A casa

IMG00078-20130524-1228Um dia o filho sai de casa, muda de cidade, faz seu estilo de vida. Escolhe onde morar, a parceira, o lençol com a estampa favorita, a toalha para se enxugar, os copos, panelas, enfim, vive ao seu gosto.

Um dia a mãe visita o filho e encontra uma casa com um jeito diferente. Não é mais como a casa que seu menino cresceu. Alguns objetos do passado permanecem em uma estante na sala, fotos amarelecidas em porta retratos com os sorrisos dos pais e da sua infância, uma taça de cristal da vovó, o prato da parede com o brasão da bisavó, enfim, referencias da vida.

A mãe senta-se no sofá e o filho deita em seu colo como se tantos anos não tivessem passado. O homem é apenas o menino que cresceu rápido e hoje tem seus próprios desafios. É o trabalho, o coração, o futuro, muito que se preocupar.  E a mãe nada tem a fazer a não ser pedir licença para arrumar as estantes de CDs, DVDs e livros, organizar papéis e remédios em caixas, preparar um almoço, lavar a louça e ficar admirando o filho que é feliz do seu jeito. Não cabe julgar, só pedir que Deus o proteja.

Amor de mãe

lea beTenho pensado onde Deus buscou inspiração para criar o amor de mãe …

Houve alguma pesquisa, teste de produto, discutiu-se a viabilidade do negócio, planejamento de gestão, a área estava aquecida para este segmento?

Nada disso, foi na lata, e fez o que há de mais incoerente em forma de amor.

Não creio que seja amor, deveria ter outro nome este sentimento que em nada se assemelha com o amor do coraçãozinho feito com as mãos em conchinha, nem os suspiros apaixonados, as borboletas no estômago, o frisson que gera taquicardia quando o outro surge ou o que está na poesia, na letra das músicas…

Não parece com o amor que sentimos por irmãos, parentes e amigos, ou por algo material, como uma bolsa, um sapato, um vestido que se enche a boca para dizer AMO…

Nada disso, amor de mãe é desmedido, enlouquecido, às vezes contido e disfarçado para não ficar ridículo.

Amor de mãe é babão, chora por dentro, sofre,  se descabela com os desacertos dos filhos, como se fosse possível tomar para si as decepções, tristezas e os maus tratos que a vida lhes dá.

Amor de mãe é atemporal, disponível 24hs por dia, um ambulatório para emergências.  Nem mesmo os absurdos que às vezes os filhos dizem num rompante de desespero são possíveis de enfraquecer o sentimento.

Amor de mãe é o único tipo de amor que vem com culpa (“onde eu errei?”) e com responsabilidade (“que mundo é esse para o meu filho?”).

Os pais que me perdoem mas jamais entenderão este amor, é privilégio das mãe e nem as filhas imaginam a sua extensão.  Só mesmo quando se tornarem mães.

Paciência

tv antiga

Não aguentava mais todos dizerem que seu aparelho de TV era superado e ainda por cima sem net. Ela estava acostumada com a telinha com pouco mais de 14 polegadas que ficava bem em frente ao sofá e transmitia a programação dos canais abertos, suficiente para seguir a novelinha das 6 na Globo, o jornal do Boechat na Band e alguma outra bobagem. Mas insistiram tanto que ela passou a sonhar com TV tela plana e os filmes da net… Anotava a sugestão dos amigos, fez uma lista de boas séries e  programas que poderia assistir. Depois de uma pesquisa decidiu se adaptar aos novos tempos. Comprou o aparelho que mais parecia uma tela de cinema. Estava exultante com as 32 polegadas, TV digital, conseguia ver todas as rugas dos artistas da novela, notou que o Boechat usava maquiagem e percebeu que um novo mundo se revelaria em mais de 100 canais. Agora so faltava a net. Contratou o serviço, o técnico puxou os fios, colocou o receptor, deixou tudo pronto e partiu.

