Outono no Rio

Um ar frances na arquitetura da Praia do Flamengo.

Tenho uma amiga que quando ficava muito tempo sem dar notícias eu sabia que alguma coisa não muito boa estava passando por sua cabeça. Assim me senti exatamente nestes últimos tempos sem escrever, como se as caraminholas que vagueiam entre o “tico e o teco” não fossem merecedoras de estar no papel (ou na web). E, atendendo aos pedidos, saí do claustro e fui caminhar no Parque do Flamengo. Dez anos se passaram e algumas coisas não mudaram. Como o perfume do desodorante masculino que uns corredores usam e quando passam deixam uma nuvem no ar. As mulheres que cuidam dos gatos levando comida e água, os pais que correm empurrando carrinho dos filhos e as acompanhantes que levam cadeirantes. Os massagistas embaixo das árvores com suas camas bem arrumadas, cada um oferecendo “um plus a mais”, as moças que andam em grupo com as pernas musculosas e falando alto, os casais idosos caminhando devagar, a garatoda com skate, os de bike Itau, as tristes com chapéus enoooormes enterrados na cabeça, as que ainda se acham “gostosas” com calças de malha justíssimas e as pensativas como eu…

Impossível não se tocar com a beleza do Rio no outono! Esta névoa da manhã traz um clima de mistério, como se algo fosse revelado a qualquer momento. Um véu que descobre uma nova paisagem… E continuo andando, olhando as pessoas e lembrando outra amiga, esta completamente kardecista, que costuma dizer “como são interessantes estes seres encarnados”… E são mesmo, só olhar esta gente e pensar o que passa em suas cabeças, quem corre ou quem anda esperando o que… O que aflige, o que acalma… O que vai em cada coração… Ah! Isso só mesmo sabe Deus…

Em tempo : a foto é para lembrar que ainda há um ar francês na arquitetura da Praia do Flamengo…

Vital

tibolona

Achei que ele nem ia notar e resolvi descansar o organismo… Ate que no 3º dia algo de estranho começou acontecer com uma moleza, o corpo pedia cama, falta de apetite e um pouco febril… É dengue, pensei. Examinei o corpo e não vi manchas vermelhas, eliminei a hipótese… Os dias foram passando do sofá prá cama, da cama para o sofá. Não conseguia escrever, ler ou fazer qualquer coisa. A cabeça pesando uma tonelada, suores e arrepios de frio. Sentindo-me perto dos últimos dias saí em desespero atrás da receita do hormônio que havia acabado e tolamente achei que organismo não perceberia. Ontem enquanto esperava a hora de ir à farmácia buscar a manipulação fiquei numa excitação que deve ser assim que os adictos se sentem enquanto aguardam sua droga diária. Abri a caixinha na própria farmácia e ao engolir a pequena cápsula senti que minha vida voltaria ao normal… Está voltando aos poucos e aprendi que pode me faltar tudo menos a Santa Tibolona.

O Belo Emílio !

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 A casa na Rua Candido Gafrée na Urca, proxima a TV Tupi, tinha dois andares, nos fundos um quintal com uma linda mangueira, a garagem e mais um cômodo. Era ali que se produzia o Programa Flávio Cavalcanti, o “Senhor das Noites de Domingo”, campeão de audiência, polêmico, revelador de talentos e onde os grandes artistas nacionais e internacionais de apresentavam.

A sala que eu dividia com Gilda Muller ficava no andar superior, dava fundos para a bela mangueira no quintal e vista para a garagem transformada em sala de produção musical onde Carminha Mascarenhas recebia os candidatos a Grande Chance, um quadro do programa que revelava novos cantores. Uma manhã estava trabalhando quando ouvi uma voz linda. Cheguei à janela para ver quem cantava e foi aí que conheci Emílio Santiago. Ele arrasou no ensaio e no palco! Em pouco tempo estava cantando nas melhores casas da noite carioca e minha vida foi seguida por sua trilha musical.  Muitos amores e desamores ao som de sua voz.

Em 1994 a DC Set criou uma agencia de artistas seguindo modelo das internacionais e fui convidada a fazer parte deste projeto. Eram 10 artistas, entre eles Emilio Santiago. Não era só uma grande voz, mas um artista que sabia muito bem o que queria e pedia com elegância. Humor fino, excelente companhia. Tive o privilégio não só de trabalhar com ele mas escrever o livreto de uma caixa com o melhor de sua coleção de “Aquarelas”. Deixei ali o meu testemunho sobre suas qualidades de intérprete, deixo aqui o agradecimento por ter convivido com um artista por excelência… Sua voz ainda vai me acompanhar ao longo da vida. Descanse em paz.

