Toque

massagem-terapeutica-4Na cama, antes de dormir, creme nos pés e nãos mãos; no rosto pela manhã e à noite, nos cabelos antes do mar, óleo no corpo durante o banho e assim a pele, considerada o maior órgão do corpo humano e o mais pesado, vai sendo tratada. Dias após dia poucos toques sem muita atenção. O conjunto da obra se movimenta, as vezes estala um joelho, o pescoço fica tenso, um braço encrenca com o gesto repetitivo do mouse, mas a vida segue… Como se nada mais existisse a não ser  movimentos quase que automáticos, repetitivos, sem graça…

Até que um dia, o inesperado convite para a entrega do corpo à uma maca, numa sala silenciosa, aroma de essências, toalhas mornas sob a pele, as mãos começam tocando a sola do pé e reencontro o prazer de receber uma boa massagem…

Ah! Como estava com saudades de mãos profissionais esticando meu corpo, fazendo vivos os ossos, desfazendo os nós dos pés, apertando o couro cabeludo, puxando as orelhas e tudo isso com o aroma dos óleos … Nós pés uma gota de vetiver, gerânio em todo corpo, nas costas eucalipto e lavanda, laranja no abdome, jojoba no rosto e a delícia de respirar profundamente estes delícias… Prazer do tato e do olfato…

Incrível a capacidade que temos de não nos dar pequenos prazeres… Outro dia uma amiga veio passar uns dias em casa e confessou que não tomava banho de mar há mais de 20 anos… Outra passou uma semana andando descalça, havia esquecido como era bom pisar na areia, na grama e na terra… Comecei a lista o que estou deixando de fazer para recuperar o tempo esquecido… Já saí de bicicleta, a noite vou ver estrelas (aqui tem milhares) e antes do dia telefonar para alguns amigos em lugar de curtir no Face… A vida muda, ainda bem !!

Quem vier à Vila de Santo André e quiser conhecer este prazer marque uma sessão com a Jôrene Ferro na Pousada Terra Morena

Em memória

cdbethania

Por causa do engarrafamento, coisa rara por aqui nesta época do ano,  procurei um cd no carro e encontrei um que me levou à uma viagem de 20 anos… Uma viagem que tem sons, cheiro e cor nítidos na minha memória. Lembro perfeitamente quando ele entrou na minha sala para uma reunião formal e o olhei dos pés a cabeça concluindo rapidamente que era exatamente o tipo que não me atraia. Mas isso foi só até começar a expor seu ponto de vista em um projeto com varias nuances e possibilidades. Enrubesci por dentro. Ele era perfeito para os meus sonhos. E passei a me dedicar com mais afinco ao projeto, contar os dias as horas e os minutos para as reuniões, e cada vez que ele começava a falar eu gelava. Ele era genial, mas não se vendia assim…Como todo homem inteligente tinha humor, falava num tom mais baixo com uma timidez marota, como quem pede desculpas por estar ali… E foram muitas reuniões… Até que uma delas, desta vez em seu escritório, quando saímos já passando das 8 da noite ele convidou para um chopp num bar na esquina… A esta altura eu aceitaria convite até para tomar cicuta… No caminho veio uma daquelas chuvas de verão que fazem fumaça no asfalto e exalam um cheio bom de terra e corremos até o bar aonde chegamos ensopados… Ainda não entendi como andar na chuva molhando menos, e foi na filosófica discussão  se era melhor correr ou andar calmamente, que ele pediu um Steinhaeger para esquentar com um chopp na seqüência… Não sei a que horas saímos do bar, já não chovia mais e quando abri a porta do meu carro ele veio de um jeito meio desencontrado para me entregar uns papeis e acabamos nos beijando. O mundo parou. Igualzinho como no cinema, luzes pipocaram no céu, estrelas cadentes passaram raspando sob nossas cabeças, violinos tocaram enquanto o corpo tremia e a perna ficava bamba…

