Vida breve…

robertoatoba

Foram apenas alguns passos. Para ajudar um amigo ele subiu a comprida escada com pouco apoio, se desequilibrou e o tombo foi fatal.  Um edema cerebral, um coágulo e em 15 dias a vida se tornou vegetativa. Acompanho o desenrolar desta história que teve ponto final esta madrugada.  Converso com meus botões, falo ao telefone sobre como viver é rápido. Acreditamos que tudo acontece com os outros jamais conosco. Chegamos a pensar que temos todo o tempo do mundo, nos imaginamos, mesmo revoltados ao constatar a perda da juventude, que só iremos embora depois de uma vida comprida e cumprida, apenas num piscar de olhos, talvez um suspiro feliz de desenlace… Como somos tolos pequenos mortais!

O homem que percorreu trilhas e estradas em sua moto, milhares de quilômetros de norte a sul, e me levava a viajar nas paisagens de tantas fotos que registrou em seus caminhos, não se foi num acidente nas duas rodas. Foram apenas alguns degraus. Como disse a amiga Vera, alguns nem sobem míseros degraus, “caem e do chão não passam”. E me vejo em menos de uma semana refletindo sobre os dias que são curtos, os momentos contados numa calculadora a qual não temos o poder de tirar a pilha ou desligar da tomada para que o tempo pare…

Esta manhã acordei pensando nas tantas casas onde morei, percorri na memória cada uma, agradeci por terem me abrigado e sido cenário da minha história. As casas ficam, os moveis se reciclam, e nós vamos a qualquer momento… Arrumar as gavetas, manter a mente limpa, os bons sentimentos, o olhar repleto de alegria pela vida para no dia da partida ter vivido plenamente… Boa viagem Roberto Atobá !

Ninguém vai sozinho…

janela

Nem lembro há quantos anos ouvi o Moacyr Deriquem* comentar diante da morte de algum famoso que esperássemos pois na sequencia seria anunciada a morte de outro… “Ninguém vai sozinho” dizia ele, desde então fiquei atenta aos sinais, sempre que vai um espero para ver quem vai junto…

Com todo respeito e admiração que me merecem, sem querer apressar a partida, mas diante a idade e problemas de saúde, Rubem e Suassuna eram previsíveis… Ubaldo foi um susto, estava com 73 anos, ainda tinha muitas letras pela frente…

Hoje depois de um post que coloquei no facebook sobre a partida de Suassuna, Rubem e Ubaldo na mesma semana uma amiga comentou “será que eles armaram essa?” Não sei se tinham esta capacidade, mas como estou neste pensamento reflito que se é assim mesmo que a vida acontece quem será que vai comigo ? Não quero antecipar a ida de ninguém, nem fazer previsões ou escolhas, mas seguindo este raciocínio deve seguir comigo algum jornalista. Não sei se é pedir muito, mas seria bom se fosse alguém com quem dividi espaço em alguma redação, tanto faz se foi em jornal ou revista, também vale quem trabalhou em assessoria de imprensa, pois teríamos assuntos em comum… Lembraríamos de boas pautas, projetos complicados para conseguir espaço na mídia e outros tantos que foram mais prazerosos…

Também poder ser alguém daqui da Bahia, que conheça as belezuras de Vila de Santo André, entenda de canto de passarinho, de tipo de árvore de mato, de maré alta e maré baixa, e que juntos possamos lembrar as delícias deste paraíso na terra…  Outra opção é uma costureira, bordadeira, crocheteira ou tricoteira, não precisa nem ser grande estilista, uma pessoa mais doméstica com quem poderia no caminho falar sobre pontos de cruz, dicas de arremate no tricôt ou uma nova laçada no crochê… Agradeceria também se me ensinasse um melhor acabamento de costura para as colchas de retalhos, isto pode servir num aprendizado de grande utilidade se me for permitido levar para outra encarnação. Também seria bem vindo algum artista em mosaicos, com quem lembraria quantos azulejos quebrei e as “artes” que deixei em casa…

Quem sabe vai comigo alguma carola, destas que cantam todos os hinos na missa e poderíamos seguir puxando o terço, seria uma caminhada temática e chegaríamos no clima… E dentro deste segmento, podem ir comigo também estudantes de “Um Curso em Milagres”, praticantes de Reiki, todos os chegados a qualquer modalidade de meditação e buscantes em entender a vida… Claro que não teríamos entendido tudo sobre a vida mas passaríamos juntos a falar sobre a morte… Mas se puder mesmo fazer uma escolha, quero viver por um bom tempo e não me deixe seguir com qualquer pessoa da família pois velório duplo é demais…

