. Esta série retrata uma jovem judia moradora numa comunidade super ortodoxa no Brooklyn e me revelou tanto da cultura judaica que já ouvira e nunca tinha visto como a refeição no shabat, a escolha dos casamentos, a preparação das noivas… Junto com Esty voltei à Jerusalém e vi as mulheres andando nos shoppings sofisticados usando perucas, lenço na cabeça, saias longas puxando carrinhos de bebê e muitos filhos.

No fim de semana voltei à década de 50, viajei para o interior da Inglaterra e quem passou o domingo comigo foi Emily Mortimer, a personagem do filme “A Livraria”. O filme é de 2017, tem uma avaliação de apenas 2 estrelas num desses sites de crítica cinematográfica, mas foi uma excelente companhia. Estou até agora lembrando do livro Lolita, grande sucesso na livraria da forasteira Emily e no final surpreendente.

Já passei dias com “Madam C. J. Walker”, indicação do Bruno Astuto, a primeira mulher negra a ficar milionária. Não me conformo por não ter conhecido a sua história quando morei nos Estados Unidos. O mesmo sentimento tive ao assistir a série do Bhagwan Shree Rajneesh, Osho, afinal eu morava lá quando tudo aconteceu e me lembro vagamente de ouvir nos telejornais, nada tão impactante como o documentário. Graças a Deus não soube muito sobre o guru naquela época, pois aos 30 anos certamente ficaria tentada a conhecer a comunidade no Oregon.

Passei dias com a Yuma Takada, personagem vivida por Mei Kayama, no filme “37 Segundos” o primeiro da diretora japonesa Hikari. Não lembro quem me indicou, mas fiquei mobilizada com a delicadeza da história da cadeirante. No início o filme traz um certo incômodo, mas logo superado. Que lindo o desafio da desenhista, quanta sutileza em temas tão duros. Yuma foi comigo à praia, fiquei imaginando como se movimentaria na areia… Quem assistiu ao filme pode entender…

Alguém sugeriu assistir “O Cidadão Ilustre”, de 2017, e quanto me parece real toda a trajetória do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, que volta ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade – um dos únicos prêmios que aceitou receber. Algumas vezes fiz matérias de artistas que ficaram famosos e voltavam à terra natal, confesso que vi cenas muito parecidas…Oscar Martinez, ou melhor, o escritor Daniel, também andou pela minha casa e acho que foi com ele que preparei o almoço segunda-feira.  

Ainda acompanhei a saga da espiã do Tanger na longa série de “Em Tempos de Costura”… Creio que foram uns três dias de idas e vindas com Sira Quiroga, seus amores e desafios entre Madri, Lisboa e Tetouan, a cidade hispano-mourisca no norte da África. Na série que traz fatos históricos da Guerra Civil Espanhola de 1936 os quatro personagens inspirados em fatos reais realmente vivenciaram aqueles momentos em suas vidas, a qual foi baseado em relatos de documentários e livros de biografia existentes, cujos não são famosos a nível internacional. Essa série é uma adaptação do livro de Maria Dueñas. Viajei nos tecidos e nas costuras, um assunto que adoro. Acho que foi isso que me fez abrir os armários e voltar a costurar as máscaras que já ganharam o mundo.

E assim, estou entre filmes, panelas onde acredito que os tantos programas de culinária que assisti – sua bênção Rita Lobo, sua bênção Claude Troisgros – começaram a fluir e estou cozinhando cada vez melhor. Assim como os filmes, cada dia uma descoberta. E agora preciso dar um tempo. Estou mergulhando no estudo de “SEO – Search engine optimizer”. Quanta coisa para conhecer sobre o mundo Google… Esta quarentena tem que se prolongar, não vai dar tempo para tanta coisa, ainda mais que acabo de ler que “Casa de Papel” estreia a 4ª. temporada no fim de semana…  Estarei totalmente recolhida…