Fui para casa me sentindo uma princesa na carruagem conduzida por ratinhos… E vieram outros encontros não tão profissionais, mas numa paixão avassaladora, destas de perder o fôlego e dormir suspirando… Nunca se sabe se o sentimento tem a mesma proporção para as duas partes, mas eu estava tão feliz que nem pensaria em medir aquela deliciosa loucura… Queria viver plenamente e trouxe vinhos de uma viagem ao Chile, comprei queijos franceses para beliscar vendo jogo de futebol na TV, acordei cedo para caminhar no calçadão até que um dia, não mais que um dia, na mesa de um outro bar ele pediu um tempo… E eu fiz uma coisa horrível: chorei copiosamente do tipo não me abandone… Voltei prá casa como a ultima mulher do mundo. Envergonhada solucei a noite toda e no dia seguinte não consegui sair da cama… Dias de coração rasgado, horas que não passavam… O projeto ficou lindo, aplaudido com louvor e premiado no exterior… Dele ficaram as lembranças materializadas nos presentes do CD da Bethania  “As Canções que você fez prá mim” e um livro do Sebastião Salgado com fotos de mulheres trabalhadoras… Bela referencia… E hoje no engarrafamento toda esta historia me voltou viva, quente, 20 anos depois e escrevo este texto em memória de alguém que já não está mais aqui… Creio que ele sempre soube o quanto eu o amei, mesmo que por tão pouco tempo, pois amor não tem tamanho, acontece…

Ficou faltando…

all star rosa

Em algum momento na travessia do rio João de Tiba, enquanto via o mar ao longe com os recifes separando a água doce da salgada, algo passou no meu pensamento e viajei nas lembranças listando o que deixei de fazer em minha vida… Ficou faltando ter mais filhos, aprender a andar de patins e mergulhar de cabeça numa grande piscina, ser peregrina no caminho à Compostela e casar vestida de noiva… Descer num esqui de alguma montanha com neve, ser habituée de uma academia de ginástica e malhar muito… Aprender a tocar algum instrumento, ter aulas de balé,  ficar na ponta do pé, sapatear e rodopiar divinamente em aulas de dança de salão… Não vai dar mais prá ser atleta de qualquer modalidade, nem fazer uma longa viagem de veleiro, cruzando mares e descobrindo outros mundos… Vai ficar difícil descer de para quedas ou voar de asa delta, pegar uma grande onda ou andar de skate…

Mas ainda posso aprender a cozinhar, a ser uma melhor costureira e conhecer novos pontos de crochê… Posso aprender novos programas de computador, ler mais livros, meditar ao ponto de quase flutuar… Ainda tenho tempo prá entender mais sobre coisas simples como fazer uma melhor compostagem de resíduos sólidos no quintal, identificar espécies de pássaros como um azul turquesa que tem aparecido pelo jardim e não sei o nome… Posso montar uma bela coleção de orquídeas, quem sabe também uma de bromélias… Caprichar nas colchas de retalhos, ser paciente, ouvir mais e interromper menos… Não querer chegar logo ao final da frase, respirar, beber muita água, mastigar no mínimo 50 vezes antes de engolir e andar de bicicleta todos os dias… E ainda posso até usar um all star cor de rosa com o do Zé Wilker, pois que se dane o mundo eu quero ser feliz enquanto estou aqui…

Em tempo : este tênis all star rosa passa a ser referencia minha vida… Wilker partiu aos 66 anos na vida corrida…