*Moacyr Deriquem (1927-2001) foi ator de teatro, cinema e TV e também diretor de novelas. Iniciou a carreira artística em 1949, no Teatro do Estudante, aos 23 anos, contrariando a vontade dos pais. Foi um dos príncipes do Teatrinho Trol e galã no programa “Neide no País das Maravilhas”, programas extinta TV Tupi. Ele atuou também em chanchadas de sucesso produzidas pela Atlântida, como “Vamos com calma” e “Colégio de brotos”, ambas dirigidas por Carlos Manga e lançadas em 1956. Nesta última, Deriquem trabalhou ao lado de Oscarito. A fita foi recorde de bilheteria. Nas décadas de 1970 e 1980, participou de várias novelas da Rede Globo, entre elas “Casarão” e “Cambalacho”.

Pensamentos na chuva

Foto : Cláudia Schembri

Foto : Cláudia Schembri

Chovia muito, quando na pequena rua de terra por onde o carro vagarosamente passava desviando dos buracos e das poças, avistei uma moça embrulhada numa capa caminhando, se protegendo como podia embaixo de um guarda-chuva… Fez um aceno para a amiga que dirigia o carro e me ignorou, fato corriqueiro nos últimos tempos… Aquele ignorar de alguém que passa por cima e faz que não vê, provocou compaixão…Eu estava protegida no conforto do carro e ela totalmente sozinha na chuva…

Seguimos o caminho para deixar uma amiga em casa e no retorno avisto a moça esperando o ônibus que sabe lá Deus a que horas passaria…  Situação desconfortante. Peço para a amiga que dirigia o carro fazer um retorno e ao nos aproximarmos da moça ofereci uma carona, mesmo sabendo que ela seguia para um local totalmente oposto ao nosso. Dez minutos não fariam diferença para ajudar alguém numa situação desagradável.

Não foi para garantir uma janelinha no céu que fiz a gentileza à quem nem me cumprimenta, mas por entender que a vida é muito curta para ter mágoa. Por alguns segundos me coloquei no lugar da moça e me senti péssima, imaginando não ter um amigo a quem pedir uma carona em um momento de emergência, pois vamos combinar que ninguém sai de casa para passear pisando na lama num dia chuvoso…

A verdade é que o tema amigo estava comigo desde o começo do dia e tem sido uma constante em meus pensamentos… Talvez a maturidade esteja me permitindo entender o outro. Nesta manhã de chuva eu voltava de um encontro com pessoas, que apesar de serem ímpares, têm um pensamento par em relação ao meio ambiente. Não estão preocupadas com o que são, mas sim como que juntas podem fazer alguma coisa bacana no planeta. Uma proposta de somar sem o formato de empregados seguindo o patrão, sem egos à frente das decisões, mas construindo juntos em prol de um bem maior… Não é fácil este movimento, assim como ninguém disse que era fácil viver… E mais difícil do que viver é conviver, perceber o outro e permitir que ele seja o que quiser, sem julgamento, com um olhar complacente de quem entende que é tudo muito curto, rápido e efêmero…

E como teve muita chuva e aprendizados, acabei o dia recebendo um maravilhoso presente… Fui citada com carinho e amor pelos meus queridos Esther Rocha e Ronnie Von no programa “Todo Seu”… Até fotos aqui de casa ela mostrou ! Quer coisa melhor na vida do que ter amigos e ver que tem sempre sol depois da chuva ?

Jornalista cadeirante

unnamed (6)

Foto : Cláudia Schembri

No auditório das coletivas de imprensa da seleção alemã em Vila de Santo André os jornalistas vão chegando e me deparo com um que é cadeirante.  Florian Hebbel tem 27 anos e se apresenta em um bom português como “o jornalista cadeirante”. Estas são algumas das palavras que aprendeu nesta primeira viagem ao Brasil. Ele é de Kiel, uma cidade no norte da Alemanha, distante 100km de Hamburgo. Aos 15 anos,depois de um acidente, foi parar numa cadeira de rodas e nestes anos a vida seguiu com louvor. Há cinco meses formou-se em psicologia e há dois casou com Aline. Escreve para a revista Barrierefrei publicação voltada para pessoas com necessidades especiais e se tornou o primeiro jornalista com deficiência entre os credenciados oficialmente para a Copa do Mundo. Conta que conseguiu a credencial pois a DFB e as associações de esportes em seu país acreditam que as suas reportagens são importantes como incentivo a outros na mesma situação.