 

Quando a vida vira

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Antes das 7h30 a campainha tocou. Através do olho mágico vejo minha irmã. Havíamos combinado um café da manhã, mas não tão cedo. Abro a porta e seu olhar é tenso.

Caiu da cama ?

Não dormi. Estou com um tumor no cérebro.

Como ?

Tem algum tempo que minha irmã comentou estar se sentindo diferente. Esquecia o que havia feito, não sabia onde colocava as coisas, estava agressiva, explodia facilmente, um desconforto interno. Sugeri um terapeuta, por indicação de amigos foi a um neurologista. Minha irmã tem um longo historico na cabeça e região. Retirou pequenos tumores na parótida e na tireoide, convive com uma sudorese na lateral da cabeça e o médico diante deste quadro pediu uma tomografia.

No dia anterior ela voltou ao medico levando a tomografia e na lata veio o diagnóstico: “a senhora tem um tumor no meio do cérebro, como ramificações. Não há cirurgia, nem químio nem radio que resolvam. Tratamento com medicamentos. Não vamos desistir, certo ? ” Ele foi incisivo na última frase.

E foi com essa notícia que ela me acordou sexta-feira passada. Mas como e por que nasce um tumor. Assim do nada? Nasce do esquecimento e da agressividade desmedida?

Bom, precisamos de um 2º. e quem sabe até um 3º diagnóstico.  Ela estava ali na minha frente lívida, um olhar de angústia como jamais vi na minha irmã mais velha. Naquele momento decidi ficar no Rio mais do que os 20 dias programados, queria acompanhar esta historia o quanto fosse preciso, mas nada falei.

Os dias que se seguiram foram pensando no assunto e resolvendo a vida por mais tempo na cidade. Providenciei um telefone fixo para chamadas de urgência, encontrei amigos, mas o assunto do tumor ficou como uma tela de descanso do computador nos meus pensamentos. Até que 4ª. feira veio o primeiro vento de boas novas. O diagnostico do médico do INCA que a tratou em cirurgias anteriores dizia não ver qualquer tumor na tomografia. Os sinais que apareciam eram normais da idade. Ontem o 3º diagnóstico de um neurocirurgião: jogue os remédios fora e vá celebrar a vida.

Assim, em uma semana as nossas vidas mudaram. E eu agora que me decidi ficar no Rio mais um tempo e estou adorando esta experiência o que faço?

Não conheço os caminhos de Deus, não sei por que Ele me mandou prá cá, mas sei que vou ficando…

Os livros

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Pensei que tinha jurado nunca mais montar uma casa e hoje quando me vi comprando um pequeno aparelho de jantar, panelas, escorredor de pratos e faca de cozinha não acreditei. Começar de novo apenas com o básico, momento minimalista. Retirei os livros que passaram 10 anos no armário e encontrei o passado. Livros são testemunhas da vida, guardiães da emoção que passa pelos dedos enquanto são consumidos. Livros conhecem o fundo das bolsas, ouvem os ruídos dos nossos sonhos na mesa ao lado da cama e são amigos eternos. Podia me desfazer de muitos que hoje coloquei na estante, mas sabê-los por perto me conforta. É como estar com alguém que conhece a minha historia, tanto quanto eu conheço as deles.

Com a geladeira que chegou ontem, hoje teve cheiro de tempero vindo da cozinha, almoço na mesa e as boas mãos da Fafá deixaram o apartamento limpíssimo. Fafá se lembra de coisas que até Deus duvida. Acompanhou muitas das minhas casas, momentos de fartura e de dinheiro contado. Quando a conheci ainda não tinha os filhos que hoje já lhe deram netos. E enquanto trabalha colocamos a vida a limpo. Começo a me sentir em casa. Ainda não tive coragem de ver os quadros que estão na parte mais alta do armário. Este é outro momento.  Um dia de cada vez.

 

 

De volta

 

ImagemAbri a porta e o encontrei depois de 10 anos. Paredes brancas, a poltrona bergére próxima ao sofá de couro, as 4 cadeirinhas da bancada para refeição. Uma cama de solteiro num quarto o armário embutido no outro. Abri as janelas e a linda vista do Parque do Flamengo se apresentou. Conheço onde estou. Aqui já foi a minha casa.