Aconteceu

E foi simples assim, em meio a uma conversa tranquila surgiu um comentário instigante e quando percebi já havia acontecido… Sou sincera, não estava preparada para aquele momento. Em outros tempos quando tomei uma decisão parecida, conversei longamente com meus botões, mais de um ano remoendo o assunto… Pesquisei, ouvi a opinião de amigos… Mas desta vez simplesmente aconteceu sem medo nem expectativa… A verdade estava exposta para qualquer um ver…. E sempre que assim ficava eu preferia não olhar muito, fazia como se jogasse a poeira embaixo do tapete…Disfarçava, virava a página e vida que segue sem me dar conta de quanto isso incomodava… Ah! como fazemos isso na vida! Quantas enganações… olhar de quem não quer ver…. Mas na última quinta-feira eu estava pronta para uma pequena mudança, não tão significativa… Foi um comentário que acendeu a luz de alerta, e não dei atenção… Continuei sentada naquela cadeira, pensamento viajante, olhos fechados e quando uma chamada me trouxe à realidade, olhei no espelho e estava novamente grisalha…Meus louros no chão e o que era apenas raiz se tornou um todo cobrindo minha cabeça… Em três anos quantos brancos surgiram e são meus, não há o que negar… Assumir por algum tempo, até novamente surgir o incomodo e pedir socorro à tintura… Ou não.

 

Paco de Lucia

paco de luciaDa mesma forma como converso com amigos, tenho contado para as teclas do computador histórias que vivi trabalhando em assessoria de imprensa… Alguns casos são longos, outros apenas referências de uma época, são bem curtinhos, apenas costuram outros tantos cases e foi assim que lembrei de Paco de Lucia que partiu nesta madrugada aos 66 anos.

 “Era muito bom ver a casa (Canecão) lotada com artistas que vendiam muitos discos e faziam sucesso… Mas era melhor colocar a mão na massa e mostrar algo pouco conhecido do grande público como foi em outubro de 86 com o guitarrista flamenco Paco de Lucia.

Um público elitizado sabia sobre o artista que o empresário Manoel Poladian trazia para uma turnê no país com direito a curta temporada no Rio, mas havia dúvida quanto à ocupação da casa (Canecão) com quase 2 mil lugares. Conhecido por seu jeito sedutor, estava sempre bem na foto, livre e desimpedido. Por saber disso, no convite para a coletiva no Copacabana Palace, priorizei e insisti na presença de jornalistas do sexo feminino. Sabia que este apoio seria fundamental na hora de conseguirem com o editor um espaço mais destacado para a matéria. Além de ser o guitarrista de maior prestígio dentro e fora da Espanha, o talento era parte de sua cultura e raízes musicais, e falava sobre isso deixando cair o cabelo liso pela testa quase em estilo Ronnie Von – Pequeno Príncipe (*8). Fazia improvisações surpreendentes com sua guitarra e no final dos anos 70 realizou trabalhos com os guitarristas John McLaughlin, Al Di Meola e Larry Coryell que lhe deram ainda mais prestígio. Mas isso não significava ingressos vendidos. Insistir  com “as” jornalistas nas entrevistas tinha sido uma boa estratégia. As páginas dos jornais foram pródigas e na estreia com seu sexteto num palco iluminado com precisão destacando os músicos e ao fundo pequenas palmeiras plantadas em grandes vasos comprados numa floricultura próxima da casa de shows, levou o público ao delírio. No esquema “boca a boca” mesmo antes das elogiosas críticas serem publicadas, Paco de Lucia se transformou em grande sucesso com mais 3 shows na semana seguinte.”

Ficou a lembrança de sua elegância e genialidade em tantas gravações. R.I.P

Salute!

trip217-especial-praia-095Quase toda semana leio a notícia da morte de alguém que conheço… Posso até não ter muita intimidade, mas vou perdendo pessoas que foram referência na minha vida… Alguns mais próximos, outros mais distantes, mas é como se eu fosse carimbando um álbum de figurinhas… Hoje foi o Arduíno Colasanti, mais um mito do que um amigo… Creio ter falado com ele uma ou duas vezes, mas estivemos juntos em algumas enormes mesas em bares em  Ipanema, onde se ria, se bebia, se fumava e se fala muito de cinema novo… Lembro muito bem o que ele significou para as mulheres da minha geração… Como era gostoso o meu francês! Repetíamos com a boca cheia ao ver aquela belezura de homem que fez o primeiro nu frontal no cinema (1971) … Era um jeito meio sacana de olhar um homem objeto… Podia não ser uma Brastemp,  mas era um sucesso, desafiador, pioneiro e apaixonante como tudo que é novo…. E Arduíno ainda era mais… Tinha um jeito displicente em deixar o cabelo louro cair no rosto, uma timidez no tamanho perfeito e uma educação requintada…