Florian aprovou os aeroportos de São Paulo, Salvador, Porto Seguro, Fortaleza, Natal por onde passou. Segundo ele “onde há dinheiro há boas condições para pessoas com necessidades especiais”. Foi assistir ao jogo em Salvador, recebeu ingresso para a área dos jornalistas e sentiu-se muito bem tratado. “Eram três pessoas para cuidar de mim!” comenta entusiasmado. Mas não pode dizer o mesmo da arena em Fortaleza. Apesar do acesso perfeito, ficou na área para cadeirantes e se surpreendeu com “falsos” deficientes. “Alguns se levantaram das suas cadeiras para tirar fotos, outros foram ao banheiro andando”.

Ele viaja com um acompanhante e conta que não teria condição de fazer esta viagem sozinho pois ainda são muitas as dificuldades. Está hospedado num hotel em Porto Seguro, não tomou banho de mar pois é impossível o acesso à praia, na próxima semana viaja ao Rio e está feliz em conhecer a cidade… Florian está fazendo a cobertura da seleção alemã na Copa do Mundo com suporte da DFB e patrocínio de diversos amigos e empresas que preferem não aparecer, mas que sabem que este exemplo pode fazer a diferença na vida de muitos…

Quanto à coletiva em que o goleiro Manoel Neur e o meia André Schürlle eram as estrelas, a mídia esportiva vai escrever muito melhor do que eu…Florian foi o meu aprendizado de hoje.

 

A força da rede

DSC02301

Esta foto é de 9 de agosto de 2004. Estou no carro cruzando o rio João de Tiba depois de mais de mil kms na estrada, chegando para um semestre sabático em Vila de Santo André…Não sabia bem o que procurava, apenas que precisava de um tempo para ficar perto do mar e rever a vida…  E aí se passaram quase 10 anos…Fiquei e criei raízes… Mais do que raízes, criei um compromisso com o lugar. Não sei como nem quando, mas creio que há momentos na vida que algum anjo passa e diz que é hora de olhar mais para o seu entorno. Não especificamente para um outro mas para todos os outros. E aí você descobre que tem muita gente também pensando igual e fica mais fácil criar uma rede para fazer coisas legais.

Adoro quando a vida me surpreende em pequenos movimentos. Da simples árvore que floresce até as gentilezas de novos amigos. Estamos formando um grupo muito interessante com propósito de estabelecer neste povoado um sistema de coleta seletiva de resíduos sólidos, criação de composteiras (quem sabe até hortas!), pensar na qualidade da água e no saneamento básico.

E quando muitos pensam junto mais desafios chegam. A Prefeitura avisou que a Oi vai retirar o sistema de internet de alta qualidade que instalou para atender a Seleção Alemã de Futebol. Em mais algumas semanas os alemães partem e será que não podemos requisitar este legado?

Lembro que cheguei nesta vila num tempo de internet discada, andamos muito mas às vezes ainda passamos dias com o sinal fraquinho, fugindo do roteador como o diabo da cruz… A oportunidade deste legado é fantástica e para conseguir precisamos de muitas assinaturas num manifesto. Enviei email para moradores e me comovi com amigos também enviando emails para seus amigos, postando no facebook, pedindo assinaturas no documento que vamos encaminhar para a Oi e Anatel…Apenas o nome e o cpf podem fazer a nossa diferença.

Obrigada aos moradores, empresários, frequentadores e amigos de Vila de Santo André que estão endossando este manifesto. Quem quiser colaborar o email da Associação Pro Cultura e Turismo Santo André-Bahia que irá encaminhar o documento é santoandrebahia@gmail.com. Juntos podemos muito mais…

Sem manual de instrução

unnamed (2)

Não faz muito tempo uma amiga querida atirou-se do alto de um edifício. Programou muito bem. Sozinha, sem filhos, teve um baque financeiro e não conseguiu pedir socorro. Deixou cartas com desculpas, não aguentou viver assim. Há dois dias uma amiga tomou todos os remédios que tinha em casa. Como era apenas uma ameaça e não a certeza de partida, avisou à alguém que pediu ajuda à vizinha e foi salva. Tenho acompanhado mulheres que ao virar a faixa dos 60 anos sem opção para o futuro entram em depressão… Percebo algumas alcoólatras perdendo a auto estima, deteriorando fisicamente, se abandonando, tomando atitudes que colocam em risco a integridade física…