O sofá e a bergére podem contar a minha vida. Apesar de surrados, estão vivos. Passeei entre os cômodos, abri as janelas, as portas dos armários do quarto, do banheiro e da cozinha… Um vazio gritou nas lembranças. Quando saí deixei um mundo nas prateleiras. Livros, discos, taças de cristal da mamãe, papéis e papéis, muitas fotos… Nós mudamos bastante nestes anos, o apto recebeu alguns moradores, continua com um jeito acolhedor e simpaticão. Eu vi tantas terras e aprendi a vida de outra forma.

Respirei fundo, deixei as malas e saí para comprar o básico para a sobrevivência. Andando até o Largo do Machado encontrei a mesma mendiga na porta da Igreja Santíssima Trindade, reconheci o jornaleiro, a loja de roupas com a vitrine tentadora, o Cinema Paissandu com as portas fechadas, não sei se ainda está na ativa. Pensei encontrar a Churrascaria Majórica fechada, li que tinha sido destruída por um incêndio, mas estava firme no casarão antigo com fachada de pedra. O posto de gasolina na esquina da rua Paissandu está se transformando num enorme edifício, a livraria Galileu não mudou e o Largo do Machado é aquela confusão.

Voltando prá casa exausta, com o possível para sobreviver 48hs sem geladeira, dobrando a esquina quando um rapaz passou gritando: vem chuva. Cheguei a tempo de fechar as janelas. A água lavou a alma, inundou a rua… Fiquei através do vidro vendo a água subir, cobrir os pneus dos carros, o transito desaparecer e o lixo que estava nas calçadas se espalhou. Um caos. Fui dormir cedo estranhando o colchão sem travesseiro e acordei pensando nos livros e mais umas caixas que haviam ficado em algum lugar deste apartamento. Quem sabe na parte de cima do armário ? Peguei a escada e lá estavam os livros, um violão quebrado e duas caixas grandes de papelão. Coloquei a mão dentro de uma delas para puxar algum papel e fez-se um som. Era uma das caixinhas de música da minha coleção que aqui ficou. O piano de cauda que toca “Pour Elise” enquanto um cupido dança sob um coração. Mais caixa de música impossível!

Ótimas boas vindas ! Coloquei a caixinha para tocar, uma memória muito feliz que me faz mesmo sem geladeira ou tv me sentir em casa ! Obrigada Marcos Bart, Angela Ghizi, Leo Manssur e Hyldde Roza que tão bem cuidaram e deixaram suas boas energias neste apartamento.

 

A menina e o anjo

anjo

No Natal a menina de cabelo alourado preso em tranças pediu ao Papai Noel “uma boneca branca, uma boneca preta e um carrinho para puxar boneca”. Os pais não entenderam a exigência da boneca preta. Como esta menina cheia de invencionice resolveu querer uma boneca de cor, afinal quase não havia negros nas redondezas onde morava, um bairro novo, afastado, na zona norte de São Paulo. Mas Papai Noel encontrou as duas bonecas, o carrinho e colocou embaixo da árvore.

Meses depois, no primeiro dia de aula na 3ª. série, Madre Cornélia, diretora da escola das freiras, entra na sala com uma aluna nova: uma menina negra. Os olhos da menina de tranças brilharam. Levantou o braço oferecendo para dividir a carteira com a novata. Em pouco tempo ficaram amigas e a alegria era ter uma amiga igual a sua boneca, só que falava e tinha opinião. E foram estas opiniões que vieram mudar a vida da menina de cabelos alourados.

A menina negra se superava em invencionice: dizia ver o anjo da guarda de todas as pessoas. Inclusive o da nova amiga. A menina negra com os cabelos bem crespinhos, amarrados e enrolados em diversos rabicós,  falava de forma segura e convincente sobre o anjo de cada um. E quanto ao anjo da menina alourada tinha  recomendações: estava proibida de correr no recreio, pois o anjo poderia se cansar, ou até se perder no meio dos anjos das outras crianças. E isto era um sacrifício. A menina alourada gostava de subir nas jabuticabeiras de onde vinha com os bolsos do avental carregados da fruta, cutucar os galhos até derrubar as ameixas amarelas que só mais tarde soube que chamavam nêsperas, e fugir das amigas com uma grande agilidade em pular os bancos do pátio como se fosse uma prova de obstáculos. Mas não ficava só nisso. Ainda tinha que ao comer deixar um pouco para o anjo e dormir deixando espaço na cama para as asas do companheiro.

Durante um ano a menina branca seguiu as instruções da amiga negra. Hoje chamariam de bullying, mas ninguém na família percebeu. A menina loura até gostava deste segredo, sentia-se cumprindo desafios quase impossíveis e estava encantada em saber que tinha um anjo que a protegia e a guardava como o da oração que fazia antes de dormir.

“Santo Anjo do Senhor, Meu zeloso guardador, Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege me guarde me governe e me ilumine. Amém.”