Passei a tarde viajando nas lembranças destes tempos… Olhos repletos de imagens, sabores de Ipanema nos anos 70 vejo na TV o Arduíno dos últimos tempos… Algumas entrevistas falando sobre o surfe (foi o introdutor no país), outras revendo a vida e é incontestável como o tempo é cruel… Cruel para qualquer um… Não salvou nem mesmo o lindo e desejado Arduíno que manteve os serenos olhos azuis … Não sei se ele foi feliz, mas as cenas que assisti mostram o que o tempo fez com ele e faz comigo e com todos nós… Não adianta chorar pitangas, amasso bem algumas que me restam no congelador e faço uma caipirinha… Salute Arduíno !

Sexo em alto mar

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

“Eu amo o meu marido, ontem fizemos 38 anos de casados e ele me deu esta viagem como presente. Ele não veio por que tem problemas de saúde, é diabético e isso afeta nossa vida sexual… Eu não tenho prazer com ele… Ele se excita com filmes pornô, se masturba e eu não gosto…Eu não tenho desejo por ele…”

Pode não ter sido com esta pontuação ou cada palavrinha exata, mas foi este o conteúdo de um desabafo profundo e corajoso de uma mulher frente a quase 2 mil pessoas num auditório com todas as luzes acessas durante a palestra da sexóloga Laura Muller à bordo do navio MSC Precioza. Sexo oral e anal, prevenção, impotência, traição, masturbação, lubrificação com géis de sabores nem sempre saborosos, tamanho padrão do pênis brasileiro, piercing na genitália, tipos de orgasmo, relações com pessoas do mesmo sexo, esperma e a beleza da pele, tudo isso e muito mais estava em pauta. E ainda na plateia, bem sentadinho na 2ª. fila, o cantor Roberto Carlos que também aproveitou para tirar suas dúvidas… Afinal em se tratando deste assunto ninguém sabe tudo…

Sexo não é só um pênis entrando numa vagina” pontuou Laura com perfeito domínio sobre o público exercitado semanalmente em palestras e na participação no programa “Altas Horas” do Serginho Groiman nas noites de sábado na Globo… A simpática psicóloga abriu seu consultório sentimental, deu aula de sexo e sexualidade, ouviu e respondeu as perguntas tanto as depositadas em uma urna para ajudar os mais tímidos, como as feitas em público… Até as do próprio Rei…Foram muitas questões, alguns depoimentos sinceros, outros costurados por risadinhas… Mas no meio disso tudo, em plena tarde de uma segunda-feira, o que me chamou a atenção foi a simplicidade como a conversa rolou… Tudo o que você gostaria de saber sobre sexo, poderia ser o sub título do encontro, e o clima era tão à vontade que me senti como em família na sala de casa com pessoas muito queridas que podiam ouvir angústias e dúvidas, ou num papo entre amigas adolescentes trancadas no quarto… Informação de boa qualidade de maneira simples e leve, leitura de revista feminina sem pudor…

Em tudo isso o que me encanta é a capacidade da mente humana em criar tanta intimidade em tão pouco tempo… Não mais do que cinco dias à bordo e todos os quase 4 mil passageiros se tornam amigos de infância… Na minha tosca filosofia isso acontece por não ser um cruzeiro qualquer, é o cruzeiro do Roberto Carlos… Só viaja quem gosta de suas músicas, admira sua vida e este é o primeiro movimento para quebrar o gelo em qualquer apresentação… “Eu sei que você está aqui por causa dele” a frase está explícita em qualquer sorriso e gentileza do cotidiano à bordo como segurar a porta do elevador, deixar uma pessoa passar a frente, em uma conversa na piscina ou na mesa da refeição…

E por existir este clima preestabelecido de confiança e respeito, o papo que rolou no teatro não causou espanto ao público… Nem mesmo a uma mulher de 82 anos que me confessou o quanto estava torcendo para a sua pergunta colocada na urna fosse respondida:

É normal aos 82 anos ter um tesão muito doido, namorar muito um rapaz de 56 anos que pensa que eu tenho menos de 70 ?