Confesso que tenho medo de tudo isso. Este não saber o que vem pela frente não deveria assustar pois desde que nascemos o processo é esse. Ninguém recebeu manual de instrução, é o desafio da descoberta a cada dia. Mas todos querem permanecer no que consideram “os áureos tempos” e nem aproveitam o que acontece aqui e agora…Pode não ser o que nossa memória seletiva considere o melhor, mas é o que temos pra hoje e tem seu lado divertido. Descobri que não preciso mais me preocupar com a celulite, depois de uma certa idade ela até desaparece, as prioridades são outras… A pressão tem que estar bacana, olhar para o colesterol. Comer muitas fibras e o intestino tem que funcionar todo dia…  Uma amiga telefonou contando que a perna ficou mais fina depois de um mês engessada por conta de uma fratura… Ainda bem que pode andar sem bengala, pois concurso de mais belas pernas não vamos mais participar…

Tenho uma lista de coisas para fazer nos próximos 20 anos. São tantas e tão legais que as vezes me dou ao luxo de nem começar para não acabar logo… É como o recheio do bolo, deixar para o final, curtir mais um pouco…. Um amigo terminou de gravar um disco no ano passado.  Temos a mesma idade, ele fez o que sempre sonhou, do jeito que queria, com todo o tempo e recursos disponíveis… E fez lindo! Olhar o passado de nada vale, quero ver é olhar prá frente e projetar novos caminhos… Na minha lista enorme de futuro tenho hoje uma prioridade: o lixo. Outro dia postei a foto de um local de triagem de resíduos sólidos (plásticos, vidros, papelão…) e perguntei aos amigos o que estavam fazendo com o lixo de suas casas. Não é que um deles teve a cara de pau de dizer que não tinha isso em sua casa ?

Vivemos cercados por embalagens e não somos também responsáveis pela forma como serão descartadas? Esta é uma boa e longa conversa que jamais imaginei a esta altura da vida estar envolvida de forma tão integral…Tenho lido a respeito, conversado com quem conhece, penso em projetos… O meu lixinho, posso cuidar bem, fazer compostagem no quintal, levar as embalagens para um descarte consciente, mas o meu foco é ampliar esta ação na vila onde moro, quem sabe estender aos povoados vizinhos, à cidade… Desculpem queridas deprimidas e alcoólatras, sinto muito por esta escolha mas estou muito ocupada para desistir da vida.

 

Amigos distantes

549952_3718341877444_1986445177_n

Andando no mercado por alguns segundos pensei ter visto um amigo que já morreu. Eu estava entres as gôndolas de frutas e a seção de queijos e não acreditei no que acabara de ver… Quando peguei o carrinho e me virei ele não estava mais… Saí pelos corredores com a lista de compras na mão e os olhos em busca do homem para confirmar o quanto era parecido mas o perdi… O que me chamou atenção era ser um homem mais velho e eu não vi o meu amigo na idade madura, pois morreu com menos de 50 anos sem cabelos grisalhos ou rugas.

Esta visão ou alucinação credito ao fato de estar acompanhando a distância o tempo passar na vida dos meus amigos… Saí do Rio há 11 anos e às vezes me pego no facebook olhando fotos e vendo como estão envelhecendo aqueles com quem convivi na juventude e maturidade… Alguns estão com cabelos grisalhos, outros pintados, mais gordos e magros, uns mantêm as marcas do tempo, outros optaram pelo bisturi, mas estão lá na essência da amizade e por nenhuma ruga a mais ou um grisalho a menos eu queria que partissem sem vivermos juntos este momento… Estamos no mesmo barco…

Gosto da minha idade, gosto do que vivi e como na voz de Piaf “no je ne regrette rien”. Como disse um amigo, arrepender é ter vergonha do que se fez, e como aprendi a não carregar culpa, também não tenho arrependimento… Mas devo confessar do fundo do meu coração é que não gosto  ter perdido a aparência dos 35 anos… Vou ser mais generosa com o calendário e permitir que ter o jeito dos 40 me deixaria muito feliz… O que incomoda é o ar de senhora que adquiri sem ter feito o menor esforço para isso… Quando vi estava comigo e mesmo que eu corte o cabelo com a máquina 2, carregue no gel para arrepiar, pendure um brinco de pena na orelha, emagreça 10 quilos, vou ser apenas uma coroa estilosa, ou excêntrica..