Também sentia-se escolhida por ter em cima da porta da sala de aula um quadro com a imagem de um anjo protegendo uma menina. Isto lhe confortava, era como um bom presságio, um aviso que estava no caminho certo. E assim passou o ano em que teve o privilégio de saber que tinha um anjo, aprendeu a conviver com ele, além de ter sido a única da sala a escrever Kubitschek, o difícil sobrenome do presidente do país, no quadro sem errar uma letra,  a multiplicar e dividir, a não ter medo de andar de avião e ainda o ano em que nasceu seu irmão caçula.

Quando voltou a escola no ano seguinte não foi mais para a sala do anjo. Aprovada com distinção para o 4º ano reencontrou as amigas, menos a negra. Perguntou as freiras, ninguém soube explicar para onde tinha ido. Muitos anos depois, a menina que virou mulher ao acordar num dia que não era de nada, quando nenhuma invencionice passava por sua cabeça, percebeu que continuava dormindo num canto da cama. Os pés ficavam de fora e ao seu lado sobrava espaço para as asas do seu anjo.

Íntimo

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Enquanto depilava as pernas embaixo do chuveiro, correndo, cuidadosamente, o aparelho descartável do tornozelo em direção ao joelho, lembrei-me da primeira fez que vi este gesto. Tenho a imagem muito remota de mamãe vestindo peignoir de jersey, com a perna muito branca coberta por uma leve espuma de sabonete, apoiada na banheira e com o mão direita fazia subir e descer o aparelho de barbear do papai enquanto falava comigo.  Para ela algo muito corriqueiro, para mim era uma cena reveladora da intimidade feminina.

Algum tempo depois, com 11 anos, acreditei ter idade suficiente para fazer o mesmo. Por alguma razão fiquei em casa com a empregada que passava roupa na lavanderia. Justifiquei um banho no meio da tarde e entrei no banheiro com péssimas intenções. Retirei a roupa, peguei o peignoir da mamãe que ficava atrás da porto e vesti. Ficava enorme no meu pequeno corpo, praticamente um vestido de princesa com cauda. No armário sob a pia peguei cada peça do aparelho de barbear. Era assim que papai guardava, desmontado. Já o tinha visto montar algumas vezes e sabia como colocar a gilete. Com cuidado retirei de uma caixinha azul, desembrulhei atenta para não cortar os dedos, encaixei no aparelho e deixei ao lado da banheira. Umedeci as mãos, fiz um pouco de espuma com o sabonete e comecei a repetir a cena. As pernas tinham apenas uma penugem loura e fina que fui ensaboando. Limpei as mãos com a toalha e fui para a função mais importante: depilar a perna. No primeiro movimento tive medo de me cortar, mas não desisti. Uma perna, depois outra, a gilete corria pela perna dando uma sensação estranha, um misto de medo e alegria.  Será que este é o prazer que falam nos romances que minha irmã lê?  O que isso vai mudar a minha vida? Agora já sou uma moça?

Hoje me lembrei deste sentimento ao repetir a cena que fiz milhares de vezes em momentos, locais e situações mais diversas. Depilei as pernas com pressa, algumas vezes chorando, outras sonhando e idealizando amores, pensando em viagens, criando projetos, filosofando, falando com a empregada, ensinando o dever de casa ao filho, pensando na vida… Um gesto íntimo, para alguns uma coisa até atôa que faz parte do universo feminino, mas quem passou gilete na perna há de lembrar deste sensação…

 

Ouvi no verao

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De lei

Ela já estava com mais de 80 anos e morava num sitio que quando comprou ficava na área rural. A cidade cresceu e envolveu o terreno que passou a ser objeto de desejo dos construtores de condomínio. O lugar era perfeito, algumas propostas foram feitas, mas ela mantinha-se inabalável e avisava que só saia de lá morta. Tinha como herdeira apenas uma neta que morava distante. Fazia raras visitas e na última examinou bem o terreno imaginando o que poderia render quando a avó partisse. O que a jovem não sabia é que nos últimos anos a avó apaixonada por este pedaço de terra vinha plantando Pau Brasil, Jatobá, Peroba, Ipê, Mogno, Cedro e Jacarandá. Plantou apenas árvores nobres, conhecidas como “madeira de lei” ,cuja exploração é controlada pela lei de crimes ambientais. O corte destas árvores não pode ser feito sem a autorização do governo e pode dar até dois anos de cadeia. A idosa deixou todos os bens registrados em cartório para surpresa da neta que terá que aprender a gostar de árvores.