Grão de areia

E então descobri que me colocaram no segmento “idosa” de uma forma totalmente pejorativa. Enquanto estava na terceira idade, na melhor idade, ou outros rótulos criados para mostrar a delícia de passar dos 60 (ou quiçá dos 70, 80…) havia um certo glamour… Mas de repente soltaram um vírus no planeta com endereço certo, como se fosse crime ter conquistado uma vida longa e saudável… O idoso penalizado, diminuído, como algo que pudesse ser descartado, jogado no lixo e aí me lembro das sábias palavras da Dercy Gonçalves inseridas no texto de um espetáculo que estreou ao completar 78 anos. Dercy falava magistralmente bem sobre a condição de se sentir olhada com desprezo por conta da idade, isto em 1985. E como resposta mostrava as pernas em vestidos curtos e respondia com inúmeros palavrões. Esta foi a sua arma…

Mas nos tempos de hoje, sem Dercy que viveu até os 101 anos para me defender, declaro em alto e bom tom que me recuso a acreditar que perdeu a graça o charme dos cabelos brancos, o prazer do conhecimento para ser compartilhado, a experiência como assunto na conversa entre amigos mais jovens, as descobertas que tenho com as situações mais simples que me deparo… Não estou no fim da vida, cada dia vou entendendo a minha missão no planeta.

Ontem fui dar um mergulho, não levei nem celular, óculos, chapéu, cadeira. Apenas um mergulho às 11 da manhã e fiquei encantada ao ver a praia completamente vazia. Nenhuma pegada na areia, nenhuma alma viva… Jamais vi cena assim num dia de sol neste horário, mesmo em períodos de baixa estação. Até os cães sumiram.  Mirei o infinito, mar calmo, céu azul, poucas nuvens, na sequencia fechei os olhos e fiz uma prece. Foi neste momento que me senti envolvida por uma energia tão intensa, tudo tão puro e vibrante na natureza, que aos poucos senti como se meu corpo diminuísse de tamanho, fui encolhendo em câmera lenta, vagarosamente, até me sentir menor que um grão de areia diante do gigantesco universo. Sem medo fiquei curtindo aquele momento único e especial. Um presente.

Somos exatamente isso, um grão e areia de passagem pelo planeta. Mas a vida não pode ser só isso, me colocar frente ao tiro certeiro de um vírus. Tomo todas as precauções, mas me recuso morrer na praia. Continuo na quarentena que, a bem da verdade, já estou há tanto tempo, e lastimo muito pouco.  Não posso abrir mão dos sonhos que tenho, vocês não imaginam o tamanho da minha lista de desejos. Ainda não acabei de descobrir metade de mim, estou disposta e aberta à tantas novidades e aprendizados que virão… Alto lá! Sem chances de me aceitar no rol dos que estão no fim da vida…

E hoje conversando por whatsaap com uma amiga que passa por um processo de saúde e o peso do vírus faz se sentir mais insegura, mesmo sendo uma mulher forte, com longa atividade política e pouca familiaridade com assuntos da espiritualidade, escreveu “acho que estamos chegando ao fim do poço, do túnel. Depois disso, é só luz”. É exatamente isso que acredito, estamos mudando a rota e este tempo é para pensar… Vamos tirar nossos sonhos do caderninho, marcar tempo para realizar, desacelerar do que não vale a pena, dar gás ao que é fraterno, amoroso, colaborativo… Acredito que ser menor que um grão de areia é um enorme exercício para os novos caminhos…

Em tempo : para quem quiser saber um pouco mais da minha história com Dercy Gonçalves, segue o que escrevi no livro “A Verdade É A Melhor Noticia”.