Tenho pensando que a faixa dos 60 é a adolescência da velhice… É um estar fora do jeito, maduros a mais e velhos a menos… E não tem um manual de instrução para viver esta experiência… Um dia de cada vez… E com isso às vezes me rebelo, outras me aceito… Alguns momentos o espelho é gentil com a jovem senhora que ali se apresenta, em outras é profundamente cruel e me faz sentir ridícula… Tenho o consolo de que isto não é privilégio meu e quero estar próxima, mesmo a distância, acompanhando através das fotos na internet, nos posts-curtidas e comentários com todos que passaram um dia em minha vida …

 

Vizinhos

unnamed (2)

 

Marita tem 63 anos, Werner 66, são os novos vizinhos. Alemães aposentados, saíram de Lubeck, uma cidade a 200 km de Munique, voaram para Montevideo onde compraram uma pequena motor home e chegaram à Vila Santo André depois de passarem por Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro…Eles não falam nada em espanhol nem português. Só inglês e alemão. Ela usa uma peruca nas cores da Alemanha e faz de canga uma bandeira do seu país. Ele usa 2 chapéus, um com a bandeira do Brasil, e estacionou a “sua casa” quase ao lado da minha. Típicos torcedores . Começamos a conversar na rua e acabei convidando-as a entrar.

Como professor de matemática em escolas alemãs Werner correu o mundo sempre junto de Marita. Na África do Sul ficaram 9 anos e aproveitaram a Copa de 2010. Mesmo sem ingresso vão para Salvador na terça-feira onde esperam conseguir um jeito de assistir ao jogo dia 16. Eu estava curiosa em saber como abasteciam de água da motor home e onde despejavam os dejetos do banheiro. A água é bem mais fácil, conseguem em qualquer posto de gasolina, já os dejetos tem que esvaziar o depósito a cada 10 dias e a última vez foi sábado num local próximo ao aeroporto de Porto Seguro… Contaram que vão voltar à Alemanha antes do final da Copa por causa do casamento do filho no dia 5 e que a casa de rodas vai ficar guardado com  amigos no Brasil. No fim do ano voltam para viajar mais um pouco.

Marita e Werner ficaram encantados com as árvores nativas do jardim da minha casa e ao ver a água jorrando de um aspersor na grama ele perguntou se poderia pegar um pouco de água para abastecer “sua casa”. E foi assim que “a casa deles” veio visitar a minha.  Marita ria muito e repetia “Super, we are neighbors” e neste clima de amizade enquanto Werner entrava com a motor home pelo portão, veio correndo atrás uma equipe de uma TV alemã. O repórter bonitão que deve ser bem famoso explicou que é da n-tv (escreve-se mesmo em minusculo), uma emissora como a CNN e estava feliz com aquele momento exclusivo mostrando brasileiros e alemães se relacionando tão bem.  E enquanto Guinho enchia o deposito de água, a entrevista foi feita e até Xico, o Golden retriever aqui de casa virou estrela… Aguardo o email do jornalista com o link da matéria, estou fazendo meu clipping na imprensa alemã… Abaixo fotos deste encontro…

Guinho colocando água

Guinho colocando água

Detalhe da placa que trouxeram da Alemanha, mas está apenas como enfeite,

Detalhe da placa original que trouxeram da Alemanha, mas usam apenas como enfeite,

Marita, Werner e Cláudia Schembri, a fotógrafa fotografada,,,

Marita, Werner e Cláudia Schembri, a fotógrafa fotografada,,,

Eu na Copa

unnamed (26)

 

Fui dormir com um carro da polícia fechando o acesso à rua onde moro com o sentimento de estar no reality show de um grande evento. Acordei pensando quando foi a primeira vez que vi um evento … A lembrança mais remota chega aos 5 anos no 4º centenário da cidade de São Paulo quando papai levou a família para ver a festa no Anhangabaú. Era inverno, não lembro quais eram as atrações desta comemoração apenas que naquele fim de tarde assisti ao primeiro grande espetáculo da minha vida: uma chuva de prata. Eram milhares de pequenos triângulos de papel de alumínio picados que caíam do céu. Voltei pra casa com as mãos cheias de papeizinhos que meus irmãos guardaram dentro da nossa coleção de licros do Tesouro da Juventude e muito tempo depois li que aquela festa reuniu 1 milhão de pessoas.