Demitida

Construiu uma casa com grande área para horta, jardim e até um pequeno pomar. Plantou uma pitangueira, os anos passaram e a árvore não desenvolveu. Um dia, cansada de ver a árvore sem uma fruta chamou o jardineiro e mandou jogar fora. Aquela árvore não servia prá nada, estava demitida do pomar. O jardineiro pediu uma segunda oportunidade para a pitangueira que parece ter ouvido a reclamação. No dia seguinte, uma mínima pitanga verde apareceu entre as folhas. A minha amiga ainda pensou que o jardineiro tinha colado uma fruta para justificar a permanência da árvore, mas era verdade. A pitangueira nunca mais deixou de dar frutos. As melhores caipiroscas de pitanga do país são servidas em sua casa.

O presente

Fez sinal para um taxi, entrou com cuidado, sentou vagarosamente acomodando no colo o pacote que carregava. O motorista estava com um profundo mau humor para perder tempo com uma senhorinha que ainda carregava um embrulho que podia sujar o estofado do carro. A passageira, elegante, ágil, beirando os 80 anos, estava feliz com o presente. Carregava como uma preciosidade. O motorista perguntou resmungando entre os dentes sobre o conteúdo do pacote. Alegremente ela respondeu: “uma muda de jaqueira, vou plantar no quintal”. Ele não acreditou que uma mulher daquela idade ainda pensasse em plantar uma jaqueira, esperar até 7 anos para dar fruto. Mas era o sonho dela, acreditava que ainda teria saúde para comer a jaca do seu quintal. E seguiu pensando que o taxista, do jeito que estava, não chegaria nem aos 40.

 

No carnaval

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Ele estava num grande momento. Aos 50 e poucos anos fez um mega negócio, teve um alto lucro e resolveu viajar com a mulher no carnaval. Queria ir para Salvador, a mulher resistiu e pediu por um resort. Podia até ser na Bahia. Um amigo sugeriu um vilarejo próximo a Porto Seguro, onde tudo o que tem no carnaval é no domingo a alegria do bloco ”das periguetis”. Pedreiros, motoristas, garçons, serventes, estudante, caseiros, aposentados, turistas todos saem vestidos de mulher. Capricham na maquiagem e vão prá rua atrás de uma charanga que toca velhas marchinhas.

Voltou prá casa com os folders do maravilhoso resort e o pacote comprado na CVC para uma semana de férias. Estava eufórico com a viagem. No resort instalaram-se na área das suítes mais caras. Dinheiro não era problema. Ao desfazer a mala entregou um presente à mulher: um vestido de oncinha. Ela achou estranho o gosto do marido, mas como era carnaval não discutiu… Ele ficou só na  piscina. Não quis nem olhar a praia, tinha muita areia e ondas no mar. Ela fez amigos, ia à sauna, à massagem, à meditação e tudo mais que fosse oferecido enquanto ele bebia toda a champagne do hotel.

No domingo de carnaval continuou na champagnota olhando com pouco caso para a mulher que, com tantos outros hóspedes, fazia um carnaval animado na piscina. Pediu o almoço onde estava, não se moveu da espreguiçadeira até às 4 da tarde quando chamou a mulher para ir ao quarto. Ela não entendeu. Ele entrou direto para o banheiro e saiu de barba feita,  perfumado, usando o vestido de oncinha. Ela teve um chilique. O vestido novo, nem pensar. Ele já tinha tomado todas e deu um chega prá lá. Ela começou a gritar e ele a espancar. O barulho foi tanto que os seguranças entraram no quarto, mas o homem de oncinha tinha a força de um touro.

Chamaram a policia que encontrou uma cena patética: a mulher em pânico, acuada num canto, rosto coberto de sangue e lágrimas. O marido em cima do salto dourado, em frente ao espelho desenhava os lábios com um batom vermelho e na sequencia ajeitava os seios de silicone. A suíte toda quebrada. Os policiais deram ordem de prisão e ele desafiou. Fez-se de sedutor, chamou o escurinho de negão e convidou para um trelêlê… Os policiais se ofenderam e usando a força algemaram e levaram para a delegacia.

Horas depois de ter suado toda a champagne e pagar a fiança, foi solto. Ninguém esperando por ele na porta de delegacia. Perdeu o caminho do resort. Foi parar num bairro distante onde saiu atrás de um bloco. “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que é…” e lá ia ele carregando os sapatos de salto na mão e rebolando. Bebeu, fumou e cheirou o que ofereceram. Quando o dia amanheceu foi encontrado num beco, morto com dois tiros, vestindo apenas uma sunga de oncinha.