Com palavrões

Walter Lacet, um dos diretores artísticos do Canecão e diretor da TV Globo, telefonou contando que Dercy Gonçalves faria uma temporada na casa num horário alternativo às 7 da noite. Fez questão de explicar que ela não era uma pessoa de fácil acesso, para relevar qualquer mal-estar e que ao conhecê-la pessoalmente eu iria me apaixonar. Seguindo a recomendação, na hora marcada telefonei para a casa da Dercy com a minha mais tranquila e aveludada voz. A própria atendeu ao telefone de maneira brusca e assim que comecei a explicar a razão da chamada, da vontade de fazer um belo trabalho para dignificar e promover ainda mais a sua arte, ela interrompeu avisando que não daria entrevistas por ter nada a dizer, nem fotos para divulgar e quem quisesse saber alguma coisa que fosse assistir. Num tempo sem Google para a pesquisa, recorri aos arquivos da Biblioteca Nacional, fiz um release enxuto com pinceladas de sua trajetória enaltecendo os seus 78 anos! Era essa a idade da atriz com quem eu iria trabalhar, considerada irreverente e obscena por dizer palavrões no palco sem o menor pudor. E ainda por cima bem mal criada.

Lembro que na minha infância, uma vez por mês meus pais iam ao teatro e quando Dercy estava em cena com alguma comédia, era certa a presença deles, apesar do rubor de mamãe com os trechos mais picantes. Dercy era um mito, mas creio que não sabia disso. Até então nunca tinha se apresentado para uma plateia deste tamanho e num local com tantas referências importantes para o mundo dos espetáculos. A princípio o release caiu nas redações como pássaro sem ninho. Olhar enviesado dos editores que não sabiam aonde encaixar a informação. Não podia entrar na “retranca” teatro nem show. Era o que? Um espetáculo, dizia eu. Mas no fundo eu percebia que havia um sub texto que dizia “como no palco do Tom, do Vinicius, da Bethânia, do Caetano, do RPM vai se apresentar Dercy?”. Ela não era considerada nem atriz pela maioria da imprensa, mas uma velha vedete do teatro de revista.

Conheci Dercy um dia antes da estreia durante o ensaio. O espetáculo escrito por Mario Wilson tinha o ator Luiz Carlos como “escada” para suas piadas e também como partner num número de dança. Diante da forma seca como me recebeu eu poderia ter desistido, mas percebi que era gentil à sua maneira. Em pouco tempo nos tornamos grandes amigas. Dercy chegava ao Canecão antes das 5 da tarde. Era o hábito antigo de quem praticamente viveu nos bastidores dos circos e mambembeava pelo país. Usava seu camarim como casa. Na antessala aguardava o horário do espetáculo assistindo TV, comendo salgadinhos e bordando suas sapatilhas com pequenas lantejoulas, paetês e canutilhos e não usava óculos. Nos primeiros dias eu chegava cedo, bom estar ao lado de alguém com tanta história. Mas por alguma razão de trabalho, certo dia cheguei na hora do show e ela reclamou da minha ausência. Confesso que me senti valorizada pela companhia e durante toda a temporada eu levava algum bordado ou tricô, para ficarmos juntas. Às vezes ela conversava, contava altas historias, outras ficava em silencio e eu acompanhava seu humor.

O espetáculo se transformou num grande sucesso de público e um dos fatores que alavancou a procura de ingressos foram os comerciais e reportagens da TV Globo, pois na mídia impressa somente esparsas notícias. Nenhum perfil, nenhuma crítica, nenhum destaque. Ela estava fora do padrão de artista naqueles tempos, creio que sua genialidade sempre esteve fora de qualquer parâmetro.

Acontece que este suporte das chamadas para o show e do jornalismo da TV Globo acontecia em função da comediante ter sido contratada da emissora nos seus primórdios, que levantara a audiência com um programa popular e muito divertido. Boni, então todo poderoso diretor geral, não escondia a sua amizade e carinho pela mulher que tinha história, passado e respeito, por mais controverso que isso pudesse parecer. Sem crítica ou fotos nas colunas, bastava seu nome gigantesco na porta do Canecão para atrair um público de todas as idades. Assisti todos aos seus shows e sabia o espetáculo de cor. Tirei deste espetáculo um trecho que carrego como aprendizado de vida. Dercy dizia “Deus fez esta porra mui to bem feita. Deu um pacotinho de felicidade pra cada um, mas tem gente que não olha o seu saquinho, fica olhando o do vizinho e não consegue ser feliz”. Esta era Dercy. Soube cuidar bem do seu saquinho, viveu 101 anos.