São mesmo muitas emoções…

Do fundo do meu coração…

webIMG_0194Bato o pé no fundo, tomo impulso e volto. Repito várias vezes o movimento. Fecho os olhos, respiro profundamente. Meu corpo está exausto. A mente também. Não estou no mar, nem na piscina, muito menos num poço ou num rio. Tenho batido o pé no fundo de mim, indo e voltando, buscando entender nas profundezas do meu coração estes novos tempos. Conhecer quem é aquela que me olha no espelho e vejo nas fotos deste verão. Ela fisicamente não me representa. Realmente envelhecer é um horror !
Comento sobre este sentimento com um amiga da mesma idade que me fez dar boas gargalhadas ao lembrar o dia em que a tia, aos 85 anos, revelou que estava preocupada pois começava a se sentir velha… Ok. Ela deve ter passado batida pela faixa dos 60 e quiçá dos 70, o que não é o meu caso… O meu sentimento é profundo… Percebo uma dicotomia de quem apareço ser e quem eu sinto ser.
A semana passada participei de um workshop sobre ações na Costa do Descobrimento para atender as exigências da Fifa quanto as seleções alemã e suíça que terão seus centros de treinamento na região. Eu estava no grupo de Comunicação e Marketing quando surgiu uma dúvida quanto ao credenciamento da imprensa. A preocupação tinha fundamento. Qualquer blog ou fanpage no Facebook considera-se mídia com direito a credenciamento e o grupo com pouco mais de 20 pessoas, a maioria jovens, alguns com experiência na área, estava sem saber o que propor. Sugeri a ação que utilizei no credenciamento do Rock in Rio de 1991 e enquanto explicava o procedimento ia me dando conta de que algumas das pessoas que estavam naquela sala talvez não tivessem nascido quando isso aconteceu ou no máximo engatinhado ao som da guitarra do Santana. O fato é que nestes 23 anos aconteceu uma revolução nas telecomunicações mas a solução podia ser resolvida com uma receita antiga. Confesso que me senti a velha jornalista tirando historinhas e soluções básicas do bolso, como a velha bruxa que conhece de cor a poção de canela com pétalas de rosa para usar na lua cheia e conquistar o amado.
Conhecimento não tem prazo de validade. Pode ser usado com moderação Ad eternum, afirmo no meu confuso latim… Mas sabem o que é Latim ?
Entretanto, mesmo tirando as soluções da cartola e tendo uma enorme clareza profissional, pessoalmente existe o sentimento de que alguma coisa está fora da ordem… Amigos atiram para várias sugestões… Quem sabe uma cirurgia plástica. Longe de mim… Esconder as rugas pode dar um refresh, atenuar a crise, mas não resolve o que está no meu coração… A verdade é que passei dos 60…
Hoje caminhando na praia antes das da 7 da manhã, como não encontrei uma viva alma, simplesmente aderi ao velho e bom topless… Andei liberta por um longo trecho, mergulhei, me exibi para o céu azul, passarinhos, restinga, sol e areia, sem me preocupar com a estética à mostra. Afinal posso me dar a este desfrute… E enquanto isso continuo mergulhando fundo para ver se consigo colocar no mesmo quadro as imagens de quem eu sou e quem imagino ser…