Uma noitada e tanto a esperava. Mas antes de mergulhar na experiência foi ao mercado comprar uma cerveja para celebrar. Só cometeu um erro : desligou a TV e na volta ao se ver com 2 controles remotos na mão ficou completamente perdida. Com a TV antiga era só apertar o botão e a imagem aparecia. Está certo que não era digital, mas funcionava. Começou a se angustiar. Ligou um controle, acendia uma luz e nada mais. Tentou o outro, os dois simultaneamente, varias possibilidades, nada acontecia.  Telefonou para o filho que com paciência tentou explicar, mas era muito prá cabeça daquela mulher independente, com curso superior, considerada culta e preparada, ser dominada por dois simples aparelhinhos. Foi se irritando. Teve um ataque de nervos. Desligou todos os fios, tirou a tv da tomada, engoliu um calmante e foi dormir jurando que no dia seguinte ia comprar uma TV modelo antigo, algo que entendesse… 

Outra cidade

calçada

Neste retorno ao Rio depois de 10 anos me chama atenção :

A vegetação que cresceu exuberante no Joá. Cada vez que atravesso o túnel em direção a Barra ou quando retorno fico admirada com as tantas árvores que escondem as casas.

Os divertidos parquinhos para adultos nas praças… Da zona sul à zona norte a 3ª. idade tem onde brincar, fazer exercícios e se relacionar…

As longas filas para atendimento médico nos laboratórios de diagnostico e imagem. Acho que aconteceu uma debandada do SUS e não me avisaram, ter plano de saúde não faz diferença.

A cratera enorme numa pedra ainda maior na Barrinha. Jesus é o metrô chegando na Barra da Tijuca!

O incrível número de agencias do Itaú. A cidade ficou azul e laranja.

A proliferação de farmácias.  Saí da farmácia de uma grande rede e no quarteirão seguinte encontrei outra igualzinha.

Para onde foram as papelarias? Andei muito para encontrar uma. Creio que só compram lápis, caderno, borracha e cola nos shoppings.

Obra por todos os lados da Praça Mauá e a surpresa de ver entre elas o prédio do MAR.

Os vendedores de chapéu estilo panamá no calçadão de Copacabana.

A Cidade da Música no meio da Av.Ayrton Senna. Não entrei, vi de longe a construção faraônica, mas não me falaram coisas boas a seu respeito.

A cidade limpa, bem sinalizada, policiada e o metrô é ótimo!

E o bom humor , o jeitinho, a malandragem, o sotaque arrastado do carioca. Isto não mudou.

Outono no Rio

Um ar frances na arquitetura da Praia do Flamengo.

Tenho uma amiga que quando ficava muito tempo sem dar notícias eu sabia que alguma coisa não muito boa estava passando por sua cabeça. Assim me senti exatamente nestes últimos tempos sem escrever, como se as caraminholas que vagueiam entre o “tico e o teco” não fossem merecedoras de estar no papel (ou na web). E, atendendo aos pedidos, saí do claustro e fui caminhar no Parque do Flamengo. Dez anos se passaram e algumas coisas não mudaram. Como o perfume do desodorante masculino que uns corredores usam e quando passam deixam uma nuvem no ar. As mulheres que cuidam dos gatos levando comida e água, os pais que correm empurrando carrinho dos filhos e as acompanhantes que levam cadeirantes. Os massagistas embaixo das árvores com suas camas bem arrumadas, cada um oferecendo “um plus a mais”, as moças que andam em grupo com as pernas musculosas e falando alto, os casais idosos caminhando devagar, a garatoda com skate, os de bike Itau, as tristes com chapéus enoooormes enterrados na cabeça, as que ainda se acham “gostosas” com calças de malha justíssimas e as pensativas como eu…

Impossível não se tocar com a beleza do Rio no outono! Esta névoa da manhã traz um clima de mistério, como se algo fosse revelado a qualquer momento. Um véu que descobre uma nova paisagem… E continuo andando, olhando as pessoas e lembrando outra amiga, esta completamente kardecista, que costuma dizer “como são interessantes estes seres encarnados”… E são mesmo, só olhar esta gente e pensar o que passa em suas cabeças, quem corre ou quem anda esperando o que… O que aflige, o que acalma… O que vai em cada coração… Ah! Isso só mesmo sabe Deus…

Em tempo : a foto é para lembrar que ainda há um ar francês na arquitetura da Praia do Flamengo…

Vital

tibolona

Achei que ele nem ia notar e resolvi descansar o organismo… Ate que no 3º dia algo de estranho começou acontecer com uma moleza, o corpo pedia cama, falta de apetite e um pouco febril… É dengue, pensei. Examinei o corpo e não vi manchas vermelhas, eliminei a hipótese… Os dias foram passando do sofá prá cama, da cama para o sofá. Não conseguia escrever, ler ou fazer qualquer coisa. A cabeça pesando uma tonelada, suores e arrepios de frio. Sentindo-me perto dos últimos dias saí em desespero atrás da receita do hormônio que havia acabado e tolamente achei que organismo não perceberia. Ontem enquanto esperava a hora de ir à farmácia buscar a manipulação fiquei numa excitação que deve ser assim que os adictos se sentem enquanto aguardam sua droga diária. Abri a caixinha na própria farmácia e ao engolir a pequena cápsula senti que minha vida voltaria ao normal… Está voltando aos poucos e aprendi que pode me faltar tudo menos a Santa Tibolona.