Talvez o encantamento da chuva de prata tenha sido tão forte que naquele instante passou um anjo bom e resolveu que este sentimento iria se perpetuar na vida da menina… “Vai viver em grandes eventos” preconizou… Assim os anos correram e fazer festa era parte da minha vida… Na juventude com os amigos da Jaceguai 27 ajudei a organizar shows no Presídio Frei Caneca, depois como jornalista cobri festivais e como assessora de imprensa vieram tantos Rock in Rios, Planeta Atlântida, dezenas de mega shows…Nunca me senti confortável sendo público, preferi os bastidores…

E foram tão veementes as palavras do anjo que até mesmo quando vim morar num pequeno povoado os eventos vieram atrás de mim. Assim estou quase dentro da concentração da seleção alemã de futebol, no perímetro de segurança máxima, dentro dos 500ms da rua principal fechada. Esta manhã desfilaram pela minha porta as vans trazendo os jogadores seguidos por batedores e policiais. A notícia ferve no meu portão com dezenas de jornalistas passando. Estou entre o Campo Bahia, concentração dos jogadores, e o Resort Costa Brasilis, centro de mídia… E vejo tudo da janela do escritório que montei no chalé voltado para a rua… Estou de camarote… Recebi o passe livre, posso ir e vir no perímetro limitado… Com credencial me sinto à vontade…

Santa Cruz Cabrália

cabralia2

 

Li a singela postagem no facebook de um morador da vila onde moro sobre o pastor de sua igreja que há pouco mais de dois anos resolveu tomar uma atitude para reverter a situação de Santa Cruz Cabrália e convocou os fiéis a orarem pela cidade. O pastor saiu pelas ruas em oração ungindo com óleo santo os caminhos e as casas, pedindo à Deus que mudasse o destino da cidade onde o Brasil começou. Andou por todos os bairros, ungiu o rio João de Tiba e chegaram a Vila de Santo André onde orações e óleos não foram poupados. Como resultado, este morador credita a isto o fato da Alemanha ter escolhido o local para ser sua sede na Copa do Mundo.

Admiro as pessoas que tem fé, seja qual for… A capacidade da transformação frente a um desejo por mais impossível que possa parecer aos olhos dos outros sempre me comove. É ser maior do que os sonhos e limitações… Estes desafios são os que me parecem estar acontecendo aqui… Da noite para o dia, sem orçamento nem planejamento, caiu de paraquedas uma seleção mundial para se concentrar neste município que sobrevive muito mais da agricultura do que do turismo histórico ou de suas belezas naturais …

Tenho minhas reservas quanto a gestão pública. Envio e-mails ao prefeito e secretários pedindo atenção às mazelas da vila, mas tenho que ser justa neste momento. Não posso ignorar a realidade de que este é um município pobre. São mais de 28 mil habitantes distribuídos em 1.550 km2 – de litoral são 165kms -, onde estão 16 assentamentos de sem-terra, 4 aldeias indígenas, 1 comunidade quilombola e para tudo isso o orçamento é de 4 milhões de reais, basicamente sustentado pelo governo federal… A conta no início do mês começa assim: 1,8 milhões para a educação, 800 mil para a saúde, ainda tem a folha dos funcionários e todos os custos de uma cidade… E é nesse panorama que um dos menores povoados da cidade recebe a seleção de um dos países mais ricos do mundo… Parece pai pobre tendo que fazer a festa de casamento da única filha com um milionário. Os falados recursos da Secopa não chegaram até aqui. É o que conta do Secretário de Turismo Fernando Oliveira.

Neste aperto financeiro há de se ter uma alegria com a visibilidade que a cidade está conquistando. O Jornal da Globo na segunda-feira passada não podia mostrar Cabrália mais bonita… Até a bagunça que se transformou o local onde foi rezada a primeira missa estava fotogênico nas imagens em HD… Se durante um ano todos os recursos do município fossem usados apenas para relações de marketing e promoção não pagaria o que estão conseguindo em mídia gratuita. E a copa nem começou, os falados 200 jornalistas ainda não chegaram, muito mais virá… Vale a cidade e a vila estarem limpas, vale o esforço… Vale o aprendizado para o futuro, planejar como usufruir desta evidencia… E valem também as orações e os óleos que ungiram este milagre de cair do céu o que pode ser a grande transformação de uma cidade até então conhecida como vizinha pobre de Porto Seguro…