Rosas e tomates

Quando começaram a dizer que eu deveria ficar em quarentena, respondi que assim já estou desde que escolhi morar longe dos grandes centros. Pouco mudou a rotina. Ida ao centro de Cabrália ou Porto Seguro para supermercados, banco, comércio, correio, há algum tempo restringi para uma vez por semana.  Muitas vezes chego a ficar 15 dias, resolvo na vizinhança sem atravessar a balsa… Diante do Covid-19 criamos um grupo entre amigas para compras solidárias e buscar correspondência no correio. Só vai à cidade quem realmente tem necessidade, e assim vamos nos “quarentenando”.

Solidão não me assusta pois entre as constatações destes últimos anos com uma vida mais quieta, mas não reclusa, estão a de que sempre soube brincar sozinha. Devido a diferença de idade entre os meus irmãos – o mais próximo 4 anos, o mais novo quase 9 – bonecas, panelinhas, costurinhas, revistinhas, fizeram parte de um mundo particular. Na infância eu vivia escondida embaixo da escada. Morávamos num sobrado no Brooklin (São Paulo) e junto da escada havia uma saleta onde ficava o telefone e um pequeno sofá. O meu paraíso ficava exatamente ali, embaixo dos degraus, um lugar só meu. Era um espaço reduzido onde eu cabia direitinho com brinquedos, pensamentos, viagens e sonhos. Uma vez por semana a Rosalina vinha com a vassoura e, apesar dos meus protestos, desmontava o reino geralmente no horário em que eu estava na escola. Quantas vezes esqueceram de mim ali quieta, brincando com as bonecas de papelão ou fazendo roupa para as bonecas de louça, montando casinhas com blocos de madeira, jogando cinco marias com saquinhos de arroz ou apenas olhando para o teto e contando os degraus. Não me lembro mais quantos eram, mas contava debaixo prá cima, de cima prá baixo, quase que num transe hipnótico até dormir… Acordava com o telefone tocando ou minha mãe chamando para tomar banho e jantar…

Hoje o meu “reino” é um pouco maior. Tem uma área de 2.130m2, me sinto acolhida como no tempo em que ficava embaixo da escada e tenho muito com o que brincar. Uma querida amiga passou uma semana comigo e atacou de “me ajuda decora” dando um up nos chalés. Trocamos luminárias, interruptores, até uma parede foi pintada…Também aproveitei a chuva e replantei a horta. Beterraba, cenoura, salsa, cebolinha, alface e rúcula estão por vir. Há algumas semanas plantei em um grande vaso uma muda de pequenas rosas e qual não foi a surpresa ao ver um mato surgir no entorno. Com o cheiro que vinha quando molhava descobri que cresciam tomateiros.  A terra é produzida no quintal através de compostagem e às vezes acontece…. Com isso, estou acompanhando um tomateiro em flor com uma rosa envergonhada embaixo dos longos galhos.

Cancelei o agendamento na Policia Federal para um novo passaporte, assim como o projeto de ir à Andorra visitar as amigas Nenô e Denise. Seguindo a sugestão de uma amiga médica vou suspender o Pilates até o final do mês. Alongamentos em casa na medida do possível, caminhar na praia e na rua que, dependendo do horário, não encontrarei uma viva alma.  Aproveitei e desmontei a lavandeira provocando um desapego nas roupas de cama e banho que estavam mais usadas. Também doei as primeiras colchas de retalho, estavam um pouco desbotadas, mas um amigo gostou tanto que levou uma. É sempre assim, o que não serve para um é ótimo para outros. Muitos tecidos me esperam para serem cortados e surgirão novas colchas para enfeitar os chalés redecorados. Mas antes tenho a encomenda de duas bonecas de pano, pedido de uma amiga que disse ter sonhado com elas… E tantos anos se passaram e continuo brincando de bonecas.