O Belo Emílio !

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 A casa na Rua Candido Gafrée na Urca, proxima a TV Tupi, tinha dois andares, nos fundos um quintal com uma linda mangueira, a garagem e mais um cômodo. Era ali que se produzia o Programa Flávio Cavalcanti, o “Senhor das Noites de Domingo”, campeão de audiência, polêmico, revelador de talentos e onde os grandes artistas nacionais e internacionais de apresentavam.

A sala que eu dividia com Gilda Muller ficava no andar superior, dava fundos para a bela mangueira no quintal e vista para a garagem transformada em sala de produção musical onde Carminha Mascarenhas recebia os candidatos a Grande Chance, um quadro do programa que revelava novos cantores. Uma manhã estava trabalhando quando ouvi uma voz linda. Cheguei à janela para ver quem cantava e foi aí que conheci Emílio Santiago. Ele arrasou no ensaio e no palco! Em pouco tempo estava cantando nas melhores casas da noite carioca e minha vida foi seguida por sua trilha musical.  Muitos amores e desamores ao som de sua voz.

Em 1994 a DC Set criou uma agencia de artistas seguindo modelo das internacionais e fui convidada a fazer parte deste projeto. Eram 10 artistas, entre eles Emilio Santiago. Não era só uma grande voz, mas um artista que sabia muito bem o que queria e pedia com elegância. Humor fino, excelente companhia. Tive o privilégio não só de trabalhar com ele mas escrever o livreto de uma caixa com o melhor de sua coleção de “Aquarelas”. Deixei ali o meu testemunho sobre suas qualidades de intérprete, deixo aqui o agradecimento por ter convivido com um artista por excelência… Sua voz ainda vai me acompanhar ao longo da vida. Descanse em paz.

 

Quando a vida vira

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Antes das 7h30 a campainha tocou. Através do olho mágico vejo minha irmã. Havíamos combinado um café da manhã, mas não tão cedo. Abro a porta e seu olhar é tenso.

Caiu da cama ?

Não dormi. Estou com um tumor no cérebro.

Como ?

Tem algum tempo que minha irmã comentou estar se sentindo diferente. Esquecia o que havia feito, não sabia onde colocava as coisas, estava agressiva, explodia facilmente, um desconforto interno. Sugeri um terapeuta, por indicação de amigos foi a um neurologista. Minha irmã tem um longo historico na cabeça e região. Retirou pequenos tumores na parótida e na tireoide, convive com uma sudorese na lateral da cabeça e o médico diante deste quadro pediu uma tomografia.

No dia anterior ela voltou ao medico levando a tomografia e na lata veio o diagnóstico: “a senhora tem um tumor no meio do cérebro, como ramificações. Não há cirurgia, nem químio nem radio que resolvam. Tratamento com medicamentos. Não vamos desistir, certo ? ” Ele foi incisivo na última frase.

E foi com essa notícia que ela me acordou sexta-feira passada. Mas como e por que nasce um tumor. Assim do nada? Nasce do esquecimento e da agressividade desmedida?

Bom, precisamos de um 2º. e quem sabe até um 3º diagnóstico.  Ela estava ali na minha frente lívida, um olhar de angústia como jamais vi na minha irmã mais velha. Naquele momento decidi ficar no Rio mais do que os 20 dias programados, queria acompanhar esta historia o quanto fosse preciso, mas nada falei.

Os dias que se seguiram foram pensando no assunto e resolvendo a vida por mais tempo na cidade. Providenciei um telefone fixo para chamadas de urgência, encontrei amigos, mas o assunto do tumor ficou como uma tela de descanso do computador nos meus pensamentos. Até que 4ª. feira veio o primeiro vento de boas novas. O diagnostico do médico do INCA que a tratou em cirurgias anteriores dizia não ver qualquer tumor na tomografia. Os sinais que apareciam eram normais da idade. Ontem o 3º diagnóstico de um neurocirurgião: jogue os remédios fora e vá celebrar a vida.