Fábula

IMG_20140116_074136Bom prá começar o ano…

Uma amiga contou a seguinte fábula: era uma vez um Rei muito poderoso que tinha um filho bonitão que fazia sucesso com as princesas e fadas de todo o reino. O Rei e a Rainha preocupados com o filho namorador, deram uma chamada e exigiram que o rapaz se posicionasse. Afinal eram anos de dinastia e estava na hora do rapaz escolher uma noiva, desde que não fosse a fada com quem estava saindo pois esta não se adequava a moral e aos bons costumes  da corte. Não querendo perder a posição de herdeiro do trono, despachou a fada, escolheu uma linda princesa de um país vizinho e casou. Teve sorte, um casamento feliz e tempos depois nasceu uma linda menina. Coberta de mimos e cuidados, em grande festa foi apresentada à sociedade. A nobreza trouxe presentes deslumbrantes, o clero abençoou e as fadas formaram uma grande fila ao lado do berço para profetizar um futuro de glória para a pequena. Foi neste clima que surgiu no salão a fada abandonada. O cerimonial pensou em chamar a segurança real para retirar a figura que não era bem vinda. Mas a fada preterida vinha em missão de paz, pedia apenas o direito de assim com as outras fadas, fazer boas profecias à princesinha. Colocou-se em último lugar na fila e depois de ter ouvido todas as amigas declararem que a menina seria de todos os reinos a mais bela, a mais inteligente, a mais culta, a mais simpática, a mais divertida, a mais corajosa, a mais sensata e um rosário de qualidades, mandou o seu recado:  terás todos estes dons mas jamais saberá que os tem.

Desde então estou confabulando com a fabula, pensando em quantas pessoas esquecem os dons que tem… As vezes nós mesmos fazemos o papel de fada despeitada deixando de lado o que temos de melhor… É lembrar sempre que todos temos qualidades únicas e especiais, somos os melhores do “nosso reino” e não há fada que vai nos fazer esquecer quem somos…

…e lá se foram 40 anos

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Quando no penúltimo bloco do programa começaram as imagens numa retrospectiva dos 39 anos de especiais do Roberto na Globo, como diz o Faustão, “um filme passou na minha cabeça” … Onde eu estava em todas aquelas noites de Natal ?

Quem passou dos 60 tem a sua história entremeada como alguma música do Roberto. Quem tem menos de 60 também. Suas músicas são a trilha de algumas gerações. Mesmo quem não se apaixonou, curtiu uma dor de cotovelo, cantou para o pai, a mãe ou amigo, ninou o filho, de alguma maneira a música está em sua vida. É tão forte quanto o Hino Nacional antes dos jogos da seleção brasileira de futebol.  Sem pensar em fazer tese sobre o assunto, reflito sobre os meus natais ao som das suas canções. Mesmo que fosse um filme mudo, as imagens da flor na lapela larga do paletó, o terno de veludo, as ombreiras gigantes, a calça desbotada “ou coisa assim”, os cabelos longos encaracolados, a camisa com babado, os encontros com artistas de todos os estilos, gritaram na minha memória… Vieram junto as minhas ombreiras, flores no blazer, cabelos, babados, com sabores de peru e champagne, rabanada e guaraná, a conta do banco no vermelho, a aliança com brilhantes em baixo da árvore, o carro zero com laço de fita no portão, as joias empenhadas para comprar o presente do filho…

Altos e baixos “são tantas emoções” … E percebi o olhar do artista encantado ao ver a sua história projetada na grande tela para uma plateia de notáveis e nós, anônimos, acompanhando tudo no sofá da sala… Foi assim mesmo? E foi tão rápido, talvez o artista tenha pensado… E quais os dramas, as alegrias e as dúvidas que correram nos bastidores destas gravações? E os tantos diretores, deve ter se lembrado com certeza do Vanucci (Augusto Cesar) … Mas está lá tudo na memória. Na memória do artista e na nossa, como se prensados iguais as suas gravações em milhões de discos, do 78 rotações aos LPs, cds, dvds, bluerays, Eps, iTunes e o que mais a tecnologia trouxer…

Li em algum lugar que as pessoas mais velhas tem resistência em gostar de músicas atuais. Preferem ouvir e cantar os sucessos de sua juventude, pois com os sons vem o sentimento, o perfume, o comportamento e o frescor daquela época… E neste pensamento, por mais que o tempo passe, assistindo Roberto somos sempre os jovens das tardes de domingo…