Assim, em uma semana as nossas vidas mudaram. E eu agora que me decidi ficar no Rio mais um tempo e estou adorando esta experiência o que faço?

Não conheço os caminhos de Deus, não sei por que Ele me mandou prá cá, mas sei que vou ficando…

Os livros

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Pensei que tinha jurado nunca mais montar uma casa e hoje quando me vi comprando um pequeno aparelho de jantar, panelas, escorredor de pratos e faca de cozinha não acreditei. Começar de novo apenas com o básico, momento minimalista. Retirei os livros que passaram 10 anos no armário e encontrei o passado. Livros são testemunhas da vida, guardiães da emoção que passa pelos dedos enquanto são consumidos. Livros conhecem o fundo das bolsas, ouvem os ruídos dos nossos sonhos na mesa ao lado da cama e são amigos eternos. Podia me desfazer de muitos que hoje coloquei na estante, mas sabê-los por perto me conforta. É como estar com alguém que conhece a minha historia, tanto quanto eu conheço as deles.

Com a geladeira que chegou ontem, hoje teve cheiro de tempero vindo da cozinha, almoço na mesa e as boas mãos da Fafá deixaram o apartamento limpíssimo. Fafá se lembra de coisas que até Deus duvida. Acompanhou muitas das minhas casas, momentos de fartura e de dinheiro contado. Quando a conheci ainda não tinha os filhos que hoje já lhe deram netos. E enquanto trabalha colocamos a vida a limpo. Começo a me sentir em casa. Ainda não tive coragem de ver os quadros que estão na parte mais alta do armário. Este é outro momento.  Um dia de cada vez.

 

 

De volta

 

ImagemAbri a porta e o encontrei depois de 10 anos. Paredes brancas, a poltrona bergére próxima ao sofá de couro, as 4 cadeirinhas da bancada para refeição. Uma cama de solteiro num quarto o armário embutido no outro. Abri as janelas e a linda vista do Parque do Flamengo se apresentou. Conheço onde estou. Aqui já foi a minha casa.

O sofá e a bergére podem contar a minha vida. Apesar de surrados, estão vivos. Passeei entre os cômodos, abri as janelas, as portas dos armários do quarto, do banheiro e da cozinha… Um vazio gritou nas lembranças. Quando saí deixei um mundo nas prateleiras. Livros, discos, taças de cristal da mamãe, papéis e papéis, muitas fotos… Nós mudamos bastante nestes anos, o apto recebeu alguns moradores, continua com um jeito acolhedor e simpaticão. Eu vi tantas terras e aprendi a vida de outra forma.

Respirei fundo, deixei as malas e saí para comprar o básico para a sobrevivência. Andando até o Largo do Machado encontrei a mesma mendiga na porta da Igreja Santíssima Trindade, reconheci o jornaleiro, a loja de roupas com a vitrine tentadora, o Cinema Paissandu com as portas fechadas, não sei se ainda está na ativa. Pensei encontrar a Churrascaria Majórica fechada, li que tinha sido destruída por um incêndio, mas estava firme no casarão antigo com fachada de pedra. O posto de gasolina na esquina da rua Paissandu está se transformando num enorme edifício, a livraria Galileu não mudou e o Largo do Machado é aquela confusão.

Voltando prá casa exausta, com o possível para sobreviver 48hs sem geladeira, dobrando a esquina quando um rapaz passou gritando: vem chuva. Cheguei a tempo de fechar as janelas. A água lavou a alma, inundou a rua… Fiquei através do vidro vendo a água subir, cobrir os pneus dos carros, o transito desaparecer e o lixo que estava nas calçadas se espalhou. Um caos. Fui dormir cedo estranhando o colchão sem travesseiro e acordei pensando nos livros e mais umas caixas que haviam ficado em algum lugar deste apartamento. Quem sabe na parte de cima do armário ? Peguei a escada e lá estavam os livros, um violão quebrado e duas caixas grandes de papelão. Coloquei a mão dentro de uma delas para puxar algum papel e fez-se um som. Era uma das caixinhas de música da minha coleção que aqui ficou. O piano de cauda que toca “Pour Elise” enquanto um cupido dança sob um coração. Mais caixa de música impossível!

Ótimas boas vindas ! Coloquei a caixinha para tocar, uma memória muito feliz que me faz mesmo sem geladeira ou tv me sentir em casa ! Obrigada Marcos Bart, Angela Ghizi, Leo Manssur e Hyldde Roza que tão bem cuidaram e deixaram suas boas energias neste apartamento.